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Terça-feira, 11/2/2003
Outro fim de mundo é possível
Marcelo Barbão

A possibilidade de Jack London nos surpreender é sempre muito, muito alta. Surpresas sempre muito agradáveis, é claro. É o caso da ficção científica "A praga escarlate" que é lançada agora no Brasil.

Talvez seja a inauguração do gênero "ficção-catástrofe", que ficou tão famosa no final do século XX. O pequeno livro (quase um maxi-conto), mostra o que sobrou da humanidade depois que uma terrível doença, que se espalha pelo mundo depois de iniciada no Brasil (sempre o nosso país).

O fim de noite, em que o professor James Howard Smith conta a história do fim do mundo para seus netos, é mais uma despedida da civilização do que uma ficção científica como conhecemos.

Despedida porque o professor é o último "espécime" civilizado que restou na superfície da Terra, pelo menos pela região do norte da Califórnia. Já velho e com poucas forças, com ele morrerá o que havia sobrado da civilização ocidental. E realmente não havia sobrado muito porque a doença ceifara bilhões. A sobrevivência de pouco mais de uma centena de pessoas não garantiu nada, já que estranhamente, como percebe o professor, nenhum cientista sobrevive e a humanidade perde uma boa parte de seus conhecimentos.

"- Mas, a pólvora voltará" - diz o velho professor com um pessimismo que Jack London consegue inserir na história com uma força contagiante. O único alento é descobrir que uma boa parte da cultura literária da época está salva em uma caverna. E que o próprio professor criou um método para que as gerações futuras voltassem a aprender a ler.

Mas, essa não será uma tarefa para os netos de Smith, já totalmente mergulhados no pesadelo pós-civilizatório, incapazes até mesmo de entender o que fala o velho professor.

Apesar das descrições políticas sobre o futuro que London inclui na narrativa, como o mundo do início do século XXI dominado pelo Conselho dos Magnatas Industriais, uma espécie de Fórum Econômico de Davos hereditário, o livro não é explicitamente um texto socialista ou anticapitalista.

O autor, apesar de ser um defensor incansável do socialismo, sempre insistiu em evitar o propagandismo explícito e pobre que marcaram outros escritores de esquerda. Morto com apenas 40 anos, deixou uma vasta obra.

Esta história de um futuro triste e marcado por catástrofes, pode ter iniciado um gênero que deu obras brilhantes como 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. Nestes tempos em que estadunidenses e iraquianos se ameaçam com bombas químicas e nucleares, uma releitura destes clássicos (tampouco posso esquecer o psicodélico e instigante Cidades da noite escarlate de Willian Burroughs) não faria nada mal a Saddam e Bush.

Para ir além



A praga escarlate
Jack London
Editora Conrad
103 páginas

Marcelo Barbão
São Paulo, 11/2/2003

 

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