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Domingo, 16/9/2018
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O conservadorismo e a refrega de símbolos

Hoje em dia a expressão “sair do armário” deixou de ser aplicada aos homossexuais e passou a se referir à “nova direita”, aos “novos conservadores”. Até pouco tempo, o predomínio da esquerda no campo cultural e no debate público era evidente — e continua sendo –; pouquíssimos intelectuais e artistas se apresentam como “liberais”, “conservadores”, liberal-conservatives ou, simplesmente, de “direita”. Agora, junto ao crescimento e popularização das redes sociais; o aumento do descrédito do Partido dos Trabalhadores; o ceticismo em relação às pautas progressistas, o número de indivíduos apresentando-se como de “direita” é mais abundante.

Com isso, formou-se o que Lira Neto, em sua coluna da Folha (07/01/2018) chamou de “guerra de símbolos”: de um lado estão os “conservadores nos costumes e liberais na economia”; de outro, os progressistas. Trata-se de uma guerra travada principalmente nas redes sociais em que, segundo as palavras do historiador, os conservadores, protegidos pelo politicamente incorreto, “esbravejam vitupérios, expelem platitudes, vomitam sarcasmos” e, ao mesmo tempo, “apontam o dedo censório, invocam preconceitos, cultivam ódios primários” em defesa dos bons costumes. Do outro lado, os progressistas, coitados, são alvejados por ofensas, enquanto lutam — militam — por “conquistas humanas irrevogáveis”.

Lira Neto é um historiador talentoso, construiu uma obra respeitável, escreve bem e publicou livros de fôlego (vide os estudos sobre Getúlio Vargas). Endosso a crítica que faz aos tais “conservadores que vomitam ofensas” pelas redes sociais. No entanto, pontuo que tais indivíduos podem professar o que acreditarem, mas nem por isso serão, de fato, conservadores. De minha parte, não me representam e acredito que outros concordarão comigo. Há uma lacuna entre fé professada e sua conduta; nem sempre estão de acordo e, desse modo, enxergar o lapso é mais importante do que isolar um lado do outro.

Se os “novos conservadores” é um grupo minoritário, como Lira Neto bem acentuou — “Sim, é verdade, eles são barulhentos. Mas estão longe de ser a maioria. Eles, sim, são a verdadeira ‘minoria ruidosa’” –, não se deve tomar a parte pelo todo. As redes sociais estão abarrotadas de “minorias ruidosas” com comportamentos igualmente agressivos, que professam e defendem inúmeras bandeiras, desde a qualidade musical de Pabblo Vittar até a planificação da Terra. Os tais “conservadores” a que se refere o historiador é apenas uma delas.

Não há regras para definir universalmente um conservador ou suas condutas, visto que, segundo alguns teóricos como Michael Oakeshott, trata-se mais de temperamento pessoal do que de etiqueta. Se nos reportarmos a Os dez princípios conservadores, de Russel Kirk, veremos que “a atitude a que chamamos conservadorismo é sustentada por um corpo de sentimentos, mais do que por um sistema de dogmas ideológicos”. Uma dessas atitudes é o “princípio de imperfectibilidade”: “A natureza humana sofre irremediavelmente de certas faltas graves, sabem os conservadores. Sendo o homem imperfeito, nenhuma ordem social perfeita pode ser criada. Devido à inquietação natural, a espécie humana se rebelaria sob uma dominação utópica e eclodiria uma vez mais em descontentamento violento, ou senão, expiraria em tédio”. Desse modo, vitupérios, ofensas, grosserias e demais formas de insulto não correspondem à conduta conservadora e, de maneira nenhuma, são os “símbolos” defendidos na “guerra” apresentada por Lira Neto.

O conservador considera-se herdeiro de algo bom e que precisa ser preservado. Essa herança pode estar associada com valores morais; sistemas políticos; jurídicos; artísticos. Não se trata de conservar algo ad aeternum, mas de incorporá-lo às mudanças culturais. Um pilar fundamental do pensamento conservador é o ceticismo em relação a ideologias, revoluções e mudanças abruptas, pois nem sempre um avanço é sinônimo de melhoramento. Mudanças devem acontecer e adaptações devem ser feitas, mas desde que de forma prudente.

Com isso, os principais “símbolos” defendidos pelo conservador, supondo-se a guerra, são aqueles acumulados pela tradição: um conjunto de valores que nos constituíram. Para utilizar os termos de Kirk: “É senso conservador de que as pessoas modernas são anões nos ombros de gigantes, capazes de enxergar mais longe que seus ancestrais apenas devido à grande estatura daqueles que nos precederam no tempo”. Noutras palavras, se derrubarmos e assassinarmos o “gigante” — isto é, a tradição — faremos um retrocesso e voltaremos a enxergar apenas — sejamos otimistas — o próprio nariz.

Além isso, gostaria de salientar um detalhe a respeito da expressão “conservador nos costumes e liberais na economia”, ou sua expressão original: liberal-conservative. Se nos reportarmos ao livro de Edmund Burke, veremos que o liberalismo econômico é incompatível à conduta conservadora; encontraremos um posicionamento similar em outros conservadores, como em O que é conservadorismo, de Roger Scruton (posteriormente o autor irá rearticular esse posicionamento). Outros podem apresentar-se como liberal-conservatives, mas de modo diferente: liberal nos costumes e conservador na política. Enfim, aclarar cada nuance estenderia os propósitos originais deste texto. O mais importante, por ora, é salientar que a expressão, (hoje) aparentemente contraditória, é aceita por ser uma forma de adaptação ao contexto contemporâneo, não sendo, portanto, uma absurdidade como alguns acreditam.

Por fim, o senhor Lira Neto cita algumas estatísticas, apresentada nos seguintes termos (os destaques são meus):

“Uma segunda pesquisa, (…), indica que nada menos de 70% dos entrevistados são contrários às privatizações indiscriminadas. Apenas 20% se declararam a favor de que as empresas públicas sejam vendidas a rodo para a iniciativa privada, enquanto os 10% restantes são indiferentes ou não souberam responder. Entre os jovens, 68% não acreditam na tal “mão invisível” como panaceia para todos os nossos males históricos.

A terceira pesquisa, enfim, publicada no penúltimo dia do ano, aponta o crescimento do apoio à descriminalização do aborto entre os brasileiros. Nesse caso, 61% dos entrevistados se disseram favoráveis à interrupção da gravidez quando há risco de morte para a mãe.

Outros 53%, segundo o Datafolha, também defendem o direito ao aborto para mulheres vítimas de estupro, ao contrário do que querem os conservadores aboletados no Congresso Nacional. Mais uma vez, um detalhe salta à vista: a maior parcela dos que defendem a descriminalização do aborto é composta por jovens entre 16 e 24 anos.”


A despeito de meu ceticismo em relação a numerologia estatística, assim como o crédito irrefletido à visão de mundo jovem, as expressões destacadas — “indiscriminadas; vendidas a rodo” — não pressupõem “prudência” e, assim, é possível que haja conservadores que também se oponham ao caráter indiscriminado das privatizações, assim como às “vendas a rodo” de empresas públicas. Há possibilidade, portanto, de jovens conservadores estarem incluídos nestes dados, associados de antemão exclusivamente aos progressistas.

p.s.: O texto do senhor Lira Neto está acessível através deste endereço:

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/lira-neto/2018/01/1948201-nao-ha-duvida-de-que-uma-guerra-de-simbolos-esta-em-curso.shtml

As citações de Russel Kirk foram feitas a partir do site:

http://tradutoresdedireita.org/os-dez-principios-conservadores/

Recorri ao link, pois não estou com o livro "Política da prudência" (editado pela É Realizações, que inclui “Os dez princípios conservadores) em mãos.

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Postado por Ricardo Gessner
16/9/2018 às 23h07

 
Ingmar Bergman, cada um tem o seu

100 anos de Ingmar Bergman! Demorei um pouco para conhecê-lo, mas logo o tomei como meu diretor favorito. Por ser um diretor tão diversificado, sempre dizem que cada um tem um Bergman e como todo bom bergmaniano, também tenho o meu. Escolhi filmes que me trazem lembranças e experiências, já que escolher analisando a genialidade do diretor seria uma tarefa muito difícil. Selecionei dois filmes: A Hora do Lobo (1968) e Noites de Circo (1953), senão acabaria falando de todos os filmes.

Comecemos então com A Hora do Lobo, o primeiro que assisti. Diz-se que as horas que ficam entre a meia noite e a aurora são as horas do lobo. É nesse momento em que um casal, formado por Erland Josephson (Johan) e Liv Ullmann (Alma), entra em conflito. Depois de mudar para uma ilha habitada por pessoas misteriosas, o casal entra em um estado crítico e as madrugadas são tomadas pelas histórias de Johan, carregadas de dores e aflições. Inicialmente o filme deveria se chamar Os Antropófagos, o que deixaria claro o mistério em torno do estranhos habitantes da ilha. Mas no final, A Hora do Lobo acabou por ser um bom nome.

Outro filme que gosto muito é Noites de Circo (1953). Não é só o expressionismo destacado em uma época em que era requerido, ou as atuações formidáveis que me atraem para Noites de Circo. Existe algo que me faz assistí-lo sempre que quero ver um Bergman. No filme o diretor coloca uma disputa entre o circo e o teatro. Um amante das duas artes, Bergman nos leva aos bastidores mostrando as dificuldades em viver num circo intinerante e as disputas de egos dos artistas de teatro. Mas no filme eles nos mostra o quão comum os dois podem ser.

Com esses 100 anos, vão exibir muitos Bergmans nos cinemas, uma ótima oportunidade para assistir seus filmes na tela grande. Se me permitem uma dica, o documentário 'Bergman - 100 Anos' é uma ótima escolha para quem não conhece o diretor. Mesmo sendo um doc, algumas histórias são tão mirabolantes que até parece ficção.

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Postado por A Lanterna Mágica
11/9/2018 às 08h14

 
Em defesa do preconceito, de Theodore Dalrymple

Recentemente conclui minha releitura do livro Em defesa do preconceito, de Theodore Dalrymple, cujo estilo de escrita não me canso de ler. O título é claramente provocativo; alguns argumentariam que se trata de uma jogada de marketing para chamar nossa atenção. Que seja, pois nesse gesto de “chamar a atenção” ele também revela, sutilmente, a nossa ignorância diante da aplicabilidade do termo “preconceito”, com larga aceitação (ou rejeição), mas, ao mesmo tempo, feita de maneira irrefletida e, não raro, mecânica.

Normalmente o “preconceito” está associado a uma atitude de repúdio anterior à experiência; de rejeitar algo ou alguém antecipadamente, sem conhecimento ou segundo critérios infundados, como: cor da pele, do cabelo, nacionalidade etc. Nesse sentido, “preconceito” é algo deletério; como poderia alguém escrever um livro em sua defesa?

Não é esta acepção que Dalrymple aplica; segundo o autor, há um matiz conceitual que define o “preconceito” como um conjunto de valores morais preconcebidos, construídos ao longo da história e mantidos através da tradição. Diferentemente da acepção comum, neste caso o “preconceito” é algo benéfico e salutar. Nesse sentido, o livro de Dalrymple é tanto uma defesa quanto uma crítica: defende os valores tradicionais e critica aqueles que, sob as mais variadas (e, não raro, infundadas) justificativas, pretendem destruí-los.

Em primeiro lugar, uma pessoa que se declara viver sem preconceitos e os contesta é uma espécie de cartesiano, pois articula um modus operandi similar: se René Descartes preocupou-se em fundamentar um posicionamento filosófico puro, isto é, sem o menor resquício de dúvidas e, desse modo, garantindo-lhe maior segurança para construir um raciocínio o mais próximo da Verdade, alguém “sem preconceitos” almeja, analogamente, um lugar “puro”, sem o menor resquício de preconceito e, assim, apresentar-se como alguém “superior e livre de ideias pré-concebidas”. Em síntese, ao invés da projeção de dúvidas, projetam-se “preconceitos”: “A popularidade do método cartesiano não decorre do desejo de remover as dúvidas metafísicas e encontrar a certeza, mas o que ocorre é precisamente o oposto: jogar dúvida em todas as coisas e, portanto, aumentar o escopo de licenciosidade pessoal ao destruir, de antemão, quaisquer bases filosóficas para a limitação dos próprios apetites” (p. 21)

No entanto, a conduta “anti-preconceito” se apoia numa crítica aos valores tradicionais como forma de justificar filosoficamente comportamentos pessoais licenciosos, assim como alargar (se não, abolir) os limites em torno “dos próprios apetites”. Entenda-se “comportamentos pessoais licenciosos” como sendo os interesses de ordem pessoal, que normalmente são restringidos por alguma “autoridade moral”, por “valores tradicionais” ou algo do gênero.

“Então, subitamente, todos os recursos da filosofia lhes são disponibilizados, e serão imediatamente usados para desqualificar a autoridade moral dos costumes, da lei e da sabedoria milenar” (p. 22)

A História torna-se o centro de contestação, visto que foi através dela – ao longo do desenvolvimento do tempo – que determinados “preconceitos” se formaram e se perpetuaram. Contudo, reconstituir o passado requer uma postura seletiva em relação ao modo e ao que será narrado. Nesse ínterim, um estudioso pode projetar anseios predeterminados ou ideológicos, estabelecendo-os como critério científico de seleção; desse modo, reconfiguram-se outras possibilidades de narrativa histórica, mas que apenas devolve o seu interesse; diz o que se quer ser ouvido.

Um “liberal sem preconceitos”, quando pretende deslegitimar a “autoridade imposta” ao longo da história, estabelece o seu interesse ideológico como critério. Esse gesto demonstra a consequência imediata do combate ao preconceito, cujo resultado não é a sua abolição, mas, no máximo, a substituição por outro preconceito.

“Derrubar determinado preconceito não significa destruir o preconceito enquanto tal. Na verdade, implica inculcar outro preconceito” (p. 39)

Nesse sentido, a família, a educação, a história, as artes, a religião, tornam-se alvo de críticas, em que os “caçadores de preconceito” pretendem desmontar a “autoridade repressiva” detrás esses valores. Mas qual o resultado? O que é proposto no lugar? As respostas são várias e estão apresentadas ao longo dos 29 capítulos do livro. Exemplifico com apenas um: as consequências no campo da educação.

“Se alguém se vê moralmente obrigado a limpar a sua mente dos detritos do passado para que possa se tornar um agente moral completamente autônomo, isso implica o dever de não jogar na mente dos mais jovens, os detritos produzidos por nós. Não causa surpresa, portanto, constatar que, de forma crescente, investimos as crianças de autoridade para que administrem as suas próprias vidas, e isso é feito com crianças cada vez menores. Quem somos nós para dizer a elas o que fazer?” (p. 31)

Em termos práticos, isso leva a uma perda de autoridade dos pais diante dos filhos. Na verdade, não se trata precisamente de uma “perda”, mas de uma delegação – consciente ou não – às crianças da responsabilidade de decidirem o que querem comer, assistir, falar, fazer; quando querer dormir, acordar, ir à escola, sem qualquer critério (isto é: valores) pré-estabelecidos. Se isso é visivelmente um gesto de imprudência, que tipo de pais poderiam confiar tamanha responsabilidade aos seus filhos, ainda imaturos?

“Pais preguiçosos e sentimentais, sem dúvida” (p. 33)

As consequências disso podem ser vistas desde em um supermercado, quando uma criança ordena, aos berros, para que lhe compre um pacote de bolachas recheadas para o jantar, ao que a mãe lhe obedece e responde, meio sem graça, às pessoas ao redor: “Ele é assim mesmo”; até a desordem que predomina nas escolas, em que professores são agredidos direta ou indiretamente, física e verbalmente, sem qualquer respeito à sua (antiga, tradicional) autoridade. Em síntese: um mundo predominado de gente mimada e sem o senso de responsabilidade e respeito, que são outros valores tradicionais.

Como o bem disse Dalrymple, numa síntese magistral: “(...) o sábio questiona apenas aquelas coisas que merecem questionamento” (p. 63)

Ora, se por um lado foram os intelectuais quem iniciaram os questionamentos (às vezes convenientes, o que não justifica uma regra) a respeito da “autoridade”, isso não foi mediante uma postura sábia, mas inconsequente, vaidosa e egoísta:

“Em outras palavras, para essa classe, trata-se do mero exercício retórico e de exibicionismo intelectual, no sentido de conferir ao sujeito uma aura de ousadia, generosidade, sagacidade, sugerindo a presença de uma mente independente aos olhos de seus pares, em vez de ser uma real questão de conduta prática” (p. 39)

Combater as “ideias pré-estabelecidas” nem sempre é uma questão de conduta prática, mas é uma atitude típica e artificialmente blasé, de alguém que se pretende colocar num lugar incomum, não-convencional, e que apenas repete o convencionalismo de (tentar) não ser convencional.

Há preconceitos que foram deletérios, claro, o que não justifica a sua generalização ou o constante reexame de toda e qualquer ideia pré-estabelecida. Elas existiram, existem e existirão.

“Temos que ter, ao mesmo tempo, confiança e discernimento para pensarmos logicamente a respeito de nossas crenças herdadas, e a humildade para reconhecermos que o mundo não começou conosco, e tampouco terminará conosco, e que a sabedoria acumulada da humanidade é muito maior do que qualquer coisa que podemos alcançar de forma independente” (p. 137)

Por fim, a sabedoria não está apenas na correção do que deve ser questionado, mas no modo como os valores preconcebidos – os preconceitos – são incorporados na vida prática. “Não se apresenta como uma das grandes glórias de nossa civilização que um homem com habilidades moderadas possa – e talvez deva – saber mais que os grandes cientistas e sábios do passado? Ele vê mais longe por estar sobre os ombros de gigantes, e não porque ele impertinentemente questionou tudo o que alcançou” (p. 129)

O livro de Dalrymple é uma oposição à mentalidade imprudente, pois situa a importância de hábitos e valores importantes em vias de extinção.

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Postado por Ricardo Gessner
9/9/2018 às 17h43

 
BRASIL, UM CORPO SEM ALMA E ACÉFALO

É com angustia e desolação profunda que escrevo este artigo. A destruição do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Um acervo de valor inestimável, para o Brasil e para o mundo.

O Museu Nacional, além de preservar a História, a Cultura Nacional, era um centro de excelência acadêmica, para brasileiros interessados, diga-se de passagem poucos, em conhecer as vertentes naturais, da cultura, da política nacional e da ciência universal.

Há muitos anos este tesouro brasileiro estava esquecido e abandonado por todos. Do ponto de vista nacional, os governos Federal, Estadual e Municipal, ‘desconheciam’ os problemas pelos quais passava. Acredite quem quiser.

O descaso, a incompetência e o despreparo dessa gente política, que se intitulam gestores é com certeza a causa do abandono e destruição da alma da nação brasileira. A Cultura, a Arte, a Escrita e a História parecem alérgica a esses crápulas.

Hoje, dia três de setembro, semana da pátria, ouve-se desses mesmos loucos pelo poder, frases como: Vamos reconstruir o prédio do Museu Nacional, Governo Municipal do Rio de Janeiro, como se o prédio fosse o próprio acervo destruído e irrecuperável. Não mediremos esforços para recuperar o Museu Nacional, ministro da cultura; perda ‘incalculável’, diz o presidente da república do Brasil.

Esses, são homens que nem sabem porque estão em seus cargos. O governo do Rio de Janeiro, Municipal e Estadual, chegam a beirarem a mediocridade se comparados a outros governos.

Parte da população brasileira, incluindo parte de uma juventude despreparada e desconhecedora da Cultura, da Arte e da História nacional, ficam discutindo e venerando políticos desonestos, corruptos e incultos, quanto as suas condenações por tribunais competentes. Esses sanguessugas do nosso patrimônio e das nossas riquezas, devem ser exemplarmente punidos, para servir de exemple aos jovens de hoje, geração adulta do amanhã.

A destruição do Museu Nacional, passa por tudo isso, para chegar onde chegou; a lugar nenhum. Hoje, tão somente um monte de cinzas. Um acervo de milhares de anos de História e 200 duzentos anos de existência, de conhecimentos e aprendizagem. Uma catástrofe, que acaba de nos deixar mais pobres e envergonhados perante o mundo, dadas as condições em que se encontra, político, social e economicamente o nosso Brasil.

Preciso dizer a essas pessoas incompetentes: se não falastes ontem, hoje, “porque não te calas?”.

Rio 3/09/2018

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Postado por Blog Feitosa dos Santos - Prosas & Poemas
3/9/2018 às 13h52

 
Meus encontros com Luiz Melodia

Me arrependi de não ter escrito quando ele morreu. Como fez um ano e um mês, resolvi escrever.

Como muita gente na minha geração, descobri o Luiz Melodia através de uma propaganda da M. Officer, que passava no cinema.

“Tente passar
Pelo que estou passando...”

Era “Pérola Negra”, a canção que dá nome ao álbum. Sobre o qual eu havia lido na revista Bizz, seção “Discoteca Básica”.

A propaganda foi no início dos anos 90. Então, no final de 1994, eu estava andando pela Quinta Avenida, em Nova York (nem sempre sou tão chique assim), quando encontro Luiz Melodia numa loja.

Eu não tinha certeza se era ele. E nem mesmo se aquela canção - daquela propaganda - era dele. Mas encarei tanto o sujeito que ele mesmo se aprochegou: “E aí? Tudo bem?”

Não falamos sobre música (eu não queria me arriscar sobre o que eu não sabia). Falamos um pouco sobre a cidade. Foi uma conversa breve. Ele foi cordial. Estava acompanhado da esposa e do filho, Mahal.

Depois, claro, fui ouvir “Pérola Negra” (1973). Além da canção homônima, tem “Vale quanto pesa”.

“Quanto você ganha pra me enganar?
Quanto você paga pra me ver sofrer?”

O Barão Vermelho, com Frejat, regravou - mas não soou tão interessante.

Em contrapartida, Melodia aparece na letra de “Só as mães são felizes”, junto de Lou Reed e Allen Ginsberg. Cazuza entendia do riscado.

Tentei ouvir “14 Quilates” (1997), mas senti que a inspiração havia ficado para trás.

Fui me apaixonar por Luiz Melodia, de novo, por causa da Carol, que me acompanhou no show do “Acústico” (1999), no TBC reinaugurado.

Havia um espectador com uma barba enorme, que eu, fazendo graça pra Carol, apelidei de “O Profeta”. O Profeta não tinha nada daqueles eremitas que vivem numa caverna. Nada de monge também. Pelo contrário: aplaudia efusivamente e acompanhou entusiasticamente o coro de “Negro Gato”.

“Eu sou um negro gato de arrepiar.
Essa minha história é mesmo de amargar...”

Nas primeiras cadeiras estavam os convidados de Melodia - ou: os que desejavam se enturmar com ele... Um, inclusive, anunciou para os demais: “Já combinei tudo com o Melô”. (A noite ia ser boa...)

Lembro, ainda, que “Melô” dedicou o show a uma recepcionista do hotel onde estava hospedado. Ouviram-se gritos e assobios maliciosos...

Eu gostei tanto desse show, e desse disco, que quando nos casamos, eu e a Carol, inclui a faxia “Fadas” no CD que ia junto aos bem-casados, no final da festa. (Eu sou da época do CD.)

“Devo de ir,
Fadas
Inseto voa em cego
Sem direção.

“Eu bem te vi
Nada.
Ou fada borboleta,
Ou fada canção...”

Antes de a Catarina nascer, nós tivemos um filho não-humano, o Dinko, e ele fazia tanto sucesso, onde quer que fosse, que eu cantava pra ele: “Tenho muitos amigos, eu sou popular...”

Era a letra da canção do Zé Keti, que Melodia celebrizou:

“Se alguém perguntar por mim
Diz que fui por aí
Levando um violão
Debaixo do braço.

“Em qualquer esquina, eu paro
Em qualquer botequim, eu entro
E se houver motivo
É mais um samba que eu faço...”

Ainda teve um terceiro encontro, depois do “Acústico” e antes do Dinko, foi no início dos anos 2000...

Um amigão nosso, o Alê, descobriu uma boate, com um DJ diferente, que conseguia colocar “Roda-Viva”, para todo mundo dançar. Era a Jive.

O DJ era tão bom, mas tão bom, que a Jive mudou de lugar, e nós fomos atrás. E em plena Frei Caneca, uma noite, entrou o Luiz Melodia, de boné, com uns “brothers”.

Mesmo camuflado, todo mundo o reconheceu. E ele foi chamado para assumir as pick-ups. Mas só agradeceu e desceu do palco improvisado.

Muitos anos depois, um tio de uma prima da Carol, que tinha ido no nosso casamento, me abordou no meio de uma escada de shopping center e então confessou: “Aquela música... Do disco de vocês... Aquela música... Fadas!”.

E não disse mais nada. Ficou sem palavras para expressar a sua emoção pela descoberta de “Fadas”. Só conseguiu me olhar, com um sorriso cúmplice, me perguntando se eu estava entendendo...

Ao que respondi: “Que bom, tio. Que bom que você gostou” ;-)

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Postado por Julio Daio Bløg
3/9/2018 às 12h19

 
Evasivas admiráveis, de Theodore Dalrymple

Resenha: Evasivas admiráveis, Theodore Dalrymple

Há alguns anos, durante um jantar, conversava com uma colega sobre a minha afeição pela escrita de Miguel de Unamuno, escritor espanhol e precursor do existencialismo. Aprecio justamente por ele escrever como existencialista, não como filósofo. Para Unamuno, a existência não era uma categoria, nem um conceito ou um sistema abstrato, mas um questionamento sincero sobre aquilo que o fazia sentir-se vivo: seus medos, angústias, aflições. Sua escrita incide sobre questões que lhe interessavam vitalmente, sem reduzi-las a uma dedicação meramente intelectual. Era uma forma de enfrentar seus demônios interiores — se possível superá-los –, mas de maneira nenhuma esquivar-se deles.

Ao concluir, minha interlocutora responde: “Ah… eu não acho que a gente deva ficar pensando muito…”. Ela era psicóloga. E sua resposta ecoava em minha mente enquanto lia Evasivas admiráveis, de Theodore Dalrymple. Pois aquela resposta era uma evasiva admirável.

Em várias ocasiões Dalrymple mencionou que um dos seus principais temas de interesse é a respeito da natureza do mal. De fato, o autor discute o assunto em seus vários livros, mas não em termos filosóficos, nem apoiando-se exclusivamente em sistemas abstratos, mas constrói seu raciocínio a partir de sua experiência como psiquiatra e de costumes morais; isto é, de como o fator moral (e sua ausência) influencia comportamentos perigosos, narcisistas e socialmente deletérios.

Contudo, em Evasivas admiráveis foge-se um pouco desse quadro, pois Dalrymple constrói sua reflexão a partir de teorias — teorias psicológicas –, para demonstrar como elas podem, sob o verniz conceitual da ciência, eximir o indivíduo de certas responsabilidades. Noutras palavras, Dalrymple discorre sobre como algumas teorias delegam a fatores externos a responsabilidade dos malefícios individuais, ou incentivam um egocentrismo desonesto, trajado em conceitos como autoaceitação (amar-se acima de qualquer coisa, inclusive os seus demônios interiores), autoperdão (suas ações são culpa de maus pensamentos inculcados pela sociedade opressora, ou de um desequilíbrio químico dos neurotransmissores), Eu-verdadeiro (herança rousseauniana: no âmago, você é bom; são seus demônios interiores — com vida própria — que te atrapalham). São as condutas que dão nome ao livro.

Existe uma diferença entre infelicidade e depressão. Infelicidade está associada a uma capacidade de compreensão; isto é, pressupõe um exercício honesto de identificar e assumir certas responsabilidades sobre decisões erradas, condutas equivocadas, relacionamentos ruins, que trouxeram algum tipo de sofrimento. Dessa forma, infelicidade é um estado de espírito. Depressão, por outro lado, é um quadro clínico, geralmente associado a alguma disfunção neurológica, e o indivíduo não tem controle sobre si ou sobre seus pensamentos. Quando transposto esse quadro àqueles com transtornos psicológicos, há uma confusão entre infelicidade e depressão. “Eles nunca serão responsabilizados pelo seu estado ou situação; são vítimas de algo exterior a elas (nesta circunstância as disfunções do cérebro são consideradas exteriores, e não o eu verdadeiro dessas pessoas)” (p. 42).

Isso explica o fetiche pelos antidepressivos. A promessa de felicidade fácil e rápida, mesmo que os efeitos dos comprimidos não sejam tão eficazes conforme informações divulgadas na mídia. Trata-se, portanto, de uma evasiva admirável.

“Excetuando instâncias específicas, a psicologia não contribui em nada para o autoconhecimento humano, e fez até o oposto; pois ao se meter entre o ser humano e o que Samuel Johnson chamou de ‘movimentos de sua própria mete’, ela atua como um obstáculo ao genuíno (ainda que muitas vezes doloroso) exame de si mesmo” (p. 94).

Em resumo, o autoconhecimento não é sinônimo, nem garantia, de felicidade, pois requer um olhar honesto para si mesmo; requer o reconhecimento das próprias limitações, assim como assumir a responsabilidade sobre os próprios infortúnios e o enfrentamento de suas causas e consequências. O Eu-verdadeiro não é tão bonito quanto se pinta; a autoaceitação, o autoperdão, sem uma responsabilidade moral, legitima um egoísmo narcisista.

A publicação de Evasivas admiráveis, pela editora É Realizações, é um gesto de considerável importância, pois apresenta numa linguagem acessível e elegante, um olhar crítico sobre determinado comportamento marcado por uma “insatisfação, um descontentamento com a vida” (p. 17), em que e a felicidade é concebida como um direito inalienável.

Em síntese, a busca pela felicidade não é uma busca sincera se associada exclusivamente ao autoconhecimento.

Evasivas admiráveis, de Theodore Dalrymple. Editora É Realizações, 2017

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Postado por Ricardo Gessner
2/9/2018 às 12h00

 
O testemunho nos caminhos de Israel

Eu precisava ir. Resisti mas atendi ao chamado e acabei seguindo a consciência que me dizia: é preciso ir conhecer os caminhos e a terra natal de Jesus.

Esse foi um grande presente, que Deus me concedeu. Conhecer os caminhos do seu filho muito amado, e ver quão difícil foi a igreja do Cristo, à época, por todas aquelas terras.

Fiquei imaginando como fez o Homem Jesus, há mais de dois mil anos, para transmitir a palavra, conhecer os habitantes de lugares quase inóspitos, íngremes e poeirentos; sem estrada e sem transporte para ir de um lugar a outro. Ele foi e multidões o seguiram.

Eu precisava ir e fui. Todas as pessoas deveriam ter a oportunidade de conhecer as veredas, os caminhos de Jesus feito homem, na sua vida terrena, então entenderiam o que hoje carrego comigo, esse sentimento de participar com Ele das jornadas, árduas jornadas pelas quais passou. Ouvir no silêncio das montanhas a voz Daquele que clamava no deserto, em nome do Pai, do Seu nome e do Espirito.

Acompanhar seus passos, pisar na terra sobre a qual Ele pisou, ir aos lugares aonde Ele foi, estar nos lugares onde Ele esteve, não se pode explicar. É preciso viver e sentir dentro de nós, o fervor da fé, a emoção latente. Em muitos lugares senti a Sua presença e orando ao Pai, por certo Ele orou comigo.

Realmente não seria em nenhum paraíso, que Jesus nasceria, mas em uma terra árida, desértica, sem água em abundância e de acesso complicado aos diversos povos da região em sua época.

Em Nazaré, local da anunciação pelo anjo a Nossa Senhora, é um lugar de vida, alegria e aconchego humano. Ao redor do poço de Maria, você vê brotar a água em abundância, em um local tão árido. Permite-nos sentir a esperança da boa nova, o milagre da vida, a vinda do Salvador.

Pude aqui meditar sobre a vida. Orei em memória dos meus pais, meus avós, meus sogros e por todos que geraram vidas. Nesse lugar reina o amor e a fé em Maria, o trabalho em José e a palavra em Jesus. “Eis aqui a serva do senhor”.

Em Jerusalém, na região de Ein Karen, em visita a igreja da Visitação, onde a Virgem Maria visita sua prima Izabel, de idade avançada, para a época, pude comparar os cantos dos pássaros, com um hino de louvor, entoado a Mãe de Cristo Jesus. Orei pela generosidade daqueles que partilham a vida, assim como fez a nossa mãe Maria Santíssima. ‘Porque olhou para sua pobre serva, por isso, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações”.

Em Belém estar o local da manjedoura, a gruta na qual nascera o Messias. Era tudo tão difícil, tão precário, que chegamos a imaginar como pode o Homem dos homens, o Rei dos reis ter vindo em tão acentuada pobreza. Mas as palavras dos profetas precisavam ser concretizadas. E assim cumpriu-se o anunciado.

Pedi por todos os necessitados, os carentes de amor, de saúde, de água e de pão; de vestimenta e um teto para se abrigar do sereno e do sol. Pedi pelos que não tem fé e os vazios de generosidades para com o próximo. Aqui pedi por mim mesmo: “Senhor eu creio, mas aumentai a minha fé”.

Ter visitado o monte Tabor, local da transfiguração de Jesus, feita a ponte entre o céu e a terra, me alegrou o corpo e a alma. Visitar o monte das tentações, fortaleceu o meu corpo e o meu espirito, sem que me abatesse o cansaço. “Vai-te satanás porque está escrito: ao Senhor teu Deus adorarás e a Ele só prestarás culto”. O monte das bem-aventuranças, onde ocorreu o sermão da montanha, e o rio Jordão, onde João Batista, realizou o batismo de Jesus Cristo.

Jesus percorreu caminhos espinhosos e ao mesmo tempo de luz, para os que o escutavam. Pescou no mar da Galileia, ou lago de Genesaré, se não peixes, mas homens para o seu apostolado. Passei ainda por Tiberíades, Cafarnaum e Tabgha.

Conheci ainda, Cesaréia Marítima, Haifa, Jericó, Caná da Galileia, Muhraqa, Qumram, Mar Morto, Jerusalém, Jaffa e Emaús.

Em Jerusalém, no Santo Sepulcro, orei no local de sua crucificação, toquei a pedra sobre a qual Ele foi ungido após sua morte, e de joelhos por terra, em frente ao local do seu sepultamento. Seu tumulo estar vazio. Ao terceiro dia ressuscitou, Ele vive ao lado do Altíssimo. Assim disse Jesus a Maria Madalena: Não me detenhas, porque ainda não subi para o meu Pai, mas vai para os meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus.

Na tarde do primeiro dia da semana, após sua morte, Jesus se pôs no meio dos apóstolos e falou: a paz seja convosco. Por não estar presente, Tomé não acreditou ao lhe contarem. Em outra aparição, assim falou Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram.

Expressar um sentimento de natureza religiosa, tornam-se escassas as palavras a quem quer se fazer entender. Acredito que só vivenciando cada ponto dessa história, cada lugar originário, fonte desses fatos, poderá suprir o vazio deixado, pelas informações que a nós católicos são passadas desde a mais tenra infância.

Eu acreditei sem saber onde e como ocorreu o ato. Vivi para enxergar, não apenas ver o cenário onde tudo se passou. Eu estive lá, em cada lugar, em cada caminho e assim me faço testemunho da vida terrena de Jesus e da Via Sacra pela qual passou. Assim direi, Senhor estejais sempre em mim e eu em Vós; nas horas de alegrias e sofrimentos, porque mesmo crendo eu vos pedirei: aumentai mais e mais a minha fé.

Rio, 27/08/2018

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Postado por Blog Feitosa dos Santos - Prosas & Poemas
1/9/2018 às 15h29

 
UM OLHAR SOBRE A FILOSOFIA (PARTE FINAL)

Como estas páginas já se alongam, força é convir ser necessário um corte epistemológico, para chegar-se até o Existencialismo, embora ao elevado custo de omitir referências a grandíssimos mestres da Filosofia, o que de fato é lamentável. Ser o copidesque de si mesmo é um castigo inimaginável, uma espécie de Caixa de Pandora cuja abertura me foi imposta.

Soren Kierkegaard (1813 – 1855), filósofo dinamarquês, é o fundador do Existencialismo, apesar de nem cogitar de atribuir uma denominação ao corpus em que embasou seus conceitos do que depois viria a ser chamado de Existencialismo Cristão. Foi ele o primeiro filósofo a aprofundar-se no tema da existência e da vida, que para ele constitui um enigma, uma contradição, algo que vai além de nossa finitude para alcançar a eternidade. 

Ao contrário de muitos existencialistas que surgiram mais de um século depois, Kierkegaard nunca foi arauto de si mesmo. Era um eremita urbano: separou-se da família, desfez o noivado para dedicar-se exclusivamente à construção de sua obra. Escrevia com diversos pseudônimos, construindo uma espécie de labirinto quase inextricável, onde se abrigava. Quem deu o nome de Existencialismo à sua corrente filosófica foi o filósofo francês Gabriel Marcel, logo depois da 2ª Grande Guerra, quando uma onda de reumanização arejou o planeta.

Kierkegaard professava o cristianismo, consistente no Evangelho. Daí ser considerado o fundador do Existencialismo Cristão, por crer no Cristianismo e não no Velho Testamento anterior a Cristo. Suas dissidências com os bispos e sacerdotes da igreja luterana se agravavam então a cada dia.

O Sócrates dinamarquês, como também o chamavam, é o pensador maior do século XIX. Para ele, existir é uma aventura perigosa, que envolve a opção de lançar-se à vida, construindo-se como se desejaria ser. Ele traça com clareza o perfil da individualidade a partir da dialética vida-morte, que no seu desdobramento nos disponibiliza os dons da existência e da liberdade em potência, que só se transformam em essência, quando o ser humano decide viver em plenitude, durante sua transitória estada no teatro planetário. Ou seja: “a existência precede a essência”, que veio a ser a pedra fundamental do Existencialismo. 

Kierkegaard também analisa, sob o prisma estritamente filosófico, a possibilidade de vivermos sem Deus, ou outro Ser Supremo, abordada por ele e, muito depois, reafirmada por Sartre na esteira do pensamento daquele.

Na visão do filósofo dinamarquês, o homem constrói-se a si próprio na medida em que é produto das suas escolhas ao longo da vida. Sempre estamos às voltas com as circunstâncias que nos envolvem a exigir de nós optarmos que decisão tomar, arcando, necessariamente, com as consequências boas ou más que dela advierem.

Há quem afirme que seria implausível uma filosofia no estádio evolucionário de hoje sem as concepções kierkegaardianas, entre os quais Ludwic Wittgenstein, um dos mais influentes pensadores do século passado.

O boom existencialista só ocorreu — mais de cem anos depois da morte de Kierkegaard — em meados de 1950, com Sartre, Heidegger, Camus e Simone de Beauvoir, entre outros. Todos se declaravam ateus, e rejeitavam ser tachados de existencialistas: diziam-se humanistas. Todavia, reafirmaram o princípio já visualizado mais de cem anos antes pelo Sócrates dinamarquês — quando acentuou que o ser humano é que define, por meio de suas opções, o rumo de sua vida.

Sartre diz, em última análise, o mesmo que Kierkegaard sobre tal aforisma, ou seja, ao nascer o ser humano apenas existe e só principia a viver quando adquire a consciência de si mesmo, de estar no mundo, que o filósofo francês define como o ‘para-si’ (pour-soi), em O ser e o nada. Antes, quando existe, o ser humano é um “nada”, que só começa a “ser” quando inicia as escolhas que irão talhar o seu caminho. E pode fazê-lo com total liberdade por depender só dele.

Jean-Paul Sartre foi o mais conhecido dos existencialistas daquele tempo, sendo tanto festejado quanto hostilizado. Sua obra maior já mencionada é um resumo do seu pensamento autointitulado humanista.

Já Heidegger cunhou uma linguagem própria para o que chamava de analítica existencial, enfeixada no livro Ser e tempo, incidindo no mesmo artifício de não se dizer existencialista e sim humanista. Heidegger não conseguiu deslindar seus próprios conceitos, que deixou no ar...

De Heidegger restaram os conceitos aflorados em seu Ser e tempo, como o ser-aí (dasein), o ser singular que possui existência e vida próprias, sendo o mundo o seu lugar.

Ao fim e ao cabo, o que dele restou não constitui um corpus filosófico, e sim uma série de questionamentos e indagações que deixou sem resposta, perdido na selva oscura de seu próprio linguajar. Isso sem falar nos polêmicos Cadernos negros em que o pensador alemão misturou Filosofia com política, gerando um verdadeiro nó górdio que não conseguiu desfazer.

Por mais um desses paradoxos de que a vida é pródiga, a obra de Martin Heidegger talvez ainda seduza alguns estudiosos em razão do que ficou sem ser decifrado, como uma espécie, algo atípica, de obra em aberto.

Albert Camus e Simone de Beauvoir completam o grupo existencialista do segundo quartel do século XX, ambos eram romancistas. Romancear é filosofar, disse o autor de O mito de Sísifo, prêmio Nobel de literatura.

Simone de Beauvoir teve uma relação conturbada com Sartre. Em A cerimônia do adeus, Beauvoir descreve as reflexões filosóficas de Sartre acerca do processo de envelhecimento.

É de se sublinhar a insistência com que os autointitulados humanistas daquela época negavam a existência de Deus, cuja presença imperceptível pelas vias sensoriais parecia perturbá-los. Este, a meu ver, o ponto nodal do existencialismo ateu, que não cuidou do tema com o devido aprofundamento, talvez por uma questão de coerência com sua ótica materialista, jamais se descolando dessa fixação.

A existência de Deus ou a sua inexistência tem dado margem a infindáveis indagações e especulações desde os pré-socráticos, há cerca de dois milênios e meio. E até hoje persiste sem resposta. Parece até que somos iguais àqueles reclusos da alegórica Caverna de Platão...

Para mim, particularmente, trata-se de um problema que desborda do espectro investigativo da Filosofia, embora me considere cristão. Mas isto é uma opção de foro íntimo. Ontologicamente, a Filosofia trata do ser enquanto ser, que desaparece ao morrer, deixando de ser. O que virá depois é algo que constitui objeto da teologia, da fé, das crenças diversas, das religiões, sejam monistas, dualistas e também da descrença, do ateísmo, do agnosticismo etc. etc. etc.

 Na verdade, a mim me parece, eu que não vou além de um mero aprendiz, que essa controversa e intrincada questão transcende a racionalidade que nos é própria, balizada pela finitude, ou seja, enquanto pudermos exercer o livre-arbítrio, seremos os únicos responsáveis por nossas ações e omissões, durante o tempo e o espaço de nossa breve permanência entre os viventes.

Depois vem o salto no escuro.

Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Impressões Digitais
1/9/2018 às 10h35

 
Os livros sem nome

Depois de tempos através das estantes decidi, não sem dificuldade, qual livro levar. A moça colocou-o numa sacola e, assim, voltei pra casa preparado para os desafios da nova leitura. Acomodado em minha poltrona, retirei o livro da sacola e percebi que não era o mesmo. Passei os olhos pela nota de registro e, de fato, ali constava o título correto. Numa tentativa de consolar-me, abri o livro, li algumas linhas. Não era sobre o mesmo assunto, nem de algum outro que me interessava. Voltei à biblioteca reclamando engano, mostrei a nota e, ao retirar o livro da sacola, era o mesmo que havia levado, o mesmo que constava no registro. Não pude evitar um gesto de irritação – tanto pelo fato, pois detesto quando acontece, como pela obrigação em pedir desculpas. Vi novamente nos olhos da moça aquele fundo de graça e escárnio. Voltei pra casa e, ao retirar o livro da sacola, o já esperado – não era o mesmo título. Com isso, sou obrigado a concluir a leitura sob as mais variadas intempéries. E, no final das contas, o que mais me constrange é que tenho uma biblioteca inteira com vários livros sem nome.

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Postado por Ricardo Gessner
31/8/2018 às 19h54

 
O mundo era mais aberto, mãe...





Ei mãe! Eu tenho uma cafeteira elétrica, mas você não poderia entender a brincadeira. Nem sabia que eu queria ter. E lá fora hoje bem cedinho um sabiá cantou. Vai fechando agosto e eles começam aqui na nossa cidade, nesse cantinho do mundo, a cantar para a sabioua (sei que não é assim). Pode me corrigir, igual quando escrevo na sua mão que dia é hoje. Depois do banho. Quando é sábado e eu não coloco direitinho, você diz “põe acento no a”. Porque professores nunca deixam de ensinar. Acho que só sei que dia é hoje e ontem e amanhã porque escrevo na sua mão. Deve ser o único motivo para se saber. Que outro motivo importa?

Mas o sabiá cantou lá fora em alguma árvore que ainda resta dos nossos vizinhos. Eu mesma construí em cima do nosso quintal. Tenho nem cebolinha no vaso. Enfim, o assunto sabiá não vinga hein, nem há como definir, porque logo que ouvi, você abriu a porta da escada e me chamou, fraquinho feito som de sabiá... Setembro está chegando. Era quase isso, era dor. Parece que a vida vem dando um pote gelado de dor no seu corpo que é um pouco torto de dor, artrite ou artrose ou escoliose. Para mim são sinônimos de estradas cheias de curvas, difíceis de passar. Você está passando por ela. Pouco importa o nome. Artrite parece ‘ar triste’ que uma criança falou.

Veio uma melancolia, sabe mãe. E lembrei que a gente ia na Prassisporte nadar. Era esse nome, que a gente mineiro e criança aprende que é assim a palavra “Praça de Esportes”. Era um quarteirão redondo, como um super pão de queijo. Ainda é. Não é mais um clube que frequento e lembro da piscina azul e você de maiô preto me segurando. Lembrei das compras na “Cobal” como era tudo exposto e diferente de hoje. O macarrão, farinhas, tudo era aberto numa caixa inclinada. Dormia aberto, amanhecia aberto... A vida era mais aberta, mesmo que alguns bichos noturnos passassem por lá. Quem não tem ratos e baratas passeando na cabeça, né?

Eu ganhava um Chicabon se não pedisse nada, nadinha mesmo. A moça do caixa chamava-se “Márcia” e então você autorizava. A geladeira de picolés era enorme, tipo uma montanha que de baixo eu podia imaginar a neve. Eu não conseguia subir, eu era gorda... Posso amenizar e falar gordinha. Mas era gorda.

Tanto que só era chamada para os times de queimada. Era até preferida... Minha “bolada” fazia todo mundo correr. Agora vivo de dieta, malho e sou alguma coisa magra. Minha bolada nem existe e se eu fingir ter uma bola de futebol nas mãos, os meninos não correm mais de medo. Acho que era meio esse tal empoderamento da mulher, um começo. Vê lá hein mãe? Eu fundando essas palavras... Lá pelos anos 70. Empoderamento feminino é uma bola de queimada. Pronto. Está feito, igual Deus fez o mundo.

Agora estou esperando a hora de ligar para o doutor bonito. Ele é bonito de branco e com os olhos pacientes. Aquela calma de quem parece ser o Mágico de Oz numa cadeira que roda e comanda os mundos de cada um. Ele pode vir aqui te ver. Porque eu só sei ouvir o sabiá pequenininho que você se tornou. Não sirvo para acertar os remédios. Para que mesmo a gente serve, né, mãe? Pra quê?



Imagem: Google

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Postado por Blog de Aden Leonardo Camargos
24/8/2018 às 16h48

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