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Segunda-feira, 15/1/2007
Como Proust mudou minha vida
Daniel Piza

A memória da primeira leitura de Proust é como uma dessas lembranças que ficam voltando a seus personagens – um fraseado de sonata, um bolinho de baunilha, um muro pintado de amarelo num quadro – em ondas, cada qual portadora de novas perspectivas, de novas redes de percepções. É um bom teste para a arte, como para um vinho: a persistência de um afeto, o modo como um detalhe reacende toda uma teia de associações. E é o tema por excelência de Em busca do tempo perdido, seu ciclo de romances em sete volumes, que os brasileiros têm a sorte de poder ler na tradução de Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade e outros. No final de 2006, a editora Globo começou a relançá-los, com maior aparato editorial (notas, resumos, etc.) e projeto gráfico de Raul Loureiro, muito feliz na escolha das cores de capa e da elegante fonte Walbaum.

Claro, me remeteu à primeira vez que li No caminho de Swann, o volume inicial, traduzido por Quintana. Eu tinha 16 anos, estava sentado à escrivaninha em que deveria fazer a lição de casa, a tarde queimava lá fora e, de repente, não havia mais nada senão as frases de Proust, dotadas da capacidade de nos retratar um mundo específico e ao mesmo tempo nos chamar a atenção para elas mesmas, sem prejuízo da fluência. Muitos estranham quando começam a ler Proust, porque a ação é lenta e a observação, detalhista. Mas, sem saber que o crítico e poeta Paul Valéry já reclamara dos romances que começam com “A duquesa acordou às 10 horas”, fiquei fascinado pela maneira como Proust não apenas descrevia pessoas e objetos, mas sobretudo como fazia isso discutindo – na mesma tonalidade – questões filosóficas, estéticas e sociais. A narrativa e o ensaio jamais tinham estado tão entrelaçados.

Acho que é por esse motivo que ocorre o que se poderia chamar de efeito Proust: depois dele, perdemos a paciência para os romances convencionais, historinhas que apelam aos sentimentos para nos dar alguma mensagem moral. Dizem que Virginia Woolf não conseguia escrever mais nada. Mais do que Joyce, embora este tenha sido eleito pelas vanguardas posteriores, Proust condensa e ultrapassa a arte do romance e ninguém o imita sem cair no ridículo. E ele não levou apenas o tema da música e da pintura para a literatura; emprestou seus recursos também. Durante muito tempo respondi à pergunta “Quais são seus romancistas preferidos?” da seguinte maneira: “São três: Proust, Proust e Proust.” E a cada releitura, como em toda obra de gênio, descobri coisas, revi outras e renovei meu espanto pelo cromatismo de seu estilo, que, como Shakespeare, vai do chulo ao chique em poucas linhas.

Mas o mais importante, vejo melhor agora, foi o usufruto que Proust fez de sua liberdade, da liberdade – tão perigosa para os imaturos – que Henry James diz haver nas páginas em branco da ficção. Proust, fechado num quarto revestido de cortiça, começou a escrever seu ciclo em 1908, aos 37 anos, depois de três eventos marcantes, não por acaso um histórico, o outro estético e o terceiro pessoal: a eclosão do caso Dreyfus dez anos antes, que fizera Proust defender ardorosamente a inocência do capitão judeu e se afastar da alta sociedade parisiense; a descoberta da obra do crítico de arte inglês John Ruskin um ano antes da morte dele em 1900, que levaria Proust a traduzir seus livros; e a morte de sua mãe, em 1905, dois anos depois da de seu pai. Em suas rupturas houve também a descoberta do que se entregar a produzir. Tal liberdade, tal pujança criativa, nasceu, portanto, da reação crítica ao mundo.

Proust tinha visão cética da natureza humana, dos joguetes sociais, das ofertas consoladoras; simultaneamente, eis um indivíduo que se interessava profundamente pela vida, pelos outros, pela natureza, alimentado por vasta curiosidade. Era um crítico com joie de vivre, essa mistura que poucas pessoas compreendem – pessoas para quem, como diz em uma passagem, o prazer parece maligno. Era um quase misantropo, indignado com o mesquinho amor próprio até das pessoas esclarecidas, e um ser gentil e simples. Era um burguês que sabia que a força dos hábitos adormece nossas faculdades: “É em geral com o nosso ser reduzido ao mínimo que nós vivemos.” Foi assim que lê-lo mudou minha vida – por ele ser justamente o oposto da auto-ajuda à qual Alain de Botton tentou convertê-lo em Como Proust pode mudar sua vida, lançando mão de clichês como “a nossa maior chance de felicidade”. Em Proust a felicidade é sempre inconsistente, incompleta, e dela o que teremos são alguns gostos na vida, especialmente gostos que se renovam como o de ler Proust.

Para ir além




Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no jornal O Estado de São Paulo, em dezembro de 2006.

Daniel Piza
São Paulo, 15/1/2007

 

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