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Segunda-feira, 21/11/2005
Paulo Coelho para o Nobel
Luís Antônio Giron

Não se deve julgar o livro pela capa, nem o autor pela vendagem de seus livros. Do contrário, gênios como Marcel Proust ou T.S. Eliot mereceriam o inferno do esquecimento, pois não venderam nem mil exemplares na primeira edição de seus livros de estréia. O carioca Paulo Coelho, de 58 anos, é o caso pitoresco de um autor comentado pelas capas e resumos e pelos milhões de livros que vende. Quanto mais é malhado, mais dinheiro ganha. Como um autor brasileiro, tupiniquim, pode tudo, enquanto seus pares literários de Academia Brasileira não podem nada? Nestes tempos da moda da criptografia, como decifrar o Código Paulo Coelho? Trata-se de um mestre ou um medíocre?

Uma parte da crítica militante costuma caracterizá-lo como um autor que vende e, por isso, só pode ser bom. São os críticos do oba-oba, que puxam o saco do Paulo Coelho porque querem pegar a onda e fazer sucesso junto. Afinal, ele é o mais bem sucedido escritor brasileiro de todos os tempos em termos internacionais. Seu novo romance, O Zahir, já figurava nas listas de livros mais vendidos do Brasil em apenas uma semana do lançamento. Não é para menos: com uma tiragem de 320 mil exemplares, recorde no mercado brasileiro, ou o editor Paulo Rocco vende bem ou fecha a empresa. O nome do autor ajuda: ele tem sido é campeão desde 1987, quando lançou O Alquimista. Um vendedor assim só pode merecer aplausos e ser cultuado.

Pelo mesmo motivo, a outra parte da crítica, majoritária, assegura que Paulo Coelho só pode ser ruim. Esta vertente é formada por acadêmicos que em geral recusam-se a ler a fundo os 14 títulos da obra canônica de Paulo Coelho. Para eles, o autor produziria conteúdo de auto-ajuda e só pode ser um gênio do marketing para conquistar a mente e os corações de tantas pessoas. Existiria "algo por trás" do autor, acham esses intelectuais de carteirinha: ou uma "estratégia" bem montada ou mesmo um pacto com o diabo. Em troca da glória, Coelho teria vendido a sua alma.

Há quem diga mesmo que o segredo do sucesso repousa na mente de Mônica Antunes, a agente do escritor, que trabalha em Barcelona. Mônica teria encontrado os melhores tradutores do mundo para seu cliente. Esses autores teriam sido capazes de melhorar, em 60 línguas, os textos de livros como O Alquimista e Diário de um Mago, criando uma grande reputação literária para um autor que, no original, seria uma farsa – a maior farsa da História. Tal raciocínio levaria à resolução da razão de o grosso do público de Coelho ser internacional. Vendeu 65 milhões de exemplares mundialmente, contra "apenas" 20 milhões no Brasil – a metade da marca histórica de Jorge Amado. A turma elitista se esquece que Jorge Amado sofreu idêntico preconceito ao longo de sua carreira literária.

E aqui me ocorre uma observação: desconheço alguma análise séria da obra de Paulo Coelho feita por qualquer crítico sério do Brasil, inclusive os pares do escritor na Academia Brasileira de Letras. Tudo leva a crer que os imortais toleram o autor de Brida mais por ser uma "personalidade literária" que um escritor de verdade. Afinal, a ABL aceita militares, médicos, juristas e outros. Por que não acolheria um mago?

A polêmica em torno do autor repousa num fato: poucos intelectuais o leram e quase nenhum de seus leitores tem paciência ou talento para demonstrar as virtudes profundas dos seus livros.

Não vou me aprofundar em análises, mas gostaria de demonstrar alguns pontos que fazem de Paulo Coelho um autor místico de grande qualidade. O Brasil não conta com celebridades literárias no campo da literatura espiritualista. Monte Alverne fez vibrar o espírito dos românticos. Antonio Conselheiro poderia ter sido um pregador de renome, mas não teve tempo para recolher suas prédicas. Há o padre Antônio Vieira, português que viveu no Brasil colonial. O estilo dos seus sermões é insuperável e foi considerado o modelo da sintaxe da língua portuguesa por outro místico, o imenso poeta Fernando Pessoa...

Mutatis mutandis, Paulo Coelho opera no espectro dos pregadores, dos sermonistas, dos contadores de histórias edificantes. Ele não está preocupado em formular romances que impressionem as gentes acadêmicas, e sim devota-se a uma espécie de catequese. O projeto literário de Paulo Coelho é converter o gentio a uma espiritualidade mais livre do que a consagrada pelo Cristianismo. Cada um de seus livros é um passo na direção do aperfeiçoamento místico do ser humano. Toda a sua produção pode ser entendida como iniciática.

Jesuíta de formação, membro de uma sociedade secreta católica, que ele denomina de Guerreiros da Luz, Coelho sempre trabalhou movido por inspiração. Como místico, ele pratica uma literatura que se divide entre a fábula alegórica e a autobiografia. O Alquimista pode ser entendido como uma fábula em que um pastor conquista a espiritualidade depois de uma série de etapas sacrificiais. O Diário de um Mago, de 1988, traz o relato empolgante e verdadeiro de um profano que persegue e encontra a iluminação. O mesmo caminho é perseguido em Brida, As Valkírias, Na Margem do Rio Piedra eu sentei e chorei e Veronika decide morrer. Monte Cinco, o seu melhor texto, conta a história do profeta Elias por meio de uma série de sermões e parábolas. São romances e histórias curtas, são aventuras que contêm sempre a lição final: o ser humano precisa se despir de preconceitos, assumir uma meta ("lenda pessoal", segundo Coelho) e assim atingir a realização.

No alvorecer do novo século, o autor decidiu sobrepor os enredos às lições místicas e se deu bem. Isso não quer dizer que ele abdicou do caráter místico de seus textos. Pelo contrário, reforçou-o nas entrelinhas. O Demônio da Srta. Prym (2000) é um romance noir, na tradição do suspense europeu de George Simenon e companhia. Mas é também um manual de como escapar às garras de Mefistófeles. A maior parte dos leitores gostou de Onze Minutos (2002) pelo conteúdo erótico. Seu fundamento, porém, é iniciático. Coelho prega ser possível e até aconselhável chegar à revelação por meio do sexo. Basta seguir os passos no caminho certo. Sempre o caminho certo, a busca de um alvo inatingível, o do encontro com a divindade.

Nesse sentido, O Zahir é o seu romance mais elaborado. Aparentemente, é um texto de alto teor autobiográfico, uma crítica à crítica e uma declaração de confiança na própria estética. O enredo se baseia no poema Odisséia, de Homero, e desenrola as aventuras de um escritor em busca do amor perdido – fato que o levará aos confins do Casaquistão. Autobiografia e peripécias são elementos que ocultam o que o livro tem de mais consistente: outra vez, a perseguição de uma possível divindade capaz de vencer os sonhos mais ambiciosos do escritor mais ambicioso do mundo. Outra vez, o percurso iniciático se impõe.

Em todos os seus livros, Paulo Coelho jamais enganou ninguém. Não se especializou na exploração da violência urbana, ou nas misérias do sexo, como boa parte dos autores brasileiros atuais, mais preocupados em chocar do que em construir uma obra em escala monumental. Paulo Coelho, nesse sentido, possui uma coerência assombrosa. Elaborou parábolas com o objetivo de elevar o ser humano, de consolar o leitor nos momentos difíceis, de alimentar alegria e converter os profanos.

É puro preconceito dizer que isso não é literatura. As pessoas gostam da mensagem mística do autor, não de seu estilo – que, aliás, é simples e direto, quase desprovido de efeitos de retórica. Atinge o que quer de imediato, como deve agir sempre o pregador. Se o leitor não gosta de religião e misticismo é melhor ficar longe e não julgá-lo. Se gosta, vai encontrar nos seus livros um manancial de conselhos, símbolos e fábulas edificantes. Paulo Coelho é um Esopo à brasileira: um contador de histórias morais que passou pelo banho do batismo e hoje se considera um missionário dentro da literatura. Nem medíocre, nem farsante, nem gênio: apenas um escritor honesto nos seus propósitos.

Talvez ele devesse abordar a realidade e a fantasia do país em que nasceu. Mas ele afirma que não se acha em condições de falar sobre o próprio umbigo. Ele sempre trabalhou numa escala internacional e pouco brasileira – talvez por isso faça tanto sucesso no exterior.

Entre os nomes brasileiros, Paulo Coelho é o que reúne hoje maiores condições para concorrer ao Prêmio Nobel de Literatura. Seria ótimo a gente contar com Machado de Assis, José de Alencar, Guimarães Rosa, Lúcio Cardoso, Clarice Lispector, Érico Veríssimo e Jorge Amado. Seguramente a literatura nacional ainda não produziu algo parecido a Proust ou Eliot. Eles são grandes autores e certamente suas obras são melhores que a de Paulo Coelho. O Nobel, contudo, é um prêmio para os vivos, para humanistas que se dedicam no mundo todo a grandes causas e possuem uma obra literária coerente e progressiva. Entre estes, só temos um Coelho na cartola. Enquanto esperamos um amanhã melhor, nossa única saída é apostar nele.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Este artigo foi publicado originalmente na revista eletrônica da AOL em 28 de março de 2005.

Luís Antônio Giron
São Paulo, 21/11/2005

 

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