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Quinta-feira, 1/10/2020
Vandalizar e destituir uma imagem de estátua
Elisa Andrade Buzzo

Enquanto em São Francisco há uma curiosa sorte de peregrinação à estátua do mestre Yoda, em Lisboa houve, há poucos meses, mais uma pichação na estátua do padre Antônio Vieira em frente à igreja de São Roque. E ainda muitas outras estátuas ao redor do planeta foram vandalizadas ou mesmo retiradas, face aos protestos antirrascistas. Monumentos que se redesenham e redefinem continuamente, e por isso, e ainda por estarem em praça pública, sujeitos às movimentações manifestantes, às mudanças de mentalidade. Por isto mesmo, por serem vivos, e não mortos, enclausurados em museus como ausentes de mutação, enclausurados como objetos de valor e adoração, é que reside uma sorte de esperança no redimensionamento redentor que espero.

Em Brasília, desenhou-se algo volátil, um metal que ainda não existe forjado em definitivo, mas que perigosamente adquire formatos repugnantes – uma estátua equestre, perversa, demoníaca. Cada aparição do presidente, seus apoiadores e seus ministros, resulta em um desacato ao país, à democracia, quem dera não mais do que na forma de imagens chocantes. No entanto, tanto essas figuras sem movimento, como também atos pontuais, com um ar de “originalidade” e “sinceridade” geram consequências de catástrofe em nosso futuro de país. Mas essa escultura-ultraje ainda se move, e também pragueja, ofende, comete crimes – enquanto o país a assiste, paciente e omisso –; de forma que ainda é possível derretê-la.

Digo apenas em linhas gerais, como em um rascunho, como são, ou seriam, algumas dessas imagens, ou como quem as observa com o canto dos olhos; pois não posso olhá-las demais, já que sua observação atenta representa uma mordida na alma ou uma possibilidade de pesadelo. Imagens que tento não muito ver, para que elas não se alojem em meu cérebro como realidade, mas que precisam ser a realidade, para combatê-la, para denunciá-la em sua perversidade, severidade e mesmo ridicularidade. Para que um dia essas imagens sejam não menos do que uma memória coletiva cruel embora necessária, não mais do que uma foto no livro escolar do Brasil de um futuro mais justo, de política, ao menos, um pouco mais decente; aquele futuro que cada vez mais é empurrado para outra camada de futuro, desde Stefan Zweig.

Uma caricatura de cavaleiro, camiseta polo azul, oclinhos preso na gola. Desprezível dia para o cavalo castanho de crina raspada: “Estarei onde o povo estiver”, teria dito a figura imaginando-se uma espécie de miraculosa estátua movente. Há motivos para o desespero, mas é necessário encontrar um equilíbrio e uma calma. Precisamos estar muito sóbrios, muito presentes e muito atentos e críticos e meticulosos, para tudo isso acompanhar, mostrar, não aceitar. E, ainda, por outro lado, conseguir remover diariamente o grotesco, para que este não se incruste em nossa imagem pessoal de Brasil, nossa imagem boa, aconchegante, de nossa casa, de nossa cultura. Aquela imagem que tenho do meu melhor lugar; sim, o Brasil é o meu melhor lugar do mundo, e acompanhar o país e a sua imagem: sua bandeira, sua capital – vilipendiadas, é algo que será, em um presente combativo, e em um futuro esperançoso de mudanças rápidas, uma das maiores provas a que o país e seus habitantes será colocado.

E é mesmo chocante perceber que estão se tornando usuais, mesmo aceitáveis, as situações, em todos os níveis, aviltantes sofridas pelos brasileiros, quando o ápice, que é o presidente montado num pobre cavalo, fantasiado de salvador da pátria, para mim seria motivo para o seu impedimento (ou a renúncia, no caso de haver dignidade e vergonha). Uma estátua a ser vandalizada antes mesmo de ser erguida, e também destituída, pichada, mas lembrada, como o que não deve ser, como o que não é a democracia, como o que não é a defesa de direitos conquistados, como o que não é a defesa das minorias e a cultura da paz e da preservação do meio ambiente e da vida humana. Quebremo-la, atentemos ao seu pedestal que mais é um cadafalso, em que a vítima é o Brasil e todos nós, e o carrasco é o presidente, todos os seus aliados e aqueles que se aproveitam da situação calamitosa do país.

Elisa Andrade Buzzo
Lisboa, 1/10/2020

 

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