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Segunda-feira, 7/1/2002
Democratizando o elitismo

Julio Daio Borges




Digestivo nº 63 >>> Sérgio Augusto, uma das lendas-vivas do Pasquim, acaba de lançar “Lado B”, uma coletânea de textos das revistas Bravo! e Bundas. O livro é mais que bem-vindo. Tanto que ficamos nos perguntando porque Sérgio Augusto não compilou sua produção jornalística antes. Ele que, junto com Ruy Castro, vem produzindo artigos memoráveis para o Caderno2 (do Estadão), aos sábados. Em “Lado B”, Sérgio Augusto exercita a sua porção ensaísta (de Bravo!) e cronista (de Bundas). A gama de assuntos, portanto, é vasta: desde os sinônimos para as genitálias masculina e feminina até a eleição da palavra mais bonita da língua portuguesa; desde o centenário de Gilberto Freyre até o retrato que o cinema americano fez do Brasil; desde Graham Greene até o jornalismo cultural tupiniquim; desde O Apanhador no Campo de Centeio até a “máquina de fazer doido” (ou seja, a televisão). Poucas pessoas, na grande imprensa, entendem tanto de século XX quanto ele. Sérgio Augusto começou como crítico de cinema (aliás, conta de seu tempo no Correio da Manhã, ao lado de Otto Maria Carpeaux), mas, não contente, espraiou-se pela literatura e pela música, sobre os quais discorre com igual proficiência. Seu estilo amarra termos, subentendidos e citações como só Paulo Francis fazia, anos atrás, e como só Ivan Lessa talvez faça hoje. Um dos melhores momentos de “Lado B” é curiosamente a introdução, em que Sérgio Augusto dá a sua definição de “ensaio” (passando por Montaigne e por Phillip Lopate), provavelmente respondendo à provocação de Luís Fernando Veríssimo, que insistentemente classifica-o como “ensaísta”. Essa discussão que, de certa forma, justifica o volume de mais de 400 páginas, na verdade, encobre outra: por que os nossos intelectuais, da geração de Sérgio Augusto (por exemplo), não produziram ensaios de fôlego e em profundidade – se aparentemente possuíam todos os pré-requisitos para isso? Por causa da urgência do embrulha-peixe? Porque penavam sob uma ditadura e, mais tarde, sob uma democracia? Por causa do forte apelo da “cultura de massas”? Qualquer que seja a resposta, contudo, vale lembrar que ainda é tempo. E que as gerações futuras, videotas ou não, agradecem.
>>> "Lado B" - Sérgio Augusto - 414 págs. - Editora Record
 
>>> Julio Daio Borges
Editor
 

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