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Sexta-feira, 24/6/2005
Boa tarde às coisas aqui em baixo

Julio Daio Borges




Digestivo nº 232 >>> Não consta que o mercado editorial, como o fonográfico, viva uma crise recente. Mas, à maneira das coletâneas, das regravações e das reinterpretações em CD, popularizam-se, também na indústria do livro, as compilações, os compêndios e as coleções. A quase impossibilidade de firmar novas referências, e principalmente novos nomes – nunca mais como antes –, obrigam, ainda que inconscientemente, à reedição, à revisão, à revisitação. E não à renovação: que, além de muito arriscada como business (quanto custa para construir um autor?), não encontra eco em meio à balbúrdia contemporânea; nem aparato conceitual – uma vez que o pós-modernismo, no que tange ao conhecimento, se apóia da máxima de Chacrinha: “Eu vim para confundir; não para explicar”. Assim, meio como uma estratégia de sobrevivência, só resta explorar o parco repertório que as pessoas já têm – e não tentar ampliar-lhes os horizontes, porque não dá. Como em todos os cenários desse tipo, os oportunistas se refestelam – porque não há investimento, apenas a recolha de dividendos. Por outro lado, contudo, os honestos ainda encontram saídas hábeis para prover uma resposta inteligente ao atual panorama. É o caso de Enrique Vila-Matas, e do seu Bartleby e companhia, pela editora Cosac Naify. Num dos volumes mais elogiados pela imprensa brasileira nos últimos tempos, Vila-Matas faz por merecer, ao revisitar a sina de escritores ágrafos – sujeitos que ou nasceram estéreis, ou se tornaram estéreis ou ainda, mais interessante, optaram deliberadamente pela esterilidade. Claro que retoma exemplos clássicos, como o de Rimbaud, o de Melville (pai do Bartleby) e o de Truman Capote. Mas são nas pequenas histórias, de personagens obscurecidos, que a narrativa toma corpo e justifica a empreitada. Para escrevinhadores, é um volume delicioso (um consolo? um conforto?). Para leigos, mais uma chance de lidar com o fracasso – tirando até proveito dele – numa sociedade onde o sucesso, quando não é amplo e consagratório, se transforma num fardo que, invariavelmente, todos temos de carregar. Apesar do marasmo, apesar das fórmulas fáceis – de quem requenta referências as mais manjadas –, Vila-Matas mostra que a criatividade ainda vale (por mais que haja reloaded).
>>> Bartleby e companhia - Enrique Vila-Matas - 188 págs. - Cosac Naify | Uma ferida iletrada | All the rest is silence | Guía de lacónicos | Weblog sobre o livro Bartleby e companhia
 
>>> Julio Daio Borges
Editor
 

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