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Sexta-feira, 16/2/2018
Piada pronta
Luís Fernando Amâncio

Sempre tive antipatia da frase “o Brasil é o país da piada pronta”. Vejo nela um claro exemplo do viralatismoentranhado em nossa identidade. Aquele sentimento de que o que vem de fora é melhor. De que a Europa é mais civilizada, a Argentina tem uma população mais combativa, japonês é disciplinado e nos Estados Unidos dá pra comprar Big Mac com algumas moedas.

Tudo bem, há instituições que funcionam melhor no exterior do que aqui. A democracia, por exemplo, já teve mais prestígio para os lados de cá. Nossa vontade popular, aparentemente, só deve ser levada em conta quando os indicadores do mercado internacional estão de acordo.

Porém, há uma coisa que eu reconheço: o Brasil adora uma piada pronta. Só isso explica os programas de comédia e mesmo novelas que ainda apostam no humor de bordão, aquela frase característica de um personagem, que geralmente é o centro da piada. No humor de bordão, você já sabe o que vai vir e, ainda assim, ri.

A política brasileira, para quem tem um senso de humor peculiar, é um prato cheio. Para quem gosta do mal feito, o noticiário da GloboNews é um paraíso – em mais de um sentido, eu diria. Nesse âmbito, sim, o Brasil é o país da piada pronta. Nossa mais recente comédia de erros é a saga do Governo Temer para empossar a deputada federal Cristiane Brasil no Ministério do Trabalho. Ela, com dois processos na Justiça Trabalhista, condenada em um e com acordo em outro, indicada pelo pai, Roberto Jefferson, condenado no mensalão. Como o governo do Michel “tem que manter isso aí” Temer precisa de votos para aprovar a Reforma da Previdência, faz de tudo para ter o apoio do PTB, presidido por Jefferson.

Na última segunda (29/01), Cristiane Brasil resolveu se defender das acusações. Em um vídeo, a deputada, acompanhada de amigos em um iate, com trajes de banho, afirma que “todo mundo pode pedir qualquer coisa abstrata” na Justiça do Trabalho. E garante que não sabia que “tinha nada para dever” para as duas pessoas que a processaram. No que um de seus amigos reforça que, como empresário, “ação trabalhista toda hora a gente tem”.

É ridículo, pessoas em um iate desdenhando dos direitos dos seus trabalhadores. É tão estereotípico, que parece mesmo uma piada. Imagina como deve ser fácil para os trabalhadores negociarem com esse tipo de patrão, como reza nossa vigente Reforma Trabalhista.

Tão ridículo quanto o presidente da república ir a uma emissora de TV afirmar que os pobres não perderão com a Reforma da Previdência. Tão ridículo quanto uma desembargadora que usa de sua influência para liberar o filho traficante de drogas ter como punição máxima a aposentadoria compulsória. Tão ridículo quanto os nossos magistrados, os guardiões das leis, usarem de toda sorte de penduricalhos para receberem quantia maior do que o teto do serviço público.

Repito: não acho que o Brasil seja o país da piada pronta. Infelizmente, o “mal feito” não é uma exclusividade nossa. Só que antes de estufar o peito para lançar a máxima, é bom colocar o rabo entre as pernas e lembrar: se o país é uma piada, é uma piada sobre nós.


Luís Fernando Amâncio
Belo Horizonte, 16/2/2018

 

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