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Quarta-feira, 2/6/2010
O Original de Laura
Guilherme Pontes Coelho

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Vladimir Nabokov. Suíça, cerca de 1975. Horst Tappe/Getty Images.
Vladimir Nabokov. Suíça, 1975. Horst Tappe/Getty Images.

A história da última publicação a ter o nome Vladimir Nabokov como seu autor é assim. Nabokov trabalhava num novo romance, escrevendo-o ― como era seu costume ― em fichas catalográficas. O ano em que começou este trabalho foi 1975. Mesmo ano em que contraiu uma doença não diagnosticada, uma febre que sucedeu à queda de uma encosta, em Davos, enquanto caçava borboletas, e que evoluiria numa bronquite congestiva que o mataria em 1977, aos 78 anos.

Durante esses dois anos finais, Nabokov jamais se recuperou daquela doença enigmática e sua saúde geral desvigorava a cada hora. Tendo consciência de que minguava explicitamente, ele deixou claro à sua esposa, Vera, que se morresse sem ter concluído a obra a que então se dedicava ela deveria destruí-la. Esta era a missão de sua esposa, "anular, expungir, apagar, deletar, remover, eliminar, obliterar" seus rascunhos derradeiros.

Morre Vladimir Nabokov. Vera não destrói aqueles rabiscos catalográficos e adia por tempo tanto a ordem do marido ("ordem" sendo uma palavra muito suave ao tipo de mulher que ela foi para ele) que ela mesma acaba morrendo, em 1991. Como razões à procrastinação de Vera, o único filho do casal, Dmitri, diz que foi por conta de "idade, fraqueza e incomensurável amor".

O dever de administrar a herança literária nabokoviana passa ao óbvio Dmitri, hoje um septuagenário. O pacote incluía a destruição dos rabiscos finais de seu pai. Disto, aliás, Dmitri sabia desde quando a saúde do Nabokov pai deteriorava lá na Suíça.

Dmitri, por sua vez, emulou o comportamento da mãe ― e foi além.

Em novembro de 2009, chegou às livrarias do mundo O Original de Laura (Alfaguara, 2009, 304 págs.), título àquele conjunto de fichas em que Nabokov trabalhava antes de morrer. Nabokov filho ignorou o mandamento do pai ― e ninguém, sob a ótica exclusivamente artística, saiu ganhando com isto. Financeiramente, no entanto, esta publicação trouxe felicidade a vários editores mundo afora. A Dmitri também. E dinheiro parece ser a única razão para contrariar a vontade de um autor que foi um dos grandes do século XX e que sempre exerceu controle absoluto sobre sua criação.

As duas edições de Laura que tive em mãos, a da Alfaguara e a da Random House (a primeira, temporariamente à minha frente, na estante, ao lado da Lolita da Penguin Books), são lindas. A brasileira traz as fichas reproduzidas à esquerda e sua imediata tradução, pelo competente José Rubens Siqueira, à direita. A da editora norte-americana, idealizada pelo designer Chip Kidd, o mesmo que assina as capas de Nabokov editadas pela Companhia das Letras, vem com um recurso interessante: as fichas do autor reproduzidas frente e verso em papel de alta gramatura, serrilhadas em seu contorno, prontas para o leitor destacá-las e rearranjá-las como bem entender. Uma solução bem humorada para uma obra que não existe.

Vladimir Nabokov foi bem claro sobre Laura. Mas a recusa a queimar um Nabokov original tinha precedente. Ao fim da década de 1940, Vera salvou do fogo um ancestral de Lolita. Este antepassado, batizado de O feiticeiro (Volshebnik), uma novela, não era, àquela época, "nem parte de um trabalho em andamento nem a versão russa de uma obra existente", segundo Dmitri. Salvo o original pela mãe, o filho o traduz e o publica na década de 1980. Ainda segundo Dmitri, para seu pai faria mais sentido que esta novela fosse traduzida para o inglês "pelos Nabokov". (Um cheiro estranho no ar...)

O resgate d'O feiticeiro por Vera e sua publicação traduzida por Dmitri, mais, talvez, um alheamento e supervalorização da obra de Nabokov por ambos, incluindo na soma a mal disfarçada cobiça do filho, contaram para que o delineamento do que um dia seria um romance chamado Laura, ou A Laura original, ou mesmo O Original de Laura, não virasse cinzas.

Dmitri, na rocambolesca e um tanto soberba introdução a O Original de Laura, menciona Max Brod, editor encarregado de destruir a obra do amigo Franz Kafka. Uma vontade de Kafka. Mas Brod não destruiu a obra do amigo, ainda bem. Hoje, Kafka é um dos três autores fundamentais para literatura do século XX. (Os outros dois seriam Joyce e Faulkner. Se você quiser incluir Proust entre os três, eu não sei quem ficaria de fora. Eu não o incluiria.) Esta alusão a Brod/Kafka, contudo, é fora de propósito. Deixando de lado a questão de saber se foi ou não um joguinho mental do autor tcheco, ele pediu a Brod, em carta, que tudo o que escrevera fosse destruído, desde obras já publicadas (era o caso d'A Metamorfose) a cartas, diários, esboços etc. Nabokov se referia especificamente a uma obra, ainda em andamento.

O Original de Laura são 138 fichas catalográficas. A unidade entre elas se dissipa à medida em que a leitura avança. Durante os trinta minutos, e não demora mais que isso, em que li estes fragmentos, vi aqui e ali manifestações esparsas da prosa nabokoviana ("The conspicuous knobs of her hipbones framed a hollowed abdomen, so flat as to belie the notion of 'belly'"), da eterna efebofilia ("Os seios do tamanho de taças daquela beleza impaciente de vinte e quatro anos pareciam doze anos mais novos que ela, com aqueles mamilos pálidos e a forma firme") e da recorrente ideia de controle ("Sofrósina, um termo platônico para autocontrole ideal que provem do cerne racional do homem").

Essas fichas esboçam a história do "brilhante neurologista" Philipe Wild, um homem gordo e velho, casado com uma adúltera, Flora. Os esboços ora são na primeira, ora na terceira pessoa. Dois parecem ser os fenômenos temáticos centrais da proto-narrativa: a infidelidade de Flora rende um romance chamado "Laura", escrito por um de seus amantes, e a ideia de autodestruição sistemática (começando pelos pés e subindo) do dr. Philipe, para a qual é preciso estar em transe.

É isso.

Não é um romance, não é uma novela, não é um conto. São fragmentos de uma ideia, esboçadas por um senhor enfermo, de antemão receoso de não a concluir a tempo.

O Original de Laura tem o mérito relativo de mostrar parte do processo criativo de Nabokov e satisfazer pequenas curiosidades (foi a primeira vez que vi a letra dele e não era o que esperava). Nós, leitores, às vezes gostaríamos de saber o porquê de tal cena ser assim ou assado, e esses manuscritos iniciais nos ajudam a compreender melhor o ponto de vista do autor e como ele o desenvolveu durante a criação da narrativa. Por exemplo, a ideia inicial era de que Crime e Castigo fosse escrito em primeira pessoa; mas os tormentos de Raskolnikov em primeira pessoa não correspondiam aos propósitos de Dostoiévski. Só que, neste caso, existe o romance Crime e Castigo para leitores, biógrafos e estudiosos fazerem as comparações entre a obra pronta e seus ensaios.

No caso de Laura, não existe a obra, só seu esboço, que nem existir deveria. Pode ter sido que, em algum momento no Hospital Universitário de Lausanne, Nabokov visse Laura simétrica e leve, borboleteando em sua mente. Ele morreu e sua última criação será eternamente crisálida.

Para ir além






Guilherme Pontes Coelho
Águas Claras/Brasília, 2/6/2010


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
7/6/2010
12h36min
Bela resenha, Guilherme. Você pegou um dos aspectos importantes pelos quais "O Original de Laura" deveria mesmo ter sido publicado: a possibilidade de olharmos sobre os ombros do escritor. Nabokov não era um autor linear, não escrevia o capítulo 2, depois do 1, o 3, depois do 2, etc. Ele era hipertextual. Preenchia os espaços, dizia. Em 09/2009, eu participei de uma mesa na Academia Brasileira de Letras com o professor Brian Boyd (maior especista na obra de Vladimir) em que se comparou as obras de Machado de Assis e Nabokov. Na mesma época, o entrevistei para o Prosa Online, dois meses depois, eu mesmo também publiquei uma resenha de "Laura" no JB. Com o advento e popularização da internet, penso que "Laura", 30 anos depois de seu doloroso nascimento - sendo que, para isso, da forma como "nasceu", tenha sido necessária a morte de seu autor -, tenha sido publicado no momento certo. Abs, CS
[Leia outros Comentários de C. S. Soares]
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