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Segunda-feira, 16/6/2003
Picasso versus Duchamp e a crise da arte atual
Alberto Beuttenmüller

Não há dúvida: Pablo Picasso e Marcel Duchamp foram os dois artistas de maior influência no século 20. Picasso, pelo conjunto de obras; Duchamp, pela negação da própria noção moderna de obra de arte. Podemos dizer que Picasso produziu arte em padrões clássicos: pintura, escultura, gravura, cerâmica. Enquanto Duchamp, depois de ter abandonado sua notável pintura, iniciou a construção da antiarte. Ambos passaram por seguidas metamorfoses. Em Picasso, as metamorfoses surpreenderam durante meio-século; mas, a inatividade de Duchamp não foi menos surpreendente, nem menos fecunda. Picasso foi o retrato do século 20. Suas mutações freqüentes estiveram pari passu com as transformações da época moderna; desde o fim do Impressionismo até a II Guerra Mundial.

Octavio Paz, no prólogo de Marcel Duchamp o el Castillo de la Pureza, no Brasil editado sob título Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza, editora Perspectiva, coleção Elos, em tradução de Sebastião Uchoa Leite, diz haver encarnações e profecias em Picasso, quando o compara com as necessidades urgentes do século 20. E Paz conclui sobre Picasso: “Encarnações: em suas telas e em seus objetos, o espírito moderno se torna visível e palpável; profecias: em suas mudanças, nosso tempo só se afirma para negar-se e só se nega para inventar-se e ir mais além de si. Não um precipitado de tempo puro, não as cristalizações de Klee, Kandinsky e Braque, mas o próprio tempo, sua urgência brutal, a iminência imediata do agora”.

Picasso busca a vertigem da aceleração; Duchamp opôs à vertigem da aceleração de criar, o retardamento. Na Caixa Verde, o francês anota: dizer “retarde” em lugar de pintura ou quadro. E acrescenta: “pintura sobre vidro se converte em ‘retarde’ em vidro, mas ‘retarde’ em vidro não quer dizer pintura sobre vidro”. Esta frase explica o método de Duchamp, se a pintura é a crítica do movimento, o movimento é a crítica da pintura.

Por que a escolha desses dois artistas neste ensaio? Porque são parâmetros, pólos opostos e limites de todos os artistas do século 20, além de precursores da criação artística do século 21 e a crise que recém se instalou nas artes visuais de linguagem contemporânea. Voltemos aos dois gênios.

Picasso é o artista do devir e o que está passando, a um só tempo, do hoje e do arcaico, o artista que mudou tudo para que tudo restasse no mesmo lugar. O artista veloz que se permite ser do século 20 e de todos os séculos, sem deixar de ser do agora. Picasso foi um movimento que se fez pintura, mais que todas as escolas do século 20; foi e é o pintor-tempo.

A pintura de Duchamp, ou sua “retarde”, é de análise, de decomposição, o reverso do artista veloz. Se as figurações de Picasso saltam veloz do espaço imóvel da tela; nas obras de Duchamp, o espaço caminha e se incorpora, e finda como máquina filosófica e hilária, e com ironia refuta todo e qualquer movimento com o retardamento. Como conclui Paz, a metalinguagem de Duchamp baseia-se na metaironia.

As telas de Picasso são imagens; enquanto as obras de Duchamp são uma reflexão irônica sobre a imagem. Picasso pintou dentro da tradição da pintura, como a arte sempre foi; Duchamp fez antiarte. Tentou criar uma arte, partindo do pressuposto de como seria a arte, caso não existisse do modo como a sabemos; como se tudo começasse a partir dele. Se Picasso for uma tese, Duchamp será sempre sua antítese.

Picasso foi artista de fecundidade rara e inesgotável, enquanto as raras telas de Duchamp não passam de meia centena, criadas em menos de dez anos, depois disso foi jogar xadrez e tornou-se mestre, um fato raro para quem começou a jogar tardiamente, como foi o seu caso.

O que Duchamp produziu, depois de 1913, ao deixar a pintura-pintura pela pintura-idéia, foi o início de um conceito novo de arte – a antiarte. A partir daí, Duchamp criou uma obra sem obras. Não há mais telas, mas objetos, como o Grande Vidro ou La Mariée mise a nu par ses celibateires, même – que é instalação, a primeira que se tem notícia, abandonada em 1923, sem terminar. Antes disso, Duchamp criou os ready-mades, objetos industriais dos quais se apossou e os indicou como obras de arte. Havia os ready-mades assistidos, nos quais interferia, como a roda de bicicleta, na qual pôs um banco como suporte; e havia os ready-mades plenos, aqueles que sua mão sequer tocou. Depois disso, alguns gestos esporádicos e um profundo silêncio.

Picasso e Duchamp foram mais destruidores do que construtores. Picasso destruiu a forma, usando da linguagem tradicional da arte, com técnicas diversas e diversificadas. Duchamp criou uma metalinguagem que, no fundo, quer mesmo é destruir a arte, em prol da antiarte, aproveitando-se de que as artes, inclusive as visuais, findam em zona invisível e obscura, daí sua subjetividade.

Se Picasso usou da paranóia para destruir a forma, Duchamp destruiu a definição de arte de maneira esquizofrênica, sem deixar margem a qualquer tipo de reconstrução. Nestes dois criadores do século 20 está o cerne da crise por que passa a arte hoje, seja a pintura, seja a instalação, sejam os novos meios de produzir arte.

Duas definições de arte foram destruídas; a de Hegel: arte é a manifestação do espírito que o próprio espírito vem a superar; e a de Heidegger: arte é a projeção da verdade do ser, como obra. Em nenhuma dessas duas definições cabe a arte dita contemporânea.

Nota do Editor
Texto inédito, especialmente redigido pelo autor, para o Digestivo Cultural. Alberto Beuttenmüller é poeta, jornalista e crítico de arte (membro da AICA).

Alberto Beuttenmüller
São Paulo, 16/6/2003

 

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