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Segunda-feira, 27/6/2011
Sobre o preço dos e-books
Raphael Vidal

Zenão, filósofo pré-socrático, defendia a unidade e a indivisibilidade de tudo. Para argumentar contra os absurdos da multiplicidade, da divisibilidade e, consequentemente, do movimento ― conceitos tratados como ilusões segundo a escola eleática, a qual frequentava ― elaborou seus famosos paradoxos.

Entre eles, estava a história da corrida entre Aquiles, ágil e veloz, e a tartaruga, lenta e pesada. Para diminuir o favoritismo de Aquiles, foi dada uma vantagem de tempo à tartaruga, que logo se colocou a correr, do seu jeito. Para Zenão, ao Aquiles atingir o ponto onde a tartaruga se encontrava, esta, durante este tempo, já avançara mais um pouco, ad infinitum.

Este argumento, básico, leva a seguinte conclusão lógica: se a tartaruga iniciar a corrida primeiro, Aquiles nunca a encontrará e nem a ultrapassará. Porém, como todos sabemos, a realidade é bem diferente de certos raciocínios lógicos, e a intuição, por vezes, sobressai à racionalidade. O que nos surpreende, hoje, é perceber que um paradoxo de Zenão, refutado há séculos, pode ser base de uma lógica do mercado editorial brasileiro contemporâneo: a definição do preço do e-book.

A divisibilidade do destino
Em uma reunião recente entre dezenas de editores independentes e um empreendedor da área de e-books, este defendia seu negócio com as seguintes palavras: "Corram! Disponibilizem seus livros em formato digital antes que os pirateiem. Não se preocupem com formato. Façam um PDF e entrem no futuro." A maioria entrou e fez o certo. Hoje, são pouquíssimos os e-books em ePUB, ou em outro formato, disponíveis. O que nos faz chegar a conclusão de que o custo de produção de um livro digital é exatamente o mesmo do livro impresso.

Por exemplo, para ficar no básico e generalizar, a produção envolve leitura do original, avaliação, preparação, copidesque, diagramação, revisão, capa... Com o arquivo do livro pronto, limpo, no final da produção, uma divisão ocorre. São dois destinos:

1. Livro impresso:

a) Gráfica tradicional
b) Gráfica sob demanda

2. Livro digital:

a) PDF
b) ePUB
i. Novo projeto
ii. Transmídia (opcional)
iii. Rediagramação
iv. Revisão

Vamos tomar como referência o fato: simplesmente, o PDF ― e-books ― é o mesmo arquivo que a editora envia para ser impresso em gráfica. A única diferença no e-books é não ter as linhas de corte.

A multiplicidade do e-book
No mercado digital, dois novos conceitos surgem: estoque infinito e distribuição ilimitada. Um e-book não esgota e muito menos ocupa espaço de estoque, e o que parece contraditório, no meio digital, é perfeitamente viável. A distribuição que, no impresso, sofria inúmeras restrições, não possui mais limites. Qualquer leitor com uma simples conexão a internet (celular, tablet, PC, notebook, netbook etc.) tem acesso ao e-book. O sonho está realizado. Mas quanto custa este sonho?

Ao calcular o custo final de um livro impresso um dos fatores preponderantes é o custo da tiragem impressa pela gráfica. A partir disso, soma-se o custo de produção (entram aí também divulgação e lançamento), divide-se pela tiragem vendável (retira-se 10% dela para cotas de autor, imprensa e perdas) e define-se o multiplicador para determinar o preço de capa. Este multiplicador é que determinará seu fôlego comercial e seu retorno financeiro, podendo até em muitos casos começar com défice. Para se chegar ao custo do livro, portanto, é necessário definir uma tiragem inicial impressa. E isso, no e-book, não existe.

O movimento do editor
Este impasse pode ser resolvido. Mas para isso, o editor precisa confirmar sua vocação. Responsável, entre outras coisas, pelo conteúdo que chegará ao leitor, o editor ― necessariamente ― precisa ser um profissional à frente de seu tempo. Aquele que, mais que atualizado culturalmente, é um dos que atualizam a própria cultura. E, esta atividade, por mais que seja consciente, vive de apostas e riscos. Óbvio que vai além da racionalidade lógica, não é uma ciência exata e requer intuição. Acerta mais quem se movimenta.

E o movimento do editor no mercado editorial digital, que enfrenta um período de testes, deve ser em prol da conquista de mais leitores, sempre. A formação do leitor na era digital está vinculada a criação do hábito da leitura de e-books.

O leitor mantém, por outro lado, em média, um senso comum que caracteriza depreciativamente o e-book comparando-o ao livro impresso. Por fatores completamente subjetivos: apego, glamour, cheiro etc. O que é compreensível, já que se trata de uma cultura e um hábito enraizados em nossa vida. No entanto, o e-book pode ser lido em múltiplas plataformas, carregado em leves leitores digitais aos milhares, trocado facilmente, possibilitar transmídia...

O leitor que não vivencia diariamente essa experiência não quer pagar nem a metade do valor de um livro impresso em um e-book. Ele quer pagar barato e precisamos entender isso como um apelo do leitor. E está pedindo ao mercado para viver esta experiência e para deixá-lo mudar de hábito. Afinal, o leitor brasileiro não está familiarizado com o e-book, mas, como tudo que é novo, quer experimentá-lo.

O resultado da corrida
O e-book pode realmente ser mais barato? Pode. Tanto o best-seller quanto o long-seller em e-book, em maioria, salvo alguns casos muito particulares, podem custar ao leitor menos que dez reais e se tornarem projetos viáveis e rentáveis.

O editor brasileiro tem que começar a entender, de uma vez por todas, que é lucrativo, em várias frentes, vender mais e-books mais baratos do que vender menos e-books mais caros. Enganam-se os que acham que o editor quer lucrar mais. Por outro lado, é incoerente, falta de inteligência e visão, o editor aceitar para os e-books as mesmas condições dadas pelas livrarias às consignações do livro impresso ― e repassar a diferença ao leitor.

O livro impresso chegou antes e toda uma estrutura comercial existe há tempos para manter esse negócio e, ainda que tenha como base o mesmo conteúdo/arquivo, o e-book, que corre por fora, é um produto completamente novo e suas condições mercadológicas devem ser diferentes.

Não é tão fácil que isso aconteça. Somente se a lógica do mercado editorial e livreiro for renovada. É uma briga que deve ser comprada pelos editores e também por associações, sindicatos e ligas, com o objetivo de transformar o adversário em parceiro, fazê-lo jogar no mesmo time. É claro que aí está uma decisão: vamos, editores, deixar Aquiles/e-book, ultrapassar a tartaruga/livro impresso?

Aceitar o mercado como está é pensar que o paradoxo de Zenão pode se tornar uma verdade, é acreditar que a tartaruga nunca será ultrapassada por Aquiles. É desconhecer o poder do leitor. A diferença é que sabemos, há séculos, o resultado desta corrida...

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no blog FIMdolivro. Raphael Vidal é escritor, editor e alimenta também o microblog @fimdolivro. (Leia também "O incompreensível mercado dos e-books".)

Raphael Vidal
Rio de Janeiro, 27/6/2011

 

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