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Quinta-feira, 15/12/2016
Lola
Elisa Andrade Buzzo

Nem sei o que, nem quem é; só tem nome. Nunca a vi, mas algum dia aqui entrou, dirigiu-se escada acima e se instalou no apartamento da vizinha, no segundo andar. É silenciosa. Nunca responde, embora a vizinha muito tenha com ela a conversar. E a repreender. E a acarinhar, falar molemente. As manhãs, as tardes passam sem qualquer ruído desse ser que julgo vivo. Quando a noite inicia, a vizinha chega e a conversa entre as duas não se disfarça aos meus ouvidos. As vidas são vividas separadamente, embora próximas estando, e se conjugam tão perto uma da outra que as palavras escorrem pela área comum do prédio. Assim posso dizer que não sou uma intrusa, mas participante oculta do cotidiano doméstico alheio – de Lola. Que não sabe de minha existência, ainda que talvez pelo faro e pela audição tenha uma ideia de que outro ser vivente se apresenta frágil ao mundo, como ela, e deixa seus traços ao sabor de seu humor e movimentos. Mas qual animal é, afinal, Lola? Qual sua espécie? De nada tenho certeza, apenas indícios que se apresentam, mas logo depois se desvanecem em postulações do senso comum. Lagarta, cachorra, gata, traça, pássara, iguana, galinha, coelha, Lola está se adaptando, e aprendendo, “não, não!”, “não pode!”, “aqui não”, com certa rigidez, de acordo com as regras que serão caras à sua aceitação e sobrevivência. Está sendo cuidada, "vomita aqui", "vamos tomar um banho". Mas também está sendo intensamente amada, com todas as forças que os animais humanos podem direcionar aos outros seres. Para sobreviver, ouço que há alguns grãos que caem para ela vez em quando. Pode ser ração de gato, de cachorro, até de tartaruga, se isso houver, ou então são grânulos, daqueles que os peixes comem, e que em minha mente ressoam altos de encontro a um mergulhador e um baú com tesouro, apesar de criarem apenas uma delicada repercussão na água de um aquário. Enfim, não me interessa saber dos anjos o sexo, nem nomear a incerteza das coisas, muito menos de Lola. De modo que espero que ela não saia nadando inconsequente pelas janelas, nem desembeste pelos degraus da escada. Um peixe ornamental é Lola, que não vejo, mas que enfeita minhas imaginação e vida resguardadas.

Elisa Andrade Buzzo
São Paulo, 15/12/2016

 

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