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Segunda-feira, 17/3/2003
Erik Satie
Nemo Nox

Erik Satie nasceu em Honfleur, França, 1866. Órfão de mãe, com o pai em Paris, e aos cuidados do tio bon-vivant, o pequeno Erik já aos oito anos se mostrava fascinado pela música, freqüentando a igrejinha local e aprendendo os rudimentos com a organista que animava as missas. Mais tarde seu pai o levou para a capital, e com quatorze anos Erik entrou para o Conservatório de Paris. Mas aparentemente aquele ambiente acadêmico impregnado de influências wagnerianas não fez bem ao rapaz, que nunca ultrapassou os resultados medíocres durante o curso.

Chegou mesmo a ser chamado de "aluno sem importância" e "inútil" nos relatórios dos professores. Numa carta escrita anos depois ao Conservatório, Satie vingava-se com palavras sarcásticas: "Minha alma era tão delicada que vocês não a entenderam. Apesar da minha juventude e delicadeza, vocês me fizeram detestar a rude arte que ensinam com tanta falta de inteligência; sua inflexibilidade inexplicável me fez odiá-los. Que Deus os perdoe e proteja as almas desafortunadas dos que ainda serão seus alunos."

Sem desanimar, o jovem Erik continuou no caminho musical, apesar de suas composições serem freqüentemente alvo de piadas da elite intelectual da época. Para garantir o seu sustento, trabalhou como pianista em cabarés e prostíbulos. Para satisfazer sua mente efervescente, compôs obras como Gymnopedies e Gnossiennes, peças consideradas excêntricas ou de mau gosto pela maior parte de seus contemporâneos.

O nome Gymnopedies foi tirado de uma dança ritual em homenagem ao deus Apolo, executada por jovenzinhos desnudos na Grécia antiga (alguns teóricos afirmam que a nudez era somente simbólica, representando a ausência de armas entre os guerreiros espartanos). A peça para piano de 1888 é composta de três partes tranqüilas e quase hipnóticas. Debussy fez um arranjo para orquestra da primeira e da terceira, e Roland-Manuel fez o mesmo com a segunda.

Acredita-se que Gnossiennes, de 1891, tenha sido batizada em homenagem ao palácio de Knossos, em Creta, mas também existe a possibilidade de ser uma referência ao gnosticismo, já que Satie mais tarde se envolveria com o movimento rosacruciano. São seis partes, um pouco mais vigorosas que as Gymnopedies mas com o mesmo caráter enigmático e onírico.

Mas a música não era o único interesse de Satie (apesar de ser o principal): ele também escrevia e desenhava com o mesmo humor absurdo que colocava em suas composições. Na verdade, chegou a circular entre surrealistas e dadaístas, círculos em que foi apreciado ao mesmo tempo que era esnobado pelos acadêmicos musicais. Memórias de um Amnésico, seus escritos autobiográficos, chegaram a ser um sucesso em publicações avant-garde.

Quem inventou a música ambiental? Ray Conniff? Brian Eno? No século passado, Erik Satie já surpreendia o público parisiense com essa idéia. Numa apresentação que ele chamou de Música-Mobília, espalhou por vários cantos da sala um piano, três clarinetes e um trombone, que tocavam fragmentos musicais desconexos. O público, cercado por estes sons desconcertantes, ouvia em silêncio educado quando Satie surgiu dando instruções também para a platéia: "Falem! Mexam-se! Façam qualquer coisa, mas não escutem!" Era uma música para preencher o ambiente, assim como uma cadeira ou uma estante, mas não para ser o ponto principal da atenção. Na época, parecia um absurdo ou uma piada. Hoje, qualquer elevador ou supermercado que se preze toca uma música que preenche o ambiente mas passa, na maior parte do tempo, despercebida ao ouvinte.

A arte de Satie pode ser vista como um conjunto coeso, seus textos espirituosos vazando poeticamente para os títulos de suas músicas (como por exemplo Três Passagens em Forma de Pera) e seus desenhos futuristas ecoando a arquitetura harmônica e melódica de suas composições. As notas à margem das partituras, com instruções para os intérpretes, também poderiam ter saído de uma peça dadaísta. Imagine a perplexidade de um pianista clássico ao ser confrontado com indicações como "sem piedade", "não seja orgulhoso" ou "equipe-se com visão límpida".

Grande parte do trabalho de Satie baseou-se em repetições de pequenas unidades, numa circularidade que preconizou a música minimalista e as composições fractais de hoje. Ele morreu praticamente desconhecido em 1925, mas hoje poucos duvidam do seu valor e da sua influência, que tocou de Debussy a John Cage. E seu desejo finalmente foi realizado: "Meu sonho é ver minha música em todos os lugares, não somente nas salas de concerto."

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Nemo Nox é editor do blog Por um Punhado de Pixels e do site Burburinho, onde este texto foi originalmente publicado.

Nemo Nox
Washington, 17/3/2003

 

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