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Segunda-feira, 23/9/2002
Cuentos da Espanha
Marcelo Barbão

A Espanha demorou 40 anos para voltar a ter um governo democrático. A ditadura do Generalíssimo Franco só terminou com sua morte em 1975. Com o apoio ferrenho da Igreja Católica, Franco transformou a Espanha num dos países mais pobres e atrasados da Europa, as mulheres tinham poucos direitos políticos, a burocracia ditatorial era pior que a brasileira, além de ser um dos mais isolados da Europa ocidental.

Com o retorno da monarquia no ano da morte do caudilho, o país começa um processo importante de reconstrução. Junto com Portugal, que havia passado pela Revolução dos Cravos um ano antes, 1974, a salvação econômica e social passa pela entrada na União Européia na década seguinte (Portugal e Espanha entraram em 1986). O fluxo de dinheiro transformou os dois países de forma contundente.

E na literatura esse período é marcado pela mesma mudança em termos de temas e de linguagem. É isso que podemos ver na coletânea Son Cuentos - Antología del Relato Breve Español (1975-93), organizada por Fernando Valls, crítico literário e professor da Universidade de Barcelona, e lançada pela Editorial Espasa de Madri.

Com a seleção feita é possível entender todo o processo de renascimento do conto espanhol, após as difíceis décadas de ditadura. Mas não só de problemas políticos vive o conto espanhol. Como escreveu o crítico Jorge Campos em 1973, "o conto ainda é tratado como um ser menor da flora literária" (e isso lembra imensamente a situação brasileira). Aos poucos, porém, ele começa a ganhar espaço nas revistas literárias espanholas e a ser publicado pelas editoras. E esta coletânea tem sua parcela de responsabilidade neste renascimento.

É possível reparar em duas 'tendências' (entre aspas porque qualquer forma de análise que parte de uma coletânea, onde há uma obra de cada autor, é absolutamente, por sua própria natureza, superficial) entre os contos que compõem o livro. Encontramos uma série de contistas realistas, onde impera uma visão um pouco entristecida e melancólica do mundo, de um lado. Do outro, com uma influência latina, alguns escritores partem para uma descrição menos rigorosa da realidade, mais voltada para o fantástico e para os experimentalismos na língua e na lógica. Poucos contos usam a graça e o humor, uma característica a ser notada e, talvez, melhor estudada.

Mas, por todos os contos, alguns mais e outros menos, podemos encontrar a influência de um dos principais escritores da língua espanhola, o argentino Julio Cortázar. Que, além de escrever, também teorizou (e foi um dos poucos) sobre este estilo literário.

E esta influência já pode ser sentida logo no conto de José María Merino, Imposibilidad de la Memoria, onde a relação entre pessoa e casa lembra fortemente Casa Tomada, um dos contos mais conhecidos de Cortázar. Mas, Merino consegue criar uma identidade própria e desenvolver uma trama complexa onde o desaparecimento intelectual e vivencial, unem-se ao desaparecimento físico.

Juan Pedro Aparício, em Santa Bárbara Bendita, trata do tema das ilusões políticas. Com um simples conto ele mostra um hábito bastante comum entre a militância política de esquerda: o endeusamento da classe trabalhadora. Através de uma janela fechada, dois estudantes escutam os barulhos dos mineiros indo para o trabalho. Esta é a relação deles com a revolução que se aproxima e, através dessa janela fechada, seus pensamentos e desejos se renovam escutando os barulhos dos trabalhadores. Até que um deles resolve olhar pela janela.

Outro fator importante nesta antologia é o ressurgimento da mulher escritora depois dos anos de política franquista que queria educar a mulher para "o lar". Entre as melhores que o livro apresenta está Marina Mayoral que, com o conto, A través del tabique, cria uma pequena e bonita crônica onde as vozes passam através das janelas de apartamentos contíguos e os personagens não aparecem mas somente se infiltram pela cabeça da narradora.

Manuel Longares em Livingstone cria uma sufocante história de amor que, seguindo a tradição, acaba numa tragédia gerada pela desilusão e pelo abandono. Com uma narrativa claustrofóbica, o horror toma um sentido ainda mais profundo.

E a mesma narrativa violenta e com temas problemáticos podem ser encontrados em outros dois autores: Enrique Murillo e Cristina Fernández Cubas. Murillo, em Elogio del transporte público, mostra o prazer se apoderando da vontade humana até chegar a ponto de ser tornar vício. Depois disso, vale tudo para sentir prazer. Cubas, por sua vez, escreve o conto mais estranho da antologia. Em La ventana del jardín, a autora cria uma estranha relação entre um menino doente, sua família isolada do resto da sociedade e um visitante inesperado. Usando recursos de histórias de suspense e com um pé muito explícito em Poe (referência para outros contistas, também), Cubas consegue reconstruir os climas típicos do autor de O Corvo.

Alguns outros autores, como Juan José Millás resvalam na comicidade mas de forma bastante superficial. Em Simetría, Millás usa recursos cortazarianos para contar uma história de perseguição e loucura.

O tema do "reaparecimento"da mulher como sujeito social também pode ser visto em contos escritos por homens. Enrique Vila-Matas, no conto Rosa Schwarzer vuelve a la vida, mostra uma mulher de meia idade questionando sua rotina, sua família e seu amor. Apesar do tom pessimista que pode ser visto durante toda história, o final é destoante, podendo ser considerado a defesa da aceitação do papel submisso e sofredor (numa visão até mesmo católica) da mulher na sociedade. Ou, por outro lado, quis mostrar um lado mais otimista ao evitar o suicídio (e conseqüente fuga) da personagem.

Entre os poucos contos que podem ser considerados engraçados, está o El millar de destinos de Ernesto Imizcoz de José Antonio Millán, onde a vingança é o tema principal. Em Duncan de Javier García Sánchez, El ángel custodio de visitación montera de José Ferrer-Bermejo e Final absurdo de Laura Freixas, o realismo fantástico volta a aparecer de forma magnífica.

Antonio Muñoz Molina e seu conto La poseída é o ponto mais alto desta antologia. O autor cria uma história de trágico amor entre um escriturário e uma estudante, sem que nenhuma palavra seja trocada entre eles. Marino trabalha num escritório com horários fixos. Todos os dias, apenas meia-hora para seu café da manhã, sempre no mesmo bar e sempre o mesmo menu. A estudante sempre à espera do homem mais velho e casado pelo qual se apaixonou. Nem repara em Marino que, de tanto observar, começa a odiar o homem casado e se apaixona pela estudante sofrida. Um estranho triângulo amoroso. Ao final, vence a burocracia e os rígidos horários de trabalho.

Não é preciso dizer que, por falta de tradução, os leitores brasileiros não têm contato com a excelente literatura hispano-americana que é feita na atualidade (da mesma forma, muitos clássicos não foram lançados por aqui). E o melhor é que, apesar do dólar, muitos livros importados têm o mesmo preço ou são até mais baratos do que os nacionais. Vale a pena investir um pouco para conhecer o que fazem nossos vizinhos de língua.

Para ir além
Son cuentos - Antología del relato breve español, 1975-93
Fernando Valls (org.)
Colección Austral - Espasa

Marcelo Barbão
São Paulo, 23/9/2002

 

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