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Terça-feira, 12/2/2019
Um olhar sobre Múcio Teixeira
Celso A. Uequed Pitol

Quem quiser falar sobre Múcio Teixeira para um portoalegrense não deve esperar grande reação. A única referência a ele mais ou menos conhecida da população da capital é a rua do bairro Menino Deus que leva o seu nome. Os conterrâneos do poeta não têm ideia de quem foi Múcio e nem do motivo pelo qual nomeia uma via de sua cidade natal. Sequer sabem, aliás, que era poeta; e, naturalmente, não sabem que foi um artista celebrado, considerado pelo crítico português Teixeira Bastos como “um dos primeiros poetas do Brasil” em seu tempo, dono de obra traduzida para vários idiomas e respeitada pelos pares e pelo público. Esses conterrâneos, que um dia o aplaudiram, parecem tê-lo esquecido. Mas eu, que também sou conterrâneo de Múcio, não o esqueci – e, se não posso exigir que os leitores de hoje o aplaudam, posso ao menos convida-los a lançar um olhar sobre ele. É o que pretendo fazer neste artigo.

Múcio Scevola Lopes Teixeira nasceu em Porto Alegre em 1857 (1858, segundo algumas fontes). Filho do militar e político Manuel Lopes Teixeira Júnior, passou a infância no Rio de Janeiro e voltou a Porto Alegre ainda muito jovem, a fim de estudar no prestigiado Colégio Gomes. A cidade tinha, então, apenas vinte mil habitantes. Durante a época de colégio, Múcio demonstra uma aptidão precoce para a poesia e, já aos quinze anos, publica seu primeiro livro, “Vozes trêmulas”. No ano seguinte, participa das reuniões da Sociedade Partenon Literário, associação fundada em 1867, sob a liderança de Apolinário Porto Alegre e José Antonio do Vale Caldre e Fião, para promover a literatura, as artes e as discussões sociais e políticas de relevo. Em 1875 publica “Violetas”; em 1877, “Sombras e Clarões”; e em 1880, “Novos Ideais”: até os vinte e dois anos somará dezesseis livros publicados. O currículo impressiona pelo tamanho e pela variedade: inclui, além de poesia, o romance, a crítica, o ensaio histórico, a biografia e a crônica. E a produção não para: em 1882 publica “Prismas e vibrações”, e em 1885 a coletânea “Hugonianas”, de traduções de poemas de seu mestre Victor Hugo. Ao mesmo tempo, escreve para jornais e revistas das cidades onde reside - Porto Alegre, Rio de Janeiro, Salvador e Caracas, na Venezuela, exercendo, nesta última, a função de cônsul-geral do Brasil. Em Caracas, publica volumes em castelhano – algo pouco frequente, na época, para autores brasileiros - e recebe a grã-cruz do Libertador Simón Bolivar.

Múcio foi muito celebrado em toda parte. Na sequência de suas primeiras publicações, o jornalista Karl Von Koseritz via no jovem poeta um "talento robusto", enquanto o Visconde de Taunay, autor de "Inocência", elogiava o artista "espontâneo, verdadeiro, cheio de inspirações subjetivas". E o artista ganhou fama: em 1888, um entusiasmado Carlos de Laet dizia que a reputação de Múcio como grande poeta já não podia ser posta em dúvida. Mesmo um parnasiano como Raimundo Correia, que recriminava a filiação de Múcio a certa poesia de cunho social (algo frequente, aliás, no Partenon Literário do qual fizera parte), foi obrigado a reconhecer em "Primas e vibrações" a presença de "poesias esplêndidas, de formosura e sonoridade estranhas". Sílvio Romero, o mais importante crítico brasileiro da época, elogiou a abordagem realista da vida pampeana em "Flores do pampa”, opondo-as aos excessos formalistas dos parnasianos e seus "alexandrinos cheios de párias, de crimes esverdeados, de alcouces e barregas". Múcio, segundo ele, estava acima de tudo isso. O julgamento do crítico potiguar é claro: "Seu talento promete ainda mais".

A avaliação de Silvio Romero trazia, contudo, um aviso a Múcio: "Seu temperamento é e será sempre o de um poeta. Dificilmente tomará outra direção. Nem ele deve fugir ao seu destino; no meio do nosso pavoroso epigonismo literário, está predestinado a representar um grande papel". E Múcio, como veremos em breve, não prestou a devida atenção nesse aviso. Mas parecia ciente do destino mencionado por Romero. É o que podemos ler em seu poema de juventude “Profissão de fé”:

Fruto do amor dum justo e duma santa, Eu não podia ser senão poeta; Doirou-me o berço a estrela do profeta Por isso é que meu estro se alevanta

Logo a seguir, ele confessa: Quando nos versos meus a Musa canta, E arde a rima na estrofe predileta, Muita emoção incógnita e secreta Nas almas vibra....e os corações encanta!

Múcio guardou emoções incógnitas e secretas por muito tempo. Precisava conhece-las melhor; e, na poesia, não encontrou as respostas adequadas. Buscou-as, então, em outro caminho: o do ocultismo. Nessa altura, Múcio vive uma transformação: passa a chamar-se Barão Ergonte e dedica-se ao estudo da alquimia, da astrologia, das artes adivinhatórias e dos mistérios antigos e modernos. Em jornais e revistas já não publica contos, crônicas e poemas, mas sim colunas de adivinhação e artes mágicas: chega mesmo a lançar um almanaque sobre o tema. Em sua atuação como vidente, anuncia, por exemplo, a morte de Ruy Barbosa para 1911. Passa o ano, e mais outro, e mais outro: o jurista baiano só deixará este mundo em 1923. A profecia de Múcio não se realiza. A maioria de suas profecias não se realiza. Sob a capa de Barão Ergonte, cai primeiro em descrédito, e depois, no ridículo. Quem o conheceu como artista não escondia a amargura: o outrora entusiasmado Carlos de Laet, por exemplo, exorta o poeta recém-tornado profeta a deixar aquilo tudo e retornar aos versos: “Quando virdes uma profecia do Múcio, ride, a bom rir, porque será mais uma pilhéria. E fazeis comigo votos para que lhe passe a mania hierofântica. Nesse dia ganharíamos o brilhante poeta de outros tempos”.

Mas o riso dos outros não o incomoda. Em 1916, publica “Terra Incógnita”. Nesse livro, o poeta de outros tempos apresenta-se com um homem guiado pelos “espíritos imortais”, e a eles dedica os derradeiros versos que compõe. No texto de apresentação, intitulado “Gênese Espiritual”, retoma o itinerário percorrido a partir da infância e da juventude, quando descobre a vida de poeta, até a maturidade, quando a abandona: “E foi assim que eu, que tive os sonhos da poesia desde que saí do berço, tenho as visões do acordado, agora que vou me encaminhando para a cova”. Nesse caminho Múcio seguiu até o fim de sua vida, no dia 8 de agosto de 1926. O obituário do “Correio da Manhã” de 10 de agosto de 1926 noticiou o falecimento de um “vulto curioso” das letras brasileiras, dono de uma "vida incerta e irregular, cheia de altos e baixos", que "oferece uma sucessão de fatos pitorescos de tudo". Múcio, o poeta cujo talento tanto prometia, terminava seus dias como uma figura excêntrica, quase cômica. Seu enterro, de acordo com o jornal, “foi o mais pobre e modesto que se possa imaginar”.

O caminho escolhido por Múcio afastou-o dos leitores; afastou-o, também, da memória da posteridade. Mas essa não parece ser a única razão para o esquecimento de seu nome: alguns mencionam, por exemplo, a dificuldade em enquadra-lo fixamente dentro das correntes literárias de sua época. Outros falam em um problema político: sendo amigo de Dom Pedro II, permaneceu fiel ao imperador após a proclamação da República e não gozou da simpatia dos novos donos do poder. Os motivos são muitos; nenhum deles, razoável. Por isso, ao finalizar este breve percurso, renovo o convite para que o leitor lance um olhar, compreensivo e crítico, sobre a obra de Múcio Teixeira – e espero que, na memória de seus conterrâneos, ele passe a ser algo mais do que um nome de rua em Porto Alegre.

Celso A. Uequed Pitol
Canoas, 12/2/2019

 

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