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Terça-feira, 24/3/2020
A Casa das Aranhas, de Márcia Barbieri
Jardel Dias Cavalcanti



Nós conhecemos a questão da regressão musical de Stravinski através do famoso ensaio de T. W. Adorno. Não que Stravinski tenha decaído enquanto artista. Sua obra continuava primorosa, mas regredia à uma forma clássica ultrapassada se pensarmos na sua radical criação musical que foi A Sagração da Primavera.

Com o novo livro de Márcia Barbieri passa-se mais ou menos o mesmo. A Casa das Aranhas, publicado pela Editora Refomatório, é o último livro de uma trilogia que teve anteriormente os excelentes livros Enterro do Lobo Branco e A Puta. Agora Márcia Barbieri cede à tentação de contar uma história dentro de uma narrativa que exige de sua escrita uma observação mais detalhada do real, do prosaico, do elementar, juntando ainda algumas pontadas - absolutamente desnecessárias - de crítica social.

Nesse sentido, ela se aproxima de Stravinski na questão da regressão da forma. Enquanto nos outros “romances” a escrita derivava da experiência, do enfrentamento erótico da linguagem, do roçar-se na sua saliva úmida, do enfrentar a folha branca como lugar da experiência imediata e libidinosa, pulsante e perigosa, desajustada e poética, nesse novo romance ela tenta manter o controle sobre a linguagem para que a prosa funcione dentro de propósitos mais ajustáveis à sua necessidade.

Vai aqui uma definição de texto, dada por Roland Barthes, que se aproxima do que são os romances anteriores de Marcia Barbieri: “texto quer dizer tecido; mas, enquanto até aqui esse tecido foi sempre tomado por um produto, por um véu todo acabado, por trás do qual se mantém, mais ou menos oculto, o sentido (a verdade), nós acentuamos agora, no tecido, a ideia gerativa de que o texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo; perdido neste tecido — nessa textura — o sujeito se desfaz nele, qual uma aranha que se dissolve ela mesma nas secreções construtivas de sua teia.” (Barthes. O prazer do Texto).

Nas outras resenhas que fiz sobre a autora, publicada aqui no Digestivocultural, eu chamava a atenção para o fato de que, mais do que produzir prazer no leitor, Márcia Barbieri obrigava a linguagem a romper com o discurso tradicional, levando-a a lugares inesperados. Literatura de cortes na linguagem, que traduzem na sua forma os pedaços quebrados da suposta "verdade da vida", sem construções seguras ou de fácil assimilação. Não resta dúvida que ela tinha em mente o que todo bom escritor sabe: uma obra de arte não é primariamente uma representação de algo, mas um conjunto de relações formais.

Ao ceder aos imperativos do real — seja com crítica social ou com um encadeamento mais racional da prosa — Márcia Barbieri pode estar perdendo aquele espaço onde o que estalava em sua obra era o som da fricção dos elementos antagônicos que seu trabalho buscava unificar em literatura. Não a aprisionava a ideia de uma unidade do todo, mas as variáveis não estáticas, tornando a sua obra uma espécie de trabalho em andamento, como é o trabalho da vida e do desejo, insaciáveis em suas novas buscas por terrenos dissonantes e inalcançáveis...

Como no caso de Stravinski, a força da literatura de Márcia Barbieri não se perdeu nesse último romance, pois ai se encontra ainda o entrelaçamento de questões que podem ser de origem metafísica ligadas aos menores detalhes da vida; seja na participação efetiva do corpo nas ações, ou do desejo, que confunde essas ações por seu poder devorador de sentidos tradicionais, seja na irrupção de uma escrita que revela uma autoconsciência do contexto objetivo da ilusão. Esse contexto que é moído pela perversão da linguagem, tal como praticada pela autora nos outros romances com mais furor- e que aqui é atenuado.

Resta ao crítico, mesmo ao dissabor de seus comentários, atentar a escritora para que não perca de vista o que de melhor sua literatura produziu. Que não se renda ao comentário sociológico da vida, pois a vida errada não pode ser descrita corretamente. Que se livre da pretensão de que o escritor tem um ponto de vista privilegiado como observador da sociedade, para que sua literatura não seja um tratado sobre essa mesma sociedade. O viver incorreto dos artistas já lhes propiciam uma abertura para que possam fazer uma literatura incorreta.

Como profundo admirador da literatura de Márcia Barbieri, repito meu desejo, já expresso em outra resenha: que faça uma literatura corajosa, um jorro de vida, amor e êxtase, e que, como morte anunciada, espinafre a infértil fraqueza da razão, distante e fria com a vida, que só lhe presta louvor quando, falsa, é "enquadrada nas fotos" que jorram por aí.

Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 24/3/2020

 

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