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Quarta-feira, 25/9/2002
A crise do patriarcalismo e a ascensão da mulher
Héber Sales

País de uma sociedade patriarcal forjada nas casas grandes e senzalas como descreveu Gilberto Freyre, da sociedade semi-tradicional como define Roberto da Matta, estará o Brasil vivendo uma crise do patriarcalismo?

Consultando-se as estatísticas sobre arranjos domiciliares, pensa-se que sim. Primeiro, verifica-se que cresce o número de domicílios chefiados por mulheres. A tendência foi forte nos anos 1990. A proporção de domicílios chefiados por mulheres passou dos 18,1% apurados em 1991 para 24,9% em 2000, um aumento de 37,5%. Incluem-se aí o universo das mulheres sozinhas, jovens ou não, divorciadas, viúvas ou solteiras, sem filhos, um contingente que cresce bastante. Em alguns casos, esse domicílio unipessoal feminino resulta da maior instabilidade dos casamentos, do mercado matrimonial desfavorável a mulher mais madura, da longevidade das mulheres (especialmente nas regiões sul e sudeste) e da migração de jovens mulheres do interior para as metrópoles em busca de melhores oportunidades de trabalho (fenômeno notável em Salvador, por exemplo).

Se os números não mentem, admitamos por enquanto que o patriarcalismo brasileiro está em crise. Famílias chefiadas por homens é um arranjo que diminui com os anos, e novos esquemas domiciliares são cada vez mais observados. Temos então um fator que pode redefinir a intimidade da nossa sociedade. Porém isso não é tudo. É preciso observar qualitativamente essas famílias matriarcais e essas moradoras solitárias, e, especificamente, analisar até que ponto elas são realmente portadoras de novos valores e condutas que transformariam a intimidade do brasileiro.

De saída, observa-se que grande parte das mulheres torna-se chefe de família mais por contingência do que por opção. São mulheres abandonadas por seus maridos, viúvas e que migram do interior para as grandes cidades em à procura de um emprego, de uma profissão. Em Salvador, por exemplo, encontra-se muitas jovens mulheres de classe média, ainda solteiras, que vieram do interior para estudar e fazer carreira. Conheço várias dessas moças de que estão ganhando seu dinheiro, num começo de carreira promissor, e que, ao mesmo tempo, ainda sonham com um príncipe encantado. É verdade que praticamente todas elas não podem mais ser chamadas de moças no sentido consagrado pela tradição, pois têm uma vida sexualmente ativa. Vivem-na no entanto de uma maneira no mínimo contraditória, cercadas por culpas, medos e cuidados com a imagem pública, afinal um príncipe encantado prefere as virgens, ou, na falta destas, as mais inocentes e discretas sexualmente. E esse padrão parece aplicar-se também a muitas jovens de seus 20 anos que cresceram na metrópole, hoje a terceira do Brasil, assim como a mulheres divorciadas. Aquelas são universitárias ou recém bachareladas, com acesso a mídia global, alto nível de informação sobre sexualidade; estas são profissionais bem estabelecidas que chefiam sua casa; ambas porém preservam-se para um bom casamento (o primeiro ou um seguinte). Ora, essa submissão do desejo feminino às exigências masculinas é muito mais típico de uma sociedade patriarcal, onde o homem, e não a mulher, controla (formalmente) a fecundidade e a sexualidade femininas.

Tais contradições que emergem de uma reflexão mais detida parecem reafirmar a marca de uma sociedade fundada numa tríplice ética, a ética da casa, a ética da rua e a ética do outro como descreve o antropólogo Roberto Da Matta em seu livro A Casa e a Rua. Neste livro, o autor afirma que o espaço da casa (ou da intimidade) parece imune às transformações do universo político e da rua (ou da lei). Qualquer semelhança com a situação que descrevemos não deve ser mera coincidência.

Porém tais evidências não esgotam nossa análise. Há mais aspectos reais a dissecar. Assim deve-se atentar para o fato de que a condição econômica da mulher sozinha ou chefe de família é, na maior parte das vezes, precária. A desigualdade econômica e a discriminação no emprego determinam tal estado de coisas. A maioria dessas mulheres é pobre como o é a maioria dos brasileiros, e com um agravante: têm mais dificuldade para encontrar um emprego formal. Já aquela minoria de classes média e alta bem empregadas, ganha menos do que os homens para desempenhar função similar.

Diante de tais discriminações sexuais, sociais e econômicas, o que faz, como reage a mulher brasileira? Debilmente, muito debilmente se comparadas às suas colegas norte-americanas e européias. Ao contrário do que acontece nesses países, o movimento social feminista não decola no Brasil. Há uma minoria organizada e ruidosa, mas que não consegue mobilizar as demais mulheres num esforço mais sistemático e abrangente de mudança. Analisemos alguns casos.

Antes que me patrulhem, aviso que não se trata de absorver sumariamente a governadora Roseana Sarney, mas como as mulheres reagiram à ofensiva política de que foi vítima a primeira mulher com reais condições de vencer uma eleição presidencial no Brasil? Quem viu na grande mídia alguma mobilização nesse sentido por parte dos movimentos feministas? Eu não vi, e olha que leio a seção de política da Folha de São Paulo e do Globo quase todos os dias. A hipótese lançada por Roseana de que estaria sendo vítima também de machismo não parece ter encontrado eco entre as feministas de plantão (talvez por estarem vinculadas à organizações políticas de esquerda que antagonizam o partido da ex-candidata a presidente...). Nem sequer li ou ouvi tais líderes feministas debaterem o assunto em público. Será que os interesses políticos de partidos ainda controlados pelos homens estão acima da luta feminista?

Um segundo e último caso intriga-me. Sou professor e pesquisador na área de administração e convivo com acadêmicas competentíssimas mas quase que totalmente alheias ao movimento feminista. Alguém aí pode lembrar que há muitas feministas em outras áreas do conhecimento científico, particularmente no seio das ciências sociais tradicionais. E é verdade. Certo, mas pergunto-lhes: essas mulheres são a maioria das que atuam no ramo? Se sim, tudo bem, temos um foco de resistência, mas muito pequeno e isolado em relação à outras carreiras.

Mas, para não dizer que não falei de flores, devo admitir e relatar que as mulheres progridem. Nos bancos das minhas salas de aula na Faculdade Adventista da Bahia, localizada em Cachoeira, Recôncavo Baiano, as mulheres já ocupam quase 50% do espaço. Nas turmas de mestrado em administração da Universidade Federal da Bahia, as mulheres representam pelo menos 40% dos assistentes. Nestas eleições presidenciais, uma mulher é candidata a vice-presidente, a Rita Camata. Este fato é representativo de um fenômeno mais amplo: a participação da mulher na política vem crescendo a reboque da lei de 1996 que impôs cotas e mulheres candidatas aos partidos. Desde 1994, dobrou o número de mulheres que disputam uma vaga na Câmara dos Deputados ou nas Assembléias Legislativas Estaduais. Nestas eleições de 6 de outubro, um número recorde de 40 mulheres concorrem ao senado, e 19 candidatas concorrem ao posto de governadora de estado - 4 delas no Rio de Janeiro, que assiste a uma verdadeira campanha cor de rosa.

Também devo reconhecer que no seio das famílias as mulheres têm hoje muito mais poder de decisão do que no passado. Mais informadas, instruídas do que no passado, a maioria empregada, sua participação na renda familiar parece dar maior poder de influência à sua voz na esfera doméstica. O mercado, que não perde oportunidade de aumentar suas vendas e lucros, vêm tratando de se adequar a essa tendência adaptando os produtos de uso comum e a sua promoção às necessidades, desejos e hábitos das mulheres. As montadoras de automóveis por exemplo tratam de cuidar do design e da ergonomia de olho nas exigências e preferências das mulheres.

E todos esses avanços parecem acontecer sem grandes traumas e cisões. As feministas brasileiras, lésbicas ou não, continuam femininas na sua maioria, e dispostas a construir pontes entre os três sexos no seu fazer cotidiano. Esse tom cordial das brasileiras que se emancipam é bastante coerente com o caráter conciliatório e mestiço da nossa sociedade (salve Sérgio Buarque de Holanda!), que é traço distintivo da nossa identidade cultural frente as demais nações.

Héber Sales
Salvador, 25/9/2002

 

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