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Terça-feira, 13/12/2005
Le Bon Sebon
Luis Eduardo Matta

Em 2005, o bairro carioca do Leblon, que abriga algumas das mais charmosas e badaladas livrarias cariocas, foi abalado por uma notícia desalentadora: o simpático sebo Dantes, que por mais de uma década funcionou na rua Dias Ferreira, 45-B, resolveu se mudar para o cinema Odeon, na Cinelândia. O Leblon, no entanto, não sofreu qualquer prejuízo, já que, nesta mesma época e a apenas alguns poucos quarteirões do antigo endereço do Dantes, abria as portas aquele que viria a se tornar um dos mais dinâmicos, completos e irreverentes sebos de todo o Rio de Janeiro: o Le Bon Sebon, do qual, aliás, já me tornei freqüentador fiel.

Comandado pelo impagável Lisandro Gaertner, grande iconoclasta da sua geração e que já esteve à frente do célebre Baratos da Ribeiro, em Copacabana, o Le Bon Sebon possui um rico e variado acervo de livros, CDs, LPs, vídeos e revistas para todos os gostos - uma vantagem em relação ao Dantes, cujo perfil sempre foi meio "cabeça", direcionado a um público leitor, em tese, mais sofisticado e intelectualizado. Gaertner e seus sócios já anunciaram que não vão se limitar à venda e à permuta de livros e que o Le Bon Sebon será um ponto cativo de eventos que prometem sacudir o meio literário carioca. O primeiro deles acontecerá no dia 17 de dezembro e dá uma pista do que virá a partir de 2006. Brejeiramente intitulado "1º Festival de poesia duvidosa", será uma sátira provocativa às leituras de poesias que costumam acontecer nas cidades brasileiras, com o diferencial de que no Le Bon só serão lidos, como o próprio nome do evento se encarrega de sugerir, textos de qualidade duvidosa. É o próprio Gaertner quem nos anuncia:

Já se perguntou por que Peninha é considerado brega e Caetano cantando Peninha é CULT? Já ponderou sobre o que permitiu Adriana Calcanhoto transformar o funk melody de Claudinho e Buchecha num hino das estações de MPB? Ainda se espanta com a respeitabilidade adquirida por "Proibida pra Mim" do Charlie Brown Jr. depois da sua regravação por Zeca Baleiro? Nesse pequeno encontro estaremos com o microfone aberto para que todos possam declamar suas letras pref(t)eridas de Axé, Funk, Pagode, Sertanejo, Forró, Romântico e tudo mais que "o seu doído coração mandar".

Aguardem também a série de "Conversas ao pé do balcão", que deverá ser aberta com um controverso e politicamente incorreto debate sobre literatura marginal intitulado "Literatura marginal para quê, se bandido não sabe ler?".

O Le Bon Sebon fica na rua Conde de Bernadotte, 26, loja 107, atrás da Livraria Da Conde, numa galeria que ferve à noite com seus teatros e bares da moda. Aos que estiverem no Rio, sugiro que reservem um par de horas para fazer uma visita. Garanto que não irão se arrepender.

A boa Literatura que começa aos vinte

Desde muito jovem, quando eu ainda era um pré-adolescente imberbe, defendo a tese de que toda generalização é estúpida por não contemplar a diversidade da vida e não observar os aspectos individuais e intransferíveis que somente podem ser analisados isoladamente. Talvez por conta disso, eu jamais tenha me entregado cegamente ao fervor ideológico, religioso ou intelectual e tenha evitado ser afetado por qualquer tipo de sectarismo, buscando enxergar nas diferenças que nos rodeiam e colorem a realidade, um atrativo a mais neste percurso curto e tortuoso que é a vida.

Uma coisa é generalizar um tema sem prejudicá-lo, a fim de agilizar um debate onde o aprofundamento de determinada questão não é fundamental. Outra, é valer-se de uma generalização para, pomposamente, provar de maneira definitiva uma tese que se proponha a nortear mentes, impor verdades e ditar rumos. As páginas da imprensa, as salas de aula e os comitês partidários são pródigos nessa arte. De tanto alardear teorias as mais variadas, acabam tornando-as incontestáveis para uma opinião pública com cada vez menos juízo crítico. Uma das mais correntes é a de que é impossível escrever um bom livro, sobretudo em prosa, antes dos trinta anos, pois o autor não teria ainda maturidade suficiente e sua obra seria, necessariamente, amadora e inconsistente. Uma breve releitura da história da Literatura brasileira basta para desqualificar rapidamente esse discurso imbecil. Nela, veremos Clarice Lispector escrevendo Perto do Coração Selvagem, aos dezessete anos; Rachel de Queiroz lançando O Quinze, aos vinte; Nélida Piñon publicando Guia Mapa de Gabriel Arcanjo aos vinte e quatro, e Jorge Amado, no esplendor da sua primeira fase como escritor, brindando seus privilegiados leitores com verdadeiras obras-primas da nossa Literatura como Jubiabá, Mar Morto e Capitães da Areia, antes dos vinte e cinco anos. Todas são obras de incontestável valor, produzidas por consagrados autores ainda na flor da sua juventude, em pleno desabrochar da idade adulta. Tenho pensado bastante nisso, desde que fui, recentemente, apresentado ao primeiro livro de Julián Fuks, uma belíssima coletânea de contos intitulada Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e Eu (7 Letras; 68 páginas; 2004) e lançada quando o escritor tinha, ao que me parece, vinte e dois anos (provavelmente ele era ainda mais jovem, quando a escreveu).

Julián Fuks demonstra grande maturidade e habilidade na confecção de suas dezenove narrativas, todas muito breves, nas quais impera uma perceptível, embora não opressiva, atmosfera de melancolia e solidão, que inevitavelmente conduzirá o leitor a um incômodo sentimento de inquietude em relação à condição humana e à própria existência. Fuks põe em relevo a alma de seus personagens, justamente naquele instante mágico de catarse, por vezes, perturbador, em que é aberta para cada um a janela do autoconhecimento e da percepção da realidade. Aquilo que, em psicanálise, é chamado de insight, um momento de revelação, de súbita compreensão de questões até então nebulosas ou inexplicáveis, acompanhada de uma sensação indescritível que, via de regra, mescla alívio, angústia e, muitas vezes, resignação ante uma realidade muito mais poderosa do que os nossos anseios e a nossa tímida existência.

Alguns contos me atraíram especialmente a atenção, de maneira que acabei relendo-os depois, em separado e por mais de uma vez. E o mais interessante é que a cada releitura sempre me vinha uma percepção diferente, como se algo gravado nas entrelinhas me houvesse escapado nas leituras anteriores, o que é próprio da boa Literatura, quando um texto, por mais lido que seja, nunca se esgota na sua capacidade de nos surpreender com renovadas impressões. O primeiro deles é "Sobressalto", que, em menos de duas páginas, captura a personagem Carolina num daqueles momentos de reflexão que muitos de nós, certamente, já vivenciamos. Sentada, sozinha, num banco de praça, acompanhada unicamente das pombas que se aproximaram em revoada atraídas "pelas migalhas de pão oferecidas pelos tantos velhinhos que ali descansavam os pés, ou as costas", ela observa as pessoas espalhadas pela paisagem à sua volta. Tenta, assim, lhes esquadrinhar a intimidade, os sentimentos e as expectativas afetivas, buscando um sopro de renovação para a própria vida desgastada. Logo a seguir, em "O menino sobre a capela", nos deparamos com uma atmosfera de luto: duas crianças são veladas no altar de uma humilde e acanhada capela situada num pequeno vilarejo. Inesquecível a imagem triste, porém conformada da mãe, que está grávida de novo, andando de um lado ao outro, enquanto tenta mitigar a dor que lhe assalta o ventre inchado, segurando-o com a mão. No entanto, o conto que mais me envolveu foi "Relato de uma Senhora", lá pelo meio do livro, onde uma anciã narra uma prosaica viagem de trem para Veneza. Na cabine, a companhia silenciosa de um jovem estrangeiro desconhecido e ninguém mais. Veio-me, imediatamente, à memória, uma viagem semelhante que fiz, alguns anos atrás, se não me engano, entre Hamburgo e Zurique, num trem noturno. A atmosfera descrita por Fuks me tocou de forma considerável, pois eu, imediatamente, me vi dentro do conto, sentado naquele trem em movimento, tendo de compartilhar a intimidade de uma cabine com uma pessoa estranha, com sua própria história de vida, provavelmente muito diferente da minha, alguém de quem eu não sabia o nome e que, com toda a certeza, eu não veria nunca mais e nem me lembraria o rosto. De uma maneira quase cinematográfica, Fuks nos transporta para aquele cenário e posso jurar que cheguei, por um momento, a enxergar com nitidez o interior da cabine, o trem já parado na estação, o silêncio circundante "de pássaros no inverno", como se eu, Luis Eduardo Matta, também tivesse participado da viagem.

De todos os vários livros de autores nacionais que li da Coleção Rocinante da Editora 7 Letras, Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e Eu é, seguramente, um dos melhores, senão o melhor. Não consigo entender como um escritor como Julián Fuks não foi efusivamente saudado pela mídia, ele sim, como uma das grandes revelações da sua geração. Sua linguagem é madura, rica e caprichada, superior, inclusive, à de muitos autores veteranos e premiados. Fuks é a prova de que a literatura brasileira continua a ter grande potencial e que nem todos os novos autores se renderam à mesmice e à mediocridade umbiguista. E, sobretudo, que o bom escritor não tem idade e que os vinte anos, podem sim, nos brindar com a melhor Literatura, ao contrário do que prega o senso comum.

Para ir além





Luis Eduardo Matta
Rio de Janeiro, 13/12/2005

 

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