O Original de Laura | Guilherme Pontes Coelho | Digestivo Cultural

busca | avançada
33925 visitas/dia
1,4 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Namíbia, Não! curtíssima temporada no Sesc Bom Retiro
>>> Ceumar no Sesc Bom Retiro
>>> Mestrinho no Sesc Bom Retiro
>>> Edições Sesc promove bate-papo com Willi Bolle sobre o livro Boca do Amazonas no Sesc Pinheiros
>>> SÁBADO É DIA DE AULÃO GRATUITO DE GINÁSTICA DA SMART FIT NO GRAND PLAZA
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Modernismo e além
>>> Pelé (1940-2022)
>>> Obra traz autores do século XIX como personagens
>>> As turbulentas memórias de Mark Lanegan
>>> Gatos mudos, dorminhocos ou bisbilhoteiros
>>> Guignard, retratos de Elias Layon
>>> Entre Dois Silêncios, de Adolfo Montejo Navas
>>> Home sweet... O retorno, de Dulce Maria Cardoso
>>> Menos que um, novo romance de Patrícia Melo
>>> Gal Costa (1945-2022)
Colunistas
Últimos Posts
>>> Lula de óculos ou Lula sem óculos?
>>> Uma história do Elo7
>>> Um convite a Xavier Zubiri
>>> Agnaldo Farias sobre Millôr Fernandes
>>> Marcelo Tripoli no TalksbyLeo
>>> Ivan Sant'Anna, o irmão de Sérgio Sant'Anna
>>> A Pathétique de Beethoven por Daniel Barenboim
>>> A história de Roberto Lee e da Avenue
>>> Canções Cruas, por Jacque Falcheti
>>> Running Up That Hill de Kate Bush por SingitLive
Últimos Posts
>>> A moça do cachorro da casa ao lado
>>> A relação entre Barbie e Stanley Kubrick
>>> Um canhão? Ou é meu coração? Casablanca 80 anos
>>> Saudades, lembranças
>>> Promessa da terra
>>> Atos não necessários
>>> Alma nordestina, admirável gênio
>>> Estrada do tempo
>>> A culpa é dele
>>> Nosotros
Blogueiros
Mais Recentes
>>> 100 homens que mudaram a História do Mundo
>>> Entrevista com Ruy Castro
>>> Um conto-resenha anacrônico
>>> Um parque de diversões na cabeça
>>> Rindo de nossa própria miséria
>>> História da leitura (V): o livro na Era Digital
>>> Duas crises: a nossa e a deles
>>> As pessoas estão revoltadas
>>> Eu sou fiscal do Sarney
>>> Vamos sentir saudades
Mais Recentes
>>> Curso de Direito Natural de Luís Taparelli D'Azeglio, Sj;Nicolau Rosseti pela Anchieta (1945)
>>> Tiro no coração de Mikal Gilmore pela Companhia das Letras (1996)
>>> A Crise Do CapitalismoA de A Crise Do Capitalismo pela A Crise Do Capitalismo (1999)
>>> Histórias de Fadas de Oscar Wilde pela Saraiva (2015)
>>> Eu, Robô de Isaac Asimov pela Ediouro (2004)
>>> Gramatica de la lengua espantola de Emilio Alarcos Llorach pela Espasa (2015)
>>> A costureira de Dachau de Mary Chamberlain pela HarperCollins (2014)
>>> Grande Sertão. Veredas de Guimarães Rosa pela Nova Fronteira (2010)
>>> The India-Rubber Men de Edgar Wallace pela London hodder & stoughton limited (1940)
>>> Flash Mx Com Actionscript - Orientado A Objetos de Francisco Tarcizo B. Junior pela Érica (2002)
>>> Destros e canhotos de José Quadros Franca pela Melhoramentos (1969)
>>> História da riqueza do homem de Leo Huberman pela Zahar (1971)
>>> Sentimentos Modernos de Maria Angela D'incao pela Brasiliense (1996)
>>> A Criança Saudável de Wilhelm Zur Linden pela Brasiliense (1977)
>>> A Mae Do Freud de Luis Fernando Veríssimo pela L&pm (1987)
>>> Irritacao - O Fogo Destruidor de Torkom Saraydarian pela Aquariana (1991)
>>> Boa Noite Punpun de Inio Asano pela JBc (2019)
>>> Biblioteca Desafios Matemáticos - 7 volumes de Vários Autores pela RBA / Editec (2023)
>>> Mude a sua Mente e Transforme a sua Vida de Gerald G. Jampolsky e Diane V. Cirincione pela Cultrix (1999)
>>> Uns e Outros: Contos Espelhados - Tag de Helena Terra e Luiz Ruffato pela Tag / Dublinense (2017)
>>> A Metafísica do Cinema de Robert Bresson de Carlos Frederico Gurgel Calvet da Silveira pela Batel (2011)
>>> Violencia Política en el Siglo XXI de Adalberto C. Agozino pela Dosyuna (2011)
>>> Religiões e Homossexualidades de Maria das Dores Campos Machado; Fernanda Delvalhas Piccolo (Orgs.) pela Fgv (2010)
>>> Jerusalém de Gonçalo M. Tavares pela Companhia das Letras (2006)
>>> Cinema, Pipoca e Piruá de Sérgio Klein pela Fundamento (2009)
COLUNAS

Quarta-feira, 2/6/2010
O Original de Laura
Guilherme Pontes Coelho
+ de 4200 Acessos
+ 1 Comentário(s)

Vladimir Nabokov. Suíça, cerca de 1975. Horst Tappe/Getty Images.
Vladimir Nabokov. Suíça, 1975. Horst Tappe/Getty Images.

A história da última publicação a ter o nome Vladimir Nabokov como seu autor é assim. Nabokov trabalhava num novo romance, escrevendo-o ― como era seu costume ― em fichas catalográficas. O ano em que começou este trabalho foi 1975. Mesmo ano em que contraiu uma doença não diagnosticada, uma febre que sucedeu à queda de uma encosta, em Davos, enquanto caçava borboletas, e que evoluiria numa bronquite congestiva que o mataria em 1977, aos 78 anos.

Durante esses dois anos finais, Nabokov jamais se recuperou daquela doença enigmática e sua saúde geral desvigorava a cada hora. Tendo consciência de que minguava explicitamente, ele deixou claro à sua esposa, Vera, que se morresse sem ter concluído a obra a que então se dedicava ela deveria destruí-la. Esta era a missão de sua esposa, "anular, expungir, apagar, deletar, remover, eliminar, obliterar" seus rascunhos derradeiros.

Morre Vladimir Nabokov. Vera não destrói aqueles rabiscos catalográficos e adia por tempo tanto a ordem do marido ("ordem" sendo uma palavra muito suave ao tipo de mulher que ela foi para ele) que ela mesma acaba morrendo, em 1991. Como razões à procrastinação de Vera, o único filho do casal, Dmitri, diz que foi por conta de "idade, fraqueza e incomensurável amor".

O dever de administrar a herança literária nabokoviana passa ao óbvio Dmitri, hoje um septuagenário. O pacote incluía a destruição dos rabiscos finais de seu pai. Disto, aliás, Dmitri sabia desde quando a saúde do Nabokov pai deteriorava lá na Suíça.

Dmitri, por sua vez, emulou o comportamento da mãe ― e foi além.

Em novembro de 2009, chegou às livrarias do mundo O Original de Laura (Alfaguara, 2009, 304 págs.), título àquele conjunto de fichas em que Nabokov trabalhava antes de morrer. Nabokov filho ignorou o mandamento do pai ― e ninguém, sob a ótica exclusivamente artística, saiu ganhando com isto. Financeiramente, no entanto, esta publicação trouxe felicidade a vários editores mundo afora. A Dmitri também. E dinheiro parece ser a única razão para contrariar a vontade de um autor que foi um dos grandes do século XX e que sempre exerceu controle absoluto sobre sua criação.

As duas edições de Laura que tive em mãos, a da Alfaguara e a da Random House (a primeira, temporariamente à minha frente, na estante, ao lado da Lolita da Penguin Books), são lindas. A brasileira traz as fichas reproduzidas à esquerda e sua imediata tradução, pelo competente José Rubens Siqueira, à direita. A da editora norte-americana, idealizada pelo designer Chip Kidd, o mesmo que assina as capas de Nabokov editadas pela Companhia das Letras, vem com um recurso interessante: as fichas do autor reproduzidas frente e verso em papel de alta gramatura, serrilhadas em seu contorno, prontas para o leitor destacá-las e rearranjá-las como bem entender. Uma solução bem humorada para uma obra que não existe.

Vladimir Nabokov foi bem claro sobre Laura. Mas a recusa a queimar um Nabokov original tinha precedente. Ao fim da década de 1940, Vera salvou do fogo um ancestral de Lolita. Este antepassado, batizado de O feiticeiro (Volshebnik), uma novela, não era, àquela época, "nem parte de um trabalho em andamento nem a versão russa de uma obra existente", segundo Dmitri. Salvo o original pela mãe, o filho o traduz e o publica na década de 1980. Ainda segundo Dmitri, para seu pai faria mais sentido que esta novela fosse traduzida para o inglês "pelos Nabokov". (Um cheiro estranho no ar...)

O resgate d'O feiticeiro por Vera e sua publicação traduzida por Dmitri, mais, talvez, um alheamento e supervalorização da obra de Nabokov por ambos, incluindo na soma a mal disfarçada cobiça do filho, contaram para que o delineamento do que um dia seria um romance chamado Laura, ou A Laura original, ou mesmo O Original de Laura, não virasse cinzas.

Dmitri, na rocambolesca e um tanto soberba introdução a O Original de Laura, menciona Max Brod, editor encarregado de destruir a obra do amigo Franz Kafka. Uma vontade de Kafka. Mas Brod não destruiu a obra do amigo, ainda bem. Hoje, Kafka é um dos três autores fundamentais para literatura do século XX. (Os outros dois seriam Joyce e Faulkner. Se você quiser incluir Proust entre os três, eu não sei quem ficaria de fora. Eu não o incluiria.) Esta alusão a Brod/Kafka, contudo, é fora de propósito. Deixando de lado a questão de saber se foi ou não um joguinho mental do autor tcheco, ele pediu a Brod, em carta, que tudo o que escrevera fosse destruído, desde obras já publicadas (era o caso d'A Metamorfose) a cartas, diários, esboços etc. Nabokov se referia especificamente a uma obra, ainda em andamento.

O Original de Laura são 138 fichas catalográficas. A unidade entre elas se dissipa à medida em que a leitura avança. Durante os trinta minutos, e não demora mais que isso, em que li estes fragmentos, vi aqui e ali manifestações esparsas da prosa nabokoviana ("The conspicuous knobs of her hipbones framed a hollowed abdomen, so flat as to belie the notion of 'belly'"), da eterna efebofilia ("Os seios do tamanho de taças daquela beleza impaciente de vinte e quatro anos pareciam doze anos mais novos que ela, com aqueles mamilos pálidos e a forma firme") e da recorrente ideia de controle ("Sofrósina, um termo platônico para autocontrole ideal que provem do cerne racional do homem").

Essas fichas esboçam a história do "brilhante neurologista" Philipe Wild, um homem gordo e velho, casado com uma adúltera, Flora. Os esboços ora são na primeira, ora na terceira pessoa. Dois parecem ser os fenômenos temáticos centrais da proto-narrativa: a infidelidade de Flora rende um romance chamado "Laura", escrito por um de seus amantes, e a ideia de autodestruição sistemática (começando pelos pés e subindo) do dr. Philipe, para a qual é preciso estar em transe.

É isso.

Não é um romance, não é uma novela, não é um conto. São fragmentos de uma ideia, esboçadas por um senhor enfermo, de antemão receoso de não a concluir a tempo.

O Original de Laura tem o mérito relativo de mostrar parte do processo criativo de Nabokov e satisfazer pequenas curiosidades (foi a primeira vez que vi a letra dele e não era o que esperava). Nós, leitores, às vezes gostaríamos de saber o porquê de tal cena ser assim ou assado, e esses manuscritos iniciais nos ajudam a compreender melhor o ponto de vista do autor e como ele o desenvolveu durante a criação da narrativa. Por exemplo, a ideia inicial era de que Crime e Castigo fosse escrito em primeira pessoa; mas os tormentos de Raskolnikov em primeira pessoa não correspondiam aos propósitos de Dostoiévski. Só que, neste caso, existe o romance Crime e Castigo para leitores, biógrafos e estudiosos fazerem as comparações entre a obra pronta e seus ensaios.

No caso de Laura, não existe a obra, só seu esboço, que nem existir deveria. Pode ter sido que, em algum momento no Hospital Universitário de Lausanne, Nabokov visse Laura simétrica e leve, borboleteando em sua mente. Ele morreu e sua última criação será eternamente crisálida.

Para ir além






Guilherme Pontes Coelho
Brasília, 2/6/2010

Quem leu este, também leu esse(s):
01. O romance do 'e se...' de Cassionei Niches Petry
02. Viagem a 1968: Tropeços e Desventuras (2) de Marilia Mota Silva
03. Mente Turbinada e Brasil na Copa de Marilia Mota Silva
04. Mosaico de Rancores, romance de Márcia Barbieri de Jardel Dias Cavalcanti
05. Walking Dead - O caminho dos mortos na cultura pop de Noah Mera


Mais Guilherme Pontes Coelho
Mais Acessadas de Guilherme Pontes Coelho em 2010
01. Nas redes do sexo - 25/8/2010
02. A literatura de Giacomo Casanova - 19/5/2010
03. O preconceito estético - 29/12/2010
04. O retorno à cidade natal - 24/2/2010
05. O mundo pós-aniversário - 3/2/2010


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
7/6/2010
12h36min
Bela resenha, Guilherme. Você pegou um dos aspectos importantes pelos quais "O Original de Laura" deveria mesmo ter sido publicado: a possibilidade de olharmos sobre os ombros do escritor. Nabokov não era um autor linear, não escrevia o capítulo 2, depois do 1, o 3, depois do 2, etc. Ele era hipertextual. Preenchia os espaços, dizia. Em 09/2009, eu participei de uma mesa na Academia Brasileira de Letras com o professor Brian Boyd (maior especista na obra de Vladimir) em que se comparou as obras de Machado de Assis e Nabokov. Na mesma época, o entrevistei para o Prosa Online, dois meses depois, eu mesmo também publiquei uma resenha de "Laura" no JB. Com o advento e popularização da internet, penso que "Laura", 30 anos depois de seu doloroso nascimento - sendo que, para isso, da forma como "nasceu", tenha sido necessária a morte de seu autor -, tenha sido publicado no momento certo. Abs, CS
[Leia outros Comentários de C. S. Soares]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Fui Promovido! e Agora?
Roberto Ruban
Mbooks
(2010)



The Hidden Life of Dogs
Elizabeth Marshall Thomas
Houghton Mifflin
(1993)
+ frete grátis



Sete Faces do Sobrenatural (colecao Veredas)
Vários Autores
Moderna
(1992)



Você Faz o Amanhã
Marcelo Cezar
Vida e Consciencia
(2005)



Nossa Fé Está Mudando?
Alfred Lapple
Edições Paulinas
(1982)



Os Subterrâneos da Liberdade Iii - a Luz no Túnel 1974
Jorge Amado
Martins Fontes
(1951)



Wuthering Heights
Emily Bronte
Oxford
(1997)



Gestão do Conhecimento - o Grande Desafio Empresarial
José Claudio Cyrineu Terra
Negócio/ Elsevier
(2005)



Guarani, o - Serie Bom Livro
Jose de Alencar
Atica
(2003)



Livro - Dos Leyendas - Básico
Gustavo Adolfo Bécquer
Sbs
(2001)





busca | avançada
33925 visitas/dia
1,4 milhão/mês