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Segunda-feira, 12/4/2004
Alto astral, altas transas, lindas canções

Julio Daio Borges




Digestivo nº 170 >>> Gilberto Gil não entendia porque estava sendo preso, depois de declarar que “gostava da maconha”. Caetano Veloso insistia para que Florianópolis fosse incluída na turnê, porque “ele e Gil” apreciavam muito a cidade. Maria Bethânia, irritada se maquilando e concedendo entrevista, declarava que “veado” e “não-veado” era tudo igual. Gal Costa, antecipando a indumentária de Marisa Monte, sorria despreocupada com sua gengiva. Eram, em 1976, os Doces Bárbaros – em 1º de abril de 2004, no telão do Vivo Open Air, armado no Jockey Club de São Paulo. As pessoas se trombavam, com pipocas a tiracolo (eram grátis), nas subidas e descidas – ao mesmo tempo em que pulavam as grades para garantir um melhor assento (reservado). Enquanto isso, o quarteto executava “Fé cega, faca amolada”, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos; justificava seu planejamento (de lançamento) com uma solene “falta de planejamento”; misturava referências orientais com africanas e indígenas; cultivava uma magreza de faquir; transbordava em alegria no palco – num desejo supostamente despretensioso e infantil de transformar o Brasil. Conseguiram? Surpreendentemente, vendo o filme, parece que atribuímos, aos Doces Bárbaros, uma importância que nem eles mesmos, na época, se atribuíam. Como (a)os Beatles. Inconscientes daquilo que realizavam (mudar o mundo), John, Paul, George e Ringo morreriam sem entender o que – naqueles anos – teria acontecido. “Nós éramos apenas uma banda que se tornou muito, muito grande. E é tudo”, resumiria Lennon. “O planeta estava enlouquecendo e, de repente, nós éramos os culpados”, concluiria Harrison. No caso dos Doces Bárbaros, não dá para entender, por exemplo, como um disléxico Gilberto Gil conseguia compor; como uma meninota Maria Bethânia tinha aquela voz de trovão; como um simplesmente altivo Caetano Veloso organizava movimentos (artísticos); como uma arisca Gal Costa arrancaria, outro dia, aplausos de uma platéia embevecida. Se em matéria de atitude os “Bárbaros” não estavam muito longe dos atuais “Tribalistas” (descontando-se o retardo mental destes últimos), a produção musical se revelaria muito menos dependente de seus agentes do que do “entorno”. E se a intuição não mudou nestas décadas, já a realização... quanta diferença.
>>> Vivo Open Air
 
>>> Julio Daio Borges
Editor
 

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