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Sexta-feira, 1/3/2002
Depois do ensaio
Rafael Azevedo

Efter repetitionen
“Depois do Ensaio”. Dirigido por Ingmar Bergman, com Erland Josephson, Ingrid Thulin, e Lena Olin. Acho que já fazia tempo que um filme não exigia tanto de mim, em todos os sentidos. Antes de tudo, é necessária a devida atenção a um Bergman; cada diálogo, cada frase é importante. É estranho ter que dizer isso, mas é preciso, nestes tempos em que os filmes não passam de “chiclete visual” (definição do Nelson Motta para os videoclips) - e mental. Há muito mais coisa não dita, subentendida, do que propriamente dita, explícita no roteiro. Não há muito de cinema, tecnicamente falando - é quase como se estivéssemos vendo uma peça de teatro filmada. Somente os três atores, durante todo o filme. Francamente, isso não faz diferença - talvez seja até melhor assim. O bom cinema é, antes de tudo, roteiro.
Josephson faz Henrik Vogler, um diretor de teatro prestes a estrear sua montagem de "O sonho", de Strindberg. Em um de seus costumeiros cochilos, após o ensaio, é interrompido pela jovem Rakel, Lena, espetacular em seus vinte e poucos anos, que o procura, inventando a desculpa de que esquecera um bracelete . A jovem atriz, insegura com a magnitude de seu papel e o que sente pelo diretor, pede a ele que a ajude com trechos da peça. A partir daí, é a impressionante avalanche de sentimentos, as explosões do inconsciente que tipificam os diálogos de Bergman, que culminam com o velho diretor relembrando vivamente, através da jovem atriz, o relacionamento adúltero que tivera anos antes com a mãe dela, também dirigida por ele, e já devidamente morta pelo álcool. Atuação é direção, alguém já deve ter dito; e Bergman sempre nos deixa estarrecido - não há nada como um bom diretor para extrair o que um ator tem de melhor. Duvido que Lena Olin tenha tido algum desempenho sequer comparável em outro trabalho seu no cinema - em especial na cena em que encena Strindberg em frente ao espelho, sob a orientação do diretor – e Ingrid Thulin consegue colocar todo o exagero, na medida exata, que seu papel pede. Liv Ullman, “musa” e protagonista de tantos outros filmes de Bergman, também só atuou bem sob sua batuta.


Falou e disse
“Ator é gado.” Hitchcock, outro que também dirigia atores como ninguém. Fez milagres com o que teve em mãos.


Casa dos Artistas
E pensar que Bergman dirigiu o filme para a televisão sueca, há quase 20 anos atrás...


Talar ni svenska?
Um problema sério, e a princípio insolúvel, com Bergman, é entender seus filmes. As traduções são insuportáveis. Desta vez tentei ver com legendas em inglês; ajudou, ma non troppo. Os filmes dele disponíveis no mercado brasileiro são simplesmente incompreensíveis, se não se entende o sueco; as legendas são comparáveis àquelas da lendária tradução do Júlio César de Shakespeare feita pela Continental. Na versão americana que assisti, ainda existem trechos em que os personagens falam, e ficamos a ver navios, nada de legendas. Meu parco conhecimento dos idiomas nórdicos pôde auxiliar-me aqui e ali, o suficiente para que eu não me perdesse, mas será que é tanto pedir só uma legenda competente?


Cheech & Chomski
Noam Chomski, o célebre linguista, dá entrevista na BBC. Noam não fala uma palavra sequer sobre linguística há mais de vinte anos, ocupando-se desde então em palpitar sobre política internacional para a imprensa do mundo. É o queridinho de 10 entre 10 esquerdistas contemporâneos, um dinossauro político americano. O único comunista da América. Aqui faz sucesso. Mal começa a entrevista e já começa com aquela velha lenga-lenga, aquele multiculturalismo besta e mentiroso, enfim, os mesmos argumentos bobos e rasteiros, raciocínios simplistas que qualquer pessoa que saiba usar o intelecto pode questionar sem maior esforço. E há o ódio, muito ódio, ressentimento, disfarçados de caridade e de preocupação sincera e cristã com o bem do próximo, com "direitos humanos". Entre outras tolices, apregoa que as potências ocidentais pediram pelo terrorismo que estão colhendo com suas políticas passadas (só não disse “mereceram” por medo de um processo, provavelmente), e que o que os EUA haviam feito na Nicarágua e em El Salvador fora muito pior do que o ocorrido no World Trade Center – como se o financiamento de guerrilhas que se oponham a um governo comunista, corrupto e assassino possa, de alguma maneira, ser comparado ao massacre de 4000 pessoas de todos os cantos do mundo, absolutamente inocentes. Segundo Chomski, a comunidade internacional deveria ter se reunido, após o 11 de setembro, e investigado (sic) os autores do atentado, e somente então pressionado o governo do país onde estes criminosos estivessem a entregá-los. Ah, tá. Entendi.
Atacar o Afeganistão “de cara”, como os EUA fizeram, foi um erro, segundo ele. O entrevistador do Hardtalk, da BBC, que não prima exatamente pelo brilho intelectual, desta vez deu uma dentro - lhe perguntou: “Mas isso não seria como pedir a um sujeito que acordasse, no meio da noite, sendo ameaçado por um agressor que lhe aponta uma arma, pedisse para o agressor esperar enquanto ele liga para a polícia?” Noam ficou sem resposta, enrolou, fugiu do assunto. Conseguiu reverter sua falta de argumentos em mais ataques aos EUA. É a típica tática da esquerda, manjada...
Chomski não acredita que se possa condenar Osama bin Laden como autor dos atentados, mesmo após ele ter assumido essa autoria em várias gravações, e, como se não bastasse, ter vibrado ao descrever o ocorrido, confessando-se até positivamente surpreso pois esperava que morressem menos pessoas! Fico imaginando o que falta para convencer Mr Chomski... confissão assinada, com firma reconhecida? Que titio Osama jure por Alá, sobre o Corão?


Citar é preciso
Sabe que eu ficaria até surpreso, se já não soubesse tão bem que essa turma da esquerda nunca primou mesmo pela intelligentsia? Sério mesmo.
Mas pra que não digam que sou só eu que pego no pé, vou direto na fonte; eis o que Sir Winston já disse dessa patota.
"O vício inerente ao capitalismo é a divisão desigual de benesses; o vício inerente ao socialismo é a partilha total das misérias."
"É uma idéia socialista de que obter lucros é um vício; eu considero o verdadeiro vício obter perdas."
"Um comunista é como um crocodilo; quando abre sua boca você não consegue saber se ele está tentando sorrir ou se preparando para lhe comer."
"Se você não é liberal quando tem 25 anos, não tem coração; se não é um conservador quando chega aos 35, não tem cérebro."

Rafael Azevedo
São Paulo, 1/3/2002

 

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