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Segunda-feira, 26/5/2003
Coração de mãe é um caçador solitário
Sonia Nolasco

“Longa jornada para dentro da noite” (Long Day’s Journey Into Night), obra-prima de Eugene O’Neill, é uma experiência de teatro para quem tem mãe. Aquele tipo de mãe que padece no paraíso. Sem ironia. Durante quase 3 horas, a presença poderosa (até quando não esta em cena) de Mary Tyrone, inspirada na própria mãe de O’Neill, faz picadinho de nossas emoções filiais. Nessa produção magistral que acaba de estrear na Broadway (onde fica até 31 de agosto), Vanessa Redgrave interpreta Mary Tyrone. Na platéia, muito marmanjo aos prantos. A peça é de 1941 mas, infelizmente, sofrer de culpa é sempre moderno.

Quando O’Neill acabou o texto, entregou-o a sua mulher, Carlotta, com a dedicatória: “...peça de velhas mágoas, escrita em lágrimas e sangue”; “uma homenagem ao seu amor e ternura, que me tornaram capaz de enfrentar meus mortos e escrever esta peça com profunda piedade e compreensão e perdão pelos quatro obsessivos Tyrones”.

Quando “Long Journey” finalmente estreou (dirigida por Jose Quintero) num palco americano, em 1956, três anos depois da morte do autor, disse o crítico Walter F. Kerr, no New York Herald Tribune: “Que ele [O’Neill] foi prejudicado por sua família é, agora, apenas um fato, um pedaço da verdade... ”; “[Na peça] não há resíduos de rancor”.

Ele parece estar pedindo perdão por seu próprio fracasso em conhecer seu pai, mãe, e irmão o bastante naquela época em que a necessidade de compreensão era como “um grito na noite”.

A longa jornada de O’Neill escava um passado doloroso, uma noite do verão de 1912, na casa de praia da família. O autor trocou os nomes, mas deixou a situação dramática correr livremente do café da manhã, quando a família parece quase normal, à noite, em que Mary, viciada em morfina (aparentemente para amenizar dores terríveis de artrite), o que a tornara quase demente, transforma-se numa espécie de fantasma desolado. James Tyrone (Brian Dennehy), o marido, que tinha sido na juventude um ídolo de teatro, é baseado em James O’Neill, pai do autor; James Jr. (Philip Seymour Hoffman), o filho mais velho, um ator fracassado e beberrão, cínico mas de boa índole; e Edmund (Robert Sean Leonard), o filho mais novo, poeta, de saúde (tem tuberculose) e sentimentos delicados, é o alter-ego de Eugene O’Neill. A casa (cenário de Santo Loquasto), em tons sombrios, lembra um túmulo; sugere o significado distorcido de “lar”, o que James nunca deu a Mary e aos filhos.

Mary (Vanessa Redgrave), passa o dia vagando pela casa, seus movimentos no andar de cima vigiados e comentados pelos que estão embaixo. Mãe amorosa, mas também hostil, ela abraça ou repudia os filhos; derrama carinho, especialmente em Edmund, seu favorito, ou lembra verdades brutais do passado, quando sua saúde foi fatalmente comprometida pela avareza obsessiva do marido, que a obrigava a morar em hotéis vagabundos e a tratar-se com charlatões; acusa James Jr. de ter deixado morrer, ainda bebê, o segundo filho, Eugene, de quem ele tinha ciúmes; e repete que nunca deveria ter concebido Edmund. Ao mesmo tempo, Mary é vitima e carrasco da família. É o vértice para onde convergem as angústias e contradições violentas do marido e dos filhos.

As 8h30 da manhã, Mary surge na sala com um risinho tímido de moça de colégio interno. Conversa com todos, faz perguntas solicitas, dispensa conselhos maternais. Só suas mãos traem a verdade: crispados pela artrite, os longos dedos cortam o ar como pássaros desorientados, ou, de repente, simulam tocar uma valsa, usando a mesa como piano, ou escalam e arranham o espaço em busca do passado, quase presente em seus devaneios. No meio da tarde, Mary só fala no tempo em que conversava com uma imagem da Virgem Maria ou com as freiras do internato, e queria também ser freira, embora fosse muito feliz na casa confortável de seu pai. É preciso acompanhar também os olhos de Vanessa Redgrave para captar o sofrimento de Mary: às vezes seus olhos brilham, e ela é fisicamente a jovem graciosa e inocente que foi apresentada ao famoso ator James Tyrone; em outras cenas, seus olhos estão opacos, sem vida, dopados pela morfina. Sua voz é enérgica, cheia de raiva, ao queixar-se dos maus tratos do passado, mas quase sempre mais parece um lamento, contraponto ao apito melancólico da buzina de nevoeiro, que avisa constantemente do perigo.

Em 1956, deve ter sido chocante ver no palco três alcoólatras e uma viciada em morfina. Hoje em dia, vida doméstica excêntrica é comum até em seriado de televisão. Mas certamente não foi esse tipo de fraqueza que O’Neill explorou e, sim, a profunda solidão de cada individuo na família, apesar dos intensos laços amorosos, que muitas vezes sufocam. O mais surpreendente do texto é a avalanche de clichês típicos de drama sentimental; o ciclo previsível de remorso, culpas, expiação, recriminação e reconciliação.

A diferença está no gênio do autor e, agora, na interpretação magnífica dos atores. O esforço de O’Neill em documentar o sofrimento de sua família, e o seu, através de recordações íntimas, é tão intensamente sincero, que o espectador não habituado à análise de grupo se sente um voyeur. Deve ser por isso que a platéia americana ri nos momentos mais cruciais; deve ser o nervoso de flagrar suas próprias emoções e não saber como lidar com elas.

Além da presença dominadora de Mary (em outras produções - com Jason Robards, em 1976, Jack Lemmon, em 1986, e Robards, em 1988 - James pai era o centro das atrações), a direção excelente de Robert Falls destaca a afetividade entre os quatro Tyrones. Sua união é tão verdadeira quanto a fúria com que se confrontam. Apesar de se verem confinados naquela casa todos os verões, se torturando mutuamente, e cultivando ressentimentos, eles partilham uma afeição comovente. Outra característica dessa produção é o senso de humor irlandês, de James pai, que os filhos herdaram.

A peça se desenrola numa sucessão de encontros alternados entre mãe e filhos, um de cada vez e os três juntos; pai e filhos, um de cada vez e os três juntos; marido e mulher sozinhos, e os quatro juntos. James pai domina o terceiro ato, quando conta a Edmund sua infância paupérrima, sem pai, e como seu medo de envelhecer pobre o tornou avaro. Ao contrário de outras interpretações, Mary não se mantém distante de James pai, James Jr., e Edmund, como se já vivesse num mundo à parte. Mary demonstra grande ternura física com os três, e trata a empregada, Cathleen, com atenção carinhosa. Por isso, Mary causa impacto muito maior quando, no final do último ato, toma uma dose dupla de morfina e se refugia no passado.

No primeiro ato, Mary comenta com os filhos, “Nenhum de nos pode evitar as coisas que a vida nos faz. Tudo acontece antes que possamos nos dar conta...” Fora do contexto, soa como clichê de novela. É preciso viver muita dor para entender que se trata apenas de compaixão.


Sonia Nolasco
Nova York, 26/5/2003

 

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