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Segunda-feira, 19/8/2002
Coração generoso

Julio Daio Borges




Digestivo nº 95 >>> Wittgenstein é o tema da nova Cult, nš 60, edição de agosto, remodelada também na capa. O filósofo que no século XX quase acabou com a filosofia, reduzindo tudo a um problema de linguagem, veste um de seus paletós mais surrados e contrapõe o rosto enrugado (e o cabelo desgrenhado) a uma parede toda rabiscada. Vivia seus últimos momentos, antes do câncer que o liquidaria aos 60 e poucos anos; o mesmo que ele - diz a lenda - receberia de bom grado. Aliás, a reportagem não se furta a perpetuar toda a mítica em torno do jovem, do adulto e até do velho Ludwig. Uma das histórias mais saborosas envolvendo o autor do "Tractatus logico-philosophicus" é aquela registrada nas memórias de Bertrand Russell: Ludwig, então com 20 e poucos anos, aborda Russell em Cambridge e lhe pergunta, de chofre, se é um completo idiota (para se dedicar tão somente à engenharia aeronáutica); depois de examinar uma composição filosófica do intrépido rapaz, o autor de "Principia mathematica" profere o veredicto: "Não, Wittgenstein, você não deve ser um simples aeronatura, mas sim dedicar-se ao ofício de Platão e Sócrates". Enfant terrible típico da literatura moderna e fragmentária, Ludwig só viria a publicar um livro em vida: o "Tractatus", que elaboraria no front de batalha da Primeira Guerra Mundial, depois de arriscar-se e medalhar-se inúmeras vezes por bravura. Então viriam as "Investigações filosóficas", póstumas (uma reação ao "Tractatus"?), livro que ele jamais daria por terminado. Há, claro, uma infinidade de trabalhos entre a primeira e a segunda (última?) publicação: desde a gramática da língua alemã, escrita quando Wittgenstein decidiu abandonar tudo e dedicar-se às crianças, até os "blue and brown books", quando lecionava filosofia para gente grande; há ainda as polêmicas conferências e os reveladores diários. Louvável que a Cult procure ultrapassar a imagem superficial do sujeito de família abastada, que privou, ainda moço, da companhia de Mahler, Brahms e Klimt (para citar apenas alguns nomes). Wittgenstein é quase o indizível no Brasil - ainda que, sobre ele, o melhor não seja "calar" e sim "falar".
>>> Cult | Russell sobre Wittgenstein
 
>>> Julio Daio Borges
Editor
 

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