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Terça-feira, 21/5/2002
Valeu a espera
Rafael Lima

Teaser Poster
Ouço falar em filme do Homem-Aranha há pelo menos dez anos. Personagem popular fica muito visado quando vai virar filme - quem vai dirigir, estrelar, de quem serão os efeitos especiais, como o roteiro que será desfigurado ao passar por mais mãos do que corrimão de ônibus. Enfim, o trailer. E por incrível que pareça, o resultado não desandou.

Amazing Fantasy #15, estréia do Homem-Aranha Afinal, são exatos 40 anos desde que Stan Lee, o criador de meio universo Marvel (a outra metade foi criada pelo Roy Thomas), teve o lampejo de levar adiante o conceito de super-herói. As primeiras histórias do Super-Homem, em 1938, versavam sobre as aventuras de um super dotado que havia desembarcado na Terra, mas também eram as histórias de um mundo diferente, onde havia um super-herói, e as conseqüências de sua presença para esse mundo. Gangsteres continuariam tecendo suas redes de crime? Governos aproveitariam a presença deste super ser em seu território com propósitos militares? Alguém superpoderoso assim seria suscetível a suborno ou sedução? Questionamentos assim foram particularmente bem levantados no aniversário de 50 anos do Super-Homem, por John Byrne. Stan Lee tinha o olho aberto para isso quando inventou o Quarteto Fantástico, o poderoso Thor, o incrível Hulk, e aquele que superaria todos em fama: o Homem-Aranha.

Peter Parker levando um tôco, logo na sua estréia Em todos eles, Lee dedicou cuidado especial à identidade secreta, criando defeitos pessoais que humanizassem cada um: o Quarteto é quase uma família; o médico Donald Blake usa de uma bengala para se locomover; o Hulk é irracional, apesar de extremamente forte. O Homem-Aranha seria o ápice: em sua identidade secreta, alguém quase desabilitado, absolutamente comum (o "everyman"), abençoado com num acidente com super-poderes (que eram abundantes naquele universo marvel...). Até mesmo na escolha do desenhista isso influenciou - embora Jack Kirby tivesse ajudado a desenhar o uniforme, seria descartado por caracterizar seus tipos sempre atléticos, musculosos, imbuídos de poder, ou seja, exatamente o oposto do que Lee precisava. Steve Ditko, acostumado com histórias de ficção científica e fantasia (a revista em que o Homem-Aranha nasceria se chamava Amazing Fantasy), era mais apropriado para retratar o homem comum, e assumiu o lápis, criando a imagem que dura até hoje, em caso raro de longevidade nos quadrinhos.

Primeira página da primeira história Como se não bastasse esse avanço radical, Stan ainda precisava convencer seu editor da idéia idiota de um super-herói baseado num inseto pegajoso, associado com pesadelos & fobias. "As pessoas não gostam de aranhas", ponderava ele. Stan Lee gastou uma lábia (e contou com a sorte do editor estar atrasado para um jogo de golfe) para conseguir o O.K. O próximo passo foi colocar no papel, no recém-inventado método Marvel de fazer quadrinhos (3 a 4 laudas datilografadas para o desenhista decupar, transformando em 20 páginas de quadrinhos a serem legendadas pelo roteirista, repassando, assim, para o desenhista, tanta responsabilidade quanto a liberdade de diagramar as páginas), a triste história de Peter Parker, adolescente cdf (na época, o termo nerd, que o descreveria perfeitamente, ainda não era corrente), aluno brilhante, órfão, morando com seus tios Ben e May, que um belo dia é picado por uma aranha radioativa, em visita escolar a um laboratório, adquirindo os poderes de uma aranha humana: capacidade de subir pelas paredes, força e velocidade desproporcionais à sua estatura, e um sentido de alerta a alertá-lo na iminência do perigo. Surpreendentemente, nenhum desses poderes tornaria Peter um cara mais sociável, mais enturmado, ou mais rico - e nem seria suficiente para salvar a vida de seu tio Ben, no clímax de sua origem, quando ele decide vestir o manto sagrado dos combatentes do mal. O duro aprendizado é sintetizado numa lição de moral ("com grandes poderes vem grandes responsabilidades") que irá assombrá-lo pelo resto da vida, pois como bem assinalou Nemo Nox, o Homem-Aranha é um personagem torturado pela culpa. E o que é pior, os super-poderes não o livrariam da irritante superproteção da Tia May, odiada, sem exagero, por onze em cada dez fãs do aracnídeo (quando enfim decidiram matar a Tia May, este foi o comentário mais ouvido dos antigos leitores: "já foi tarde").

Segunda página da primeira história Peter Parker tinha uma vida duríssima: assistir aulas na High School (depois faculdade) de dia, combater o crime de noite; aproveitar para tirar fotos suas, ou melhor, do Homem-Aranha em ação, que o inescrupuloso J. Jonah Jameson estampava na primeira página do Clarim Diário, em campanhas difamatórias: numa abordagem extremamente realista, o Homem-Aranha era visto como uma ameaça pela opinião pública. Ou seja, tinha que resolver os conflitos da adolescência, aprender a lidar com responsabilidade, conciliar família, estudos e trabalho, mal sobrando tempo para namoradas ou candidatas, como a ruiva Mary Jane Watson, atriz amadora e paixão adolescente, que por conta dessa falta de atenção acaba caindo nos braços de Harry Osborn, justo o melhor amigo de Parker. Como se não bastasse, Harry era filho de Norman, industrial rico, sempre quebrando galhos financeiros para Peter, e que nos surtos psicóticos das horas vagas, transformava-se no Duende Verde, encarnação psicodélico-esverdeada do mal. Tragédia grega era tema para peça de teatro rebolado perto da vida de Peter Parker. Uma lida nas histórias do período clássico - segunda metade dos anos 60 - deixa um sabor de melodrama, chegando a cansar pelo excesso de conflitos & questionamentos pessoais. A descontração ficava apenas nas cenas de ação de excepcional dinamismo, desenhadas por John Romita, Sr., e nas piadinhas que o Homem-Aranha jogava em cima dos vilões, que matavam os fãs de rir. Se ele não tinha tempo para namorar, ao menos podia descontrair um pouco enquanto fazia a justiça...

Dado o período de conflitos que foi a década de 60, não é difícil entender a extrema popularidade que o personagem gozou. Era o super-herói apropriado para a contestação, para o jovem, para qualquer um que não se sentisse enquadrado, e lido nos momentos de descanso em meio às passeatas estudantis. Uma capa da Life colocava sua máscara vermelha ao lado dos rostos de Kennedy, Luther King e Mohamad Ali como os ídolos da juventude. Antenadíssimo com seu tempo, Stan Lee não hesitou em mandar uma determinada edição para as bancas sem o selo de aprovação do Comics Code Authority (entidade regulamentadora da ética nos quadrinhos, que limitava o que poderia aparecer) ao mostrar um personagem, num delírio de LSD, pulando do topo de um prédio por achar que era uma águia - como aquele roqueiro do filme Quase Famosos. Tia May ia ao teatro ver Hair. Enfim, os quadrinhos retratando a História.

Dos quadrinhos para o cinema E o que o filme tem a ver com isso? Tem que ele simplesmente é a condensação, arredondando, dos primeiros 15 anos - os melhores - de revistas do Homem-Aranha, transpostos para a tela com uma fidelidade tão rara que desfaz o jeito apressado ou hiperbólico que o título de melhor adaptação dos quadrinhos para o cinema pode ter. Há seqüências e mais seqüências traduzidas perfeitamente das páginas de Ditko, Romita e Gil Kane, nas quais o storyboard deve ter se inspirado, para o celulóide. Tobey Maguire é o Peter Parker tem a cara, a voz e o sem jeito de panaca cultivado na prática de interpretar nerds - em Pleasantville, Tempestade no Gelo e Regras da Vida - necessários ao papel; Kirsten Dunst (ê nome difícil!) é tão bonita quanto a Mary Jane desenhada e J.K. Simmons traz à vida o avarento editor J.J. Jameson. O mais bacana é que o roteiro avança em relação aos quadrinhos, onde muita coisa não mostrada entre dois quadros é deixada para a imaginação do leitor; particularmente cativantes são as cenas de Parker aprendendo a lidar com seus super-poderes recém adquiridos. Tobey é a própria alegria juvenil, pulando entre os prédios de Nova Iorque, cidade desde sempre cenário, coadjuvante até, de suas histórias.
a tão falada cena da camiseta molhada
Há alguns senões, a maior parte deles causada pelas exigências de realismo no telão. Buscam-se desnecessariamente explicações pseudo-científicas, como o DNA da aranha se misturando ao humano... Inclusive, esse seria o argumento central para a maneira como a teia aparece: nos quadrinhos, o adolescente Peter inventa um dispositivo de pulso que a sintetiza e dispara; como os roteiristas acharam que seria absurdo um jovem, mesmo que gênio, criar tal dispositivo, optaram pela solução orgânica: a teia seria sintetizada pelo seu próprio corpo e ejetada por uma posição particular do pulso. Só não acharam absurdo que o diretor presidente de um laboratório resolvesse testar em si mesmo um invento ainda em fase beta, com riscos... O Duende Verde, com uniforme de robocop e risada de monstro de parque de diversões também causa estranhamento, particularmente pela interpretação grandiloqüente de Willem Dafoe. Não precisava. Não é por se tratar de uma adaptação de um super-herói para o cinema que as coisas precisam ser caricaturais... Vai ter até gente reclamando que a computação gráfica que fez o personagem se balançar pelas ruas também retocou a fachada e os telhados dos prédios de Nova Iorque, deixando-a mais bonita (mesma acusação feita a Montmartre, em Amelie) do que é, nada mais que um afago ainda na conta do 11 de setembro.

E se você não gostar das cenas de ação, achar que o uniforme ficou feio na tela, não conseguir encontrar a cena em que o Stan Lee faz figuração, não se impressionar nem com a cena da Mary Jane de camiseta molhada, nem com a do Duende Verde cantando o Homem-Aranha para o lado negro; não perceber as alfinetadas aplicadas à concorrente DC Comics, não entender a sutileza que há quando na Mary Jane chamar o aracnídeo de "amazing", não se preocupe, tenho certeza que também não vai entender o corretíssimo final.

Rafael Lima
Rio de Janeiro, 21/5/2002

 

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