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Quinta-feira, 28/7/2016
São Paulo e o medo no cinema
Elisa Andrade Buzzo

Nada mais natural do que representações cinematográficas sobre o medo em uma cidade como São Paulo. Medo de lugares, medo do desconhecido, medo do feio, medo da violência, medo do outro, medo de si mesmo. Uma cidade violenta e de desconfianças, mas também de muitas possibilidades e aberturas.

Dois filmes que estiveram em cartaz, nos últimos meses do primeiro semestre de 2016, referenciam São Paulo como grande paisagem e apresentam como tema o medo e, mais além, seus desdobramentos possíveis nos habitantes da cidade – por um lado, a imobilidade, o cerceamento em si mesmo, as crenças arraigadas; de outro, a superação e o vislumbrar de outras e mais vigorosas possibilidades a partir da experiência inicial do medo, o autoconhecimento.

Sinfonia da necrópole, escrito e dirigido por Juliana Rojas, é por si só um longa corajoso e original por sua temática cemiterial. Ainda, surpreendentemente, é um musical. A trama é centrada no jovem Deodato (Eduardo Gomes), um jovem aprendiz de coveiro que não tem afinidade com o entorno mórbido e as atribuições da profissão. O cotidiano “pacato” do cemitério no entanto será desfeito com a chegada de uma funcionária, Jaqueline (Luciana Paes), que irá liderar um recadastramento dos túmulos a fim de aumentar o número de jazigos. Aí temos também uma questão capitalista forte que acomete até mesmo a morte.

O simples e cordato Deodato irá se apaixonar pela eficiente Jaqueline, permanecendo em seu estágio no cemitério apesar de sua repulsa e melancolia pelas coisas da morte. Por outro lado, de espírito prático, a dinâmica Jaqueline encara os trâmites que envolvem a morte como um trabalho, e ali ele consiste em ser otimizado. As músicas do filme, que falam sobre o amor, a morte, as questões práticas do cemitério retrabalham sobre os temas de forma a reforçar e incluir novos elementos na mensagem a ser passada, ou seja, não consistem em meros coadjuvantes ornamentais.

Reconhece-se como cenário a avenida Dr. Arnaldo, um bar e os cemitérios do Santíssimo Sacramento e do Araçá localizados na própria avenida. Dado interessante para quem gosta de reconhecer e encontrar São Paulo no cinema. O mesmo acontece no longa Uma noite em Sampa, escrito e dirigido por Ugo Giorgetti. Toda a ação se passa em apenas uma noite nas escadarias do mirante na rua dos Ingleses e na fachada do Teatro Ruth Escobar.

Será lá que as personagens ficarão aterrorizadas diante da possibilidade de algo terrível lhes acontecer, mesmo não sabendo exatamente o quê... Um grupo de pessoas marcadas por traumas de violência urbana reais ou imaginários, após uma sessão de teatro, aguarda um ônibus de turismo com a guia. No entanto, o motorista misteriosamente desaparece, deixando-os ao relento e ao sabor de uma confabulação sobre a violência paulistana.

Uma fauna variada compõe o grupo: casais jovens, de meia-idade, idosos, empregada e patroa, uma filha e sua mãe cega. Esta, aliás, carrega o melhor da ironia no longa, pois é a única que não sente medo e se mistura com moradores de rua e consumidores de drogas do mirante. Outro ponto de interesse é a inserção de manequins como personagens literalmente imobilizadas, uma metáfora do ridículo da situação. Não sabermos se eles são percebidos ou não como tais pelos medrosos personagens de carne e osso torna ainda melhor a ideia.

Deodato e as personagens da noite paulistana são reféns de si mesmos. Pelo bem ou pelo mal, Deodato é um personagem mais forte pois, ainda que levado mais pelo amor à Jaqueline do que à profissão de coveiro, ele tem a coragem necessária para ir além do entorno que o aflige (mesmo que as coisas não aconteçam da forma que ele mais desejaria). O mundo em que vivia não lhe fazia sentido, mas ele também não tinha ferramentas para discernir outras possibilidades.

Enquanto isso, as personagens de Uma noite em Sampa não ultrapassam o medo que as acometem. O episódio só serve para aumentar suas inseguranças e preconceitos, imobilizando-as dentro de si mesmas e em seus conceitos rígidos de classe social. Assim, os filmes falam sobre o medo, mas um medo sem razão de ser, pelo sobrenatural, ou pela fobia social. Medo que beira ao supersticioso. Medo que beira ao patético.

Sinfonia da necrópole parte de algo complicado que é uma comédia musical que se passa num cemitério (relacionando a necrópole com a metrópole), com um desenvolvimento simples e que convence exatamente pela sua simplicidade, singeleza e boas atuações. Uma noite em Sampa parte de uma ideia simples (uma saída teatral seguida de um jantar malfadados), mas que se embaraça em atuações teatrais e inexplicáveis voltas em torno de si, dificultando um enredo factível.

Elisa Andrade Buzzo
São Paulo, 28/7/2016

 

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