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Segunda-feira, 21/10/2002
Matrix, ou o camarada Buda
Alexandre Ramos

É muito raro eu conseguir ler ou ouvir alguma coisa que preste sobre a assim chamada "sabedoria oriental". Normalmente, aquilo que aparece não só não me convence como ainda consola das misérias deste nosso decadente Ocidente. Vejam a Índia, por exemplo. Tudo lá é sagrado: o rio Ganges, as vacas, os macacos que vivem nos templos, certas árvores, tudo é sagrado. Tudo, menos a vida humana. Há poucos anos (1) fiquei encantado com a sabedoria de uma aldeia que assassinou um casal de adolescentes que, pertencendo a castas diferentes, cometeram o abominável crime de se apaixonar. As respectivas famílias e vizinhos primeiro tentaram enforcar os jovens, mas como eles demoravam para morrer acenderam uma fogueira embaixo. Muito sábio.

Mas sábia mesmo, pra valer, é a China. Depois de ter obtido um relativo sucesso na destruição da cultura milenar do país, o governo comunista está agora dando o maior duro para controlar quaisquer manifestações religiosas.

A Igreja Católica Patriótica é um pastiche de cristianismo, que recusa a comunhão com o papa, com o próprio Jesus Cristo, e só diz amém mesmo a Pequim. Os bispos, padres e leigos que permanecem fiéis à comunhão católica são perseguidos, difamados, presos, torturados e mortos.

O que os chineses estão fazendo com o pobre do Tibete também não é brincadeira. Eles agora querem porque querem controlar os lamas que poderão, no futuro, identificar a criança que seria a próxima "reencarnação" de Buda e assim tornar-se o Dalai Lama, visto que o atual, exilado na Índia há 40 anos, é considerado um inimigo do Estado chinês, e eles querem alguém mais "leal". As "autoridades religiosas" chinesas chegam mesmo a dizer que, por sua falta de "patriotismo", o Dalai Lama pode perder a possibilidade de "reencarnar". Vai ser sábio assim na China.

Um filme interessante de ficcção com Keanu Reeves, Matrix, trata de um mundo dominado pelas máquinas, para as quais os humanos seriam fonte de energia. "Criados" em incubadoras, suas vidas - exatamente como as nossas - seriam apenas virtuais, induzidas em suas mentes a partir de um programa de computador. Um reduzido grupo de pessoas que escapou a essa dominação procura enfrentar as máquinas, invadindo o programa e tentando libertar os demais. Não falta aquele que prefere a doce ilusão às dificuldades e asperezas da "vida real", e não hesita em trair seus companheiros.

Ora, é exatamente isso que o socialismo apregoa. Para esses iluminados, nós somos vítimas de uma ideologia capitalista que não só nos escraviza como ainda faz com que pensemos que somos livres e acreditemos estar no melhor mundo possível, aceitando a desigualdade social e outros problemas como parte normal da vida, da natureza.

Eles então, os detentores absolutos da verdade, pretendem nos libertar dessa dominação e, de quebra - já que provamos nossa incompetência - fazer o favor de nos governar, ou melhor, nos dirigir. E para quem cai nessa "liberdade", a história está aí para provar, qualquer discordância dos "geniais guias dos povos" conduz diretamente - e isso na melhor das hipóteses - ao hospital psiquiátrico, aos campos de "reeducação", freqüentemente ao fuzilamento. Há quem diga, e, por incrível que pareça, a sério, que o socialismo, que "nunca foi posto em prática" (!), não pode ser responsabilizado pela morte de quase cem milhões de pessoas. Tá bom então.

O crítico Neal Gabler diz que Marx "sempre subestimou o sentimento das pessoas. Um de seus maiores enganos foi insistir em falar como elas realmente se sentiam, como se dissesse 'Você pensa que é feliz, mas eu sei melhor do que você; você não é realmente feliz'".

Entretanto, de todos esses iluminados (budas!) quem mais do que qualquer outro assumiu a onisciência divina e o pesado encargo de conhecer a verdade (2) e dela nos libertar para o que ele considera um mundo melhor foi o italiano Antonio Gramsci, a serviço do qual se encontram, no mais das vezes inconscientemente, uma considerável parcela de nossos artistas, intelectuais, jornalistas e mesmo religiosos, perto dos quais a mais histérica das fãs do padre Marcelo Rossi ganha uma consistência até então insuspeitada.

De qualquer modo, sempre se pode contar com a incompetência paralisante dessas autoproclamadas e autofestejadas elites intelectuais, que descobrem a pólvora justamente naquilo que anteontem deixou de ser moda na Europa ou nos Estados Unidos. Mas se nós acabarmos caindo na mão dessa gente, vai ser bem o caso de sairmos todos, de mãos dadas, cantando que "a gente não sabemos escolher presidente, a gente não sabemos tomar conta da gente. Inútil, a gente somos inútil".

Notas
(1) Aqui está uma mais recente: na noite do dia 16.6.2000, pelo menos 20 membros da comunidade de Yadav, de leiteiros (pertencentes às castas mais baixas da sociedade hindu), foram assassinados pelo Ranvir Sena, exército particular de latifundiários, num povoado do Estado de Bihar. E tome sabedoria oriental!

(2) "Verdade", aqui, num sentido muito próprio. Pois como ensina Bertolt Brecht, "para um comunista, a verdade e a mentira são apenas instrumentos, ambos igualmente úteis à prática da única virtude que conta, que é a de lutar pelo comunismo".

Alexandre Ramos
Teresópolis, 21/10/2002

 

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