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Quinta-feira, 20/6/2002
Uma pirueta, duas piruetas, bravo, bravo!
Adriana Baggio

Era uma vez um médico da corte, que queria que seu filho também fosse médico. Mas esse filho apaixonou-se por uma acrobata de circo e abandonou o prestígio e a glória do convívio com reis e rainhas para fundar seu próprio circo. Ele teve uma filha, que se casou com o clown, e eles tiveram um filho e uma filha. O filho casou-se com a estrela do cabaré, e eles tiveram uma filha, que queria entrar para o convento, mas o pai não deixou. Ela então tatuou a Via Sacra em seu ventre, e seu marido não teve mais desejo por ela. Mas outro homem, ateu, violou a mulher tatuada, e depois morreu. Do estupro nasceram duas gêmeas, puras e virgens, que de tão boas e de alma tão leve dançam, não, flutuam, e deslocam os membros, como se não fossem delas...

Essa é a história que, 20 anos depois da estréia, O Grande Circo Místico volta para contar. O roteiro original de Naum Alves de Souza, baseado no poema de Jorge de Lima, com músicas de Chico Buarque e Edu Lobo, tem origem na verdadeira história do Circo Knie da Áustria, cuja dinastia preserva até hoje as tradições da arte dos saltimbancos. O Grande Circo Místico foi criado especialmente para o Balé Teatro Guaíra, de Curitiba, em 1982. Foi um dos grandes momentos da companhia. E eu estava lá, naquele início da década de 80. Tinha 8 anos, e não dormi, ao contrário do que aconteceu durante o Lago dos Cisnes, que eu vi mais ou menos na mesma época.

Apesar de não lembrar de muita coisa, a magia do espetáculo ficou para sempre. Mas de um detalhe eu recordo bem: ganhamos um botton, com um desenho estilizado de um circo, que guardei por muito tempo, mas que acabou se perdendo. Enfim, a imagem mais nítida que eu tenho da montagem de 1982 é estática. A possibilidade de rever O Grande Circo Místico envolvia mais do que uma oportunidade estética, de lazer ou sei lá o quê. Era a chance de reviver um pedaço da minha infância, de um dia que foi especial para mim, do qual não consigo lembrar das imagens, mas resgato, sem nenhuma dificuldade, os sentimentos que me envolveram naquela época. Quantas pessoas têm a oportunidade de reviver os melhores momentos de suas vidas?

O espetáculo já começava fora do teatro. Artistas faziam estripulias na rua que separa o Guaíra da Praça Santos Andrade. As pessoas que, normalmente, nesta hora, estão voltando para casa entediadas, desiludidas e cansadas, puderam tirar uma casquinha da beleza do espetáculo no caminho entre o trabalho e um desolador ponto de ônibus. A promessa de uma noite mágica transparecia através dos vidros do teatro. As pretensas suntuosas escadarias do teatro, nas quais muitos longos e saltos já se enroscaram, estavam todas enfeitadas com coloridas e prosaicas bexigas. Chegando no saguão, fantasticamente iluminado e decorado, percebi que não era apenas eu que tinha a oportunidade de reviver uma época mágica e feliz. O dia da estréia reuniu pessoas que eram ligadas ao Teatro Guaíra 20 anos atrás. Pessoal da parte administrativa, atores, bailarinos, famosos e anônimos, alguns ainda na classe artística, outros que saíram dessa vida, políticos e vips. Me senti menina novamente, sendo apresentada para senhores e senhoras que me chamavam de bonitinha, que arrulhavam exclamações do tipo "como cresceu!". Só faltou mesmo apertarem minhas bochechas. Sem saída, desisti da pose adulta-culta-e-madura e assumi a volta no tempo. Eu era criança novamente, e podia me encantar com o espetáculo sem ter que parecer crítica, exigente ou enfastiada.

E encantamento é o mínimo que a gente sente vendo a nova montagem d´O Grande Circo Místico. A coreografia é de autoria do argentino Luis Arrieta. Segundo me disseram, é completamente diferente da versão de 1982. O coreógrafo inovou. Passos que lembram o balé clássico se misturam com dança moderna, acrobacias, balé aéreo (com um dedo de Dani Lima) e recursos avançados, como partes do palco que sobem ou descem. Um movimento recorrente na coreografia me deixou hipnotizada. Os bailarinos mexem o pescoço e depois o quadril, como se o corpo fosse uma rosca, um saca-rolhas. Que angústia tentar explicar um movimento com essa ferramenta tão estática que é a palavra!

Os cenários são móveis, e os bailarinos interagem com barras, plataformas e faixas coloridas que descem das alturas do palco, como se esses pedaços de ferro, tecido e madeira fizessem parte do corpo de baile. Os figurinos às vezes são coloridos, às vezes neutros, mas são fundamentais para contar a história. Alguns são brilhantes como fantasia de escola de samba, outros parecem a própria pele dos bailarinos.

A música é uma atração à parte. O Grande Circo Místico talvez seja mais famoso pelas composições do que pelo espetáculo em si. Muita gente fungou na hora de "Beatriz", na voz de Milton Nascimento, no momento em que o filho do médico conhece a acrobata do circo. Outro momento marcante é a descrição das bailarinas, aquelas que não têm pereba nem chulé, com "Ciranda da Bailarina". Mas a música mais legal é a "História de Lily Braun", na voz de Gal Costa, que conta a decepção da moça do cabaré com o casamento.

Como em um picadeiro, acontece tanta coisa ao mesmo tempo que a gente não sabe direito para onde olhar. Seria preciso assistir o espetáculo duas, três, quatro vezes, para não perder nenhum detalhe. Para aproveitar tudo que O Grande Circo oferece, o ideal é conseguir o programa antes do espetáculo. Essa foi uma das poucas falhas que percebi no evento. O material só esteve disponível para o público no intervalo. Uma pena, porque além de informações importantes para a compreensão da montagem, o programa também é graficamente belíssimo. E para não soar muito ufanista, sou obrigada a dizer que o balé do Teatro Guaíra apresentou uma pequena deficiência técnica. Às vezes os bailarinos não conseguiam suportar com o devido equilíbrio algumas posições mais exigentes. Nada que prejudique a beleza do espetáculo. Talvez seja um aspecto que precise ser melhorado, talvez seja apenas o nervosismo na estréia. E para encerrar a sessão defeitos, uma última crítica: o Teatro Guaíra não está preparado para receber o grande público com vontade de fazer xixi. O banheiro feminino ficou lotado durante todo o intervalo, e até a primeira-dama do estado teve que enfrentar a fila. Nessas horas, todo mundo é igual...

Noite de estréia pede uma recepção para os convidados após a apresentação. E já que o espetáculo era de circo, o saguão do teatro foi transformado em algo próximo a uma quermesse de igreja. Garçons passavam com refrigerantes e taças de ponche saindo fumacinha. Para comer, maçãs-do-amor, pipoca, algodão, sanduichinhos e pirulitos coloridos. A noite terminou da mesma maneira que começou: alegre e nostálgica, como tudo que se relaciona com o circo. Não era meia-noite, minha fantasia infantil ainda não tinha virado abóbora. Antes de sair, peguei um pirulito, uma maçã-do-amor, uma bexiga amarela e pipoca. Sem poder lidar com tudo aquilo com apenas duas mãos, fiz como toda criança: dei a maior parte para meu pai segurar e me atraquei na pipoca com saquinho estampado de palhacinhos.

Depois da estréia em Curitiba, O Grande Circo Místico segue em turnê pelo Brasil.

São Paulo - 21 a 23 de junho - Teatro Alfa
Rio de Janeiro - 27 a 29 de junho e 4 a 6 de julho - Teatro Odylo Costa Filho
Recife - 12 e 13 de julho - Teatro Guararapes
Salvador - 19 a 21 de julho - Teatro Castro Alves
Brasília - 26 a 28 de julho - Teatro Nacional
Belo Horizonte - 3 e 4 de agosto - Palácio das Artes

Adriana Baggio
Curitiba, 20/6/2002

 

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