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Terça-feira, 13/2/2018
Paul Ricoeur e a leitura
Celso A. Uequed Pitol

No começo do segundo volume da sua obra magna “Tempo e Narrativa”, Paul Ricoeur lança, em meio às suas considerações sobre narratologia e leitura de textos literários, a seguinte frase: “Explicar mais é entender melhor”. Para que ela faça sentido, é preciso concatená-la com as reflexões do autor na área de hermenêutica, tarefa que nos dispomos a fazer aqui.

Inicialmente, devemos ressaltar a íntima relação que Ricoeur vê entre experiência humana e linguagem: para ele, a experiência humana contém uma dizibilidade que não pode jamais ser afastada. Ela pede para ser enunciada. A experiência humana carrega, portanto, o dizer - o dizer-se - em seu bojo, diante do qual o homem que a experiencia é convidado a articular.

A partir daí a narratividade ocupa espaço decisivo. A experiência, que pede para ser dita, ocorre no tempo humano, sendo este articulado, segundo Ricoeur, como um processo temporal. E tal processo só é reconhecido quando ele é narrado: é a narratividade que marca, clarifica e articula a experiência temporal humana , integrando o heterogêneo numa totalidade inteligível.

Diante dessa experiência que pede para ser narrativa, dessa narrativa que articula a experiência humana e que integra o heterogêneo, qual a tarefa da hermenêutica? Para compreendermos plenamente a proposta hermenêutica ricoeuriana e sua relação com a narrativa, é preciso termos em mente o diálogo que ela estabelece com a tradição da disciplina - em particular, com as reflexões operadas por Wilhelm Dilthey (1833-1911).

Dilthey parte de seus estudos em epistemologia para propor uma diferenciação radical entre as ciências da natureza (as Naturwissenschaften - a Física, a Química, a Biologia, a Matemática e outras) e as ciências humanas - ou, na terminologia por ele formulada, as Ciências do Espírito (Geisteswissenschaften): a História, a Sociologia, a Filosofia, o Direito, os Estudos Literários, etc. O primeiro grupo de ciências, o da natureza, opera a partir da explicação dos fenômenos da natureza; o segundo grupo, o das humanidades, opera a partir da compreensão dos processos vitais e da vida psíquica presentes na obra diante da qual se coloca o leitor ou intérprete.

Essa divisão radical proposta por Dilthey não é aceita por Ricoeur - ao menos, não nos termos em que Dilthey a coloca. No lugar dela, Ricoeur propõe que explicação e compreensão sejam considerados como dois momentos diferentes da interpretação, superando, assim, a antinomia irredutível que Dilthey coloca: em vez de oposição, Ricoeur vê aí complementaridade; a explicação e a compreensão não seriam, assim, dois modos irredutivelmente distintos de conhecer um objeto de estudo, mas dois momentos do processo de interpretação de um texto. A compreensão parte de uma ligação ontológica entre o homem e o objeto, marcada por um abrir-se “ingênuo” ao texto; a explicação, por sua vez, é um passo metodológico que, ao contrário do que pensava Dilthey, não é necessariamente alheio às “ciências do espírito”, às quais ele opunha as ciências da natureza. Nas palavras de Ricoeur, “explicar é destacar a estrutura, quer dizer, as relações internas de dependência que constituem a estatística do texto”

Estabelecida essa distinção nuclear, Ricoeur dispõe os elementos da dialética da compreensão e da explicação que funda a sua proposta interpretativa - que serve, em particular, para a interpretação de textos, como as narrativas.

O primeiro momento é a compreensão que ele denomina ingênua, ou seja, decorrente de um contato imediato com o texto, onde este apresenta-se ao leitor. No segundo momento, opera-se a explicação, onde ocorre um distanciamento entre o leitor e o texto, fundamental para que se perceba a estrutura das relações internas de dependência das partes do discurso. A este momento segue-se um terceiro, que é um retorno à compreensão, desta vez não mais “ingênuo” mas sim mediado pelo arcabouço metodológico da explicação.

A hermenêutica tem, assim, uma dupla tarefa:

(...) procurar, no próprio texto, por um lado, a dinâmica intenra que preside à estruturação da obra, por outro lado, o poder de a obra se projetar para fora de si mesma e engendrar um mundo que seria, verdadeiramente, a “coisa” do texto".

Fica claro, aí, o afastamento de Ricoeur em relação a Dilthey: ele recusa o que chama de “ilusão romântica” da compreensão imediata que Dilthey advoga, decorrente de um “transporte” do leitor em direção a uma consciência estranha. Dilthey, segundo Ricoeur, entendia que a interpretação era sinônimo de uma compreensão caracterizada pela apreensão de uma outra vida, expressa através das objetivações da escrita. Ao mesmo tempo, Ricoeur recusa uma leitura que se reduz a uma análise estrural do sistema de signos.

O que se faz no processo de leitura de uma narrativa, por exemplo, não é compreender aquele que fala através do texto, mas aquilo de que se fala, a coisa do texto, o mundo que a obra revela pelo texto. E aí Ricoeur faz apelo a Aristóteles, ao apontar a chave proposta para a composição:

“o poeta, ao compor uma fábula, uma intriga, um muthos, oferece uma mimesis, uma imitação criadora dos homens que agem. Do mesmo, uma lógica dos possíveis narrativos, a que pode aspirar uma análise dos códigos narrativos, só se conclui na função mimética pela qual a narrativa refaz o mundo humano da acção”

Quanto ao momento intermédio da explicação, onde o distanciamento metodológico tem lugar - e que constituía, segundo o pensamento de Dilthey, o processo típico das ciências naturais - Ricoeur afirma que, para que ele se dê, não precisamos nos preocupar com a divisão, também diltheyana, entre natureza e espírito . Ao contrário: dentro do próprio campo epistemológico da linguagem podemos encontrar um modelo de explicação em nada inferior aos da ciência da natureza e, ao mesmo tempo, bem ajustado às necessidades dos estudos de narrativa.

Celso A. Uequed Pitol
Canoas, 13/2/2018

 

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