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Terça-feira, 13/7/2010
Os quase-livros
Wellington Machado


LIANA TIMMę (http://timm.art.br/)

Nunca mais ouvi falar do tal escritor. Mas já se passaram alguns anos que eu, na sala de espera da dra. Cristiane, dentista, li em uma revista cuja capa fora extraída, uma matéria sobre a descoberta de vários manuscritos de um escritor húngaro chamado Kovács. Não consegui decorar seu sobrenome e não me perdoo até hoje por não ter anotado em algum papel. Kovács teria morrido no ano de 1919.

Foram descobertos em um baú antigo ― daqueles empoeirados que se vê em filmes como O Nome da Rosa ―, nos porões de uma mansão, vários cadernos manuscritos que, à primeira vista, comporiam cinco ou seis romances. Diante da descoberta, a Biblioteca Pública de Budapeste se comprometeu a financiar a contratação de professores de literatura e vários outros especialistas para analisar os manuscritos.

Não tive notícia mais sobre o destino dos trabalhos, e muito menos das obras. Mas um detalhe me chamou a atenção. Um respeitado professor de literatura que teve um primeiro contato com os manuscritos declarou que Kovács se tratava de um escritor excepcional, cuja obra rivalizaria ― quiçá superaria ― com a de Franz Kafka. Segundo o especialista, o conteúdo daqueles originais, se descobertos e publicados nos anos 20, mudaria o rumo de toda a literatura ocidental.

Há exemplos de livros que quase tiveram o mesmo destino, ou seja, quase não existiram (ou só existiram) por obra de terceiros. O exemplo clássico é o de Max Brod, amigo de Kafka, que teria cometido uma "boa desobediência" (para os amantes da literatura) ao não destruir os manuscritos, de anotações ou até de livros prontos, que o escritor julgava de qualidade duvidosa.

Lembro de ter lido em algum lugar que o escritor João Ubaldo Ribeiro, depois de um esforço hercúleo, escrevendo à máquina (em papel ofício e cópia carbono) o calhamaço Viva o Povo Brasileiro, teria rejeitado(!) o livro. Num ato de repulsa ou de perfeccionismo, o escritor jogou as mais de mil páginas datilografadas em uma caixa e deixou-a abandonada em um canto da casa, sujeita a infiltrações e traças. O romance teria sido arrancado à força de suas mãos ― literalmente roubado ― pelo editor, que o publicou.

Mais recentemente, vimos a quase "não existência" do livro de Nabokov, O Original de Laura. Escrito a lápis em fichas catalográficas quando o escritor estava internado para se tratar de uma infecção na Suíça, o romance quase não existiu por duas vezes. Na primeira, Nabokov teria orientado a sua esposa a destruir as fichas. Após a morte desta, ficou nas mãos do filho Dmitri a publicação (ou a destruição) dos manuscritos. Decadente, necessitando de dinheiro para pagar despesas com a saúde debilitada, o filho mandou para o prelo as fichinhas.

O livro 2666, do chileno Roberto Bolaño, teve situação diferente. Houve também, como no caso do João Ubaldo, desobediência por parte do editor. Bolaño, que sabia que morreria por problemas hepáticos, determinou que o 2666 fosse publicado em cinco partes distintas, em volumes separados, a fim de sustentar a família por um bom tempo. O editor ignorou a vontade do autor e mandou um tijolo para as livrarias.

Há casos também de futura inexistência de livros. Mistérios que atiçam desejos de leitores e do famélico marketing das editoras. É o caso do escritor J.D. Salinger, autor do livro O apanhador no campo de centeio. Há especulações de todo gênero; uma das quais a de que o escritor teria deixado, no cofre de sua casa, algumas obras prontinhas para serem publicadas aos poucos, garantido a grana para até a quinta geração dos Salinger. Mas o mistério persiste. Sabe-se que o escritor teria, ou pelo menos dava sinais de ter, assim como Raduan Nassar, abandonado a literatura de vez para viver os afazeres de um dia simples. E se, ao abrirem o cofre de Salinger, um vazio escuro e melancólico ecoar lá de dentro?

Obras e, por consequência, escritores podem não ter existido por inúmeros motivos. Um empregado de alguma casa que tenha jogado no lixo, por engano, caixas e mais caixas de manuscritos. Um amigo que, ao contrário de Max Brod, tenha realmente acatado a ordem do escritor e inutilizado sua obra. Esposas ou maridos em crise conjugal que, num rompante momentâneo, queimaram cadernos do parceiro. Editores que simplesmente rejeitaram obras-primas.

Sabemos e temos acesso apenas ao que existe, óbvio. Dante, Cervantes, Balzac, Kafka, Dostoiévski, Proust, Flaubert existiram porque se "salvaram" desses "destruidores", além do inegável talento, claro. Mas se eles não tivessem sido descobertos? O destino da literatura moderna, por exemplo, tão influenciada por Kafka, seria o mesmo? Quantos escritores não "aconteceram", por inúmeros motivos, mas existiram de fato e escreveram obras importantes que não chegaram até nós?

A dra. Cristiane nunca fez reparo em meus dentes. Tenho ojeriza a revistas sem capa e ensebadas. Detesto sala de espera. A possibilidade de se encontrar uma revista que aborde literatura ― e húngara!? ― nesse ambiente é remotíssima. Vários escritores como o Kovács, que é uma ficção, poderiam ter existido e, quem sabe, mudariam os rumos da literatura e da sociedade ― para melhor ou pior ― se tivessem sido publicados.

Seria como se, guardadas as devidas proporções, a humanidade não tivesse moldado a razão como ela é (segundo a linha evolutiva dos pré-socráticos, Sócrates, Platão, Aristóteles etc.), mas seguido um outro caminho que não o da racionalidade como a conhecemos e praticamos. Literariamente, somos o que somos devido ao que descobrimos, voluntária ou involuntariamente. Tornamo-nos uma possibilidade entre várias. Poderíamos ter sido bem melhores ou bem piores, de acordo com aquilo que sepultamos.

Wellington Machado
Belo Horizonte, 13/7/2010

 

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