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Quinta-feira, 3/3/2022
Velha amiga, ainda tão menina em minha cabeça...
Elisa Andrade Buzzo

“Linda Elisa, ainda tão menina em minha cabeça.” Eis como recebo uma mensagem com um rosto que, a princípio, não reconheço; ou então, é mais o ângulo que me deixa em dúvida sobre a identidade da pessoa, ou a memória que quando é pega surpreendida, em tempos de certa reclusão, demora a concatenar com alguns de seus melhores momentos. Os rostos não se alteram, ou mudam, todo ele lá está formado, embora pronto a ser rabiscado? No entanto, ela me reconhece, com facilidade ou, afinal, reconheceria?

Se houvesse um livro da vida, talvez fosse suficiente que nele se colocasse qualquer episódio dessa época que é a infância, como o padrão, como a extensão futura de tudo o que pudesse ser e acontecer: amizade, ética, amor, sexo, família, ódio etc. – aventuras. De forma que, pode tudo já estar dentro de uma caixinha de joias, de uma pasta de papéis de carta, de uma casa de bonecas, de um jogo de vídeo game, de tardes em jogos de amarelinha e passeios de bicicleta, e na invasão de casas e piscinas abandonadas?

Pegue um acontecimento da infância e teremos uma fatia, a princípio magra e ingênua, mas sementeira de qualquer evento futuro. “O menino é pai do homem”, diria Brás Cubas, no décimo primeiro capítulo de suas memórias póstumas, que um poeta dizia... Pegue-o, e faça... Afinal, faça o quê? Seja o quê? Um brinquedo, um títere, uma marioneta eterna do que já fora moldado? Existimos. Ainda que ainda puramente, em formas passadas, assim, uma na cabeça da outra. E haveria além desta alguma outra forma melhor ou mais adequada?

Agora que estamos na exata metade da idade entre o nascimento e a morte, somos, portanto, invariavelmente as mesmas, e mesmo assim, podíamos ser diferentes, cambiarmos para o que quiséssemos; ainda o podemos. Isto, para quem ainda quer viver. E se antes necessitávamos convencer alguém de alguma coisa – planos mirabolantes para os pais comprarem os brinquedos, estratégias milenares para passar no vestibular, rituais intrincados para que alguém nos ame –, nessa altura da vida, a quem temos de convencer, a quem vamos convencer de algo, senão a nós mesmas e de...?

Examino-me. A reflexão é muito breve para a extensão dos anos, que, aliás, teimam em agora passar mais rápido que de costume. E se ela, velha amiga, se lembra de mim em sua cabeça, hoje me lembro do ar frio das colinas outonais, em que só se ouve um crepitar de folhas e gente ausente. Lembro-me; lembro como quem quer afastar logo o pensamento para outras zonas mais imediatas e menos turvas, dele tão menino, olhos vidrados; e penso que, para viver, temos de ser um pouco maus.

Lisboa, 7 de fevereiro de 2022.

Elisa Andrade Buzzo
Lisboa, 3/3/2022

 

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