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Domingo, 13/1/2019
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Redação

 
Um sujeito chamado Benício

Como os cartazes de filmes são criados? Embora pareça um trabalho fácil, criar um poster pode ser um tarefa complicada, já que tudo é feito antes mesmo do filme ser lançado. Segundo Alex Griendling, designer que trabalhou com produções como Tá Chovendo Hambúrguer “o projeto de um pôster para um filme começa de 6 meses a um ano antes do filme ser lançado”. Se hoje, mesmo com toda a tecnologia disponível, esse processo exige bastante estudo, imagina como era feito o trabalho dos artistas algumas décadas atrás. Um desses artistas é José Luiz Benício da Fonseca, ou apenas Benício, que desenhou e ilustrou cartazes de filmes nacionais nas décadas de 70 e 80, só deixando estes de lado quando a Embrafilmes foi fechada por Vargas.

Sempre gostei dos cartazes ilustrados que tomavam os cinemas naquele tempo, porém nunca procurei saber quem os fazia. Recentemente em um curso sobre introdução ao cinema brasileiro, na Mário de Andrade, descobri que o artista responsável pela maioria deles era Benício. Logo fui atrás de saber mais sobre ele, então cheguei e esse texto que lhes entrego, esperando que os instiguem a procurar mais sobre esse artista tão singular.

José Luiz Benício da Fonseca, nascido em Rio Pardo, Rio Grande do Sul. Deixou a carreira de músico de lado para, ainda nos anos 50, estudar desenho. Logo se firmou na área, trabalhando na Editora Rio Gráfica. Seu primeiro trabalho com cinema foi o cartaz do filme Os Carrascos Estão Entre Nós (1968), filme de Adolpho Chadler, produção que trazia em seu elenco Átila Iorio e Karin Rodrigues. Sabe-se que ele produziu mais de 300 cartazes para o cinema (além de propagandas para empresas como Coca-Cola e Esso), sendo 30 deles, filmes dos Trapalhões.

Segundo o próprio Benício, seu trabalho mais elaborado foi o cartaz do filme Independência ou Morte (1972), filme de Carlos, Coimbra estrelado por Tarcísio Meira. A história que mostra, de maneira romantizada, a trajetória de Dom Pedro I na emancipação do Brasil em relação a Portugal traz um cartaz bem elaborado. Se prestarmos atenção em todo o trabalho de Benício, vemos que nesse pôster ele trabalha com mais cores e um cenário mais completo, diferente do fundo branco usado em outros trabalhos.

Um dos seus grandes destaques é o cartaz de A Super Fêmea (1973). O filme dirigido por Aníbal Massaini Neto conta a história de uma modelo que é contratada para fazer campanha de uma pílula contraceptiva para homens. Um dos grandes destaques desse filme é o protagonismo de Vera Fischer, que depois do filme ganhou ainda mais fama. Em uma entrevista dada ao J10 (Globo News), Benício diz que “como desenhei mulheres desde o início, muitas coisas da fisionomia eu melhorava, mas as vezes não precisava melhorar nada”, certamente no caso de Vera Fischer, que foi uma das musas da TV brasileira, pouco precisou ser melhorado.

Outro destaque de seu portfólio é o cartaz de Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976). Dessa vez com a direção de Bruno Barreto (mesmo diretos de Flores Raras), essa é uma das histórias mais conhecidas do cinema nacional. O filme levou mais de 10 milhões de espectadores aos cinemas, contando a história de uma sedutora professora de culinária. É um dos poucos filmes da época que envelheceu bem, talvez por não ter apelado tanto quanto seus contemporâneos.

Em 2007 começou a ser produzido um documentário sobre Benício. “O Encontro de Benício com Brigitte Montford”, de Jetter Castro, não chegou a ser finalizado e não se sabe se algum dia será feito. Mas para quem gostaria de saber um pouco mais sobre o trabalho de Benício, o escritor e jornalista Gonçalo Júnior lançou em, 2012, o livro “E Benício Criou a Mulher…”, reunindo uma série de trabalhos do artista, com entrevistas e relatos de sua carreira. Vale a leitura para conhecer mais da vida e trajetória desse grande artista.

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Postado por A Lanterna Mágica
13/1/2019 às 21h17

 
A imaginação educada, de Northrop Frye

A imaginação é, e continuará sendo, a quintessência do humano; cultivá-la é uma forma de manutenção de nossa humanidade.

O crítico literário canadense Northrop Frye apresentou um conjunto de cinco palestras, todas reunidas no volume A imaginação educada, em que se define o que é a imaginação, explana-se como ela se forma e, nas palestras finais, discorre-se sobre como e qual a importância de ela ser educada.

Em primeiro lugar, a imaginação se caracteriza por ser um nível mental exclusivamente humano. Não se define por ser meramente perceptiva nem social – outros animais e insetos são capazes de perceber, de alguma forma, a realidade, assim como são capazes de se organizarem em sociedades. Mais do que isso, a imaginação responde a um esforço de modelar, mentalmente, realidades que não existem, mas que, apesar disso, se gostaria de viver. Ela trata, portanto, do que não existe, mesmo que projete isso na realidade.

“Muitos animais e insetos também têm essa forma social, mas o ser humano é consciente de tê-la: ele é capaz de comparar o que faz com o que imagina poder fazer. Começamos então a perceber o lugar da imaginação no quadro das ocupações humanas. Ela é o poder de construir modelos possíveis da experiência humana. No mundo da imaginação vale tudo que seja imaginável, mas nada acontece de verdade. Se acontecesse, sairia do mundo da imaginação para entrar no mundo da ação.” (FRYE, 2017, p. 18)

Para tanto, a imaginação possui uma linguagem específica, que é a literária. Diferente da linguagem perceptiva – que busca descrever os objetos da realidade – e da linguagem social – que expressa e comunica –, a linguagem literária se caracteriza pela capacidade associativa: torna o ser humano apto para realizar associações entre a sua subjetividade – sentimentos, anseios, angústias, emoções – com a objetividade da realidade. O emblemático verso camoniano “Amor é fogo que arde sem se ver”, por exemplo, estabelece uma relação entre o sentimento amoroso (universo humano), qualificando-o em relação a um objeto do mundo natural – o fogo.

Nesse processo, a associação de um e outro é feita por meio de uma identificação, item fundamental para o exercício imaginativo, pois almeja-se “(...) sugerir alguma identidade entre a mente humana e o mundo exterior a ela – sendo essa identidade aquilo que mais importa à imaginação” (FRYE, 2017, p. 31). Por isso, a linguagem literária é associativa e, por conseguinte, a aplicação de figuras de linguagem – símiles, metáforas, analogias, símbolos – é primordial.

“(...) o poeta não se inibe nem um pouco de usar essas duas primitivas, arcaicas formas de pensamento [analogia e metáfora], pois seu ofício não é descrever a natureza, mas nos mostrar um mundo completamente absorvido e possuído pela mente humana” (FRYE, 2017, p. 32)

Dessa forma, como afirmei no início desta crônica, a imaginação é a quintessência do humano – é uma forma de se identificar e pertencer ao mundo. Sem ela, não há humanidade.

Há várias formas de associação e identificação, mas a mitologia talvez seja a primeira e é a que dá origem a todas as outras, inclusive a literatura. Na mitologia existe uma associação entre um elemento ou fenômeno natural com alguma divindade, “(...) um ser que é humano em sua forma e caráter gerais, mas aparenta possuir alguma ligação especial com o além – um deus solar, um deus da tempestade em um deus-árvore” (FRYE, 2017, p. 32). Destarte, a narrativa dessa divindade explica e, mais do que isso, dá sentido à realidade observada.

A literatura, por sua vez, reverbera as estruturas da mitologia, mas sem a crença. Devido às transformações de ordem social, cultural e histórica, narrativas mitológicas podem se tornar desacreditadas; todavia, os heróis e seus feitos representam arquétipos até hoje plasmados e reconfigurados em obras literárias. Em razão disso, Frye enfatiza e reitera o ensino e o estudo dessas estruturas, pois fundamentam as obras formadoras da cultura Ocidental: “A literatura fala da linguagem da imaginação, e os estudos literários devem treinar e aprimorar a capacidade imaginativa” (FRYE, 2017, p. 116).

Uma imaginação educada, portanto, é aquela que não apenas conhece as narrativas que moldam o humano através de seu olhar para o mundo natural, mas também é capaz de aplicar esse olhar associativo, seja para se identificar e, assim, pertencer ao mundo, seja para se proteger contra as ilusões – diria: contra as ideologias – que alguns setores da sociedade tentam manipular e desumanizar o homem.

“A primeira coisa que a imaginação faz para nós tão logo começamos a ler, escrever e falar, é lutar por nos proteger das ilusões com que a sociedade nos ameaça. A ilusão, claro, é ela mesma produzida pela imaginação social, mas é uma forma invertida de imaginação. O que ela cria é o imaginário, que (...) se distingue do imaginativo” (FRYE, 2017, p. 122)

Por conseguinte, uma forma artística restrita à técnica facilita a formação de ilusões, pois deixa de lado o olhar associativo que humaniza. Retomando a analogia de Ortega y Gasset, em A rebelião das massas, a fruição artística é como um olhar através do vidro de uma janela: a paisagem corresponde ao mundo natural enquanto que a janela equivale à própria arte. Uma concepção restrita à técnica deixa de olhar para a paisagem, isto é, para o mundo natural e, consequentemente, aquela identidade e todo processo humano se restringe à janela, isto é, ao modus operandi.

Com isso, não quero dizer que o trabalho técnico é desimportante; ao contrário, pois seu desenvolvimento – que não é evolutivo – permite expandir as formas de representação e, assim, de identificação com a realidade. Mas, reitero: isso acontece quando o olhar para o mundo não é abolido pelo exclusivo olhar à técnica.

Sendo assim, a imaginação responde ao ímpeto humano de formular ideias e sistemas mentais que representam um mundo em que se gostaria de viver; um mundo em que existe um pertencimento pleno. Para isso, lança-se mão de uma linguagem apropriada, que é a literária.

“O ponto simples é que a literatura pertence ao mundo que o homem constrói, e não ao mundo que ele vê; pertence ao seu lar, não ao seu ambiente” (FRYE, 2017, p. 23)

Portanto, se afirmei que a imaginação é a quintessência do humano, e se através do processo imaginativo o homem se humaniza, constrói o seu mundo a partir de sua capacidade imaginativa, é possível também afirmar que o humano é a quintessência da imaginação.

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Postado por Ricardo Gessner
13/1/2019 às 17h43

 
Mon coeur s'ouvre à ta voix



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Postado por Julio Daio Borges
12/1/2019 às 16h07

 
O Cinema onde os fracos não tem vez


Existe um cinema que, embora tenha atingido seu ápice nos anos 1930, começou ainda nos anos 1900. Foi com O Grande Roubo do Trem (The Great Train Robbery, 1907) que o western chegou às telas. Criado por Edwin S. Porter, que operou câmeras para Thomas Edson, o filme com pouco mais de 11 minutos deu origem às histórias que se tornariam grandes obras. Ver um western é ver a história dos Estados Unidos sendo contada.

Aliás, foram filmes de Ethan e Joel Coen que me inspiraram a escrever essa matéria. Os irmãos são responsáveis por dois filmes que levam o western ao seu auge. O primeiro é Onde os Fracos Não Tem Vez (No Country for Old Man, 2007), um suspense que além de um bela fotografia, conta com excelentes atuações de Javier Barden e Josh Brolin. Outro filme é o recente A Balada de Buster Scruggs (The Ballad of Buster Scruggs, 2018), longa que reúne seis histórias que resgatam as características desse gênero clássico e o homenageia de forma célebre.

ONDE NASCERAM OS FORTES

John Wayne é referência quando se fala de western, mas ainda era desconhecido quando entrou em cena em No Tempo das Diligências (Stagecoach, 1939), uma das grandes obras primas dirigidas por John Ford. Esse foi só o primeiro trabalho que uniu os dois artistas. Depois do estrelato mundial de Wayne, os dois tiveram uma parceria que durou meio século. Mencionando rapidamente outras obras que uniram a dupla, estão Rastros de Ódio (The Searchers, 1956) e Rio Grande (1950), esse segundo no Brasil recebeu o título Rio Bravo, sabe-se lá porquê.

Os filmes de John Wayne e John Ford era o que chamamos hoje de Cinemão, feito para entreter o público. Mas havia um sujeito austríaco que fazia seus filmes mais políticos e por isso ganhou destaque na época. Seu nome era Fred Zinnemann (mesmo diretor de O Dia do Chacal) e o filme em questão é Matar ou Morrer (High Noon, 1952), clássico que rendeu o Oscar de Melhor Ator para Gary Cooper. O xerife William Kane (interpretado por Cooper) é o herói incorruptível que todos almejam ser. No filme um perigoso fora da lei deve chegar na cidade no trem do meio dia, o sujeito acaba de ser liberado da prisão que Kane o mandou. Então o recém casado xerife deixa sua lua de mel para depois e fica na cidade, adverso ao conselho dos cidadãos, para enfrentar seu rival.

A figura de William Kane é o que o EUA define como a imagem do homem norte americano, tanto que uma versão do filme foi guardada em uma cápsula que deve ser aberta em 2213. Matar ou Morrer é tenso a todo momento, deixando o bang-bang de lado e investindo em uma dramaticidade incomum para o gênero. Mas ainda assim, mesmo com trocas de tiro só na última cena, é um dos melhores westerns já feito e que possui enorme significância para o cinema e sociedade americana.

Outro diretor importante nos westerns dos dias de hoje é Quentin Taratino. Famoso pela quantidade de sangue unidos a sua técnica singular, o diretor entrou no jogo com Django Livre (2012), filme que busca muitas referências para montar uma verdadeira jornada do herói, repleta de plot twists. Outro ótimo filme do diretor, que levou o prêmio de Melhor Trilha Sonora em diversos festivais que participou, é Os Oito Odiados (Hateful Eight, 2015). Assim como Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, 1992), temos uma trama montada dentro de um único cenário, com pouquíssimas cenas externas, onde o verdadeiro vilão é o suspense psicológico.

O VELHO OESTE MACARRÔNICO

Com tudo, a Era de Ouro dos westerns não se limitou aos EUA. Alguns países da Europa aproveitaram o embalo e lançaram suas versões e a mais conhecida é o Spaghetti Western, o velho oeste italiano. Com o fim do western americano, que durou até os anos 1950, o faroeste macarrônico ganhou destaque e também revelou grandes atores e diretores. Um dos grandes nomes foi o diretor Sergio Leone, que traz em sua filmografia filmes como Por Um Punhado de Dólares (Per un Pugno di Dollari, 1964), Por Uns Dólares a Mais (Per Qualche Dollare in Più, 1965) e Era Uma Vez no Oeste (C’era Una Volta in West, 1969).

O movimento na Itália (e uma parte na Espanha) durou quase duas décadas e levou grande nomes em seus filmes. Entre eles está um ator que parece ser um dos maiores adoradores do gênero, Clint Eastwood. O ator e diretor participou de muitos filmes na época, tendo como principal personagem o Pistoleiro Sem Nome na trilogia do dólar, que além dos filmes já mencionados, fecha a série com Três Homens em Conflito (Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo, 1966).

O VELHO SERTÃO

O que muitos não sabem é o que o Brasil também teve lá seus westerns. Na verdade, está mais para “nordesterns”, já que o cenário principal é o cangaço. Isso ficou claro em um dos primeiros filmes, O Cangaceiro (1953). O filme dirigido por Lima Barreto ganhou Cannes e a partir dele um ator chamado Maurício Morey viu potencial para o Brasil entrar no bang-bang. No ano seguinte, 1954, o ator estrelou Da Terra Nasce o Ódio, dirigido por Antoninho Hossri, seu irmão, que na época trabalhava como médico. A produção já ganhou destaque ao estrear no imponente Art Palácio, algo que era difícil de acontecer com produções pequenas. Seu sucesso foi tamanho que em 1958 o filme The Big Country, do diretor William Wyler, estreou no Brasil com o nome Da Terra Nascem os Homens, fazendo referência ao filme de Morey.

O nosso nordestern durou um bom tempo, passando pelo Cinema Novo bahiano, as pornô chanchadas paulista e as comédias de Mazzaropi. Mas um outro título que recebeu destaque foi o filme do diretor Osvaldo de Oliveira, Rogo a Deus e Mando Bala (1972). O filme mostra a batalha entre uma quadrilha de foras da lei e um grupo de justiceiros. O filme se inspira no oeste macarrônico da Itália, mas seus elementos e canções mostram que é um autêntico western tupiniquim.

WESTERN PARA REUNIR A FAMÍLIA

Nos EUA a TV também teve seu momento western. Os seriados era o que reunia a família na sala de estar durante alguns minutos do dia. Duas séries adaptadas são Os Pioneiros e Bonanza.

Os Pioneiros trazia uma família que migraram até Minnesota em busca de uma vida melhor, no ano de 1800. O seriado é uma adaptação dos livros de Laura Ingalls Wilder e ficou no ar entre 1974 e 1983. Outro seriado importante para o gênero é Bonanza. Com 14 temporadas transmitidas entre 1959 e 1973, a série seguia o dia a dia do viúvo Ben Cartwright, interpretado por Lorne Greene, um rancheiro que vive em defesa e cultivo de sua propriedade, em Nevada.

Mas para quem procura por séries mais atuais, temos duas boas opções, uma mais engajada na comédia e outra digna de uma jornada western. O primeiro é O Rancho, série de comédia protagonizada por Ashton Kutcher, mas embora seja o mais famoso, ver Sam Elliott como um velho ranzinza que implica e reclama de tudo já vale a pena. A outra opção é Godless, uma série clichê onde a mocinha em busca de justiça e vingança encontra um heróis desgarrado. Embora caia na mesmice, é uma ótima produção.

Em sua Era de Ouro só nos EUA foram produzidos quase 700 filmes do gênero, se juntarmos isso aos filmes lançados na Europa e no Brasil teremos milhares de westerns, são muitos filmes para assistir. Além dessa quantidade de obras, o western foi essencial para que o cinema mundial crescesse. O Grande Roubo do Trem mudou a maneira de como contar histórias e filmes como Matar ou Morrer são referências até hoje. Com isso, quem sabe num futuro não tão distante vemos mais filmes do gênero ganhando a tela grande, já que a pouco tempo atrás eles eram referência e enchiam salas de cinema.

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Postado por A Lanterna Mágica
7/1/2019 à 00h05

 
É Natal

Mais um ano que passa, mais uma página virada, mais uma renovação de esperança e, cada um a caminhar o seu caminho.

- E você como vai? - Vou indo... - como Deus quer...

Assim, entra ano e sai ano como Deus quer. Não mudamos em nada. Não creio ajudarmos a ninguém mudar para melhor, sem antes mudar a nós mesmos.

Ajudar a virar a página do outro, incentivar na renovação de sua esperança e caminhar de mãos dadas em seus caminhares, faz parte da verdadeira mudança em cada um de nós.

Cobrar desse ou daquele, sem contribuir com nada, não ajuda a mudar coisa nenhuma. Não muda o outro e tão pouca a quem cobra a mudança.

Verdadeiramente o mundo só vai mudar, quando cada indivíduo reconhecer em si a necessidade de mudança, para só depois tentar mudar o mundo e consequentemente mudar o outro.

O Natal é uma reflexão interior, para o reconhecimento de si mesmo no outro. Assim fez o menino Jesus da sua infância até a sua vida adulta. Não vamos esquecer os exemplos deixado por Ele, na curta, mas intensa pregação a honestidade, comprometimento e amor para com o próximo e para consigo mesmo.

Um novo e feliz Natal para todos.

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Postado por Blog Feitosa dos Santos - Prosas & Poemas
19/12/2018 às 18h53

 
A verdade? É isso, meme!

O compartilhamento de memes em redes sociais, para além da função de entretenimento, cumpre uma função nem sempre percebida de criticar certos valores, a maioria associados a condutas consideradas conservadoras, em nome de um progressismo aguado. Vejamos um exemplo.



A construção dessa figura segue um padrão bastante comum, pela associação de uma frase de efeito a um nome, normalmente de alguma personalidade intelectual. O efeito gerado é de uma citação; contudo, nem sempre a frase corresponde com sua fonte de origem, ou nem sempre com seus dizeres originais.

A frase se efetua a partir da oposição entre “pensar” e “julgar”. Assim como no período cada palavra ocupa um polo, na prática a primeira se associa a um aspecto positivo, enquanto que a segunda, negativo. “Pensar” é bom, pois vislumbram-se aspectos que, numa atitude imediatista – irrefletida –, passariam despercebidos; “pensar” consente ao raciocínio acessar camadas de compreensão mais profundas e, assim, mais verdadeiras; permite reavaliar certos valores e passar a considerá-los sob outras óticas. Isso requer um esforço que exige não apenas um mínimo de repertório intelectual, como também capacidade de abstração; algo, portanto, pouco agradável a um público numericamente extenso.

Em contrapartida, “julgar” é uma espécie de atalho, visto que para emitir um juízo de valor não é necessário percorrer todo aquele doloroso procedimento descrito acima; basta uma resposta imediata. Aplicando-se a lei do mínimo esforço, o “julgar” é preterido em função do “pensar”, pois o comum é preferir o mais fácil.

Contudo, essa predileção tem os seus efeitos colaterais, como a permanência constante na superfície, além de legitimar o compartilhamento de memes duvidosos por um grande número de pessoas e, assim, seguir o fluxo da maioria. O alvo do meme são aqueles que julgam os demais sem necessariamente conhecê-los ou, ao menos, levar em consideração a sua situação de contexto. Noutras palavras, pretende-se um ataque aos fofoqueiros e, através da associação com a autoridade intelectual de Jung, a frase efetua um ar de “verdade”, de sabedoria ou, pelo menos, de profundidade, assumindo uma postura crítica.

De fato, a frase foi pinçada de uma obra de Jung, mas o modo como está escrita é infiel. Ela se encontra no livro “Um mito moderno sobre as coisas vistas no céu”, publicado pela primeira vez em 1958. Trata-se de um ensaio a respeito dos constantes relatos de avistamento de óvnis, discos-voadores e quejandos, no decorrer do período do pós-guerra e parte da década de 1950.

Nesse quadro, Jung defende a tese de que tais avistamentos correspondem a uma projeção do inconsciente coletivo, manifestado por meio dos boatos visionários e, assim, compõe-se uma espécie de mitologia moderna. Não se trata de questionar o fundamento verídico dos relatos, mas de investigar seu fundamento psíquico.

A frase citada no meme encontra-se no Capítulo 2, dedicado a apresentar e comentar um conjunto de sonhos em que aparecem, de maneira evidente ou não, experiências com óvnis:

"O único fato indubitável é que o mais importante dos instintos fundamentais, a saber, o instinto religioso de totalidade, desempenha na consciência comum hodierna o papel mais insignificante, porque, sob o ponto de vista histórico, ele só consegue livrar-se, com muita dificuldade, e sob constantes recaídas, da associação e contaminação com os outros dois instintos. Enquanto estes podem recorrer constantemente a fatos de todo dia conhecidos por todos, o outro precisa, para a sua evidência, de uma consciência muito mais diferenciada, de circunspecção, de reflexão, de responsabilidade e de outras virtudes mais. Por este motivo, ele não se recomenda absolutamente ao homem de impulsos naturais, relativamente, já que ele está preso ao mundo que lhe é conhecido, e se apega aos lugares comuns e ao evidente, ao que é provável e coletivamente válido, seguindo o lema: “Pensar é difícil, por isso a maioria é quem decide!”. Ele considera um notável alívio da sua existência, quando algo aparentemente complicado, incomum, difícil de ser compreendido, que ameaça trazer problemas, pode ser relacionado com algo costumeiro, até mesmo banal, ainda mais se a solução parecer surpreendentemente simples, e além do mais, engraçada". (2013, p. 50)

Veja-se que, em primeiro lugar, a frase é aplicada como um lema aceito pelo senso comum, e não são dizeres oriundos da pena de Jung. Em segundo lugar, a frase caracteriza uma conduta do homem comum, aquele de “impulsos naturais”, pouco afeito ao cultivo intelectual e espiritual: ao invés, prefere seguir a decisão da maioria e, sendo assim, delega aos demais a responsabilidade dos afazeres mais trabalhosos, como, justamente, o pensar. Em terceiro lugar, neste trecho em específico, Jung discute as idiossincrasias do “instinto religioso”, que se caracteriza, basicamente, pela preocupação e percepção da totalidade do ser humano: carne e espírito; matéria e alma.

Como afirmado no início do excerto, o instinto religioso, apesar de fundamental, desde aquele contexto desempenha função cada vez menos significante. Enfatizo: cada vez menos significante. Isso quer dizer que estava perdendo seu lugar no âmbito de dar significados à existência e os homens passaram a encontrar nas coisas materiais essa função, deixando de lado a espiritualidade, pois demanda esforço para ser cultivada. Dessa forma, os constantes relatos de avistamentos de óvnis funcionava, segundo Jung, como uma espécie de sublimação, pois o homem moderno, receoso pela possibilidade de uma guerra nuclear, projetou no espaço a solução material para seus problemas. (Seria, na era contemporânea, os memes a cumprirem essa função?)

Nesse processo os símbolos adquirem uma importância fundamental para Jung, pois fazem a manutenção do instinto religioso.

Como afirmei, a frase que aparece no meme não é a mesma utilizada por Jung. O meme é pretensioso ao enaltecer a diferença entre a ação de “pensar” e a de “julgar”, inclusive estabelecendo uma diferença de valor. Já a frase em inglês, originalmente é: “Thinking is difficult, therefore let the herd pronounce judgement”. A despeito de a palavra “julgamento” aparecer na frase original, seu sentido não é o do que está no meme, mas, sim, no de “decidir” (uma possível tradução literal seria: “Pensar é difícil, por isso, deixemos a maioria julgar”).

Sendo assim, o meme desonestamente rechaça uma compreensão mais aprofundada, não apenas do pensamento de Jung (cuja teoria está longe de ser o alvo de interesse do meme), mas também da própria ação de “julgar”, ali reduzida ao ato de falar mal ou sem propriedade. Paradoxalmente, ela incentiva os demais a agirem conforme o que ela mesma condena: julgar antes de pensar; quem a compartilhou, não pensou se ela é correta, mas a julgou como tal.

Além disso, é interessante o significado implicitamente atribuído à palavra “julgar” no meme. Como já vimos, é oposto ao de “pensar”; dessa forma, “julgar” implica a ação irrefletida, imprudente, de emitir um juízo de valor, seja por ser infundado, seja por ser preconceituoso.

Além disso a frase reflete uma conduta comum, aceita como positiva, de que não há valores absolutos e, portanto, julgar implica em incorrer em tal falácia. Mesmo porque, para emitir um julgamento é necessária uma referência pré-estabelecida, isto é, uma forma de pré-conceito – outro palavrão.

Nesse plano, a querela detrás a frase do meme é criticar certo conservadorismo em função do multiculturalismo, seja em âmbito moral ou cultural. Julgar e não-julgar se associam a condutas políticas de tolerância: a primeira é fascista enquanto que a segunda é democrática. Entretanto, a despeito dessa beleza moral, a frase, além de mentirosa, não diz nada. Em primeiro lugar, a associação entre política e arte redunda em confusão; em segundo lugar, essa relação não é determinista, pois a índole política do artista não salva (ou condena) sua arte:

"(...) é perfeitamente possível que, tendo alcançado uma sabedoria política fundamental (...), o valor de nossas produções culturais se afigure muito inferior ao das produções culturais de sociedades cuja necedade política vigorosamente condenamos. Além disso, é dado da experiência que, quando do colapso de sistemas políticos ou sociais terríveis e de sua substituição por sistemas que, ao menos abstratamente, são melhores, as pessoas nem sempre ficam felizes. É essa a verdade que se encontra por trás do ditado dos camponeses romenos (...), segundo o qual a mudança de governantes é a alegria dos tolos". (DALRYMPLE, Qualquer coisa serve, p. 158)

A frase deturpada e atribuída a Jung cumpre um apelo retórico. Como não está restrita a um contexto específico, pode ser aplicada a um leque extenso, que vai desde questões multiculturalistas, até questões de ordem afetiva. O intuito é salvaguardar a supremacia do relativo em detrimento do padrão (do normativo).

Nesse processo a frase revela seu sentido verdadeiro, isto é, revela um modo de ser julgado, uma tentativa de mascarar diferenças qualitativas para que tudo seja considerado conforme as especificidades de cada contexto. Isto é, a mensagem do meme é: julgar é excludente e, por isso, ruim. Toda diferença deve ser considerada. Quebrar padrões, não se enquadrar a nada, ser diferente em todas as esferas da vida, é isso o que importa. Paradoxalmente essa conduta inaugura novos padrões de conduta aos quais são estabelecidos como referenciais para outros julgamentos: todo aquele que não for diferente será um inimigo.

Por fim, o modo composicional da frase cumpre o oposto do que ela pretende dizer, pois não está contextualizada e, além disso, transmite não um pensamento, mas um julgamento. E aí ela revela seu verdadeiro conteúdo: o descompasso, tão comum, mas normalmente disfarçado, de certos discursos que valorizam as diferenças em nome de outros preconceitos e outros juízos, estes sim, deletérios.

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Postado por Ricardo Gessner
9/12/2018 às 16h16

 
A massa não entende

Se a leitura de poesia, atualmente, é algo raro, o que dirá das suas análises? Mais do que raro, é tormentoso; e com razão. Especialistas pululam para lastimar a falta de interesse, ora acusando o capitalismo, ora o comunismo, ora a sociedade secreta dos reptilianos, pela responsabilidade. Entretanto, é importante não deixar fora de foco a própria produção artística, assim como o modo que seus estudiosos e críticos falam dessas obras. Como bem observa Rodrigo Gurgel, em “Reflexões no império dos filisteus” (Crítica, literatura e narratofobia):

“Se o espaço diminui cada vez mais – e o número de publicações dedicadas à literatura escasseia –, isso se deve não só a certas políticas editorias ou questões de ordem sociológica, mas também aos próprios críticos, que afastam os leitores ao incorporar a linguagem hermética da academia e evitar fazer julgamentos claros.

O crítico assinala o teor altamente especializado da crítica literária, que se tornou comum nos idos de 1970 em diante, e facilitou a fuga do público para outros setores, como a música pop ou produções mais digestivas. A crítica literária deixou de exercer sua função básica, criticar, julgar – escudada em discursos politicamente corretos –, para exibir um virtuosíssimo teórico agradável aos ouvidos áridos dos departamentos de teoria literária.

Contudo, a crítica literária responde a um outro fator, que é a especialização da própria arte. Como falei na abertura dessa crônica, a poesia – e as demais formas de arte – não estão na boca do público. Nesse sentido, o filósofo espanhol Ortega y Gasset, em “A desumanização da arte”, segue dessa premissa – de que a arte moderna é impopular e, mais do que isso, antipopular – dividindo o público entre os que a compreendem e os que não: “Não se trata de que a maioria do público não goste da arte moderna enquanto uma pequena parte, sim. O que acontece é que a maioria – a massa – não a compreende”. E isso ocorre porque a arte moderna passou por um processo de desumanização.

De acordo com o filósofo espanhol, a arte é uma forma de olhar para o mundo, como se olhássemos para uma paisagem através do vidro de uma janela. A paisagem é a própria realidade, que não se restringe à concretude, mas abrange o universo humano: pode representar a lida com sentimentos, valores, ações, representações do campo sagrado ou experiências místicas. O vidro, por sua vez, é o modo como o olhar é direcionado para percebê-la; é o análogo da técnica artística. Quanto mais límpido o vidro mais evidente é a paisagem, da mesma forma que por séculos os artistas empregaram técnicas que permitiam representar seus objetos com maior fidedignidade, ou torná-los mais claros.

Contudo, num determinado momento, a realidade deixou de ser o foco principal. “Não é que o pintor caminha torpemente em direção a realidade, mas vai contra ela”. Noutras palavras, a paisagem adquire uma importância menor, pois o vidro da janela – a técnica artística – tornou-se o fator preponderante. Isso foi apresentado como sendo a autonomia do campo artístico, que não depende mais de nenhuma realidade externa e pode sobreviver por si mesmo. O poeta francês Théophile Gautier sistematizou a proposta no conceito, hoje bastante conhecido, de “arte pela arte”. A poesia tornou-se “a álgebra superior das metáforas”, segundo Ortega y Gasset.

Por um lado, a conquista dessa autonomia foi compreendida como uma libertação da Arte, pois estava livre da realidade, livre de convenções, livre do universo humano e poderia voltar-se ao seu próprio. Por outro lado, isso acarretou numa excessiva atenção à técnica, culminando na “desumanização da arte”, da qual fala Ortega y Gasset e sua consequente incompreensão por parte do público. Isto é, como a arte tem a si mesma como referencial e faz isso por meio de técnicas profundamente especializadas, quem não possui esse domínio permanece excluído, ou tem mais dificuldade de compreensão.

Alguns filósofos marxistas celebraram essa característica interpretando-a como se fosse uma forma de resistência a uma sociedade capitalista, burguesa, “hostil à arte, pois não gera riqueza”. Contudo, há de se reconhecer que não apenas os opressores ficaram de fora, como também os oprimidos. “O que acontece é que a maioria – a massa – não a compreende”.

Os artistas se tornaram seus próprios críticos, muitos se dedicando à reflexão filosófica sobre o campo estético, criando sistemas teóricos para justificar suas obras – vide Paul Valery, na França – ou alguns poucos acólitos que passaram pelo processo de iniciação e aprenderam o vocabulário esotérico – como o próprio Paul Valery em relação a Stephane Mallarmé. A crítica tornou-se fechada em si mesma, munida de um arsenal teórico desconhecido por aquele que frui da Arte porque é, antes de tudo, humano:

“Ora, o leitor dos cadernos culturais não quer receber, a cada semana, pílulas estruturalistas ou conceitos derridianos. E não quer chegar ao ponto final do texto sem saber o que, exatamente, o articulista pensa. Quer e precisa de uma crítica que se disponha à tarefa de intermediar o diálogo entre a obra e ele, o leitor. Portanto, se a crítica deseja recuperar seu espaço, deve, antes de tudo, reaprender a respeitar o leitor” (Rodrigo Gurgel, “Reflexões no império dos filisteus”, p. 41)

Com isso, os artistas que esnobam tudo aquilo que “não é Arte”, mesmo que se apresentem como politicamente democráticos, são estilisticamente elitistas ao pressuporem um arsenal teórico para a fruição, além de facilitarem a fuga do público para outras instâncias.

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Postado por Ricardo Gessner
2/12/2018 às 17h31

 
ARCHITECTURA

Talvez por gosto talvez por teimosia

ergui neste deserto a moradia


Na casa um girassol alucinado

revive em flor delírios do passado


Neste porão oculta-se em degredo

uma finada infância com seus medos


Ali repousam agora as velhas musas

na tessitura dos véus que encobrem as rugas


Numa xícara de arte em porcelana

me fitam gueixas de longas pestanas


E na janela aberta para a rua

vejo São Jorge e seu dragão na lua


De tinta e de papel minha morada

ora aparece e logo se apaga


Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Impressões Digitais
1/12/2018 às 10h41

 
Palestra e lançamento em BH

Sábado, 1o de dezembro, às 10h30, o projeto Ideografias convida a professora e escritora Ana Elisa Ribeiro para uma palestra intitulada "Das margens impossíveis de ensinar a escrever", no Memorial da Vale, com entrada gratuita. Na sequência, haverá o lançamento do livro "Livro - edição e tecnologias no século XXI", pelas editoras Moinhos e Contafios. A obra reúne ensaios da autora sobre estudos do livro e da leitura e é o primeiro volume da coleção Pensar Edição. Assina a quarta capa o professor argentino José Luis de Diego. A obra já está em pré-venda pelo site da editora.

LeP



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Postado por Ana Elisa Ribeiro
28/11/2018 à 00h06

 
A Claustrofobia em Edgar Allan Poe - Parte I

Durante madrugadas ébrias, chuvosas e frias, passo a noite em claro e um livro aberto. Entre o clarão de um raio e estrondo de um trovão, não sei se o que aparece no vidro da janela é a silhueta de Edgar Allan Poe, com dentes assustadoramente alvos, rindo-se enquanto sobrepõe tijolos para fechar qualquer saída, ou se o livro que tenho nas mãos é de uma ave de rapina cuja assinatura é “Nunca mais”. Desperto. Era um pesadelo? Olho ao redor e vejo-me num quarto fechado, sem portas nem janelas...

Edgar Allan Poe é um dos meus autores de cabeceira. Chama-me a atenção em seus contos uma fixação pelos espaços interiores e pequenos. Por exemplo, em “O gato preto” o personagem principal, depois de assassinar sua esposa, para livrar-se do cadáver, empareda-o no porão de sua casa; em “O coração delator”, depois de assassinar o velho companheiro, esconde o corpo debaixo do assoalho. Em ambos os contos, diga-se de passagem, a estrutura é bastante parecida, sendo vários os elementos em comum: a fixação do personagem pelo olhar (do gato no primeiro, do velho no segundo); um estado de clara perturbação mental do narrador-personagem; sons perturbadores, ora provindos da mente perturbada do narrador (o bater do coração do velho), ora das próprias condições situacionais (o miado do gato, que o narrador emparedou sem perceber junto com o cadáver).

Tenho comigo uma hipótese: acredito que esse “espaço fechado” é uma espécie de personagem que circunda, ou melhor, assombra inúmeros dos contos de Poe, mas que não tem nome e muitas vezes é o responsável pelo tom – para utilizar conceito do próprio Poe – do texto, ou até mesmo por gerar sua unidade de efeito. De tão evidente, passa despercebido. Este personagem é o “claustro”. Digo aqui “claustro” por falta de termo melhor; na verdade, penso nas quatro paredes fechadas que, mais do que seu sentido literal, funciona como uma espécie de arquétipo.

Em “O barril de Amontillado”, Montresor – o narrador-personagem –, amargurado e rancoroso por certas injúrias cometidas por Fortunato, tece uma armadilha para abandoná-lo numa câmara subterrânea, supostamente um depósito de vinhos onde haveria um “barril de Amontillado”. Provavelmente o conto é a principal fonte – ou barril? – que Sir Arthur Conan Doyle bebeu para escrever “A nova catacumba” ou Lygia Fagundes Telles para escrever “Venha ver o pôr do sol”. Montresor numa emboscada acorrenta Fortunato nessa câmara, fecha-a e segue, satisfeito de sua vingança. Toda a ação de “O poço e o pêndulo”, como sugere o título, se passa numa espécie de poço – um espaço fechado e misterioso. E talvez o conto que chega ao mais extremo nesse sentido seja “O enterro prematuro”, que versa sobre a fobia do narrador em ser enterrado vivo.

Ora, diante desses poucos exemplos ensaio que, mais do que um recurso literário utilizado por Poe, é, como disse no início, uma espécie de personagem. Um fantasma que assombra manifestando-se sob as mais diversas formas. E o “claustro” não se restringe ao espaço em si, também é sua manifestação, ou melhor, sua influência ou ligação sobre os personagens, como em “A queda da casa de Usher” ou em “Ligeia”, uma espécie de Feng-Shui macabro. E mais ainda, o claustro nem mesmo precisa ser um espaço físico: pode se associar à mente perturbada do personagem.

Acredito que o “claustro”, agora transposto para a condição humana, é um arquétipo. Trata-se do horror em ser levado, sem perceber, por uma força misteriosa que oprime e não oferece nenhuma perspectiva de saída. Vivo, consciente e sem saída, num lugar para sempre desconhecido, sem saber como chegou ali. O medo da morte torna-se um afago. Sem portas, sem janelas. Sem passado nem futuro. Isso é o “claustro”. Também pode ser inferno, eterno-retorno, imutabilidade... Pode se dar num espaço literalmente claustrofóbico ou a céu aberto, nas circunstâncias aparentemente mais insignificantes, mas é onde o abismo se abre. Tudo depende das circunstâncias ou da fertilidade mental de quem (não) pensa. Poe, nesse sentido, expõe as entranhas da vida. Seguimos sem saber como ou para onde, sobre uma jangada que acreditamos existir, fixos em miragens que por nós mesmos se transmutam a cada momento. Quando acordamos, estamos ali, num lugar fechado, sem portas nem janelas. O último gesto é gritar para escutar a própria voz.

To be continued...

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Postado por Ricardo Gessner
25/11/2018 às 14h29

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