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Sexta-feira, 28/7/2006
Cuidado: Texto de Humor
Lisandro Gaertner

Algo que sempre me espanta quando publico qualquer coisa no Digestivo é a reação dos leitores. Alguns elogiam, me recompensando o esforço com pequenas cócegas no ego, enquanto outros levam o texto a sério demais ou simplesmente não aceitam que eu tenha tratado o assunto com tanta leviandade. Durante um certo tempo, eu não entendia o porquê disso, mas, depois de ler com atenção os comentários deixados nos meus artigos, cheguei a uma terrível conclusão. Infelizmente, nessa terra de A Praça é Nossa, em que Jô Soares é considerado um dos maiores intelectuais, eu tento fazer humor. E qual o problema com isso? Nenhum, nenhum. Mas essa conclusão me levou a um questionamento: existe espaço para o humor no Digestivo?

Sim e não. Grande parte dos mais bem humorados escritores que conheço me foi apresentada por essa publicação. Rafael Lima, velho amigo, Alexandre Soares Silva, Polzonoff, Paulo Salles, Fabio Danesi Rossi, dentre tantos colunistas que já deixaram a sua marca aqui, usaram de humor em excelentes colunas sobre os mais variados assuntos. Mas, por outro lado, eles não eram, nem se apresentavam como humoristas. Para complicar, o Digestivo é um lugar também de ensaios e artigos escritos por grandes figuras como Sérgio Augusto e Sonia Nolasco. Gente que, quando faz algum comentário bem humorado, não conta piada, ridiculariza a realidade. Como posso, então, eu, colunista popularesco, formado pela coleção Para Gostar de Ler e pela revista MAD, me encaixar aqui? Depois de analisar longamente esse dilema, durante duas viagens de ônibus, com engarrafamento, diga-se de passagem, cheguei a três respostas para essa questão.

A primeira, sair daqui. Peço desculpas ao Julio e, usando um dos meus já famosos pretextos para não publicar me despeço dizendo: "Os leitores não me entendem". Contudo, essa não me parece uma opção razoável. Afinal, quando o escritor diz uma coisa dessas, pode crer, o problema é dele mesmo que, por não prestar atenção suficiente nas aulas de redação, pontuação e gramática, resolveu transformar a sua falta de habilidade com a língua portuguesa num gênero literário marginal. Imaginem, só, se eu me dou a um desfrute desses? Daqui a pouco vocês iriam me ver na FLIP participando de uma mesa redonda sobre o papel do solvente e da maconha na criação literária. Brrrr... Tétrico.

Minha segunda opção é tentar me adequar aos leitores. Coisa dificílima por essas bandas. Quando eu tinha uns 10 anos de idade, nem briga de moral eu ganhava. E olha que o mais capaz dos meus opositores só tinha lido metade de Os Meninos da Rua Paulo. Agora, se eu fosse desafiado por algum de vocês, apesar de não ter o físico necessário, eu preferiria partir mesmo é pra porrada, mesmo antecipando a surra que iria levar. O abismo intelectual entre nós é tão sério que, acredito, nunca houve um descompasso tão grande entre o colunista e os que o lêem desde a publicação da Clarah Averbuck na Tribuna da Imprensa ou mesmo da Maria Mariana na Capricho. Desculpem o último comentário, mas me senti obrigado a deixá-lo no texto final só para mostrar como sou baixo. Tá vendo? Até cachorro morto, eu chuto.

A terceira e derradeira opção é contar com a sua compreensão. Isso mesmo, com a sua compreensão. Eu sei que lá no fundo você tem alguma. Você agüenta os grupos de pagode que circundam os bares sem atirar pedras nos pretensos músicos, conversa com o seu síndico numa descida de elevador sem ter um surto psicótico e participa de todas as festas do escritório sem sugerir que enfiem a cara do maldito aniversariante dentro do bolo. Viu, só? Você é uma pessoa muito compreensiva. Por isso, eu lhe peço: toda vez que vir um artigo assinado por mim, mesmo que o título mencione Crise no Oriente Médio, Congresso Nacional, Final de Novela das Oito ou Gravidez de Estrela Global, tenha cuidado, provavelmente é um texto de humor.

Ou não, como diria o nosso por enquanto ministro da Cultura, Ozzy Osbourne. Pêra aí, nosso ministro não é o Ozzy, é o Gil. Desculpe o engano. Sabe como é: os dois não falam coisa com coisa e têm filhas gordas e escandalosas. As similaridades são tantas que a gente confunde...

Ai, esse é um dos problemas de fazer de humor: a gente nunca sabe quando, onde, como e por que parar.

Lisandro Gaertner
Rio de Janeiro, 28/7/2006

 

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