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Segunda-feira, 6/12/2004
Nas vertigens de Gullar
Annita Costa Malufe

Ler Na Vertigem do Dia é como se sentar para bater um bom papo com um amigo. Não que ali encontremos amenidades e conversinhas banais – pelo contrário. É que há algo de uma proximidade tão singela que é como se ouvíssemos uma voz amiga nos falar; algo de um bate papo cotidiano que não dispensa a proximidade, o “venha cá que preciso te contar uma coisa”. Sentimo-nos convocados pela ventania de Gullar, pelo seu espelho, pela cômoda de um quarto em Buenos Aires, pelas frutas da quitanda, pelo gato que dorme ao lado. O tempo todo uma voz que cultiva uma rara intimidade com o leitor, o tom de uma conversa.

O livro, saído primeiramente em 1980 e que ganha agora sua segunda edição, é o primeiro livro produzido pelo poeta maranhense Ferreira Gullar após a volta do exílio (embora contenha poemas que foram escritos durante o período em Buenos Aires). Pouco tem da poesia mais engajada de Dentro da Noite Veloz (1975), embora aqui e ali os temas sociais e políticos apareçam, sempre ganhando um sentido aliado à vida cotidiana, pessoal: o social, quando se faz presente, é encarnado no corpo, na emoção, nunca se mostra como algo apenas exterior: “Allende, em tua cidade/ ouço cantar esta manhã os passarinhos(...) Em minha porta, os fascistas/ pintaram uma cruz de advertência/ e tu, amigo, já não a podes apagar (...)” (“Dois poemas chilenos II”).

Para escolher uma das infinitas portas de entrada do universo deste nosso enorme poeta, retenho-me na imagem do pequeno poema “Uma voz”: “Sua voz quando ela canta/ me lembra um pássaro mas/ não um pássaro cantando:/ lembra um pássaro voando” (pág. 68). Pois me parece haver aqui uma das grandes forças da poesia de Gullar: a habilidade para nos fazer ver o invisível. Que haja um predomínio plástico, visual em sua poesia, muitos já notaram, em geral associando ao interesse de Ferreira Gullar pelas artes plásticas e sua atuação na crítica de arte. Mas queria ressaltar algo para além disto. Nas imagens de Gullar não encontramos apenas belas e surpreendentes figuras, não apenas um forte apelo ao sensorial, mas sim, uma complexa operação poética capaz de nos fazer sentir o que antes era insensível. Nos fazer sentir na pele uma imagem, um som, um cheiro.

No caso do poema citado, a leveza da voz: Gullar aqui não nos conta que a voz é leve, mas, ao nos dizer que sua voz lembra um pássaro voando, sentimos a leveza do pássaro em sua voz. Subitamente, podemos ver o vôo de uma voz; subitamente sentimos a leveza do que nem ao menos possui peso e medida (o som, a voz); subitamente ouvimos um vôo, um movimento – e, que som teria o movimento de um vôo antes do poema de Gullar? Do mesmo modo, passamos a ver o silêncio em “Ao rés-do-chão”: “(...) Nos quartos vazios/ na sala vazia na cozinha/ vazia/ os objetos (que não se amam)/ uns de costas para os outros”. Ou a sentir a leveza da arquitetura de Oscar Niemeyer em: “(ele não faz de pedra/ nossas casas:/ faz de asa) (...)Oscar nos ensina/ que a beleza é leve” – o belo “Lições de arquitetura”, que depois foi publicado em Relâmpagos (livro de ensaios sobre crítica de arte).

“O poema tem que ser um relâmpago”, salienta ele (frase que é título de entrevista concedida à Revista Poesia Sempre, Biblioteca Nacional, setembro de 2004). A palavra do poeta deve revelar ou inventar sensações, é ele mesmo quem nos diz – e isto podemos facilmente dizer de seus poemas. “Esforço-me para que meu poema, a par de ser uma expressão verbal, ganhe a densidade de objeto perceptível sensorialmente” (entrevista concedida à Revista Jandira, Juiz de Fora, primavera 2004). É ele mesmo quem diz que o poema deve ser um clarão que subitamente ilumine o leitor, revele a ele uma imagem inusitada, com o frescor de uma experiência primeira. “Porque aí surgiu na minha cabeça a idéia de que a verdadeira poesia teria que ser a expressão da experiência fresca, nascida ali, de repente, captar isso, expressar isso”.

Este poeta que nos deu um de nossos maiores poemas, o “Poema sujo” (1975), nos dá aqui em Na Vertigem do Dia, o clarão de “Bananas podres”, no qual o apodrecer das bananas sobre o balcão é pretexto para se pensar o imponderável, o tempo, a morte: “Que tem a ver o mar/ com estas bananas/ já manchadas de morte”; pretexto também para se pensar o mar, a vida das gentes na cidade, e as mínimas coisas do cotidiano como “um caco de vidro de leite de magnésia”. E, como aqui, na maior parte de seus poemas os objetos e assuntos do dia-a-dia, as banalidades e miudezas, são ganchos para o poeta puxar sensações e sentidos vitais.

O fato é que há uma presença marcante do imponderável em cada pequena coisa convocada pelos versos de Gullar, como se o poeta fosse aquele que sente a vida reverberando silenciosa por trás da existência dos objetos, dos lugares cotidianos, mesmo que sejam eles um simples banheiro de cimento (“Em tudo aqui há mais passado que futuro/ mais morte do que festa: neste banheiro/ de água salobra e sombra”), ou o “Espelho do guarda-roupa” (Espelho espelho velho/ alumiando/ debaixo da vida// Quantas manhãs e tardes/ diante das janelas/ viste se acenderem/ e se apagarem/ quando eu já não estava lá?”).

Mas se fossemos contabilizar, o que mais encontramos dentre estes poemas vertiginosos é o próprio poema se pensando, se questionando, a experiência poética posta à prova. É o poema que se volta para si mesmo e se experimenta em meio à vida, às coisas, ao tempo e ao movimento das coisas da vida. Daí que o poema de Gullar é um poema todo habitado, é uma voz que ecoa em nós, e que portanto – voltando ao início de nossa resenha – nos chama para conversar, para sentar ao seu lado. É a voz do poeta que: “É voz de gente (na varanda? na janela?/ na saudade? na prisão?)// É voz de gente – poema:/ fogo logro solidão”. É a voz do poeta que traz uma gente toda, como o sorriso da menina no qual todo o povo teria sorrido uma vez: “pode ser que sorrira/ aquela tarde, o povo,/ num rosto de menina” (“Bananas podres 2”).

Resta dizer, para terminar, que um dos grandes mistérios da poesia de Gullar só poderia ser deixado em aberto: como é possível todo este extravasamento, todo este excesso de cores, cheiros, sensações, vida, saltar de um poema de linguagem tão impressionantemente sintética, simples, econômica? Gullar, que escrevia no início (“comecei a fazer poesia com uns 13, 14 anos”) versos parnasianos, passou pela descoberta, no início difícil e depois apaixonada, dos modernos, fundou o movimento concreto, rompeu com ele, participou dos neoconcretos, fez poesia engajada... e toda esta riqueza de experiências parece compor um cruzamento singular, um domínio muito raro e especial da linguagem, domínio este que permite o tênue equilíbrio que ele tão bem coloca no conhecido “Traduzir-se”:

“Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?”

Annita Costa Malufe
São Paulo, 6/12/2004

 

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