busca | avançada
74889 visitas/dia
2,4 milhões/mês
Segunda-feira, 4/6/2007
O balanço do Bando da Lua
Luís Antônio Giron

Encontrei-me com Oswaldo de Moraes Éboli no apartamento dele, na praia de Copacabana, Rio de Janeiro, no fim do ano de 1999, quando trabalhava como repórter especial do "Caderno Fim-de-Semana" do jornal Gazeta Mercantil. Vadeco foi o último remanescente do Bando da Lua, o primeiro grupo vocal brasileiro a cantar em várias vozes – e famoso no mundo inteiro por ter acompanhado a cantora Carmen Miranda nos Estados Unidos. Vadeco foi muito gentil comigo, ofereceu-me um chá com biscoitos e se deu tempo para relembrar o percurso do sexteto vocal-instrumental mais famoso do Brasil. Foi um momento inesquecível bater papo com o alquebrado e sempre elegante senhor de 87 anos, que sofria problemas de coluna e mal conseguia andar. Nascido no Rio em 5 de janeiro de 1912, ele morreria em sua cidade natal três anos depois de nossa entrevista, em 23 de dezembro de 2002. A reportagem, publicada em 19 de novembro de 1999, é hoje um documento para entender como e por que os astros do Bando da Lua se resignaram a virar satélites de uma enorme estrela, Carmen Miranda.

Ser vizinho de alguém pode mudar a vida. Principalmente se o vizinho for o presidente da República. Assim o Bando da Lua conseguiu seu passaporte para a Broadway e para a História. As aventuras do mais famoso grupo vocal-instrumental do Brasil serão contadas por um de seus fundadores: Oswaldo de Moraes Eboli, 87 anos, o Vadeco, pandeirista, bailarino e relações públicas do grupo. Hoje aposentado como jornalista, viúvo, ele está concluindo um livro de memórias escrito em colaboração com o colega de profissão e amigo Francisco Silva Nobre. Intitula-se Oswaldo Eboli (Vadeco) – Um amigo de todos e ainda não tem editora. Terá 70 páginas de fotografias inéditas e 200 de texto.

“É a história da minha vida, imbricada à trajetória do Bando da Lua”, diz Vadeco, animado. Lembranças se apresentam para ele como algo muito próximo à comemoração de um gol. Isso porque, conforme ele afirma, “tudo deu certo” na sua atividade artística, pessoal e profissional. São memórias de vitórias de quem arrebatou a Broadway, Hollywood e todo o Brasil, sem saber uma nota musical, apenas com um pandeiro na mão. E não há triunfo mais retumbante que a de sobreviver a todos os protagonistas da epopéia mais glamourosa do show business brasileiro e dar a palavra, se não definitiva, pelo menos final sobre mistérios e dúvidas que cercam a estada de Carmen e acompanhantes nos Estados Unidos. Vadeco é o último remanescente do Bando da Lua.

Previdente, tirou proveito dos mínimos recursos artísticos que possuía. Se não cantava, era um bom pé-de-valsa, além do que tocar pandeiro às costas de Carmen Miranda se revelou melhor que muita carreira solo. Não parou por aí. Inaugurou a carreira de relações públicas de cantores no Brasil, promoveu turnês internacionais de muitos deles e virou o ponto crucial de contato entre a classe artística e a política dos anos 30 aos 50. De 50 a 80, dirigiu emissoras de rádio e TV. “Cite qualquer nome. Fui amigo de todos os presidentes”, gaba-se. E não é lorota. No livro, promete contar como travou relações de camaradagem e até amizade íntima com JK, Figueiredo, Getúlio Vargas, entre outros. A chamada “política de boa vizinhança” entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos – levada adiante nos anos 30 e 40 com o objetivo de fortalecer a influência americana nos países latinos – começou com uma vizinhança de fato: a do Palácio do Catete com a vila Martins da Mota. O presidente Getúlio Vargas morava e governava a um quarteirão das farras noturnas do Bando da Lua. E este se tornou, com a cantora Carmen Miranda, ponta-de-lança da nova imagem do Brasil a ser vendida para Tio Sam. O bando foi formado em 1931, à sombra do Catete. A porta da casa de Vadeco, na vila Martins da Mota, 26, servia como ponto de encontro de um cordão carnavalesco, o Bloco do Bimbo, formado por trinta rapazes, a maioria deles moradores do local. Enquanto o pessoal batucava sambas e marchas, Getúlio e colaboradores já preparavam o terreno para o Estado Novo, regime ditatorial implantado em 1937. Uma série de encontros casuais reuniu o Palácio e os despreocupados foliões.

“Todo mundo morava perto. Éramos todos rapazes instruídos e de boa família, coisa rara na época”, conta Vadeco. “Eu me tornei íntimo de Getúlio e a filha dele, Alzirinha. Eles adoravam música e éramos sempre convidados para tocar no palácio. Eu tinha carta branca para entrar na hora que eu quisesse.” Lá, tinha permissão de apresentar números musicais e danças. “Também participávamos de batalhas de confete e banhos de mar à fantasia. Uma farra louca que começava no sábado para terminar domingo.”

Mas muitos se cansaram. O número de participantes das reuniões do bloco ia diminuindo – como a Sinfonia do Adeus, de Haydn: 20, 18, 10... – até virar um septeto, cuja formação definitiva foi Vadeco (pandeiro), Aloysio de Oliveira (violão e voz), Ivo Astolfi (violão tenor e banjo), Hélio Jordão Pereira (violão) e os irmãos Afonso, Armando e Stênio Osório, respectivamente ritmista, violonista e cavaquinhista. Vadeco conta que, por ser bem relacionado com a “alta sociedade”, conseguia que o grupo fosse convidado para reuniões informais. “Aí a gente encontrava personalidades famosas. Mas íamos de farra”, lembra.

Sucederam-se encontros casuais que se converteram em etapas decisivas. O maestro J. Thomaz, cujo diferencial consistia em reger sua jazz band com luvas brancas, ouviu o grupo numa daquelas festas e levou-o para gravar um disco na Brunswick. Naquela época, início de 1931, a empresa havia decidido fechar o estúdio de gravação para se dedicar exclusivamente à fabricação de tacos de sinuca. “Não ia custar nada gastar um pouco de cera com a gente”, diz Vadeco. “O estúdio era modesto. Era uma sala grande com microfone e os equipamentos de gravação; o técnico ficava separado dos músicos por um biombo.”

Por sugestão do irmão de Hélio, Nelson, batizaram o grupo de Bando da Lua. No lado A, cantaram o samba “Que tal a vida?”, com a indicação: “Bando da Lua com Aloysio de Oliveira”. O lado B trazia outro samba, “Tá de mona”, com vocais do também estreante Castro Barbosa, pouco antes de formar a famosa dupla com Jonjoca. “Estar de mona”, na gíria da época, era “estar bêbado”, situação bastante comum para aquela turma de amadores boêmios. “A gente não pensava em dinheiro. Quem nos deu as primeiras músicas foram dois amigos de bairro, o Maércio e o Mazinho.” O disco não fez sucesso porque foi lançamento isolado. O grupo só voltaria a gravar dois anos depois. Então apareceu Josué de Barros, violonista baiano e “olheiro” de jovens talentos, que mal havia descoberto uma chapeleira maluca e de linda voz, chamada Carmen Miranda. Convidou o Bando para cantar no rádio e virou conselheiro da turma. “De repente, levados pelo Josué, estávamos no estúdio da Rádio Sociedade para participar do programa do Casé”, recorda. Os sete ficaram tão excitados com o primeiro cachê (60 mil réis) que gastaram parte dele numa leiteria na Galeria Cruzeiro; o restante ficou para a compra de instrumentos.

Aos poucos, o grupo foi galgando popularidade. “Dava tudo certo”. Contratado pela Victor, a companhia de discos com os recursos mais avançados da época, começou a fazer sucesso em disco. Logo depois, apresentavam-se no Cassino da Urca. “Alugamos até um quarto numa pensão da praça José de Alencar, para guardar os instrumentos e ensaiar.” Contemporâneos juram que o local funcionava também como garcionière numa época em que não existiam motéis. Vadeco nega: “Éramos bons moços, alguns de nós não tinham nem namorada.” Segundo ele, não havia um líder, apesar de Aloysio ter-se apresentado como tal em sua autobiografia, de 1987. “Eu era o que menos dava palpite”, diz Vadeco. “Garanto uma coisa: no tempo em que estivemos juntos, nunca houve brigas.” Tipo popular, Vadeco foi chamado pelo Partido Trabalhista Brasileiro, de Getúlio, para concorrer como vereador. “Fizeram folhetos, mas acabei não aceitando.” Participou de diversos concursos de dança e venceu alguns. “Eu circulava em muitos meios. A gente podia estar com o Getúlio ou com o Assis Valente num botequim, cantando as composições dele que íamos lançar”, diz. Conheceu Carmen Miranda quando ela trabalhava na pensão da mãe, na Travessa do Comércio: “Nunca vi ninguém igual a ela: brejeira, graciosa, formosa, mantinha-se na linha e não tinha todos os namorados que diziam.” Carmen, a irmã Aurora e o Bando se apresentaram juntos pela primeira vez em Buenos Aires, em 1934. “Mas o nosso cartaz era tão louco quanto o dela. A gente fazia programas separados (o Café Globo era nosso patrocinador), mas o pessoal da Rádio Belgrano queria que Carmen fosse acompanhada por músicos brasileiros e aí entramos. Viramos a coqueluche da sociedade local.” Ao final dos espetáculos, Vadeco jogava o pandeiro para o alto e saía a dançar o maxixe com Aurora ou Carmen.

Assim se deu o início de uma parceria que ganharia as telas do cinema. De volta, pararam em Porto Alegre, onde Armando se fixou para casar com uma gaúcha, abandonando o grupo. Carmen e o Bando, agora um sexteto, participaram das produções dos filmes Alô, alô, Brasil e Estudantes (em que Carmen, no papel de Mimi, fazia par romântico com o cantor Mário Reis), de 1935, e Alô, alô, Carnaval (1936), dirigidos por Wallace Downey para a Cinédia.

“A gente fazia alguns números e contava algumas piadas. Carmen e Mário atuaram mesmo, formavam um bonito par, embora não tenham namorado, como disseram.” Em 1938, atuavam em um show com Carmen no Cassino da Urca quando aconteceu outro acaso definitivo: estavam no recinto Tyrone Power e noiva. O casal foi aos camarins para animar Carmen e grupo a mostrar o espetáculo em Hollywood, já que a Meca do Cinema estava mais receptiva para os ritmos sul-americanos depois do sucesso de Voando para o Rio (1933), musical estrelado pelo galã e cantor brasileiro Raul Roulien. Carmen gostava de fazer paródias do jeito meio canastrão de Roulien, mas não pensava em ir para a América. “Mas ficou com aquilo na cabeça”, conta. Foi quando apareceu no show o empresário Lee Schubert e ofereceu um contrato para Carmen estrelar um musical na Broadway. “Ela não queria ir sozinha e propôs viajar acompanhada, por exemplo, pelo Bando da Lua”, relembra. “Pediu, chorou, mas Schubert não queria quebrar o acordo com o sindicato dos músicos americanos, que não permitia estrangeiros. Chegou uma hora que fui chamado para intervir.” Vadeco convenceu Schubert a levar o Bando para os Estados Unidos. “Ele pagaria dois cachês: um para nós e outro para a União dos Músicos. Mas as passagens de navio ele não queria pagar. Aí resolvi a parada.” Amigo de Alzirinha Vargas, Vadeco conseguiu que o DIP pagasse as seis passagens, com a condição que o Bando se apresentasse todas as noites no pavilhão brasileiro durante a Feira Mundial de Nova York de 1939. No navio Normandie, Carmen e o Bando se apresentaram durante a viagem. Na última, repetiram a apoteose portenha: Vadeco jogou o pandeiro aos céus e maxixou com Carmen.

“A gente chamava maxixe, mas maxixe era o samba de fato”, diz. Hospedaram-se nos mesmos hotéis e, em seguida, no mesmo apartamento. O musical Streets of Paris estreou em Washington e fez furor na Broadway. No final de alguns espetáculos em casas noturnas, Vadeco dançava maxixe com Carmen. O Bando, sem ela, fazia números de cortina em revistas da Broadway, como Sons of Fun. Vadeco, que tinha um bom inglês, chegava a atuar em diálogos longos. Por essa época, Ivo deixou o grupo, substituído por Garoto. Contratados pela 20th Century Fox, a cantora e o grupo participaram do filme Serenata Tropical e gravaram o disco de Carmen para a Decca. Gravaram pelo selo quatro discos sob o nome de Bando Carioca. Vadeco chamava atenção pela habilidade de dançar. “Toda hora eu era chamado no estúdio para ensinar o maxixe para as girls.” Jura que ensinou o poderoso coreógrafo dos musicais da Fox, Hermes Pan, os primeiros passos de samba. “Ele aprendeu, só não sei com que finalidade.”

Nesse meio tempo, Carmen e Aloysio iniciaram um romance secreto. “Ela estava sozinha e gostava muito dele. Mas acho que foi uma coisa de momento, pois não pareciam ter uma paixão muito grande.”

O caso era tão discreto que não atrapalhou o andamento dos espetáculos. O Bando participou dos oito primeiros filmes da cantora em Hollywood. Vadeco levava carreira paralela como jornalista em diversas emissoras de rádio americanas. Também aproveitava o tempo livre para escrever crítica de cinema e entrevistar artistas para publicações brasileiras, como Fon-Fon, Diário Carioca e O Globo.

Em 1942, Hélio regressou ao Brasil. Vadeco permaneceu mais algum tempo, quando um telefonema do irmão o preocupou: sua mãe estava doente. “Reuni o pessoal e avisei que voltaria ao Rio. E saí do grupo, sem nenhum rompimento ou problema.” A demissão de Vadeco, em 1944, marcou o fim do Bando da Lua. No Brasil, Vadeco enveredou pela carreira de executivo de rádio e TV e assessor governamental. Soube dos acontecimentos de longe: o casamento de Carmen com seu produtor, David Sebastian, em 1946 (“Aquilo foi coisa feita, ninguém entende até hoje”, comenta); a volta do Bando da Lua em 1948, sob a liderança de Aloysio, com formação e espírito diferentes, a morte de um a um dos velhos companheiros, até o bando virar um melancólico solo de pandeiro: “Sobrei eu para contar a história.”

Sobraram igualmente os filmes (exceto Alô, alô, Brasil e Estudantes, cujas cópias se perderam) e uma discografia de 38 discos de 78 rotações gravados no Brasil entre 1931 e 1948, além de dezenas de gravações americanas. Este material ainda não chegou à era digital e espera quem o recupere. A importância do Bando da Lua para a música brasileira está no humor que imprimiu a suas interpretações e no fato de ter sido o primeiro grupo a cantar em diversas vozes. Antes dele, os grupos só cantavam em uníssono. O Bando inaugurou o arranjo vocal. É fácil imaginar o que teria sido de Carmen Miranda caso ela tivesse ido aos Estados Unidos sem ele, pois foi o que ocorreu após 1944: teria abandonado ainda mais rapidamente suas fontes sonoras, trocando samba por rumba, português por espanhol ou inglês. Já o Bando da Lua, sem a aventura americana, talvez tivesse resistido por mais tempo e realizado novas obras-primas. De certa maneira, Carmen Miranda provocou a dissolução da turma.

No carnaval de máscaras da música brasileira, o Bando da Lua merece posição melhor do que a de mero pano-de-fundo da Brazilian Bombshell que a história lhe reservou. As memórias de Vadeco reivindicam um bloco à parte para seus amigos.

Luís Antônio Giron
São Paulo, 4/6/2007

 

busca | avançada
74889 visitas/dia
2,4 milhões/mês