Digestivo Blogs

busca | avançada
107 mil/dia
2,4 milhões/mês
Mais Recentes
>>> “Sempre mais que um” tem apresentações no Teatro Alfredo Mesquita
>>> Projeto Memória leva legado de Lélia Gonzalez a 7 capitais
>>> '1798 - Revolta dos Búzios' chega ao cinemas
>>> IV Cinefestival International de Ecoperformance divulga sua programação
>>> O Shopping Praça da Moça debuta com show exclusivo da Família Lima
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> O Big Brother e a legião de Trumans
>>> Garganta profunda_Dusty Springfield
>>> Susan Sontag em carne e osso
>>> Todas as artes: Jardel Dias Cavalcanti
>>> Soco no saco
>>> Xingando semáforos inocentes
>>> Os autômatos de Agnaldo Pinho
>>> Esporte de risco
>>> Tito Leite atravessa o deserto com poesia
>>> Sim, Thomas Bernhard
Colunistas
Últimos Posts
>>> Comfortably Numb por Jéssica di Falchi
>>> Scott Galloway e as Previsões para 2024
>>> O novo GPT-4o
>>> Scott Galloway sobre o futuro dos jovens (2024)
>>> Fernando Ulrich e O Economista Sincero (2024)
>>> The Piper's Call de David Gilmour (2024)
>>> Glenn Greenwald sobre a censura no Brasil de hoje
>>> Fernando Schüler sobre o crime de opinião
>>> Folha:'Censura promovida por Moraes tem de acabar'
>>> Pondé sobre o crime de opinião no Brasil de hoje
Últimos Posts
>>> A insanidade tem regras
>>> Uma coisa não é a outra
>>> AUSÊNCIA
>>> Mestres do ar, a esperança nos céus da II Guerra
>>> O Mal necessário
>>> Guerra. Estupidez e desvario.
>>> Calourada
>>> Apagão
>>> Napoleão, de Ridley de Scott: nem todo poder basta
>>> Sem noção
Blogueiros
Mais Recentes
>>> A Poética do Extravio, Júlio Castañon Guimarães
>>> Armazém de secos e molhados
>>> Uma nova aurora para os filmes
>>> Jornal da Cultura - 17/11/2014
>>> Páginas e mais páginas da vida
>>> No final do telejornal tinha um poeta...
>>> No final do telejornal tinha um poeta...
>>> Máfia do Dendê
>>> CaKo Machini
>>> Alberto Dines sobre a Copa
Mais Recentes
>>> Drawing On The Right Side Of The Brain de Betty Edwards pela Souvenir Press (2024)
>>> Noção de gerenciamento de Portos de Guilherme Accioly Fragelli pela Clube Naval (2000)
>>> Subterra de Baldomero Lillo, Luisa Rivera, José Miguel Vara pela Liberalia (2010)
>>> A Canoa de Papel - tratado de Antropologia Teatral de Eugenio Barba pela Hucitec (1994)
>>> Poesia Indianista: Obra Indianista Completa : Poesía E Dicionário Da Língua Tupi de Antônio Gonçalves , 1823-1864 Dias pela Martins Fontes (2000)
>>> Era Uma Vez Tiradentes - coleção viramundo de Julieta de Godoy Ladeira pela Moderna (1992)
>>> Noite Na Taverna / Macario - Portugues Brasil de Alvares De Azevedo pela Martin Claret (2011)
>>> Livro Introdução A Economia: Princípios e Ferramentas de Arthur O'sullivan, Steven M. Sheffrin, Marislei Nishijima pela Pearson (2004)
>>> Iracema de José De Alencar pela Melhoramentos (2012)
>>> UNO Educação, Ensino Médio - Gramática Nº 9, 10, 11 e 12 de Vários Colaboradores pela Bercrom (2023)
>>> A Escrava Isaura de Bernardo Guimarães pela Sol90 (2004)
>>> Livro Textos, Compreensão, Interpretação e Produção 21 de Antonio Simplicio Rosa Faria e Produção pela Livro Técnico (1986)
>>> Os Lusíadas - Coleção L de Luiz Vaz de Camões pela L PM Pocket (2015)
>>> Livro Números Irracionais e Transcendentes de Djairo Guedes de Figueiredo pela Sbm (2002)
>>> UNO Educação, Ensino Médio - Literatura Nº 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22 e 24 de Vários Colaboradores pela Bercrom (2023)
>>> Livro Do Novo Mundo Ao Universo Heliocêntrico de Luiz Carlos Soares pela Hucitec (1999)
>>> Revolução E Democracia. 1964-... - Volume 3 Das esquerdas no Brasil de Jorge Ferreira e Daniel Aarão Reis pela Civilização Brasileira (2007)
>>> Fazer Pesquisa na Abordagem Histórico Cultural Metodologias Em Construção de Maria Teresa de Assunção Freitas; Bruna Sola Ramos pela Ufjf (2010)
>>> Raul Prebisch - 1901-1986: A construção da américa latina e do terceiro mundo de Edgar J. Dosman pela Contraponto (2011)
>>> Liderando Com Metas Flexíveis de Niels Pflaeging pela Bookman - Grupo A (2009)
>>> Vocabulário Da Psicanálise de Jean-bertrand Pontalis; Laplanche pela Martins Fontes (2001)
>>> Saude E Servico Social de Maria Ines Souza Bravo; Outros autores pela Cortez Edi (2006)
>>> Serviço Social E Saúde: Formação E Trabalho Profissional de Ana Elizabete Mota pela Cortez Edi (2009)
>>> O Mito Da Assistência Social: Ensaios Sobre Estado, Política de Ana Elizabete Mota pela Cortez (2008)
>>> Frankie - Um Homem Desiludido. Um Gato Procurando Um Lar. Uma História Comovente Sobre Uma Amizade E de Maxim Leo; Jochem Gutsch pela Faro Editorial (2024)
BLOGS

Sexta-feira, 3/5/2024
Digestivo Blogs
Blogueiros
 
A insanidade tem regras

A discussão sobre a "proporcionalidade"das respostas aos ataques de um bando de terroristas assassinos a uma população de fazendeiros e agricultores, além de uma plateia de jovens espectadores de um show musical, é deplorável.
A ideia de que a "guerra tem regras", é por si só, absurda. Regras para destruir, matar, aleijar, incapacitar , machucar seres humanos, estejam ou não caracterizados para tal serviço, fardados, sinalizados, etc, é de uma estupidez ciclópica.
Aperfeiçoar aparelhos denominados de armas e classificá-los de acordo com sua capacidade em : leves, de ataque, de assalto, de contenção, de destruição média, normal, de massas, não tem cabimento no entender de ninguém. Ao mesmo tempo em que alguns cientistas flutuam a quilômetros no espaço, estudando o Universo, milhares de outros gastam seus preciosos neurônios, melhorando inventando, máquinas e instrumentos para arrasar, devastar, sublimar pessoas. E não tem lado que esteja mais ou menos certo que o outro, quando o assunto é resolver questões através do expediente mais simples que se pode imaginar: A supressão da vida.
O poder engalanado, as fanfarras altissonantes, os ritmos marcados das botas e coturnos agredindo o piso das avenidas em desfiles impressionantes não bastam. Há que mandar aqueles atores orgulhosos em seus uniformes bem passados para a morte ou a incapacitação. Há que mostrar arrogância, prepotência, autoridade sobre o "outro" do outro lado de alguma divisória. Entretanto, o mais absurdo é que são poucos indivíduos, bípedes falantes, que controlam a estupidez geral.
A capacidade de convencimento desses monstros abissais é inexplicável, sempre escondidos por um artifício impalpável, principalmente o medo e as promessas de afastar o perigo. Os céus castigam. Os céus premiam os que acreditam, a igualdade entre os parecidos serve de cola, adesivo, grude, para formar hordas. Bastam algumas promessas que vão desde leite e mel até casas, escolas, comida abundante, automóveis e outras prebendas até as glórias de ser um cadáver com uma rodela de metal pendurada numa fita, atada ao peito.
Os líderes viram siglas sempre que interessa. Ou são mensageiros do altíssimo, em suas múltiplas versões, sempre adversárias umas das outras, ou seguidores de idéias e doutrinas de aglutinação da população, da choldra, da escumalha em que todos se transformam. A mudança dos nomes dos responsáveis pela morte de milhares de jovens em ação, e outras milhares de pessoas comuns por conta dos “efeitos colaterais" da insanidade, é parte do absurdo.
Geralmente uma ideia religiosa, política, ou geográfica. Mas não é o assassino mór que aparece: é a sua "firma" o seu "clube" "a sua verdade"', Os grupos terroristas tomam ares de "defensores legítimos", exércitos irracionais de países onde a fome e a miséria é conhecida, garantem sua "democracia popular", facções religiosas perpetram barbaridades em nome das leis de seus deuses ou deus.
O nome dos monstros que mandam a juventude de seus povos e países para a máquina de morte quase ou nunca aparece ou está diluído em diversos "chefes ou dirigentes". Ninguém é responsável por começar um horror qualquer.Sempre agem em defesa de alguma ideia ou ambição.
Agora estamos vendo a cobrança de proporcionalidade na irracionalidade em resposta e contenção a uma barbárie indescritível. Deve ser falta de assunto. Quem procura acha.

[Comente este Post]

Postado por Contubérnio Ideocrático, o Blog de Raul Almeida
3/5/2024 às 09h44

 
Uma coisa não é a outra

Demonstrando grande indignação com a acusação que o levou a passar um período encarcerado, o Flagelo do Agreste, repetiu, durante uma entrevista na TV:
“Digam o que foi que eu roubei” insistindo, algumas vezes em tom indignado.
E com toda razão, reclamava da pecha equivocada que seus adversários insistem em repetir e alardear.
Não é verdade que o Flagelo do Agreste tenha cometido furto, roubo ou assalto,contra pessoas ou instituições.Entretanto,a condição de corrupto fica evidente, ao terem comprovadas diversas situações em que se beneficiou da corrupção ciclópica, perpetrada por empreiteiras poderosíssimas principalmente e, por ter aceitado mimos e vantagens imobiliárias mascaradas por terceiros em suas titulagens, tais como: sítio no interior de São Paulo, apartamento em balneário de luxo, na Baixada Santista.
Uma coisa não é a outra.
Um ladrão rouba, furta. Um corrupto é corrompido ou corrompe!Num determinado ponto das interpretações sobre o efeito de cada modalidade, chega-se, facilmente, ao entendimento de que os dois crimes resultam em benefício ao agente culpado.
Uma coisa não é a outra!
Ladrão é ladrão, corrupto é corrupto.
Faça-se justiça. O noticiário, os comentaristas, os detratores, os adversários políticos, o cidadão com mais de dois neurônios, todos, devem respeitar a condição explícita e comprovada pelas investigações, processos, condenações e penalidades que o Paciente tem. Ele não é ladrão! Ele é corrupto!.
Uma coisa não é a outra.
A propósito, os processos não foram extintos. a justiça não extinguiu o trabalho da Polícia, dos investigadores, promotores, auditores, contadores, inquisidores que instruíram, com perfeição, os processos de corrupção. O julgamento foi anulado por “erro de endereço”. Um escândalo repugnante, num festival de desfaçatez, que foi atenuado com uma “tornozeleira moral” dando ao condenado a possibilidade de aproveitar sua imensa, indiscutível habilidade, carisma, articulação e “endereço”, para seguir com suas arengas, hoje modernizadas, com vistas a um assento na mesa dos Arcanos da Ordem Mundial. Assim, o Mundo e o protagonismo nos grandes eventos econômicos, sociais, políticos, etc. que, realmente, englobam os hemisférios sem distinção, têm mais alguém querendo sair na foto. Mas, uma coisa não é a outra! Corrupto não é ladrão.
Uma coisa não é a outra.


[Comente este Post]

Postado por Contubérnio Ideocrático, o Blog de Raul Almeida
28/4/2024 às 12h17

 
AUSÊNCIA

Relutante, entrou na sala. Eugênia estava esperando, chaveiro na mão.

“Estou de saída, tia Dani. Vou encontrar um cliente em Campinas, durmo por lá. Fica à vontade, quando sair, deixa a chave com o porteiro.”

Após passar pelo banheiro para ajeitar o cabelo mais uma vez, a moça saiu de casa apressada, batendo a porta de entrada com força.

Surpresa com a recepção pouco calorosa, tia Dani olhou em volta lentamente e tentou se recompor. É verdade que não poderia esperar nenhuma atenção especial por parte da sobrinha. O drama terrível em que estava imersa era somente seu, e o relacionamento com a moça, no máximo, superficial. A verdade, porém, é que nunca sentira tanta necessidade de um aconchego, um ombro amigo para se encostar. Esperava que a sobrinha lhe fizesse companhia naquela noite, que ficasse interessada em seus desabafos. Enfrentava sozinha uma dura realidade e esperava encontrar em Eugênia uma solidariedade que lhe desse algum alívio.

Sentou-se numa das cadeiras em volta da mesa de jantar, os pensamentos confusos. Após uns quinze minutos, deu-se conta de como eram fantasiosas suas expectativas com Eugênia. Esperar amparo de alguém que nem conhecia direito... A moça tinha sua vida, suas lutas, seus próprios dramas. Levantou-se e começou a examinar o lugar onde iria passar a noite. O apartamento era bom, arejado e bem iluminado. Sala de tamanho médio, dois quartos. Entrou na cozinha, que se abria diretamente na sala, à procura de um copo d’água. A geladeira era grande e moderna; depois de beber água gelada, devolveu a garrafa. Um detalhe chamou a atenção: duas fotos estavam coladas na porta.

Na penumbra da cozinha, pouco podia ver. Curiosa, foi pegar os óculos na bolsa e acendeu a luz. Duas moças abraçavam-se risonhas, uma delas sua sobrinha. As cabeças se tocavam e cabelos misturavam-se, uns louros, outros castanhos.

Parecem felizes, meditou tia Dani. Antes assim. Voltou a concentrar-se em seus problemas. Filhos desempregados. Problemas financeiros. E o drama final, que quase a derrubara.

Viera para esta cidade atrás de um advogado que lhe fora recomendado. Chato ficar na casa dos outros, ainda mais sendo recebida claramente de má vontade. Não é que não podia pagar hotel: pedira para hospedar-se no apartamento da sobrinha mais pela esperança de encontrar uma aliada. Alguém que ouvisse seus problemas, mostrasse piedade, solidariedade. Iludira-se.

Voltou para a sala e continuou a explorar o apartamento. Foi logo ver o quarto de dormir; dia seguinte, tinha que se levantar bem cedo por causa da reunião agendada para as oito horas. Viu que era amplo e confortável, com uma cama de casal larga. E o outro quarto? Descobriu que fora transformado em escritório, onde Eugênia devia trabalhar. Mesa grande, computador, dois monitores, impressora... A cadeira era daquelas anunciadas para executivos importantes, modernas, leves e caras. Sentou-se por curiosidade: a cadeira balançava e movia-se ágil sobre rodinhas.

Preciso de uma dessas para mim, pensou ao levantar-se. Porém sabia que não tinha coragem de pagar o preço. Passou os olhos em volta; fora uma estante com poucos livros, não havia mais nada.

Ao sair do escritório, uma pilha de fotos ao lado do computador chamou-lhe a atenção. Sentindo-se um pouco culpada, pegou-as nas mãos, olhando uma por uma. As mesmas duas moças das fotos da geladeira protagonizavam as imagens, que mostravam paisagens variadas. Em algumas, o vento do mar desmanchava os cabelos das mulheres e dobrava as folhas das palmeiras. Em outras, viam-se montanhas ao longe. Notavam-se grandes demonstrações de afetividade entre as duas, o que lhe causou certa estranheza.

Antes de ir dormir, foi até à sala ver televisão. Sonolenta, assistia com pouca atenção a um noticiário, quando o telefone tocou. Uma voz feminina indagou:

“Eugênia?”

“Eugênia saiu. Sou a tia dela. Quer deixar um recado?”

A voz do outro lado da linha parecia ansiosa. “Mas que transtorno. Preciso falar com ela. O celular não atende, parece desligado.”

Sem saber o que dizer, Dani ficou em silêncio. A voz continuou.

“Quem está falando é a terapeuta da Laura. Por favor, diga a Eugênia que preciso falar com ela, urgente.”

Desligou. Tia Dani ficou sentada, um pouco confusa. Quem seria Laura? Pelas palavras da mulher ao telefone, devia haver bastante intimidade entre essa Laura e sua sobrinha. Seria a moça das fotografias? Começou a ter a impressão de estar puxando o fio de uma meada que não lhe dizia respeito.

Lembrou-se do pouco que sabia sobre Eugênia, quase tudo a partir de relatos da mãe dela, sua irmã. Moça bela e inteligente, depois de formada criara sua própria empresa de Marketing. Era mesmo o orgulho da família. Após muitos namorados, ficara noiva de um advogado jovem, morador de outra cidade, com brilhante futuro numa firma renomada. O casamento, marcado para setembro. Tudo preparado para um final feliz.

Escreveu um bilhete com o recado da terapeuta, colocou sobre a mesa e foi até o banheiro. Lavou o rosto e vestiu a camisola, preparando-se para dormir. Programou o despertador para bem cedo, não queria chegar atrasada. Logo que apagou a luz, o telefone voltou a tocar. Atendeu, bocejando.

“Sou eu de novo”, anunciou a terapeuta. “Eugênia já voltou?”

“Não, ainda não.”

Ouviu um suspiro do outro lado da linha.

“Não sei o que fazer. Laura teve uma crise grave. Está no hospital, tomou muitos comprimidos. A notícia do casamento marcado derrubou ela.”

Diante do silêncio da interlocutora, acabou desligando. Dani tentou dormir, só conseguiu depois de rolar muito tempo na cama, os pensamentos confusos. O dia amanheceu e apressou-se, louca para ir embora.

Quando ia abrir a porta para sair, Eugênia entrou.

“Ainda está aqui, tia Dani? Pensei que ia sair cedo”

A mulher mais velha parou, tentando achar palavras para expressar-se. Sem querer, fora cair no meio de um drama, que no momento parecia até pior do que os seus. A sobrinha notou a hesitação e viu o bilhete sobre a mesa.

“Telefonaram pra você. Laura...”

Eugênia sentou-se e escondeu o rosto entre as mãos.

[Comente este Post]

Postado por Blog de Diana Guenzburger
16/4/2024 às 19h45

 
Mestres do ar, a esperança nos céus da II Guerra





“Mestres do ar” (Masters of the air, 2024), a série recentemente exibida pela Apple, com a produção executiva de Steven Spielberg e Tom Hanks , foi produzida para ser vista como uma história de bravura. Da bravura sobre a vitória aliada na Europa invadida por Hitler e da bravura de homens diante de seus medos.

A história do esquadrão da aeronáutica norte-americana, que por volta dos dois últimos anos da Segunda Guerra Mundial luta contra as forças alemãs, é sobre a relação entre amigos, companheiros e combatentes que, muito jovens, buscam se desviar dos flaks (artilharia antiaérea) a cada missão e, ao mesmo tempo, empenham forças para causar, com suas bombas, danos nas cidades inimigas.

Isso, sem dúvida, é o momento de ação mais bem realizado da série e traz um impressionante realismo que confere, aos efeitos especiais e filmagens em locações, um status notável nas produções sobre guerras.

As imagens não parecem cenas baratas de videogame, elas parecem nos colocar dentro dos muitos momentos dos combates e da violência com que são travados.

Não costumo comentar sobre esses detalhes técnicos, mas poucas vezes vimos tanto cuidado com esse nível de produção, até mesmo em produções que tem nos efeitos especiais e na recriação de cenários seu fundo mais importante.

A isso se alia a condução dos capítulos, feitos para provocar êxtase, retrair e causar expectativa no espectador.

O sumiço, por dois episódios, de Gale Cleven ( Austin Butler ), um dos protagonistas, abatido em combate, e o surgimento de um personagem ainda mais interessante para preencher seu lugar, o Tenente Robert Rosenthal (Nate Mann), é uma estratégia muito perspicaz para renovar o roteiro.



Rosenthal é dos que representam a figura da bravura de maneira mais explícita. No “Centésimo Batalhão” do qual fazem parte, completar 25 missões dava ao comandante do bombardeiro o direito de voltar para casa.

Rosenthal as completa, mas se nega veementemente a deixar seu posto, ao saber que os termos foram mudados para os que ficaram. Os remanescentes teriam, agora, que completar 30 missões para voltarem para suas famílias.

“Rosie”, como é conhecido, exibe a mesma coragem que Gale e John Egan ( Callum Turner ), os dois personagens centrais que formam a principal amizade da série.

São eles que parecem viver mais intensamente aquele ambiente de muitas mortes, destruição, campos de prisioneiros, mas também de companheirismo e vitórias.

Os dois galãs encarnam grande parte da mitologia sobre a participação norte-americana na Guerra e, talvez, isso explique, também, o sucesso de público da série.

Quase sempre juntos, eles são respeitados por seus colegas e são os modelos a serem seguidos pelos novatos.

É verdade que a mensagem principal da série não é a política em si, mesmo que seja impossível dissociar esse mundo em chamas das decisões no teatro político da Guerra.

Os atores mais famosos (políticos, generais e burocratas), desse teatro desolado pelo conflito, não surgem, como costumamos ver em outras produções. O foco aqui é naqueles que ficaram menos evidentes nos livros de história.

Mas há momentos em que a realidade política mais explícita, que resultou em milhões de mortes, surge.



Ao serem capturados pelos alemães, os aviadores conhecem parte dos horrores, causados por eles, do outro lado, ao verem a destruição nas cidades germânicas.

Em uma das cenas como prisioneiros, os habitantes de uma das cidades gritam em direção a eles, “assassinos”, “aviadores assassinos!” e partem para cima dos militares, espancando e, com a ajuda dos nazis, matando quase todos. John Egan, um dos heróis, sobrevive.

Há também algum embate moral na produção, especialmente entre os personagens do tenente Harry Crosby (que narra grande parte da série, que, como se sabe, é baseada no livro de mesmo título, de Donald L. Miller) e Rosenthal que se questionam sobre seus atos. Mas isso é muito pouco na produção.

Talvez a cena política e humana mais representativa seja o conhecimento, por parte de Rosenthal, de um dos campos de concentração. Sua entrada no lugar e sua visão são, mesmo sem uma representação mais profunda e abrangente sobre o tema na série, impactantes.

Atordoado, em uma das paredes das celas dos prisioneiros, ele vê uma Menorá (um candelabro, símbolo do judaísmo). Algum sentido do que ocorrera ali parece se formar, definitivamente, em sua mente.

Em outro momento, os dois Buckys, Gale e Egan, como eles são conhecidos, tornam-se prisioneiros no mesmo campo. Em um estratagema, durante um deslocamento dos prisioneiros, Egan simula uma fuga, os soldados se distraem e Gale escapa com outros dois companheiros.

Durante a fuga, em uma momento de distração, um dos colegas sofre, pelas costas, um ataque com uma baioneta. Do ataque faz parte uma criança alemã que ameaça Gale com um revólver. O soldado toma sua arma e aponta furioso para a criança. O menino pede, “bitte!” (por favor!). Gale não atira. Ele precisa ser o belo e perfeito herói.



Na verdade, naquela altura dos acontecimentos, os soviéticos já haviam invadido Berlim e o fim do Reich era dado como certo. A arma utilizada pela criança nem munição mais tinha. Essa sequência, como tantas outras que já vimos sobre a Guerra, só demonstra a irracionalidade daquele momento.

Os aviadores do Centésimo Batalhão de Bombardeiros experimentaram essa realidade. Mas a mensagem que o episódio final, no qual eles jogam alimentos para um vila holandesa, quer deixar é de amizade, esperança e liberdade. Pode parecer hollywoodiano demais, e é. Mas talvez a série lembre um cinema de outras épocas, de bravuras e esperanças de outras épocas.

E, talvez, seja o que explique sua aceitação pelo público. Homens desafiando o terror de outros homens e desafiando seus próprios medos.


Relivaldo Pinho é autor de, dentre outros livros, “Antropologia e filosofia: experiência e estética na literatura e no cinema da Amazônia”, ed. ufpa.

[email protected]

Relivaldo Instagram
Esse texto foi publicado no Diário online

[Comente este Post]

Postado por Relivaldo Pinho
9/4/2024 às 21h56

 
O Mal necessário

A política é necessária. Desde as cidades independentes que constituíam a Grécia antiga, até os dias de hoje, discutir, argumentar, definir, normatizar, definir e organizar o Estado, tem sido o papel fundamental, único e quase absoluto da Política.
Seculos, milênios de história nos dão conta da importância da Política no desenvolvimento da sociedade apesar de que sua prática, sempre ficou a mercê das variáveis mais sublimes e sórdidas, nas personalidades dos políticos. Quando se percebe a habilidade em conduzir interesses pessoais por parte deles, avante das verdadeiras necessidades da sociedade, já é tarde...
Os mais impressionntes líderes tanto do passado como agora, constroem verdades, prometem mentiras, provocam delírios de entusiasmo e desilusão, quase que ao mesmo tempo.
Valores impalpáveis tais como, carisma, simpatia, manipulação, são escancarados em personalidades comprometidas com ambições sinistras. Poder, poder, mais poder, mascarado ou não de várias formas.
Quando um grupo de políticos consegue estabilidade e organização, aquele mais destacado vai comandar um projeto pessoal de poder. Aí vale quase tudo.
Outros grupos se formam. Dissidências, outros carismáticos, novas promessas abordando aflições da sociedade são feitas alardeadas, gritadas a exaustão.
Sempre mais do mesmo.
A afirmação da ideia de que cada politico representa, a seu modo, as vontades, desejos, aspirações e, principalmente, as necessidades dos seus representados não passa de diáfana prosa.
Democracia! Democracia!Democracia!
Então , um pouco de "pão " e muito "circo", vai mascarando uma Doutrina eivada de nobreza, pois a comida nunca chega para todos e o circo distrai sem distinção.
Políticos que apoiam ditaduras com discursos infames, repugnantes e covardes, são os piores. Usam suas capacidades verborrágicas para a ideia de "não opinar em assuntos estrangeiros", ou negar as diásporas que os horrendos ditadores provocam.
Defender o lixo político é fazer a má politica.
Comprar votos usando sofismas e óbulos governamentais, doutrinar crianças e jovens, de forma sistemática, criando a fanatização em mentes ainda tenras é o que a politica tem de mal.
A crueldade, a barbaridade, a infâmia movida por sonhos de poder transforma a politica e seus ambientes num grande esgoto de esperanças.


[Comente este Post]

Postado por Contubérnio Ideocrático, o Blog de Raul Almeida
30/3/2024 às 12h59

 
Guerra. Estupidez e desvario.

Guerra: estupidez e desvario A segunda grande guerra acabou por conta dos bombardeios maciços que destruíram as cidades da Europa
A Alemanha foi devastada por bombardeios precisos e sistemáticos, que arrasaram tudo. Cidades repletas de civis apavorados e FAMINTOS, fabricas, usinas, etc. O louco que jogou o país no inferno matou-se e abriu o caminho para rendição.
Assim foi com a Italia, e seu alucinado "duce", jogando a joia da Europa no lixo da destruição, miseria, fome, horror. A terceira perna do eixo, o Japão só parou sob o espanto da devastação de duas de suas cidades, repletas de civis, torrados pelas bombas atômicas.
SEMPRE CIVIS FAMINTOS, HUMILHADOS, DESLOCADOS, DESABRIGADOS, pela estupidez, loucura, vaidade, prepotência, crueldade de indivíduos sempre abrigados em palacios, fortalezas, abrigos seguros, protegidos, longe da cena infernal das batalhas e escaramuças.
No passado, o mundo não viu, em tempo real, o massacre de civis feito por terroristas nem a chuva de foguetes sobre cidades civis, que assistimos com horror e espanto. Nem viu os cogumelos atomicos, ou a chuva de bombas sobre cidades cheias de mulheres, crianças, velhos. Todos pagando a conta da loucura daqueles por eles escolhidos para conduzir seus destinos.
É assim ,todos pagando a conta criada por assassinos desvairados. Crianças, mulheres, homens pacíficos ou incapazes de manejar um fuzil.
A questão palestina não tem a lógica de uma guerra de domínio.
O que Israel está combatendo é uma guerra de exterminio! A falange palestina tem como objetivo, mais do que o território de 1948 que não aceitaram . Seu objetivo é o extermínio do povo judeu! E ninguém diz nada!
Ninguem cobrou renúncia dessa idéia registrada no manifesto palestino! Ninguém enxerga a dimensão dessa barbaridade, que transcende a existência de um territorio-estado, mas preconiza a destruição de outro e do seu povo Inteiro, com mulheres, crianças, velhos, moços, costumes, hábitos, cultura...
O noticiário está deixando detalhes infames de lado.

[Comente este Post]

Postado por Contubérnio Ideocrático, o Blog de Raul Almeida
25/3/2024 às 13h12

 
Calourada

Ele bateu o olho nela, o céu despencou. Aconteceu na festa dos calouros, o primeiro encontro dos estudantes no ano.

Falaram de vidas passadas — quem sabe os dois?... Lamentaram não terem se conhecido antes. Falaram de coisas que só os apaixonados falam. Ficaram numa ânsia grande, não dando notícia de nada acontecendo ao redor, o medo de se perderem um do outro. E o que não podia acontecer aconteceu, ela falando volto já, desaparecendo naquela noite, nos dias seguintes, meses. Conhecendo-se pouco, apenas os nomes, ele de Anápolis, ela de Diamantina, anúncio na rádio e tudo mais, tudo em vão. O tempo passou. Não é que no baile de formatura do cara, fim de festa, todo mundo indo embora, ele não aguentando de porre, ela, sem o frescor de antes, se encontram de novo no meio da pista de dança, o céu despencando mais uma vez, o tum-tum dos corações, o abraço demorado?

[Comente este Post]

Postado por Blog de Anchieta Rocha
19/3/2024 às 17h07

 
Apagão

Ela chegou, tocou o meu braço. Em vez de me conduzir como todo mundo faz, segurou minha mão até a porta da frente do ônibus, me pôs na cadeira, rodou a roleta e em seguida se sentou do meu lado.

Falou que trabalhava até tarde, não disse com quê. Eu imaginava: loura, morena, negra, magra, alta... A voz doce, falava e pausava. A pausa diz muito. Na hora me lembrei de um locutor de rádio que dizia que o Tostão jogava sem bola.

Trabalhava todas as noites. Podia ser uma enfermeira, uma garçonete, uma professora, não quis perguntar. Contei do meu serviço de telefonista na fábrica de bebidas, onde passava o dia datilografando pedidos, e que os colegas de vez em quando aprontavam comigo escondendo minhas coisas. Ela riu quando disse que um dia um cara trocou a minha escova de dente com a de um motorista. Não me importava, molecagem eles faziam com todo mundo.

Senti a maciez da sua mão no meu braço quando sem graça desculpou-se pela pergunta que tinha feito, a de não sentir medo enquanto esperava o ônibus no escuro. Contei que, desde pequeno, mamãe só apagava a luz do meu quarto depois que via que eu dormia. Disse ainda que sentia a noite de diversas maneiras. — Uma mulher também — acrescentei. Não demorou me perguntou se eu a imaginava bonita. Me aproximei mais, senti sua respiração, toquei o seu rosto. Não tinha dúvida, foi a minha resposta. Conversamos até ela descer.

No dia seguinte, na mesma hora, me pegou pela mão, aflito, demorou a se sentar do meu lado.

Morava com a mãe, chegava em casa de madrugada, quase não via o filho. Falou que não aguentava mais, queria ter uma rotina como todo mundo, chegar do trabalho no fim da tarde, botar uma bermuda e ver novela. Perguntou como era a minha vida, se sentia solidão, medo e outras coisas.

Foram dias assim. A minha alegria começava na hora em que nos assentávamos e eu tentava adivinhar como era o seu penteado, como se vestia. Se acertava, ganhava um afago.

Um dia não veio. Peguei o ônibus e procurei me concentrar no itinerário da volta pra casa. Os lugares por onde passava eu identificava pelo barulho, pelo cheiro e até pelo ar. Com algumas viagens e perguntas gravei a sequência: a umidade do vapor da lavanderia, a algazarra das crianças saindo da escola. Mais na frente, a pastelaria – um lanche, qualquer dia descia – e em seguida um longo trecho sem parada. Depois do semáforo o quartel e a cavalariça. A fábrica de tecidos com o ruído das máquinas, e o mais bonito, a alegria das meninas deixando o turno. Bares e bares. O presídio, um silêncio de entristecer, a igreja – a música! Mas o que mais me extasiava era a parada em frente à entrada do parque onde o ônibus permanecia por mais tempo. Num fim de tarde, um calor de ferver o asfalto, tinha chovido, o cheiro da vegetação invadiu o ônibus. Foi o meu pôr do sol. Espichei as pernas, abandonei o corpo e deitei a cabeça no encosto.

Por que ela não veio?

Entrei no quarto, liguei o rádio, só chieira.

A sopa, amarga.

– Nada não, mãe, muito serviço.

Se existe escuro, eu conheci naquela noite. Pesadelo, um atrás do outro, acordei com mamãe me entregando o telefone: — Já passou, o menino teve um febrão, amanhã tá bom, a gente se vê.

No dia seguinte, a boca perto da minha, precisava conversar. Deixamos o ônibus no ponto em que ela sempre descia.

Uma escada longa, vozes de mulheres. No quarto, me acomodou numa poltrona e perguntou se eu queria beber alguma coisa. Depois de algum tempo cantávamos as músicas do rádio. Riu muito quando pedi pra ela fazer strip tease.

Percorri o seu corpo com as mãos. Cada saliência me conduzia a mistérios e êxtases. Nunca tocara uma mulher daquele jeito. Cada parte, cada detalhe, tudo me pertencia?

No dia seguinte, a longa espera, ela não veio. O menino de novo, pensei. Já pra ir embora, outra mão, a de uma amiga, tocou o meu braço: — Ela não vem hoje. A polícia deu uma batida na casa onde trabalha, levou as mulheres, a mãe dela não sabe de nada também.

Eu me sentei no ônibus, baixei a cabeça e em vão tentei organizar o caminho de volta pra casa. As vozes dos bares se juntavam ao coro da igreja, os cavalos do quartel pisoteavam os canteiros do parque, as frituras da pastelaria e do vapor da lavanderia me confundiam.

[Comente este Post]

Postado por Blog de Anchieta Rocha
11/3/2024 às 16h40

 
Napoleão, de Ridley de Scott: nem todo poder basta




“França – exército – Josephine”. Essas teriam sido as últimas palavras de Napoleão antes de morrer. Historicamente, existem controvérsias se foram realmente essas. Mas, para o filme de Ridley Scott , são esses motivos que ditam o enredo do seu “Napoleão” “Napoleão” (2023). O líder francês que a tudo ambicionava, constatará que nem sempre todo poder basta.

Antes de sua fama ecoar aos quatros ventos, Napoleão experimentará os caminhos pelos quais a política e o poder podem levar. Ele vê, taciturno, a rainha Maria Antonieta , sob os berros de escárnio do povo, ser guilhotinada, e vê as ambições e as brigas internas dos chefes da Revolução Francesa .

Em uma das poucas cenas representativas que remetem ao contexto histórico da Revolução, o líder jacobino Robespierre está discursando em um salão. A plateia se divide sobre sua fala. Do alto de um dos corredores, um líder adversário girondino grita em sua direção: “você não é um defensor da liberdade! Você se considera o juiz, o júri e o carrasco, não é verdade?”.

Esse período revolucionário seria lembrado por Norberto Bobbio (em “A teoria das formas de governo”) na sua exemplificação do poder despótico a partir de Montesquieu . O despotismo é o poder que tem no terror sua característica fundamental, seu símbolo.

Para Saint-Jus (o arcanjo do terror) e Robespierre, o terror é imprescindível para a chegada da república democrática, o reino da virtude. Como se sabe, como instiladores do medo, eles não se traíram. Mas o poder sem freios pode também a todos atingir. Logo depois, Robespierre e seu arcanjo serão vítimas de sua própria lâmina.


A Morte de Robespierre. Artista: Giacomo Aliprandi. Fonte: wikipedia.org


Napoleão (Joaquin Phoenix) sendo um produto da revolução, também, em um primeiro momento, não se trai. Após sua arrasadora vitória de Toulon, a batalha que lhe traria fama no território francês e que lhe proporcionou maior poder político, ele, no filme, com carta branca dos novos líderes revolucionários, explode, literalmente, a revolta monarquista de 1785.

Mas aí entra, definitivamente, Josephine (Vanessa Kirby). E, para a história de Ridley Scott, ela terá um papel decisivo na trajetória napoleônica. Ele não apenas se casa com ela, como, obsessivamente, por estar na campanha do Egito, implora por notícias suas.

Josephine, nesse momento, está traindo seu marido com outro homem. Napoleão ainda não sabe, mas uma cena da campanha do Egito serve como uma metáfora dessa relação nem sempre domesticável entre a política, o poder e a vida.

O comandante francês está diante dos tesouros arqueológicos egípcios. Encostada em uma parede, na vertical, está uma múmia dentro de um sarcófago.

Napoleão a olha, sobe em um banquinho, coloca seu famoso chapéu sobre a múmia e aproxima seu rosto daquela face sem vida. Em seguida, ele toca o rosto da múmia suavemente, deslocando-o para o lado, vendo o fim daquele poder já extinto. “Memento mori” (lembre-se da morte).


Napoleão diante da múmia. Fonte: https://twitter.com/EgyptianPodcast/status/1715462463821377980


Ele parece estar se perguntando, o que são os grandes homens? Aqueles que se acham deuses acabam assim? E nós com ele nos perguntamos se nem todas suas conquistas lhe teriam evitado a traição? Nem sempre todo o poder é suficiente.

Em seu retorno para a casa, ele, furioso, ameaça deixar Josephine. Ela reverte a situação dizendo para ele que, sem ela, ele não é nada. A partir daí, o filme começa seu desfile psicologizante, mostrando, grosseiramente, um edipiano e lascivo Napoleão.

Poucos personagens na história mereceram tantos textos. Poderíamos pensar que essa representação de um Napoleão incontrolável e contraditório faz parte de sua vida, faz parte do humano.

Mas para a história, ou pelo menos, para a história mais comum, ainda reverbera, por exemplo, a sua coroação e muitas de sua batalhas. Ele é um mito. E mitos são lidos de várias formas.

O filme de Ridley Scott dá essa versão na qual o homem e o mito procuram ser juntados. A famosa cena da coroação reproduz o famosíssimo quadro de Jacques-Louis David (1807).


”A coroação de Napoleão”, de Jacques-Louis David (1805-1807). Fonte: wikipedia.org


Diante do espanto de todos (no quadro isso é levemente perceptível, mas no filme gera um “ooohhh”!) o imperador coroa a si mesmo, marcando simbolicamente a separação do Estado e da Igreja, união fundamental das antigas monarquias.

Além das cenas impressionantes da Batalha de Waterloo , vemos a sequência da celebrada vitória em Austerlitz que, com o uso da tecnologia da computação, é capaz de representar esse momento, talvez, como nunca havíamos imaginado antes.

O sadismo do vitorioso general diante do derrotado Francisco II , ao agradecer ao imperador austro-húngaro por ter feito ele cometer um erro ao ter vindo até ele, o que lhe impediu de derrotar, já naquele momento, também os russos, é muito mais impactante que todas as cenas libidinosamente sádicas do filme.

A pretensão de mostrar Napoleão como homem e mito ganha ainda duas sequências representativas. A primeira é a dissolução do casamento com Josephine (ela não poderia ter mais filhos e o imperador queria um herdeiro). No ato, ele chora e, em seguida, estapeia Josephine para que ela assine o documento de divórcio em prol da França.

O poder supera o amor, mas, ao mesmo tempo, talvez esse poder possa ser um complemento da perda, da sua falta, dos seus medos. Homem e mito. As lágrimas caem, mas sem compaixão.

A segunda sequência é sua famosa entrada em Moscou. A câmera movimenta-se seguindo seu cavalo de perto, ele gira em 360 graus com seu animal e, em close, vemos seu rosto estupefato.


Napoleão encontra Moscou deserta. Fonte: IMDB


A cidade está deserta. Napoleão grita: “onde estão vocês!?”. Aquele que é tido por muitos como o maior estrategista de todos os tempos, não antecipara o movimento adversário.

Há muitas produções cinematográficas e séries sobre o líder francês. Mas o que o diretor Abel Gance fez em 1927 é algo totalmente extraordinário até hoje. O “Napoleão”, de Gance, é um daqueles filmes do cinema mudo que ficaram lendários por vários motivos.

Quando foi exibido teria sete horas de duração, suas técnicas empregadas são revolucionárias – não há outra palavra – para o período, com travellings (movimento de câmera) com a câmera na mão, cortes em contraponto (uma cena contrapondo ou complementando o sentido da outra), fusões de imagens, efeitos especiais e a famosa sequência final na qual três quadros na tela mostram, ao mesmo tempo, a mesma cena ou cenas diferentes.



Não apenas por todas essas inovações ele é cultuado. Ao contrário do filme de Scott, o filme de Gance (que interpreta Saint-Just, o arcanjo do terror) pretendeu mostrar o Napoleão desde sua infância, passando ainda por uma longa representação dos acontecimentos da Revolução Francesa, até terminar no início da campanha da Itália.

O “Napoleão”, de Ridley Scott, pode não ter tido essa pretensão. O fato de ser anunciado de que se pretende relançá-lo com mais uma hora e meia de duração para TV, talvez indique o quanto ele poderia ser mais coeso, parecendo menos uma sequência de episódios esparsos.

Talvez por isso ele tenha buscado se deter – com resultados questionáveis – nesses elementos que muitas vezes moveram a história, tragicamente ou não, a pátria (França), as armas (exército) e o amor (Josephine).

O filme nos conta que Napoleão nem sempre pôde ter essas conquistas como gostaria. Mas a história já mostrou que, quando esses elementos colidem, nem todo poder basta.


Relivaldo Pinho é autor de, dentre outros livros, “Antropologia e filosofia: experiência e estética na literatura e no cinema da Amazônia”, ed. ufpa.

[email protected]

Relivaldo Instagram
Esse texto foi publicado no Diário online

[Comente este Post]

Postado por Relivaldo Pinho
21/2/2024 às 13h18

 
Sem noção

Sem noção. Os temas "governança global" e "o poder do Sul", (do planeta) apresentados por excepcionais exemplos de competência reversa em desenvolvimento humano, combate a fome, honestidade, qualidade política ,transparência democrática, e valores que tais, tem sido os motes aproveitados pelo Flagelo do Agreste quando discursa em seus périplos desde a libertação da cadeia por erro de endereço do tribunal, e vitória na eleição de quem seria o menos rejeitado.
Ganhou por " una cabeza" no páreo da antipatia ao adversário.
MAS GANHOU!
Suas falas para ninguém alem dos notórios frequentadores dos encontros e protocolos, beiram ao ridículo.
Quer sentar-se a mesa dos arcanos!
Quer ser o mensageiro do renascer, nesse começo de milênio.
Imagina uma nova versão da santa ceia, com os ditadores, déspotas, caudilhos e simples chefes tribais como apóstolos, esquecendo das suas próprias limitações.
Dizer que o "seu" País tem um débito de 200 anos com, pasmem, um Continente, por conta de praticas generalizadas pelo Mundo durante a colonização é, alem de sua sabida fanfarronice politica, um desrespeito ao Pais que não lhe pertence.
O deslumbrado pensa que está agradando com suas sandices copiadas, é claro, mas está, com tamanha estupidez , fomentando ódio, ignorância, politicagem, e contenciosos desnecessários com a comunidade mundial de verdade.
A senilidade e o desvario, alem da purulência verbal só cria vergonha e espanto. Alguém tem que avisar ao pré decrépito que a farra vai acabar, de novo, e nem os endereços servirão de argumento para um novo perdão.

[Comente este Post]

Postado por Contubérnio Ideocrático, o Blog de Raul Almeida
17/2/2024 às 15h19

Mais Posts >>>

Julio Daio Borges
Editor

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Livro Didático Projeto Presente História Ciências Humanas 3
Ricardo Dreguer e Outros
Moderna
(2018)



Melatonina - O poder milagroso da cura
Neil Stevens
Madras
(1998)



Oficina de História - História do Brasil
Flavio de Campos
Moderna
(2000)



Darien - Império De Sal
C. F. Iggulden
Record
(2023)



Princípios de Economia Política 1 e 2
Alfred Marshall
Nova Cultural
(1988)



Kit com livros pocket - 10 Volumes
Agatha Christie
Lpm
(2009)



Livro De Bolso Antropologia Cultura Um Conceito Antropológico
Roque de Barros Laraia
Zahar
(1986)



Insólita Vol.2 – A Máscara de Prata
Julia de Passos Ramalho; Ursula Antunes (org)
Luva
(2021)



Livro Sociologia Cidade Digital - Infoinclusão Social e Tecnologia em Rede
Evandro Prestes Guerreiro
Senac Sp
(2006)



Solidão, Quem é Você?
Simone Martins
Butterfly
(2002)




>>> Abrindo a Lata por Helena Seger
>>> A Lanterna Mágica
>>> Blog belohorizontina
>>> Blog da Mirian
>>> Blog da Monipin
>>> Blog de Aden Leonardo Camargos
>>> Blog de Alex Caldas
>>> Blog de Ana Lucia Vasconcelos
>>> Blog de Anchieta Rocha
>>> Blog de ANDRÉ LUIZ ALVEZ
>>> Blog de Angélica Amâncio
>>> Blog de Antonio Carlos de A. Bueno
>>> Blog de Arislane Straioto
>>> Blog de CaKo Machini
>>> Blog de Camila Oliveira Santos
>>> Blog de Carla Lopes
>>> Blog de Carlos Armando Benedusi Luca
>>> Blog de Cassionei Niches Petry
>>> Blog de Cind Mendes Canuto da Silva
>>> Blog de Cláudia Aparecida Franco de Oliveira
>>> Blog de Claudio Spiguel
>>> Blog de Diana Guenzburger
>>> Blog de Dinah dos Santos Monteiro
>>> Blog de Eduardo Pereira
>>> Blog de Ely Lopes Fernandes
>>> Blog de Expedito Aníbal de Castro
>>> Blog de Fabiano Leal
>>> Blog de Fernanda Barbosa
>>> Blog de Geraldo Generoso
>>> Blog de Gilberto Antunes Godoi
>>> Blog de Hector Angelo - Arte Virtual
>>> Blog de Humberto Alitto
>>> Blog de João Luiz Peçanha Couto
>>> Blog de JOÃO MONTEIRO NETO
>>> Blog de João Werner
>>> Blog de Joaquim Pontes Brito
>>> Blog de José Carlos Camargo
>>> Blog de José Carlos Moutinho
>>> Blog de Kamilla Correa Barcelos
>>> Blog de Lúcia Maria Ribeiro Alves
>>> Blog de Luís Fernando Amâncio
>>> Blog de Marcio Acselrad
>>> Blog de Marco Garcia
>>> Blog de Maria da Graça Almeida
>>> Blog de Nathalie Bernardo da Câmara
>>> Blog de onivaldo carlos de paiva
>>> Blog de Paulo de Tarso Cheida Sans
>>> Blog de Raimundo Santos de Castro
>>> Blog de Renato Alessandro dos Santos
>>> Blog de Rita de Cássia Oliveira
>>> Blog de Rodolfo Felipe Neder
>>> Blog de Sonia Regina Rocha Rodrigues
>>> Blog de Sophia Parente
>>> Blog de suzana lucia andres caram
>>> Blog de TAIS KERCHE
>>> Blog de Thereza Simoes
>>> Blog de Valdeck Almeida de Jesus
>>> Blog de Vera Carvalho Assumpção
>>> Blog de vera schettino
>>> Blog de Vinícius Ferreira de Oliveira
>>> Blog de Vininha F. Carvalho
>>> Blog de Wilson Giglio
>>> Blog do Carvalhal
>>> BLOG DO EZEQUIEL SENA
>>> Blog Ophicina de Arte & Prosa
>>> Cinema Independente na Estrada
>>> Consultório Poético
>>> Contubérnio Ideocrático, o Blog de Raul Almeida
>>> Cultura Transversal em Tempo de Mutação, blog de Edvaldo Pereira Lima
>>> Escrita & Escritos
>>> Eugênio Christi Celebrante de Casamentos
>>> Flávio Sanso
>>> Fotografia e afins por Everton Onofre
>>> Githo Martim
>>> Impressões Digitais
>>> Me avise quando for a hora...
>>> Metáforas do Zé
>>> O Blog do Pait
>>> O Equilibrista
>>> Relivaldo Pinho
>>> Ricardo Gessner
>>> Sobre as Artes, por Mauro Henrique
>>> Voz de Leigo

busca | avançada
107 mil/dia
2,4 milhões/mês