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Sexta-feira, 7/2/2003
O Príncipe Maquiavel
Alessandro Silva

Senhoras e Senhores,

Estamos diante de mais uma tradução daquela obra de circunstância que tratou de distrair seu autor do tédio e do desespero durante algum tempo; uma obra sobre a qual não depositou muito, pela qual não esperava louros, e que se tornou por ironia do destino a mais famosa de suas composições: "O Príncipe", de Maquiavel.

A tradução de Roberto Grassi, se tomarmos como referencial a de Lívio Xavier ( Edição da coleção "Os Pensadores" ) iguala-se no rigor e leva a vantagem de um nariz pela linguagem ligeiramente mais moderna. Não obstante, não foi essa qualidade resultado de uma simplificação da obra, mas sim de uma obsessiva e resignada tentativa de aproximar-se ao máximo do texto original. E isso é louvável, pois as editoras estão sacando que a cultura impressiona, estão tentando popularizar tudo a qualquer preço; fazer de Schoppenhauer autor de gibis, enfiando uma melancia pelo buraco de uma agulha. Veja-se por exemplo "O Mundo de Sofia" que transformou nossos "meandros dialéticos" em literatura infantil; note-se en passant Harry Potter e a baboseira sagrada: ora, ora, a literatura infantil tomando o posto de Walter Scott ou Robert Louis Stevenson! Mas, senhores, sabemos como ficam as cópias tiradas no fax: ilegíveis e apagam-se com o tempo: as novas modas literárias não passam de cinco minutos na história da literatura. A filosofia das editoras é simples: se os homens não chegam ao topo da montanha, a montanha desce até eles. E assim vai crescendo a montanha de charlatanismo que engolimos diariamente: seja lendo as banalidades de uma revista chula como a "Veja", seja se informando com as baboseiras e gratuidades de Jô Soares. Chegamos a um ponto em que nos persignamos até mesmo diante da autoridade de um apresentador de TV!

Por favor não repliquem: "não confunda as coisas!", "cada macaco no seu galho". Certo: o galho do Caetano é entretenimento, mas se assim nos enganamos é apenas para poder gozar melhor aquilo que acreditamos ser a cultura. E, é claro, "a cultura dos povos" tem que ser respeitada. E é claro: é graças a isso, segundo Wilson Martins, que os estrangeiros nos vêm como índios de tanga desfilando pela avenida Rio Branco.

Chamamos tudo aquilo que há de frugal e passageiro de entretenimento, apenas para disfarçarmos uma palavra genuína que nos incomoda: cultura. Ao fim e ao cabo acabamos com a pulga atrás da orelha, um incômodo pernilongo zumbindo em nosso ouvido em nossa noite: mas eu não deveria zelar pelo meu espírito dando a ele as coisas elevadas produzidas por espíritos sublimes? Não obstante, continuamos elegendo o cinema fácil, a subliteratura, a literatura infantil e a MPB como ícones recorrentes. Vai-se assim empurrando com a barriga até que um dia a consciência clama por solidão e altitude: e nós nos vemos vazios como dispensa de escola pública. Até o momento de infantilmente exclamarmos: "Deixa! Eu não queria mesmo!"

Mas interrompamos essas digressões despropositadas e ataquemos nossa matéria.

Falávamos da tradução de "O Príncipe" por Roberto Grassi. Ao fim de cada capítulo do livro abundam as notas como guarda-chuvas em dias de verão em São Paulo. As referências utilizadas por Maquiavel para a construção de sua obra - em sua maioria relativas à antigüidade greco-romana - estão esmiuçadas, e de tal modo que por si só contam uma história em paralelo, como os deuses nas obras épicas produzindo a história da história contada pelo autor.

Como constituem por si só valiosos selos numa coleção cuidadosa, as notas reunidas para o rigoroso propósito do tradutor merecem uma leitura à parte. É altamente recomendável para o leitor que não quer perder nem um diálogo da projeção, e também ao "expert", que proceda primeiramente à leitura integral de todas elas antes de atacar o conteúdo total. É claro que esse é somente um tipo de leitura - normalmente empregado pelos "eruditos" - sendo que a mera leitura dos capítulos não perde em nada, pois estamos diante de uma linguagem vivaz e até mesmo algo espermática. A linguagem de Maquiavel advém de um espírito sagaz e suas manobras literárias correspondem efetivamente ao que pinta a Enciclopédia Britânica: "Maquiavel é considerado o maior prosador da literatura italiana; seu estilo, ligeiramente latinizante, é clássico sem retórica e realista sem vulgaridade, muitas vezes sarcástico e irônico".

Numa primeira leitura de "O Príncipe" sentiremos, ao ler por exemplo a dedicatória endereçada à Lorenzo Medici - se não formos demasiado caras-de-pau - algum repúdio em relação ao tom, algo bajulador e interesseiro, com que o mestre conduz a orquestra: "E se Vossa Magnificência, das culminâncias em que se encontra, alguma vez volver os olhos para baixo, notará que imerecidamente suporto um grande e contínuo infortúnio".

É claro que depois entenderemos que nos enganamos em nosso juízo, justamente por que descobriremos por trás do autor de "O Príncipe" um homem astucioso e desesperado pela pobreza e pela amargura para recuperar seu status. Claro que entenderemos que o próprio autor acha válido ser interesseiro e bajulador para obter o fim desejado. Ademais isso, partindo de um literato da grandeza de Maquiavel, é bastante admissível.

A obra Il Principe ( O Príncipe ) foi escrita entre 1513 e 1516, tendo portanto ela sido iniciada quando Maquiavel contava com 44 anos ( Nicolau Maquiavel, Niccolò Machiavelli, nasceu em Florença em 3 de maio de 1469 e morreu na mesma cidade em 22 de junho de 1527 ). A técnica literária utilizada para sua composição é o "aconselhamento". Maquiavel, o patriota, está aflito com a invasões "bárbaras" em seu país e para afugentá-los dá a luz uma obra cujo âmago parte da imaginação de um príncipe ideal, retrato algo fantasioso de Cesare Borgia, a quem se dá conselhos para conquistar o poder absoluto, acabar com as dissenssões internas e expulsar os estrangeiros da Itália. Para tanto são recomendados todos os meios, inclusive a mentira, a fraude, a violência e, enfim, a política totalmente amoral que se costuma chamar de "maquiavelismo" e que sempre foi condenada pela posteridade, inclusive por príncipes, prelados e magistrados que a praticaram. Também é preciso considerar que seus conselhos se dirigiram a um príncipe que não existia, assim como ele sonhava, mas que, por outro lado, todos os príncipes italianos da época praticaram aquela política, apenas para fins muito menos idealistas do que para enfrentar uma situação de emergência da república ameaçada.

No decorrer da leitura, vamos percebendo com mais intensidade a voz de um político patriótico sobre um piquete praguejando contra a invasão de São Paulo pelos camelôs nordestinos. Uma imagem vaga vai se desenhando em nosso espírito até que surge o rosto de Policarpo Quaresma falando em resgatar o tupi como língua nacional.

( O fervor patriótico de Maquiavel não se faz presente apenas em "O Príncipe". Vide um de seus escritos políticos mais característicos dessa síndrome: a ressentida análise do povo francês contida em "Della Natura Dei Francessi" ( Da Natureza dos Franceses ). )

Quando o Maquiavel exaltado quer falar ao ouvido de seu príncipe ideal, torna-se elegíaco: "Mas consideremos Ciro e os outros que conquistaram ou fundaram reinos: achareis todos admiráveis. E, se forem consideradas suas ações e ordens particulares, estas não parecerão tão discrepantes daquelas de Moisés, que teve tão grande preceptor."

A principal qualidade sobressalente em Maquiavel é sua sofisticação psicológica aliada à crítica política. Essa qualidade somente pode ser encontrada em grau semelhante em Friedrich Nietzsche, Karl Marx e Henry James. Magnífico também é o poder de caracterização do poeta Maquiavel: "Agátocles de Siciliano não só de privada, mas também de ínfima e abjeta condição, tornou-se rei de Siracusa. Filho de um oleiro, teve sempre, no decorrer de sua juventude, vida celerada; todavia, acompanhou seus atos delituosos de tanto vigor de ânimo e corpo, que, tendo ingressado na milícia, em razão de atos de maldade, chegou a ser pretor de Siracusa". Isso é digno de Plutarco, ou Salústio.

O amoralismo presente em Maquiavel provém de um homem que decidiu olhar para as coisas e falar delas como são, ao invés de levantar algumas dezenas de idéias acerca do que se pode imaginar que uma coisa possa ser. À época de Maquiavel - estamos falando do Renascimento - os homens estavam se libertando da influência de Platão. O problema que tira o sono de Maquiavel é a corrupção política e moral da Itália do seu tempo. Não tendo religião, Maquiavel não pôde explicar essa decadência pelo pecado original, sobretudo porque a Idade Média cristã não lhe parece ter sido moralmente melhor nem impecável. Mas, na grande crise de transição do seu próprio tempo, já não confia na providência divina nem na utilidade de seguir os caminhos da virtude. Substitui a providência pela fortuna, o destino ou as circunstâncias exteriores; e usa a palavra "virtude" no sentido de eficiência, sem consideração dos meios empregados para conseguir os fins visados. É o primeiro teórico moderno da política. Nele não há nada do sadio ceticismo de Michel de Montaigne ( 1533-1592 ). Maquiavel é o protótipo do homem político moderno: ambicioso e corrupto.

A espada do tempo tratou de partir o cômputo de Maquiavel em duas metades: a maior parte do conteúdo político, tendo em mente uma democracia, está morta. A outra metade, a do Maquiavel escritor e poeta permanece. Dissemos "morto" o conteúdo político, mas apenas para fins de classificação, pois o maquiavelismo é muito facilmente detectado como ferramenta de traficantes, ações da Rede Globo, vilezas de charlatães vulgares como o Padre Marcelo ou o Bispo Macedo - e nós que não queríamos meter a mão nessa sujeira!

Do maquiavelismo, mesmo os seres humanos mais aparentemente domesticados podem se beneficiar; é um código que pode servir de instrumento igualmente aos tiranos e aos homens livres, sendo que o resultado só depende da inteligência de quem usa o instrumento.

Talvez se argumente, em defesa de Maquiavel - e essa argumentação certamente derivaria de "bons cristãos" - que Maquiavel vivia em uma época brutal e daí a crueza de seus conselhos; naturalmente, ouviríamos, os homens de sua época não erguiam títulos de eleitores e sim espadas. A imputação "o fim justifica os meios" só se justificaria para Maquiavel em se tratando de falarmos das "altas finalidades de Estado."

Não obstante, diante de sua sarcástica peça "A Mandragora" ( 1529 ), tenderíamos a nos perguntar: mas os fins desse jovem inescrupuloso, a saber, conquistar a mulher de um velho imbecil, coincidia com as altas finalidades do Estado?

Não é anacronismo falar de Maquiavel como o disseminador do maquiavelismo. Erasmo denunciou a loucura dos padres; diríamos que Maquiavel a defendia. Maquiavel - por uma inversão no tempo - é nietzscheano; enquanto Erasmo é proustiano.

Alessandro Silva
São Paulo, 7/2/2003

 

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