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Segunda-feira, 9/10/2006
N.Ex.T festeja seus 7 anos
Fernanda da Silva

Antonio Destro e Daniela Casteline em Mera Coincidência

Antonio Rocco, diretor do Núcleo Experimental de Teatro (N.Ex.T), resolve comemorar o sétimo aniversário do grupo fazendo o que mais gosta: experimentar! Assim surgiu Textículos - Textos Minúsculos para Teatro, pela primeira vez o diretor desfragmenta um espetáculo em sete textos curtos, onde cada um é uma peça diferente. O único ponto de encontro entre os textos é a temática, com um fundo de humor, as peças falam sobre a urgência e situações limite, que exigem soluções imediatas.

Em Olho por olho - Peça em cena desolada, um casal acaba de sobreviver a um furacão. No entanto, Caetano e Wilma imaginam que a calmaria será breve, pois acreditam estar no olho do furacão. A proximidade da morte dá margem a confissões surpreendentes. A segunda história é Na faixa - Peça em um ciclo, na qual os ex-amantes, Carlos e Luiza, se encontram na travessia de uma grande avenida e os antigos problemas do relacionamento vêm à tona. Em Radicais livres - Cena em uma peça, Lenine e Olga estão em uma passeata estudantil. Embora estejam ideologicamente de lados opostos, surge um interesse amoroso entre os militantes. Em Mera Coincidência - Peça em um Átimo, Berenice reconstitui a cena em que esteve com seu ex-marido pela última vez. Te Conheço - Peça em um reconhecimento e meio mostra o encontro entre Carla e Borges, sendo que ele a confunde com uma velha amiga prostituta. Desejo - Peça em 14 andares e 1 mezanino traz as peripécias de Márcia, que está disposta a fazer amor com Lúcio, seu vizinho, no elevador do prédio onde moram; no entanto, os vizinhos, a mulher de Lúcio e o porteiro serão obstáculos a vencer. No último texto, Escalada - Cenas nas Alturas, uma equipe de aventureiros está escalando a Pedra do Baú e um desentendimento coloca em risco a vida dos participantes.

As peças se desenvolvem em, no máximo, 10 minutos. O diretor faz questão de ressaltar que cada história não é um esquete, mas sim uma peça iniciada pelo clímax. Em alguns textos, Rocco atinge seu intento, porém, em outros, ele não conseguiu fugir do humor fácil e das piadas prontas. Olho por Olho e Mera Coincidência são os melhores textos, em parte auxiliados pelas boas interpretações, mas também por concentrar neles o cerne das idéias que o autor procura transmitir. Em ambas as peças podemos perceber o sentido da urgência e a dramaticidade das ações entre os personagens, em desfechos catárticos. Na faixa também é um texto interessante, uma comédia urbana que satiriza os relacionamentos na metrópole. A peça parece uma adaptação teatral da canção "Sinal Fechado" de Paulinho da Viola, e mostra como a falta de diálogo em um relacionamento pode acarretar num final trágico.

Também merece destaque a belíssima atuação de Daniela Casteline, protagonizando a mulher traída em Olho por Olho, muito bem acompanhada por Ivan Capua, e a ex-mulher depressiva e vingativa em Mera Coincidência, ao lado de Antonio Destro. A atriz conduz com maestria o conteúdo dramático, bem dosando leveza, emoção e dramaticidade. Daniela também rouba a cena em Desejo, onde interpreta a simplória mulher preocupada com o marido, o qual encontra-se trocando carícias com a vizinha dentro do elevador.

Daniela Casteline e Ivan Capua em Olho por Olho

O N.Ex.T
Inaugurado em junho de 1999 com a peça O Caderno Rosa de Lori Lamby, adaptação homônima do livro de Hilda Hilst, o Núcleo Experimental de Teatro surgiu como iniciativa do dramaturgo Antonio Rocco frente às dificuldades de montar suas peças. "Eu escrevo para teatro há muito tempo e percebia que os autores brasileiros contemporâneos não tinham lugar para se apresentar. Eu tinha também um monte de amigos dramaturgos que sofriam da mesma tristeza.", afirma Rocco.

Onde hoje se encontra o teatro antes era um depósito, Rocco utilizava o espaço para ensaiar. Em 1995 foram iniciados os trabalhos para transformar o local em um teatro que atendesse às necessidades de dramaturgos sem espaço no circuito comercial. "Na época, ou você montava sua peça em um teatro da prefeitura ou do estado, que cediam o espaço com muita burocracia, ou você não montava, porque o aluguel de um teatro era cerca de 15 mil reais por mês, e as pequenas companhias que fazem teatro de arte não podem pagar por isso. Como, geralmente, para experimentar você precisa de pequenos espaços, um pequeno auditório já está ótimo", explica Rocco. Em 2000, o N.Ex.T ampliou sua área de atuação abrindo o Cabaré, um ambiente aconchegante que mistura teatro e bar. O espetáculo inaugural do local foi o Terça Insana, de Grace Gianoukas, o qual obteve grande sucesso de público e crítica e seguiu para o circuito comercial.

Ao longo de sete anos o N.Ex.T apresentou o trabalho de diversos autores brasileiros contemporâneos como Mário de Andrade, Nelson Rodrigues, Clarice Lispector, Ângela Dip, Alexandre Stockler, Cristina Mutarelli, Elias Andreato, Newton Moreno, Mário Bortoloto, Marcelo Médici, Aimar Labak, Marcelo Mansfield, Fernando Bonassi, Alice K, entre outros. "Além das produções próprias do N.Ex.T, mais de 70 grupos já montaram suas peças aqui, nós cedemos o local para companhias e dramaturgos que estão começando. Alugamos, mas a preço de custo, só para cobrir despesas com água, luz, telefone e faxineira, justamente para viabilizar a montagem de outras companhias."

Ivan Capua, Fernanda Pirondi, Daniela Casteline e Antonio Destro em Desejo

Antonio Rocco se sente realizado pela trajetória do grupo e acredita ter atingido seu objetivo: "Esse espaço tem essa função, trazer gente nova para mostrar o trabalho. E nós só encenamos dramaturgia brasileira contemporânea, preferencialmente, de autores novos. Assim, possibilitamos ao público ver espetáculos com a dramaturgia que está sendo escrita agora, o que está se pensando aqui. Isso permite para os autores, em contrapartida, ver seu trabalho encenado e a resposta, quase imediata, do público."

O teatro e a cidade
Há cerca de 7 anos cresce na região central de São Paulo o número de pequenos teatros dedicados à produção experimental e exibição de novos dramaturgos. Assim como o N.Ex.T, fazem parte dessa cena grupos como o Folias d'Arte, que também abriu seu espaço em 1999, Os Satyros, o Parlapatões, o Fábrica, entre outros.

Esses teatros se transformaram em pólos de atração de público ao centro de São Paulo, região degradada pela falta de segurança, conservação e investimento, e que acabou se tornando um local marcado pelo comércio ambulante, a marginalidade, o tráfico de drogas e a prostituição. Com peças, quase sempre, a preços populares, essas casas de espetáculos são as grandes responsáveis pela atração de público noturno ao centro da cidade, sendo ele formado não só pela população local (cuja maioria vive em cortiços), mas também por estudantes, pesquisadores, atores, jornalistas e demais pessoas que buscam novas formas de intervenção nas artes cênicas, contribuindo, assim, para a formação de público e inserção cultural por meio do teatro.

"O N.Ex.T atrai para o centro de São Paulo, em média, de 10 a 15 mil pessoas por ano. Nós estamos querendo ver o centro melhorar, já estamos aqui há 7 anos e o centro está melhorando, mas o processo é lento. É um absurdo ver o local abandonado desse jeito, entra governo, sai governo e nós vemos as coisas patinarem. O centro tem toda a infra-estrutura para melhorar, investir aqui é uma beleza porque você investe pouco e os resultados são enormes.", explica Rocco.

Na busca pela revitalização do centro de São Paulo, o N.Ex.T possui parcerias com organizações como a Viva o Centro, o Ponto de Cultura Vila Buarque e a Oboré, entidade que promove cursos e atividades nas áreas de Comunicação e Artes. Por isso, vale a pena passear pelo centro de São Paulo e descobrir as inúmeras possibilidades artísticas que ele tem a oferecer.

Para ir além
Núcleo Experimental de Teatro (99 lug.) - Rua Rego Freitas nš 454 - Vila Buarque - Fone: (11) 3106-9636 - Sextas e sábados às 22h, domingos às 21h - Duração: 60 min. - Preço: R$20,00 - Até 05 de novembro.

Fernanda da Silva
9/10/2006 à 00h10

 

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