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Segunda-feira, 12/8/2002
Demorou
Eduardo Carvalho

Paulo Coelho disfarçado de Homem Aranha hippie

Dizem que, agora, com a eleição de Paulo Coelho para a Academia Brasileira de Letras, a história da ABL será dividida, por conveniência didática, em duas fases: APC e DPC. Quer dizer: a primeira, desde sua fundação, em 1896, até meados do ano corrente, 2002, denominada Antes de Paulo Coelho; e a segunda, que, depois do ingresso de Paulo Coelho, representa a decadência da Literatura Brasileira, intitulada, obviamente, Depois de Paulo Coelho.

A mim, no entanto, parece perfeitamente natural que a Academia Brasileira de Letras, sem se preocupar em preservar a suposta seriedade da Instituição, tenha aceitado Paulo Coelho como seu membro. Porque não há nada mais a preservar - já estão lá, entre outros, José Sarney, Roberto Marinho, Zélia Gattai e Ivo Pitanguy. A qualidade da obra de Paulo Coelho não é, de forma alguma, inferior à de muita gente que já freqüenta a Casa.

Sua conduta profissional também não é, sob nenhum aspecto, condenável. Seu método consiste em simplificar histórias consagradas, que oferecem ao leitor - normalmente inculto e ingênuo - exatamente o conforto psicológico que ele precisa. Paulo Coelho não é desonesto com seus leitores nem é nocivo à Literatura. Ao contrário: ele não propõe nenhuma teoria definitiva, literária ou filosófica; e, de quebra, as vendas dos seus livros movimentam o mercado editorial e permitem, indiretamente, a publicação de autores menos vendidos.

É preciso, porém, esclarecer: não é Paulo Coelho o principal responsável pelo seu próprio sucesso: são as 40 milhões de pessoas que, em 120 países do mundo, compraram os seus livros. Em uma livraria média há, pelo menos, uns 10 mil títulos disponíveis. Mesmo na pior delas, e mesmo que seja na pior das edições, é possível encontrar clássicos indispensáveis, que não são, muitas vezes, nem difíceis nem chatos. Se alguém, sem sofrer qualquer espécie de pressão, decide gastar R$ 25,00 em O Alquimista ou em Nas margens do rio Piedra eu sentei e chorei, então essa pessoa também merece, por tabela, todos os adjetivos depreciativos que são dedicados ao escritor.

Mas onde estão essas pessoas? Eu, pelo menos, ouço pouquíssima gente confessar que admira Paulo Coelho. Elas sumiram, de repente, assustadas com a constante avacalhação, em cadernos literários pretensiosamente sérios, de seu guru. Assumir que gosta de Paulo Coelho pega mal, inclusive entre pessoas que se sentem protegidas por tijolos ocos importados, de Danielle Steel a John Grisham. Pelos ambientes menos educados que freqüento, escuto gente que, sem sequer ter lido um livro de Machado de Assis, insiste em que é um absurdo que Paulo Coelho pertença à mesma instituição que Machado fundou. Um absurdo é, na verdade, a arrogância de quem - sem sequer saber o que é literatura superior à de Paulo Coelho - condena a sua obra.

Escritores medíocres sempre existiram, e muitos deles fizeram sucesso. Com o tempo, aparecem e desaparecem, mas, à medida que analfabetos aprendem a ler, a tendência é que surjam ainda mais. Esse é um fenômeno irreversível e inofensivo. Com o qual, aliás, os leitores de verdade estão completamente despreocupados - enquanto os de mentirinha, que posavam de inteligentes com Veronika decide morrer em punho, fingem estar assustados. Os maiores detratores de Paulo Coelho hoje são, na verdade, do mesmo nível dos seus mais fiéis leitores - se é que não são, como parece, os mesmos 40 milhões que compraram os seus livros.

Pode ser que exista - e, de fato, existe - escritores que mereçam, mais do que Paulo Coelho, reconhecimento oficial pela sua obra, como Ferreira Gullar ou Bruno Tolentino, mas é uma babaquice enorme cobrar isso de uma Academia que prefere homenagear cirurgião plástico, político incompetente, e até quem jamais, como Roberto Marinho, escreveu um único livro. Se, em sua intenção original, a ABL pretendia também aceitar membros que, apesar de não serem própria ou profissionalmente escritores, representassem com eminência a cultura nacional em outras áreas, então Pelé mereceria, sem dúvida, comer os bolinhos de Nélida Piñon. Reclamar dos eleitos para a ABL é tão infantil quanto achar injusta premiações como o Oscar ou o Nobel, sem considerar as intenções e orientações dos jurados - só fica indignado quem achava que, na era APC, a Academia preferia os melhores escritores. Ou seja: quem não entende absolutamente nada de literatura.

A Academia Brasileira de Letras não é a Seleção Brasileira de Futebol. Seus integrantes não são, nunca foram e não precisam ser os melhores escritores brasileiros vivos. E nem todos os brasileiros vivos precisam opinar, com irresponsável autoridade, sobre os seus integrantes. Paulo Coelho fez tudo direitinho: beijou as mãos - e, em alguns casos, dizem, até algo mais - das pessoas certas. Escreveu uma dezena de coisas que, tecnicamente, podem ser com facilidade consideradas livros. Seu ingresso para a Academia, portanto, se é injusto por algum motivo, não o é pelo fato de ele ter sido aceito, senão pelo momento em que foi. Demorou.

Eduardo Carvalho
São Paulo, 12/8/2002

 

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