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Terça-feira, 15/10/2002
Quinquilharias musicais custam os olhos da cara
Waldemar Pavan

Uma nova e muito cara moda está prestes a se legitimar como tendência pelas indústrias multinacionais da música: o relançamento de catálogo (discos antigos que, em algum tempo no passado, foram objeto de notoriedade pública e que hoje são alvo de cobiça dos fissurados em música).

O consumidor regular de discos que há muito tempo percebeu na estante da loja essa tendência ― através do lançamento de sucessivas coletâneas empacotadas sob os titulos: "O Melhor de" ou "The Best Of" ― de imediato julgará que esse assunto também é coisa do passado.

É quase isso: os relançamentos de discos no formato CD daqui por diante apresentarão um diferencial importante. Ao invés de adquirir as mesmas coletâneas exaustivamente maquiadas sob vários títulos, você terá a oportunidade de adquirir os LPs originais remasterizados e formatados para a midia CD.

Na realidade, essa "nova tendência" já se verifica há algum tempo, apresentando-se para venda no formato caixa (Noel Rosa, Gilberto Gil, Elis Regina, Dorival Caymmi, Vinicius de Moraes, Chico Buarque e Nara Leão) ou no formato individual (Jorge Ben, Gal Costa, Roberto Carlos, Ivan Lins, Angela Ro Ro, Zizi Possi, Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil).

Bastante alicerçada no anseio do povo brasileiro "de resgatar e preservar a nossa recente cultura", a indústria multinacional do disco, detentora do catálogo de todos os artistas citados, vai sobreviver ainda por muitos anos no Brasil da venda exaustiva de catálogo. Em suma: vai ganhar um baita dinheirão com investimento há muito amortizado (manja aquela definição: do boi aproveita-se inclusive o berro)?

Se por um lado o relançamento do antigo LP para o formato CD remasterizado satisfaz plenamente ao anseio do consumidor, por outro lado a concorrência aos novos talentos musicais é muito desleal. Ao adquirir esses relançamentos, corremos o risco de desperdiçar o investimento em toda uma brilhante geração de autores, músicos e interprétes em detrimento de uma gente que já ficou no passado.

Entre escolher um LP relançado no formato CD ― onde você já conhece e aprecia o conteúdo ― e um disco lançado recentemente ― do qual voce não tem nenhuma referência ―, a tendência de aquisição vai pender para o conhecido relançamento.

Quando você adquirir um relançamento de uma multinacional, estará desprestigiando toda a atual e enxuta indústria brasileira de CDs ― que é constituida de aproximadamente 500 gravadoras (o motor do financiamento e divulgação de novos talentos brasileiros).

As multinacionais do disco cessaram seus investimentos no Brasil e no mundo. Realizar faturamento em cima de catálogo, portanto, já é uma constante. No presente, nossas valentes gravadoras nacionais são as únicas a investir (sozinhas) em todo o processo de produção: desde o estúdio de gravação até a colocação do CD na loja, passando também pela fabricação, pelas fotos de encarte, pelo marketing, etc. ― e sem a grana da matriz para bancar o "jabá".

Já a multinacional, quando relança catálogo, arca somente com os custos de remasterização, fabricação fisica do CD, e reprodução de capa e encarte, dispensando os custos com estúdio, músicos, marketing, fotos de capa e contracapa (o que em tese deveria baratear o preço do CD, mas, não...).

Infelizmente, não é o que vem acontecendo. Quando a tendência de relançamento ainda não havia se consolidado para as multinacionais, você encontrava CDs relançados com preços variando entre R$ 10 e R$ 12.

A BMG, detentora do catálogo RCA, relançou uma série de LPs no formato CD (na comemoração dos 100 anos de sua existência), cujo preço médio praticado era de R$ 12. Essa mesma BMG acaba de relançar três discos de Sérgio Mendes ao preço médio de R$ 24 cada um (o dobro do valor da série 100 Anos; algo que explica tamanha diferença de preços, sendo que ainda estão disponíveis em banca os relançamentos a R$12...).

Outra multinacional do disco, a Warner, relançou no ano passado, a série Dois Momentos, que reunia dois álbuns em um único CD (Paulinho da Viola, Tom Zé, Carlos Dafé, Branca Di Neve, A Cor do Som, Walter Franco, Belchior, Novos Baianos e outros) por preços que variam entre R$ 16 e R$ 18; ou seja, na ponta do lápis, entre R$ 8 e R$ 9 por disco.

Este ano, a mesma Warner já aposentou a política do 2 em 1 quando relançou dois LPs de Maria Alcina no formato CD. Preço por unidade: R$18; ou seja, o dobro do praticado na série Dois Momentos, onde você (por esse mesmo preço) comprava dois discos inteiros em um único CD.

Na mesma embarcação de dois LPs em um CD, vinha a EMI com sua série "Dois Em Um" (que custa, em média, R$ 10). Agora, no relançamento de 45 discos do catálogo Odeon, o preço médio ao consumidor é de R$ 18 (por um só disco que tem, em média, 30 minutos de duração!).

A própria EMI é dona de disparate idêntico: simultaneamente, a coleção Odeon relançou todos os discos de Paulinho da Viola e Gonzaguinha com preço médio de R$12 (contra os R$18 da série Odeon; dá pra entender?).

Portanto, a BMG aumentou o preço de seus relançamentos em 100% e a Warner, idem. Extinguindo sua série Dois Momentos, causou um aumento real de 100% para seu catalogo; já a EMI, quase quadriplicou seus preços (enquanto você pagava R$ 10 por sua série "Dois Em Um", hoje paga R$ 18 por um único disco).

Já estava me esquecendo da Sony, que também fez relançamento inicial de catálogo remasterizado a R$ 10, e há pouco relançou todos os discos de Djavan ao preço médio de R$ 24 (aumento de 140% sobre o preço inicial de catálogo).

Eu passei a perceber essas distorções de preços quando comecei a adquirir os volumes da série "Odeon - 100 Anos de Música no Brasil" (sobre os quais eu escreveria hoje nesta coluna. Mudei geral o plano, não vou promover relançamentos que arregaçam com o bolso do consumidor).

Para completar minha indignação, li no USA Today uma matéria de David Lieberman onde o diretor da divisão musical da RCA (USA) afirma:

"Estamos todos desesperados para gerar receitas e conter a recessão que atinge o setor", diz o diretor da divisão musical da RCA, Bob Jamieson. "O movimento de queda está se desacelerando. Mas ainda estamos abaixo dos índices do ano passado. Trata-se de uma crise. E os catálogos viáveis [termo da indústria para os antigos sucessos que estão em estoque] já foram testados e funcionam".

Ou seja: pagamos para eles testarem nossa aderência a relançamentos; resultado "positivado", mãos à obra! Realizaram lucro máximo com investimento minimo. E para quem sobrou o superfaturamento do desespero? (Preciso responder?)

Hoje, as gravadoras brasileiras ― as únicas que estão financiando a nova geração de talentos musicais ―, além de bancar todos os custos da produção, ainda conseguem colocar seu produto final nas bancas, nunca com menos de 50 minutos de duração, pelo preço médio de R$ 15; enquanto que as multinacionais cobram em média R$ 20 por um disco que teve seu ápice ― e todos os seus custos amortizados ― num passado longíquo, com média de 30 minutos de duração, tudo reciclado pela benção da remasterização.

Enquanto esta coluna durar, não darei dicas sobre relançamentos que não tenham os baixos custos de produção deduzidos do preço ao consumidor. Na matemática, não se explica como um produto de baixo custo de produção tenha preço final superior a outro que abarcou todos os custos decorrentes do processo. Adquiri parte dos 45 discos da série Odeon antes que tivesse a percepção desse fato. Daqui para frente, tudo vai ser diferente!

E, para piorar a situação de concorrência, as novas gravadoras brasileiras que investem sua grana limitada em novos talentos ainda não são donas de catálogos. As majors estão fazendo "carreira solo" nesse quesito; ou seja: deitando e rolando no mercado onde o único concorrente é o novo e desconhecido talento que surge nas independentes...

Mas ainda dá tempo para reverter essa situação: não compre catálogo por preço exorbitante; se o relançamento ultrapassar R$ 12, não compre. Não se esqueça que a sua grana não aceita desaforo. Além de não fomentar o desespero de caixa das grandes gravadoras, você ainda estará dando uma grande força ao artista que está iniciando a carreira. Bola preta para as multi do disco!

Waldemar Pavan
São Paulo, 15/10/2002

 

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