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Segunda-feira, 9/6/2008
As noites do Cine Marachá
Antônio do Amaral Rocha

São Paulo já teve cinemas de público cativo. Aliás, ir ao cinema era um hábito, uma obrigação, uma necessidade. Estou falando de cinemas de rua. E vou me lembrar de alguns deles. Na parte "podre" da rua Augusta, da mancha que vai da Paulista até a Martinho Prado, para quem desce, tinha, na década de 70, três salas de cinema que fizeram história. O Cosmos 70 que deve ter encerrado as suas atividades em 1973, 74; o Majestic que tinha cara de cinemão, exibia filmes comerciais e era muito freqüentado aos domingos; e mais abaixo, no número 780, o indescritível Marachá e sua insólita programação. Era uma sala que ficava meio às moscas durante o dia, mas à noite era um burburinho só, com programações temáticas. Às quartas-feiras apresentava as famosas sessões à meia-noite. Chamava-se Sessão Insólita e ficava apinhado de habitués, era programado por Álvaro de Moya, e só passava filmes cult e malditos de terror. Era um cinema de arte.

Foi lá que assisti ao impressionante Matou a família e foi ao cinema, de Júlio Bressane, Lílian M. Relatório Confidencial, de Carlos Reichenbach... Lembro-me também de Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia, de Sam Peckinpah, entre dezenas de outros. Era mais fácil encontrar um colega de faculdade na sala de espera do Marachá do que na própria sala de aula. Às sextas-feiras, a Sessão Maldita (nome derivado, certamente, do universo de Zé do Caixão), também à meia-noite, era das mais concorridas, talvez porque no dia seguinte não havia a necessidade de se acordar cedo para o batente. Não me lembro bem, se na Sessão Insólita ou na Sessão Maldita, mas tem um acontecimento que na minha vaga lembrança parece que durou uma temporada enorme, e disso não tenho certeza.

Alguém já pensou que um cinema pudesse ser local apropriado para uma batucada? Imagino que tenha sido na Sessão Insólita das quartas. Pois é, isso acontecia no Marachá. Talvez, derivado do hábito de batucar na almofada antes de começar a sessão ― uma variação do bater o pé, das nossas esperas no matinê da infância ―, uma dupla de amigos corajosos inaugurou o hábito. Na semana seguinte alguém trouxe um pandeiro, alguém lembrou de um tamborim e já dava pra incomodar um pouco. E isso foi crescendo, crescendo, a ponto de, em algumas semanas, sempre nessas sessões, adentravam o cinema e sentavam na primeira fila pessoas que formavam uma verdadeira escola de samba, com surdo, pandeiro, tamborim, repique, surdão e tudo a que tinham direito. Era uma performance. Batucavam até o momento de começar a projeção e não eram incomodados pela direção do cinema. Acho que até incentivavam, pois virou uma atração a mais.

Não me lembro a quantidade de pessoas que formavam essa "escola de samba", mas, pelo barulho que faziam, não deviam ser poucas. Não me lembro se cantavam e sei que ao apagar as luzes a batucada era suspensa, para ser retomada na saída. Nesse momento podíamos ver quem eram esses anônimos batuqueiros, mas não ligávamos, pois já faziam parte dos programas daquelas noites, e como atitude blasé nos misturávamos àqueles batuqueiros na saída e tomávamos o rumo de casa ou de uma esticada até o Piolin que permanecia aberto de madrugada. Mas, de todas essas noites ― que hoje me parecem eternas ― lembro de uma em especial e que parece se repetiu por diversas quartas-feiras.

Era a projeção de Myra Breckenridge, de Michael Sarne, com Rachel Welch e Mae West. O Marachá tinha o hábito de repetir o mesmo programa, semanas seguidas, nas suas programações temáticas. E Mira deve ter ficado em cartaz por muito tempo. E essa foi uma Sessão Maldita ou Insólita especial. Talvez instigado pelo próprio filme, o grupo da batucada achou que deveria ajudar na trilha sonora e em diversos momentos batucavam durante a projeção e ninguém reclamava, já que neste cinema tínhamos também o costume de conversar e fumar durante as sessões e também ninguém reclamava. E se fumava de tudo. Devo dizer que essa batucada, me parecia, já naquela época, algo bastante conservador, até como atitude, pois não era o tipo de "música" que eu ouvia. Eu estava entupido de rock. Mas valia como performance transgressora.

Estive presente em diversas projeções desse filme e o fato insólito sempre se repetiu. Naqueles idos de 1973, 1974, uma geração de estudantes, ainda meio perdida, abafada pela ditadura que iria recrudescer ainda mais dali pra frente, tinha nas sessões das quartas e sextas do Marachá, um alento, um respiro das agruras daquele tempo sombrio...

Post Scriptum
Depois de pronto, mandei este texto para um amigo ― que veio a se tornar meu amigo depois ― que também havia participado daquelas noites memoráveis. "Ah, você também estava lá?", me disse alguns anos depois desses acontecimentos. A resposta dele agora me esclarece algumas lacunas e confirma o conteúdo. Disse-me: "É bem isso mesmo... lembro-me de coisas muuuito loucas naquelas sessões mas, infelizmente, estava sempre tão drogado que misturo as coisas (como disse Joe Cocker: dizem que Woodstock foi muito legal, não me lembro de nada... eheheeh) mas, voltando: lembro-me de uma sessão do Myra que tinha um cara tocando um... sino! um puta sino! lembro da batucada... de muita gente fumando... fumada... olha, cara, falar daquilo tudo é muito perigoso. Não sei o que era real e imaginário. Agora mesmo me vem na cabeça a razão de eu ter saído no meio de uma sessão: uma cena do Laurel & Hardy carregando uma tábua que, por trucagem, não parava de passar na tela. Lembro-me claramente da cena e do acesso de riso que tive. Só. Tive que sair em busca de oxigênio (e alguma lucidez...) Wow... que tempos hein, brô?"

Nota do Editor
Leia também "A Geração Paissandu".

Antônio do Amaral Rocha
São Paulo, 9/6/2008

 

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