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Sexta-feira, 29/7/2016
O que vai ser das minhas fotos?
Ana Elisa Ribeiro

Contei hoje. São quase mil itens dentro de uma pasta do computador intitulada "fotos". Nem tudo é genuinamente digital. Algumas são fotos digitalizadas a partir de uma matriz impressa; outras são fotos de fotos, coladas em álbuns da família; outras são mesmo fotos dos celulares ou das máquinas mais diversas. O que vai ser delas? Quem as verá, daqui a vinte anos? Será importante vê-las?

Por que digitalizei fotos impressas?

Minha família tem o que nós, mineiros, podemos chamar de "coisa com fotos". É um carinho, um apego, um fetiche até. Para tudo há uma foto, de tudo se faz registro. Aquela do banho na banheirinha, ainda bebê, é um clássico quase universal. Quem nunca? E as festas, os bolos de aniversário, os amigos da adolescência, os grandes eventos, tais como casamentos, lançamentos de livros, 90 anos da bisavó, etc. Está tudo devidamente datado, organizado e colado em álbuns especialmente dedicados a este fim. Gastaram horas de trabalho e atenção para que se constituíssem. Ocupam espaço, são pesados e às vezes são retirados de seu silêncio para dispararem narrativas, às vezes repetitivas, sobre a família, as saudades, as transformações. O poder da fotografia - da mais ordinária - é imenso.

No entanto, digitalizei várias dessas fotos. Para quê? Para dar-lhes outro modo de circulação; para mostrá-las aos amigos virtuais; para postar nas redes sociais; para readmirá-las, coletivamente; para renová-las em sua beleza ou peculiaridade. Com a digitalização, essas fotos - não todas - ganharam uma vida outra, diferente de suas originais.

Por que não digitalizei algumas?

Porque algumas não interessam mais. Ou simplesmente não para tal ou qual ocasião. Não são suficientemente bonitas ou ridículas. Não têm foco ou são desprezíveis por qualquer motivo. É a edição da edição, a curadoria da fotografia ordinária. Digitalizei apenas parte do acervo da família. A completude apenas os álbuns reais terão.

E o que vejo acontecer aos milhares de fotos digitais?

Pouco mais que o esquecimento, muito próximo do silêncio reservado às fotos de papel. Estava pensando: meus milhares de fotos digitais compõem-se de muitas fotos mal tiradas, mal resolvidas, tiradas ao acaso, disparadas despreocupadamente. Jamais seriam impressas, se eu pudesse escolher. Mas estão lá, enchendo meu HD. Entre elas há as fotos boas, bonitas ou as ridículas, guardadas em pastas com nomes por data, para que eu identifique o evento, o momento, a importância. Só que estão lá as fotos originais, em alta resolução (porque eu sempre penso em imprimi-las) e as alteradas, em baixa resolução, para postar na internet, para mostrar nas redes sociais. Resulta disso que tenho milhares de fotos repetidas.

No entanto, não as vejo. Não as mostro a quase ninguém. Não chamo os parentes para vê-las no computador nem na smartTV. Não falo delas, a não ser quando as publico na web e elas se esvaem depois de muitos outros posts. Não me lembro delas e tenho muita dificuldade de encontrar alguma, em especial, quando preciso. São muitas, quase infinitas, e não sei ao certo onde estão, já que elas não aparecem se eu não clicar.

O que será dos meus álbuns?

Nada. Será silêncio. Em alguma medida, inexistência. Já perdi meus disquetes, depois meus CDs. Hoje em dia, guardo tudo em pendrives e em um HD externo. Torço, todos os dias, para que esses dispositivos sejam compatíveis entre si, ou as extensões dos arquivos, para que eu possa sempre salvá-los - e aos meus milhares de registros familiares, afetivos, históricos. As viagens, os jantares, os aniversários do meu filho, os bolos, os dias de alegria e alguns de tristeza. A fachada antiga da casa e o pós-reforma, as bodas dos pais, o centenário de alguém. Não os vejo, não os revelo. Minha promessa de revelar "ao menos as melhores" nunca se cumpriu. É caro, é chato, é demorado, é impertinente. E antes que eu consiga imprimir estas dez ou cem, já vieram outras e outras, tiradas no celular, com filtros automáticos, tiradas pelas câmeras novas, tiradas, clicadas, quase sem distinção. E outras e outras e mais outras. Desisti. Foi isso. Desisti de imprimir tanta imagem.

E por que ando fotografando com uma câmera analógica?

Faz uns meses, um amigo fotógrafo (e técnico de máquinas) me presenteou com uma câmera analógica. Ele não tinha - ou tinha? - noção do que estava fazendo. Marcou um encontro em um café, rapidamente, para me entregar uma bolsa preta, pequena, com uma Ricoh analógica, com objetiva russa, e alguns filmes asa 200.

Tem sido uma "experiência". Outro amigo logo me indicou as lojas que ainda fazem revelações analógicas e tratei de virar freguesa. Como a Ricoh (que apelidei de MaRicohta) é velha, meio alquebradinha, sinto-me mais segura com ela na rua, correndo menos risco, quero dizer. E levo-a a passear, fotografando, com dificuldade, as pessoas que me interessam.

A dificuldade é grande, é considerável. É preciso pensar a foto, é preciso observar o entorno, a luz, a hora do dia, a cor do céu e do Sol, ver o fundo, calcular. Só depois, faço a fotometria, usando uns sinais que vejo dentro do visor. Não sei ao certo como a foto vai ser. Não sei se funcionará. E fico ansiosa desde o momento do clique. E agora?

Nos primeiros dias, eu tinha um impulso absurdo: virava a câmera para olhar o resultado na tela. Mas não tem tela e nem resultado imediato. Só depois da revelação do filme. Eu já havia feito isso, anos atrás, mas agora eu tinha vícios, tinha hábitos digitais. Não é mais a mesma coisa. Eu quase não pensava mais as fotos. Fotos eram aleatórias, fortuitas, descartáveis. Se não der, não deu. Apaga. Mas a MaRicohta é diferente. Ela me faz repensar.

Tirei a foto. Prometi que enviarei quando ficar pronta. O filho, o marido, o vizinho, o amigo, a moça da padaria, que vende pão de porta em porta, em uma bicicleta adaptada. Mas e se eu não imprimir? Jamais saberei. Imprimir é imperativo. E se não ficar bom? Aí é outra história. É no rasgo.

Ansiosa, gastei o filme todo (24 ou 36 poses). Acabou no meio do passeio, paciência. Tanta foto que eu ainda queria tirar! Má gestão. Por que não tirei as fotos que realmente importavam? Demora. Demora o clique. É preciso ter paciência para fotografar analogicamente. Tanto o fotógrafo quanto o fotografado. Calma, estou regulando a câmera. Tá escuro para ela. Ou o contrário: vai estourar. Como você sabe? Não sei. Estou vendo uns sinais aqui. Ficou boa? Não sei. Só daqui a uns dias.

OK. Prontas. Ficaram boas ou razoáveis. Vejo-me de novo às voltas com a necessidade de um álbum. Onde vou organizá-las? Guardá-las? Estas, certamente, durarão até que meu filho cresça ou até que achemos tudo antigo e risível. Até que tenhamos saudades de alguém. Não posso deixá-las soltas ou jogá-las fora. Para mostrá-las, basta escaneá-las e postar nas redes sociais. Ah, que curiosas! São bonitas, têm outro grão. Muita gente percebe: que fotos lindas! São diferentes. Nem sempre explico. Deixo. É uma poesia toda minha.

Ligo para a loja: moço, você ainda vende daqueles álbuns cartona? Quais? Aqueles grandes, com páginas duras, cola e um plástico por cima das fotos? Espera, moça, faz tanto tempo que alguém não pergunta isso... E ele grita para alguém, meio fora do bocal do telefone: ainda tem álbum para foto impressa? Não sei o que responderam. Deixa. É minha poesia.

Obrigada, Laércio. Tem sido um repensar constante, não apenas sobre fotos que merecem existir ou ser vistas um dia. Tem sido fazer o melhor pelo momento. E registrá-lo bem.

Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 29/7/2016

 

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