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Quinta-feira, 6/10/2016
A pérola do cinema sul-americano
Guilherme Carvalhal



Retratar determinados aspectos comuns à América do Sul no cinema é uma missão ao mesmo tempo comum e estranha. Comum porque muitos filmes o fizeram. Estranha pela forma como boa parte dessa abordagem ocorre.

Um caso clássico são as produções estrangeiras situadas em solo sul-americano. Por exemplo, Werner Herzog filmou Fitzcarraldo e Aguirre, a cólera dos deuses, ambos situados no contexto da Amazônia e focando na figura do desbravador estrangeiro. Causa estranheza ver um filme sobre a colonização latino-americana falado em alemão. Em A Missão, Roland Joffé retrata as missões e a figura do religioso europeu protegendo os índios. Em uma lista desse tipo cabem inúmeros filmes, sempre com a visão da alteridade permeando a narrativa.

Em O Abraço da Serpente, vemos uma situação comum a esses filmes todos, uma relação com a Amazônia, com a lógica da colonização e o viés um tanto quanto apátrida, causado pela sensação de que a floresta está acima de quaisquer noção geopolítica criada pelo homem. A ideia de localização se dá apenas por sabermos que o filme é uma produção colombiana e pela linguagem parcialmente em espanhol.

A história aborda a temática do desbravador europeu, mas aqui a relação de poder é posta de maneira diferente. Situada em dois momentos diferentes, podemos analisá-las através da figura de Karamakate. Em 1909, Karamakate é abordado por Théo, um viajante alemão que pretende registrar a floresta amazônica para conhecimento de seu povo. Em 1949, Karamakate já idoso é procurado por Evan, que pretende refazer os passos de Théo atrás de uma planta milagrosa, a yakruna.

Em 1909, Théo está doente e solicita ajuda de Karamakate, prometendo ajudá-lo a juntar-se a seu povo em troca. Ele ainda conta com a ajuda de outro índio, Manduca, que o auxilia pelo interesse em ajudar os europeus a compreenderem sua cultura. Já em 1949, Evan é um botânico que está interessado na yakruna com interesses financeiros. Ele oferece dinheiro e ervas a Karamakate e esse o ajuda alegando apenas querer rever a tal planta.

Nos dois períodos temporais, a relação expressa é de uma negociação igualitária entre as partes. O cinema estadunidense e europeu, ou dominado pela sua normativa estética, provavelmente colocaria o foco na figura do explorar (conforme fez Herzog). Nessa caso, a figura principal é o índio, que ajuda o branco em troca de favores, que estão mais próximos da mera curiosidade. Não se distingue claramente qual vantagem Karamakate ganha em ajudá-los exceto a mera vontade de conhecer mais.

A jornada nessas duas situações é repleta de paradas em situações diversas. É uma tribo indígena onde a bússola de Théo causa polêmica, em uma vila onde um autodeclarado Messias está desesperado por causa da esposa doente, uma missão onde o frade pega em armas para se defender, no meio de um seringal e de homens em busca de látex. A ideia da jornada remete a Coração das trevas, a descoberta em meio a um mundo misterioso, com algo poético.

Essa é a maior qualidade do filme, a maneira poética como narra a história e retrata um universo comum a tantos países que compartilham da floresta. Os índios e a possibilidade de crescimento tecnológico, o messias impotente diante da esposa doente, a tentativa de engodo disfarçando a cobiça como altruísmo, esses são alguns dos episódios recobertos de sensibilidade por parte do diretor, efeito garantido pela fotografia que remete a passado.

O Abraço da Serpente recebeu bastante repercussão internacional. Foi finalista no Oscar de Melhor Filme (competindo com o genial O Filho de Saul), também concorreu à Palma de Ouro em Cannes esse ano e ganhou o 3º Prêmio Platino, o equivalente ao Oscar dos filmes ibero-americanos.

A proposta do diretor Ciro Guerra em buscar nos nativos uma história de muita profundidade humana deu muito certo. Ele apresenta ao espectador uma série de choques e conflitos, e, por contraponto, acaba unificando a América do Sul através de sua narrativa.

Guilherme Carvalhal
Itaperuna, 6/10/2016

 

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