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Quinta-feira, 4/10/2018
De volta à antiga roda rosa
Elisa Andrade Buzzo

O rosado pórtico de Charters de Almeida amanheceu metade pintado de vermelho na boca da alameda da Universidade. Eu, que já o tinha conhecido cor-de-rosa de desgastado, não gostei nada da renovação ao original. Acostumei-me ao embaciado de tons pastéis, que cria mais um clima do que uma sensação pronta, uma forma delimitada.

É o ano letivo que se inicia, e os andaimes e os pintores ainda estão lá, a grande roda da composição vai sendo preenchida de substância nova; e eu não preciso me surpreender tanto com as novidades porque ao reflexo dos rostos novos sobrepõem-se as sombras dos antigos, a faculdade permanece a mesma, inteiriça em seu pórtico, diria “pós-clássico”, de colunas clean, rosadas e puras, com suas mesmas sujidades, janelas travadas e cheiro de mofo no corredores de história.

Nem tanto igual assim, diria um olhar depois de lentes corretivas limpas, para melhor ver algumas minúcias: foram colocadas placas informativas mais claras, nos banheiros da faculdade; no saguão um mapa do edifício melhor orienta os novos alunos (e os velhos), perdidos diante da aparente monumentalidade do local, coisa pouca; no calor escaldante, um evento no pátio grego com o diretor da faculdade e alunos enchendo os bares.

No jardim do Campo Grande, grupos de praxe entoam seus cânticos. Um deles leva, à frente, uma bandeira preta com um morcego de boca agressiva, segurando uma grande colher de pau. Afasto-me, procurando uma sombra, dos inofensivos e tenros urubus, com suas capas esvoaçantes e óculos de sol da moda. Refugio-me, antes necessito de horas diárias na biblioteca, nunca suficientes. A claridade custa a se esmaecer numa atmosfera noturna pelas grandes janelas.

Sonho encontrar algo que não se mostra por inteiro, o tom vermelho por completo das formas inconsúteis que se mostram borradas e incoerentes. Algo que pode estar escondido no recôndito claro onde brota a luz das compridas lâmpadas da mesa da biblioteca. Às vezes é melhor não ver o que tanto se deseja, mas que ainda existe, e se espalha pelo campus como uma praga invisível. Mas nada sai; os livros são mudos. As histórias se contam na vida real e as histórias dos livros precisam também da vida real, ainda que não só dela.

Mas há um grande acontecimento em que culmina o início do ano letivo. A faculdade está cheia nesta noite. Meninas com copos de cerveja e cigarro lotam os banheiros. Garotos de capa preta ensaiam um olhar quarenta e três. Há um palco em formato de concha, com luzes lilases e gás, inebriando a cidade universitária de uma languidez afetada. É uma grande festa em frente à reitoria. O vocalista da banda de rock diz um dois três e uma rajada fresca de vento vai me levando embora, escadaria abaixo.

A lua reflete no céu turquesa da noite de veraneio, no jardim de pavões adormecidos, um brilho leitoso. Vênus e Júpiter estacam, como pontas de alfinete de uma sutura solta. De uma palmeira delineada em negro gorjeiam os últimos cantos. Esses óculos incutiram uma clareza inédita sobre a paisagem e as coisas. Ela me segue até a cama, lua crescente e ardejante, através da cortina, tal luminária perpétua de sucessivas causas.

Elisa Andrade Buzzo
Lisboa, 4/10/2018

 

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