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Terça-feira, 13/2/2018
Reflexões sobre o ato de fotografar
Celso A. Uequed Pitol

Inicialmente, devemos ressaltar aqui que o ato de fotografar não é ingênuo. O responsável pela foto, o fotógrafo, capta a imagem imbuído dos valores de um determinado tempo, de seus valores pessoais, das relações de poder existentes naquele local e período e de muitos outros elementos que estão presentes na intenção de representar algo. Por essa razão, pode-se dizer que a fotografia tem um caráter híbrido, documental e artístico, pois ao documentar o fato, pessoa ou espaço está presente um fazer artístico. Nas palavras de Oliveira e Farias,

"Por trás da câmera há um fotógrafo que pensa antes de clicar. Além disso, o recorte ou delimitação feita por ele no quadro que compõe a foto é marcado pela presença e ausência, que são constituintes da memória, definida por muitas correntes teóricas como um fenômeno social. A presença é o que está posto, retratado. A ausência é o que está fora do quadro." (OLIVEIRA; FARIAS, 2009)

Segundo Susan Sontag,

“o fluxo incessante de imagens (televisão, vídeo, cinema) constitui o nosso meio circundante, mas quando se trata de recordar, a fotografia fere mais fundo. A memória congela o quadro; sua unidade básica é a imagem isolada. Numa era sobrecarregada de informação, a fotografia oferece um modo rápido de apreender algo e uma forma compacta de memorizá-lo. A foto é como uma citação ou uma máxima ou provérbio”.(SONTAG, 2003).

A foto tem, portanto, a função memorial de “congelar” a imagem e repassa-la para adiante, para outros que poderão tomar contato com ela e, assim, apreender-lhe sentidos. E tem um potencial mnemônico poderoso. Acerca disso, Jörn Seemann aponta que

"A reconstrução do passado através de referências espaciais, como fotografias e mapas, e pela reambulação (a verificação e identificação de detalhes e informações previamente mapeados) pode trazer à luz do dia lembranças, reminiscências e saudades que uma entrevista convencional na casa das pessoas não consegue revelar" (SEEMANN, 2002).

E Phillipe Dubois vai além: “Uma foto é sempre uma imagem mental.Ou, em outras palavras, nossa memória só é feita de fotografias."(DUBOIS, 1993, 314)

O espaço onde a fotografia foi apreendida também deve ser considerado. Conforme assevera Jörn Seemann,

"lugares concretos, onde se realizam eventos, acontecimentos históricos ou práticas cotidianas, e representações visuais (mapas ou fotos) e não visuais (literatura, música) podem servir como possíveis referenciais espaciais para a memória" (SEEMANN, 2002) .

A memória de espaços compartilhados é, assim, representada visualmente – ou seja, não é copiada na sua integralidade, chapada, mas sim objeto de um processo de elaboração, recorte e, por fim, representação.

Vale aqui lembrar a lição de Roland Barthes, que entende a fotografia como uma imagem híbrida, constituída por dois elementos: um aparelho técnico, capaz de captar a realidade, e uma mensagem, portando conteúdo cultural e histórico (BARTHES, 1982). O pensador francês enfatiza, assim, que a fotografia traz consigo elementos contextuais, fundamentais para a mensagem que ela pretende passar.

A relação dialética entre o indivíduo, o corpo social, o espaço e a cultura em que se insere nortearam nossa análise, e a consideração conjugada de todos estes elementos abre caminho para reflexões sobre memória, percepção e imaginário político

Celso A. Uequed Pitol
Canoas, 13/2/2018

 

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