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Sexta-feira, 9/10/2020
Eddie Van Halen (1955-2020)
Julio Daio Borges

Nossa, como eu ouvi Van Halen. Poderia escrever um texto sobre cada álbum, sobre cada faixa. Cada qual numa época diferente da minha adolescência e juventude.

“1984” - quando eu mal sabia o que era rock. A gente começando a sair, nas matinês da Up&Down - onde, justamente, a música de abertura era “1984”, do álbum homônimo. (David Lee Roth, fã de dance music, teria gostado.)

E, numa época próxima, “OU812”, quando assistíamos aos primeiros videoclipes, na televisão - com Beto Rivera, da Jovem Pan - e o de “When it’s love” me fazia pensar na menina de quem eu gostava, claro.

“5150”, quando eu já estava no colegial, cobiçando o CD (depois o Papai me traria de Nova York). A gente assistia aos clipes, já na MTV, e havia aquele, impressionante, de “5150” ao vivo, do álbum homônimo.

Live without a net” foi um show que eu e meu amigo Bruno assistimos até cansar. Em VHS, com aquela abertura eletrizante, “There’s only one way to rock...” - que deixou estupefata até uma colaboradora do Digestivo, baby-boomer, décadas mais tarde.

Acho que copiei a fita do Bruno, porque levei para o meu professor de violão/guitarra, no Clam - que tinha parado em AC/DC dos anos 70 e que tinha Jimmy Page como grande herói da guitarra roqueira.

“É, realmente, aquela hora em que ele senta no palco...”, admitia o meu professor. Era o momento do solo, em que Eddie executava “Eruption”. Confesso que nunca tentei fazer aquilo em casa. Eu não chegava perto daquele negócio.

O mais perto a que cheguei foi de “Panama” - que até o John Mayer, que é originalmente um cantor, toca. Mal e porcamente, mas toca. Era como eu tocava. (Felizmente, não registrei nada.)

No final da escola, Joe Satriani e Steve Vai já haviam se juntado ao nosso panteão de heróis. E, quando descobrimos os aniversários deles, um amigo guitarrista veio me provocar: “Eu faço aniversário na mesma época em que o Steve Vai. E você?”. Tive de responder na lata: “Eu faço aniversário na mesma época em que Eddie Van Halen. Ele é do dia 26, eu sou do dia 29”.

Aliás, procurei as declarações recentes de Vai e Satriani, só por curiosidade. De Vai, havia uma assim: “Van Halen é um gênio; não posso me comparar com ele”. Já Satriani perferiu se concentrar na parceria dos irmãos Alex (baterista) e Edward Van Halen.

Satriani acrescentou que o Van Halen chegou tirando aquele clima pesado que assobrava o rock desde o advento do heavy metal e do Black Sabbath. Confesso que ainda sinto algo de sombrio nos primeiros discos do Van Halen e, por ter sido contemporâneo do “Van Hagar”, tenho mais lembranças dessa fase.

Não que não fosse um acontecimento cada movimento de Dave Lee Roth. Começando pela banda que ele montou, para fazer frente ao Van Halen. Terminando com sua volta triunfal... ao Van Halen!

Horas e horas de discussões e análises, eu e meus amigos, sobre cada solo, cada efeito, cada performance. Nossa vida era música e eu só não fui músico porque, como executante, eu era uma lástima. (Obrigado por me colocar no meu lugar, Eddie Van Halen.)

Eu poderia continuar relembrando uma porção de histórias. Como quando eu fui a primeira vez num Hard Rock Café, localizei uma guitarra do Van Halen e pedi para a minha irmã Carolina tirar uma foto. (Ela também me fotografou com o Johnny Ramone, guitarrista dos Ramones, que encontrei, por acaso, em Nova York.)

Eu fico imaginando o que deve ter sido a perda de um Paganini ou mesmo a de um Mozart. Calculo a perda de um Jimi Hendrix, porque vivi a perda de um Raphael Rabello, a de um Paco De Lucia - e, agora, a de Edward Van Halen.

Os virtuoses são como uma força da natureza. Existe algo de sobre-humano neles, algo de sobrenatural - como se pairassem acima de nós, reles mortais que somos. Não é à toa que correm lendas envolvendo pactos e encruzilhadas.

Virtuoses são divinos e, ao mesmo tempo, assustadores. Eddie Van Halen tocando guitarra no palco era como se um alienígena tivesse descido de uma nave. Ele não era deste mundo. Era alguém de outro planeta.

Dizer, para mim, que Eddie Van Halen morreu é como dizer que o Super Homem está morto. Não é possível. Super-heróis não morrem. Semideuses, como Aquiles, até morrem - só que desfrutam de gloria eterna. É o que desejo a você, Edward Lodewijk Van Halen.

Julio Daio Borges
São Paulo, 9/10/2020

 

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