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Segunda-feira, 15/4/2002
A pequena arte do grande ensaio
Daniel Piza

O ensaio, como o próprio nome indica, é uma arte "menor" no sentido de que não tem a pretensão da completude, da transcendência, nem mesmo da panorâmica. No entanto, é um gênero "maior", porque a história da civilização está intensamente ligada ao seu surgimento e amadurecimento. Tanto quanto a perspectiva naturalista do renascimento, a ciência baseada no empirismo ou a polifonia musical, o ensaio marca a virada para a era moderna, para a era em que o homem não só vê a relatividade das coisas, mas vê também que é só ele quem relativiza – que o conhecimento não se encaixa num sistema elaborado pelo homem, pois há muitas coisas maiores do que o homem.

Assim, o ensaio pode parecer ao mesmo tempo um ato de arrogância e um ato de humildade, como toda grande criação artificial. Se pensamos no pai de todos os ensaístas, Michel de Montaigne, podemos ter ambas as reações: eis um homem em seu castelo, enfileirando latinismos, se julgando no direito de dar opinião sobre todos os aspectos da existência humana e social; mas eis também o homem que desmontou as pretensões definidoras e totalizadoras da mente humana, as ilusões finalistas, que apresenta suas reflexões para o leitor em um estado laboratorial, experimental, como se literalmente "ensaiasse" respostas, desprendido de métodos restritos a eleitos. Com Montaigne, o leigo se vê livre para pensar, sem a mediação dos "iluminados".

O que o jornalismo precisa, em especial o jornalismo cultural, mais especialmente ainda o jornalismo literário, é de um retorno a essas origens. Sim, porque, sabendo ou não, cada resenhistazinho de música pop é um filho de Montaigne, um herdeiro do Iluminismo, um tributário de gerações seguidas de ensaísmo brilhante. A crítica cultural nasceu da revolução literária que foi o ensaio. De Montaigne a Robert Hughes, o excelente crítico de arte australiano radicado nos EUA, todo um time de pensadores que na Idade Média estariam criando doutrinas platônicas ou aristotélicas se dedicou ao ensaio, ao texto que tanto confessa sua subjetividade como busca olhar da forma mais desarmada possível para a realidade. A crítica musical de Berlioz ou a crítica de arte de Ruskin são filhas do ensaio renascentista; o jornalismo de Samuel Johnson e William Hazlitt, idem. Mas vou poupá-los de mais exemplos.

O jornalismo cultural contemporâneo parece cada vez mais alheio, ingrato, a essas origens. De um lado, ele se especializou demais; se entupiu de jargões; se deixou seduzir pelas pretensões cientificistas da academia. De outro lado, se reduziu a um comentário binário, do eu gosto/eu não gosto, impressionista demais, ou então uma voz tribal, de gueto, como se vê tanto na música pop – mas se vê também na resenha de livro nos suplementos de fim de semana, em que o objeto é resumido e depois recebe nota qualificadora, sem passagem pela fundamentação, pelo convencimento, pela perspectiva. O jornalismo cultural virou uma espécie de júri de escola de samba.

E para variar os extremos se tocam: o acadêmico que escreve apenas para seus colegas de departamento e o repórter do caderno de variedades que desconhece tudo que é anterior ao seu nascimento são faces da mesma moeda barata – a da submissão à fogueira de vaidades, à fábrica de modismos, às fórmulas pré-estabelecidas. Ou seja, há um afastamento amazônico em relação ao que o ensaio teve de mais transformador: o espírito que é ao mesmo tempo aberto e seletivo, com boa vontade e senso crítico trabalhando simultaneamente. O ensaio nasce precisamente do ceticismo, da dúvida diante do que é apresentado como novo, justamente com a função de detectar aquela novidade que tem poder de permanência, ao menos de pertinência geracional. Você lê hoje uma resenha dessas e não sabe se aquilo que está sendo elogiado tem o fôlego de uma semana ou um século.

Travestido de humilde, esse jornalismo de critérios frouxos cria, no Brasil, um problema adicional: reforça a ideologia da acomodação, a espantosa falta de exigência do cidadão brasileiro. É por isso que é muito difícil traçar linhas de continuidade no jornalismo cultural brasileiro. Para ficar num só exemplo, aquela forma que Otto Maria Carpeaux praticou como ninguém – o ensaio curto e culto, que informa ao mesmo tempo que provoca o pensamento do leitor – hoje parece impraticável na imprensa brasileira, na grande como na pequena, na de massa como na acadêmica.

Recuperar a origem ensaística da crítica cultural na grande imprensa nacional, claro, não é defender um tom professoral, enciclopédico, passado em roupagem erudita para o ignaro público. A realidade é outra hoje. A linguagem tem de ser ainda mais ágil, clara, coloquial, sedutora – tem de ter ginga jornalística, tem de fugir do formato convencional. Acredito, talvez solitariamente, que é possível criar uma linguagem assim e ainda manter uma densidade, uma capacidade de descrever conexões mais sutis e irônicas entre as coisas, de perturbar o senso comum, de dizer muito com pouco sem ser obscuro. E acredito que essa seja uma das formas mais eficientes, na comunicação escrita moderna, de enriquecer literariamente o jornalismo.

Quando se discute a relação entre jornalismo e literatura, por sinal, normalmente se trata – e se reclama – do espaço dedicado aos livros na imprensa ou à publicação de contos e poemas pelos jornais de grande circulação. Mas não se pode esperar que os grandes jornais diários modernos dediquem espaço para o folhetim, como nos tempos de Balzac, ou para contos extensos, como nas revistas culturais. O caminho mais esquecido para a literatura se intrometer na bateria de notícias atuais é essa convivência com certa densidade ensaística, essa convocação ao leitor inteligente, o qual, ao contrário do que dizem os boatos, existe sim.

O jornal ainda é um meio privilegiadíssimo para familiarizar o leitor com o debate de idéias e a riqueza das palavras. Toda vez em que isso ocorre, a origem ensaística do jornalismo reaparece, o fantasma de Montaigne deixa seu castelo e vem despertar as praças. Uma pequena crônica de Luis Fernando Verissimo ou Carlos Heitor Cony pode ser um ensaio breve e disfarçado, assim como um artigo de Marcelo Coelho ou Arnaldo Jabor. Gerardo Mello Mourão, Paulo Francis e Décio Pignatari fizeram colunas no caderno "Ilustrada", da Folha de São Paulo, que eram produtos mais apressados de ensaístas já veteranos. E assim por diante. O que há em comum entre eles? Primeiro, eles estão tentando – estão procurando respostas, estão expondo dúvidas e opiniões para o leitor. Segundo, eles não falam de um assunto só – podem ir da política à ópera, com escalas no congestionamento urbano ou no prazer de caminhar no calçadão de Copacabana.

Precisamos mais disso e precisamos que isso vá além dos espaços fixos das colunas assinadas. Todo grande momento cultural moderno foi também um momento de proliferação de ensaios e resenhas, em revistas que se dirigiam a um público urbano, sofisticado, mas não bitolado em especialidades. No Brasil não existem mais essas revistas e os tablóides como New York Review of Books e Times Literary Supplement, etc. O resultado é um hiato asfixiante entre o academês dos suplementos literários dos grandes jornais – os que ainda sobrevivem – e o picotado ligeiro dos segundos cadernos. Mas o escritor, o intelectual público, é, por natureza, um generalista. Os jornais precisam de mais generalistas para que sejam jornais mais agudos; de mais espíritos ensaístas, de menos porta-vozes adjetivadores. Só assim os jornais serão mais literários, sem serem mais literatos.

Nota do Editor
Este texto foi gentilmente cedido pelo autor. Originalmente concebido como uma palestra (feita no dia 26/3/2002, no III Congresso Nacional de Escritores em Pernambuco), foi diretamente recolhido do próprio site de Daniel Piza.

Daniel Piza
São Paulo, 15/4/2002

 

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