A Lanterna Mágica

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Terça-feira, 17/11/2020
A Lanterna Mágica
Tadeu Elias Conrado

 
O poder da história

Vivo um misto de apreensão e ansiedade. A apreensão vem da época em que vivemos, dura época. Não bastasse esse vírus que está acabando com vidas, tanto aquelas que partem como aquelas que ficam, ainda teremos uma disputa política cheia de revés. Espero que um dos casos (epidemia ou eleição) não anule o outro, prestemos atenção. A ansiedade vem da minha necessidade, desde pequeno, de ir ao cinema. Claro, não o farei até que surja uma vacina funcional, mas fica a expectativa de que isso ocorra logo.

Enquanto o dia não vem, fico entre o filmes que tenho em DVD e aqueles que são exibidos nos canais de TV. Falando nisso, gostei muito do que foi exibido em Gramado esse ano, achei Todos os Mortos (Caetano Gotardo e Marco Dutra, 2020) um filme sensacional, mas King Kong em Asunción (Camilo Cavalcante, 2020) fez por merecer o prêmio. Mas em uma retrospectiva de filmes que foram exibidos em Berlim (?), Assisti Não Estou Lá, de Todd Haynes, lançado em 2007. Gosto muito de Bob Dylan, principalmente no início de sua carreira, ver o filme, com brilhante atuação de Cate Blanchett, deu mais gosto a minha admiração.

Porém, Não Estou Lá traz uma certa melancolia. Embora aparentasse uma vida sossegada, como ele mesmo disse “um homem é um sucesso se pula da cama de manhã e vai dormir à noite, e, nesse meio tempo, faz o que gosta”, a vida Dylan sempre foi uma luta, hora contra o governo e o militarismo, outras vezes contra a sociedade. O fato é que no filme de Haynes existe um existencialismo aterrador, que tenta transmitir tudo o que o cantor passou em todos seus anos de existência, desde a sua infância até sua morte. Para aqueles que prestarem mais atenção aos detalhes, é um filme pesado, Mas essencial para quem gosta de um bom filme.

Mas como o filme é bom, deixou aquela sensação de frieza, a dita melancolia. Já sem muita esperança no mundo em que vemos (novamente!) acontecer tudo aquilo a que Dylan lutava contra, decidi seguir uma dica e assisti Wiñaypacha, filme peruano dirigido por Óscar Catacora. Esse possui um valor cultural e antropológico, apresentando um casal de idosos que vivem em uma região remota dos Andes. Uma produção sensível, que se não anima por sua história, bem escrita, porém triste, nos encanta com sua beleza de cenários e cores. Os protagonistas são em suas vidas aquilo mesmo que é mostrado pela câmera e mesmo sem saber até então o que era cinema, atuam de maneira primorosa.

Em poucas horas vivi um misto de emoções. Passei de um revolucionário a um homem sossegado do campo, um astro do folk a um traidor popular. Ainda enfrentei a solidão de uma montanha isolada e vi a magia de uma cultura que, infelizmente, morre a cinco mil metros de altura.

Isso é o que faz o cinema ser tão importante na vida de tantas pessoas. Um filme pode ser usado como um meio para muitas coisas. Pode despertar esse misto de emoções, ser usado como um protesto ou despertar a curiosidade cultural e/ou social de um povo. Uma história, se bem escrita, tem esse poder e hoje em dia descobrimos que podemos vê-la em qualquer lugar, claro que a tela grande é sempre a melhor opção, e que independente da situação, sempre vamos precisar delas.

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Postado por Tadeu Elias Conrado
17/11/2020 às 07h00

 
Assim ainda caminha a humanidade

Lá em 1956, George Stevens lançava um dos maiores clássicos de sua carreira. Carreira essa interessante, onde figuram filmes como Um Lugar ao Sol (1951) e Os Brutos Também Amam (1953). Giant (Assim Caminha a Humanidade, no Brasil) é uma adaptação do best seller homônimo de Edna Ferber, do qual Stevens teve um grande trabalho para comprar os direitos, mesmo antes do livro ficar famoso. Assim como nos outros dois filmes mencionados, o diretor trabalha a visão comportamental do cidadão norte americano da época, o que sempre causou problemas tanto para ele, quanto para a autora do livro. Podemos dizer que os texanos ficaram ultrajados vendo todo o seu machismo e racismo sendo expostos para o mundo inteiro.

A narrativa percorre três gerações de uma família texana tradicional. Começando com Bick (Rock Hudson) que vai até o leste do país para comprar um cavalo reprodutor e acaba voltando casado com Leslie (Elizabeth Taylor), uma mulher sensível para os parâmetros de sua terra, mas que aprende rápido e se torna tão dura como os texanos, isso sem perder sua amabilidade. Taylor está sensacional em cena, sua personagem é uma mulher decidida e que sempre levanta questões conservadoras, sempre mostrando que embora estivesse casada, era uma mulher independente e dona de si.

O lado oposto de sua personalidade é Luz (Mercedes McCambridge), irmã de Bick, Luz é uma solteirona, feita aos moldes sulistas, daquelas que toca o gado e colhe a plantação. É interessante ver a diferença dessas duas personagens em relação a ideia que a história traz, como uma quebra de tabu, isso lá nos anos 1950.

Entre o casal está um personagem que se tornou um ícone do cinema, Jett Rink. Interpretado por James Dean, o personagem tem um papel importante na vida do casal e como um personagem na crítica que o diretor procura apresentar. Rink é um empregado diferente dos outros, embora trabalhe para Bick, é um dos poucos que é texano. Sua vida não é fácil, o que lhe garante o emprego é o carinho que Luz tem por ele. Esse carinho vira um pequeno pedaço de terra, que Luz deixa para o rapaz depois que morre, decorrente a um acidente de cavalo. Rink encontra petróleo e, a partir daí, passa a ser uma pedra no sapato de Bick.

Quando falamos sobre Assim Caminha a Humanidade, precisamos falar sobre a cena em que o juiz da região vai apresentar o testamento de Luz. Os homens mais importantes estão reunidos, todos para convencerem Jett a aceitar o dinheiro que equivale ao dobro do valor do terreno. Mas em uma das cenas mais memoráveis de James Dean, quiçá do cinema, ele recusa e vai embora.

Com essa narração genérica, muitas coisas acontecem nesse meio tempo e posteriormente, mas posso dizer que assim ainda caminha a humanidade. No filme, vemos todos esses problemas sociais, que podem ser associados a cultura do lugar/época, mas tudo evolui e sempre esperamos que seja para melhor. Isso acontece no decorrer da história de Ferber, Bick só passa a ser herói, aos olhos de Leslie, quando se levanta e discute, briga e apanha de um cozinheiro de lanchonete, racista.

Porém, 68 anos depois (o livro foi lançado em 1952), vivemos um retrocesso e parece que nada aprendemos com o passado. O mundo continua tão duro para aqueles que buscam acabar com esses problemas sociais quanto era naquele Texas. Isso faz parecer que estamos parados no tempo, estagnados. Mesmo com tantas Leslies atuando fortemente por mudanças, raramente temos Bicks dispostos a aprenderem que nem tudo é o que era e que não precisam ser.

Enquanto vejo o fascismo covardemente no sopé da porta, imagino se seria possível convidá-los para assistir uma cena ou outra de Assim Caminha a Humanidade (como aquelas em que Leslie "discute" sobre negócios ou que Bick briga na lanchonete). O cinema, assim como outros meios de cultura, tem muito a nos ensinar, talvez por isso ele seja tão temido por aqueles que possuem o poder. Mas, sabendo a incapacidade de um diálogo coerente com essas pessoas, a gente segue indo, esperando fazer jus ao que pregamos.

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Postado por Tadeu Elias Conrado
27/9/2020 às 12h49

 
Glauber Rocha, o transcendente do tempo

Uns dias atrás, depois de folhear A Primavera do Dragão (Objetiva, 2011) livro de Nelson Motta, comecei a escrever sobre Glauber. Meu objetivo era (e ainda é) transitar entre os personagens de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969). Depois de outros dias, me deparei com A Mulher da Luz Própria (2019), filme da diretora Sinai Sganzerla apresentado durante o REcine deste ano. Admito que o livro de Nelson Motta tem páginas que sempre me fazem voltar, mas também é omisso quando trata o relacionamento de Glauber e Helena Ignez. Pouco se vê sobre o assunto, mas admito que não esperava que Glauber tomasse as atitudes que teve, ele que prestava a inovação do cinema, querendo mudar a realidade, estranhamente se ateve ao patriarcado da época. Isso não diminui minha admiração por seu cinema, mas faz refletir e acredito que quando rever algum filme (certamente farei isso) terei uma nova percepção do que é mostrado.

Mas o que me fez antecipar o ensaio que preparava sobre Deus e o Diabo e Antônio das Mortes não é isso que foi descrito acima, mas sim um e-mail que recebi, onde divulgavam o filme que encerrará o Olhar de Cinema (Curitiba) deste ano, que será online. Antes, quero inteirar que fazendo o cadastro no site do festival, teremos direito a dois filmes por dia, vale muito a pena. Para mim, o Olhar de Cinema é um festival singular, até mesmo inovador. No ano passado foram exibidos o excelente Diz a Ela Que me Viu Chorar (Maíra Bühler, 2019, Brasil) e Tel Aviv em Chamas (Sameh Zoabi, 2018, Bélgica, França, Israel, Luxemburgo), além de diversos filmes internacionais que de outra maneira não chegariam até nós. Posso dizer que o Olhar de Cinema é um dos meus festivais favoritos.

O encerramento do festival fica por conta de Paloma Rocha e Luís Abramo com Antena da Raça. Ainda inédito no Brasil, o documentário traz recortes de Glauber Rocha, apropriando-se e rediscutindo a realidade brasileira a partir dos diálogos, trechos e cenas de seus filmes viscerais e do seu desejo de “retirar as máscaras” da nossa saga terceiro mundista. Sua relação com o Cinema Novo, político como foi até o fim de seus dias e polêmico, certamente Glauber era um personagem excêntrico e necessário para a evolução cultural do Brasil, transcendendo seu tempo, o material de anos atrás ainda levantam discussões para o que vemos hoje, no tempo sombrio em que vivemos na cultura, na política e em qualquer outra área que constitui o país.

Glauber sempre foi esse personagem ativo na mídia, sua história traz uma nova visão do cinema, que ditou muito do que o cinema é hoje. Essa trajetória é melhor vista através de pessoas que conviveram com ele, as vezes com história entrando em conflito entre si. Mas é sempre bom ver qualquer documento sobre sua vida quanto realizador. Antena da Raça promete uma grande interação com seu trabalho, assim como o Olhar de Cinema, que nos trará uma grande seleção de filmes nacionais e internacionais.

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Postado por Tadeu Elias Conrado
30/8/2020 às 10h10

 
O Cinema em tempo de fúria

Em tempos como esse que enfrentamos agora, vi muitos filmes ressurgirem. Enquanto Epidemia (1995), de Wolfgang Petersen, volta a ganhar destaque, vi que teve gente mencionando até O Enigma de Andrômeda (1971), de Wise. O fato é que com a impossibilidade de ir ao cinema, chegou a hora de apelar para plataformas de streaming e tirar da aposentadoria o aparelho de DVD e o discos comprados em promoções anos atrás. E foi isso que me levou a um pensamento inquieto que não me deixaria dormir.

Vejamos, sejam filmes exagerado ou não, retratar uma pandemia é contar uma história que permeia entre a tragédia e a esperança, deixando infelizes personagens para trás. Mas indo de encontro aos clássicos que preservo em minha prateleira, e resistindo a Bergman, coloquei para rodar O Anjo Exterminador (1962) de Buñuel. Aqueles que ainda não o fizeram, deveriam, pois embora tenha dividido opiniões em seu tempo, O Anjo é, senão a melhor, uma das melhores obras do cineasta.

Após sair de um concerto, um casal da alta sociedade convida alguns amigos para um luxuoso jantar. Já se estranha quando todos os empregados, com exceção do mordomo, deixam a casa antes do evento. O estranhamento aumenta quando o jantar chega ao fim e, tanto os anfitriões quantos os convidados, se vêm incapaz de deixar o salão e são obrigados a passar a noite no lugar. A situação se agrava no dia seguinte, quando fica claro que não conseguirão ir a lugar algum. A cada minuto o ambiente vai se tornando mais pesado, sem saber o que os prende ali, os personagens vão se desgastando, as máscaras caem e atitude extremas dá início aos conflitos.

Luis Buñuel é um ícone do cinema europeu. Além de seu grande trabalho em O Anjo Exterminador, também criou outras grande obras, como O Cão Andaluz (1929), Viridiana (1961), A Bela da Tarde (1967) e O Discreto Charme da Burguesia (1972), sempre explorando o caráter humano. Isso nos traz outra visão da pandemia que enfrentamos. Ao invés de assistirmos ou discutirmos sobre o inimigo invisível que enfrentamos, proponho que façamos um ensaio sobre o comportamento humano em estado de cárcere. Outros filmes me vêm a cabeça, como o recente O Farol e até mesmo 7 Mulheres (1966) de John Ford.

Uma discussão dessas certamente nos levará a longas viagens pela história de cinema e nos dará algumas horas, quem sabe até dias de discussão. É um exercício interessante e que nos ajudará a nos auto-conhecer e quem sabe até melhorar nossas vidas e atitudes em confinamento. Quem sabe não chegamos a Arte da Discórdia, fato que me ocorreu agora, mas o interessante é que no final cheguemos a um consenso, ou até mesmo a lugar algum.

Ainda em tempo, fico aberto a outras sugestões de filmes que apresentem essa idéia.

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Postado por Tadeu Elias Conrado
20/4/2020 às 18h03

 
Juliette Binoche à brasileira

A Imovison, responsável por trazer grandes filmes que estão fora do circuito hollywoodiano para os nossos cinemas, completou 30 anos. Para a comemoração, a distribuidora trouxe ninguém menos que Juliette Binoche, uma das maiores atrizes francesas da atualidade. A festa aconteceu no cinema Reserva Cultural, em Niterói (RJ), no dia 29. Aos 55 anos, Binoche traz um currículo de sucesso, tendo recebido o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Atriz em Berlim por seu papel em O Paciente Inglês (1996), além do Prêmio César (França) e Copa Volpi (Veneza) por seu trabalho em A Liberdade é Azul (1994). Com sua vasta experiência no audiovisual, a atriz falou sobre sua carreira, seus antecedentes brasileiros e a situação política no Brasil.

No caso de seus familiares, a atriz diz que sua família veio para o Brasil no século 19, onde um dos membros teve filhos com uma escrava, que foram levados para a França. Binoche lamentou o caso, dizendo que "nenhuma pessoa deveria ser escravizada. Nenhuma pessoa deveria ser usada. Se pudesse, pediria perdão a cada um desses familiares". E é por isso que a atriz gostaria de conhecer mais o país. Por isso ela aproveitou a estadia, mesmo curta, para comer uma feijoada caprichada e sambar na quadra da mangueira, e como se não fosse o suficiente, arriscou um jogo de capoeira.

Mas não deixou de comentar sobre situação política e seu desgosto com o nosso atual presidente, Jair Bolsonaro. "Para mim, um presidente que vem do universo militar já é uma coisa esquisita. Militares e políticos tão próximos... Isso me remete ao Trump". Ainda comentou sobre os casos de racismo, cometido por ele, "Ele [Bolsonaro] tem sido intolerante ao falar sobre mulheres, negros e índios. Você imagina que, supostamente, um presidente deveria representar todo mundo em seu país."

Esse ano, o filme Vidas Duplas foi exibido na retrospectiva de Olivier Assayas, na 43° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Agora Juliette Binoche já tem mais um trabalho concluído. The Truth (A Verdade, tradução livre), do diretor japonês Hirokazu Kore-eda, onde a atriz é filha de ninguém menos que Catherine Deneuve, outra grande atriz do cinema Francês. "Eu a assistia a seus filmes desde criança. Eu estou vivendo um belo conto de fadas atuando com essa atriz!", Afirmou Binoche. Ela também falou sobre seu trabalho com Kore-eda, "[Kore-eda] me remete ao Anton Tchékhov (dramaturgo e escritor russo, 1860—1904). Ele vê as pessoas tanto pelo lado sombrio quanto pelas suas partes iluminadas. Proporciona para cada um diferentes ângulos do que podemos ser".

Ao que parece, Binoche ainda está trabalhando em dois outros projetos. A nós, resta esperar pelo lançamento de The Truth, que promete ser uma grande produção, já que reúne um diretor e duas atrizes consagradas, e quem sabe mais um visita de Juliette Binoche em terras tupiniquins, o lugar onde ela aprendeu a sambar e jogar capoeira.

A entrevista foi dada a William Mansque, do Zero Hora.

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Postado por Tadeu Elias Conrado
6/12/2019 às 08h10

 
Uma crônica de Cinema

Era uma segunda-feira. Dia dezoito de agosto de dois mil e quatorze. Depois de um longo e cansativo dia de trabalho, decidi ir ao cinema, que me serve como remédio para qualquer mal. Tendo assistido quase tudo o que estava em cartaz, optei por 'Não Pare na Pista - A Melhor História de Paulo Coelho', que pelo título já se pode notar o assunto. Fui ao Cinemark e fiz o de sempre, comprei minha entrada e fui comer qualquer coisa para segurar o estômago até a hora em que eu poderia realmente jantar. Entrei na sala assim que foi liberada, para aproveitar os dez minutos de provável sossego. Passaram-se cerca de oito minutos e eu ainda era o único dentro da sala, eis que surge um sujeito, barba e cabelos compridos, quase um Raul Seixas. Sentou-se na mesma fileira em que eu estava e duas poltronas para o lado esquerdo. Ali ficamos, olhos atentos, um grunhido ou risada, hora ou outra. Éramos os únicos na sala e o filme era bom.

Depois de quase duas horas, o filme chegou ao fim. Nós olhamos e com um gesto, simples e rápido, agradecemos um ao outro pela ótima e tranquila sessão. Saímos então do cinema, com uma segunda-feira mais leve nas costas e na cabeça, um filme que fomos assistir juntos, mesmo sem saber.

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Postado por Tadeu Elias Conrado
14/10/2019 à 01h43

 
É cena que segue...

Cena do filme 'O Filme da Minha Vida', Selton Mello, 2017


Já se passaram dois anos desde que iniciei este blog, mas ainda me faço a mesma pergunta após cada sessão: Como escrever sobre esse filme? Muitas vezes me peguei ensaiando sobre a influencia do cinema em nossa realidade, ou o contrário. Outras vezes apenas dissertei sobre o que foi visto apenas como uma forma de entretenimento. Mas o que eu tive certeza em todo esse tempo (e muito antes disso) é que enquanto o cinema existir, hei de escrever sobre ele. Algumas vezes, terei mais sessões, quase dez por semana, em outras bastará uma ou duas, ou até mesmo nenhuma. Faz parte da vida de um cinéfilo.

Mas nem tudo que digo é verdade, tão pouco mentira. Cada espectador diante da tela grande assiste o seu filme. Desde Einstein poucas coisas podem ser definidas como certas ou erradas. Mas é fácil, também necessário, falar sobre o que amamos. O espectador se vê diante de um filme, como Tony Terranova olha para Luna em muitas das cenas de 'O Filme da Minha Vida', o amor é instantâneo, quer dure durante a sessão, quer passe por anos de reprises. Olhamos a tela do Cinema como se fosse uma janela. Nela vemos vida e histórias que anseiam por finais, mesmo que nem todos sejam felizes.

E foi dentro e fora da tela que nesses últimos dois anos vivi experiências incríveis. Conheci personagens e lugares sensacionais. Algumas vezes estive por ruelas estreitas em A Palestina Brasileira, outras em uma lanchonete perdida em alguma esquina de Vitória, sempre em boa companhia, com boas histórias para viver e contar. Foram festivais de cinema dos quais nunca imaginei participar, filmes que me trouxeram muitas surpresas e decepções. Mas é importante a análise de ambos os casos, é tudo uma questão de entendimento.

Aqui pode-se encontrar uma grande variedade de gêneros. Partimos de um bom western para aquele drama que acaba com um nó na garganta. Ou até uma típica comédia da sessão da tarde para um intenso Bergman. A Lanterna Mágica é exatamente aquilo que diz, breves comentários sobre a sétima arte, mas a questão persiste: Como escrever sobre esse filme?

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Postado por Tadeu Elias Conrado
14/7/2019 às 11h36

 
Um Certo Olhar de Cinema



Passei pela primeira edição do Olhar de Cinema por puro acaso. O filme foi Las Acacias, do diretor argentino Pablo Giorgelli (que também dirigiu Invisível, outro filme que mostra toda sua personalidade em fazer cinema). O interessante é que, por esse acaso ou coincidência, ali eu percebi a importância de festivais como esse de Curitiba. Uma coisa que sempre chamo a atenção em meus textos é o Cinema que temos poucas oportunidades de assistir. Filmes autorais e/ou marginalizados que não recebem a merecida repercussão, tão pouco a quantidade de sessões para que possamos conferí-los na tela grande. Assim como naquela primeira edição, em 2012, o Olhar de Cinema traz filmes inéditos e que já receberam aplausos em festivais fora do país. Esse ano não poderia ser diferente, chegando a sua 8ª edição, o Curitiba Int'l Film Festival promete muita coisa boa em seus 9 dias de evento.

Entre os dias 5 e 13 de junho Curitiba recebe um dos grandes festivais internacionais do país. Com filmes nacionais e internacionais, o evento ainda conta com atividades que vão além da sala de cinema, como bate-papo com a equipe de produção dos filmes e curtas que serão exibidos e debates sobre produção e mercado cinematográfico.

A Mostra Competitiva de Longas traz dez produções inéditas, entre elas as nacionais 'Casa' (da diretora Letícia Simões), filme que explora a relação pessoal entre a diretora e sua mãe, através de entrevistas, testemunhos e cartas, onde Letícia Simões busca transpassar sua geração com simplicidade. Chão (de Camila Freitas), documentário produzido durante quatro anos, onde a diretora acompanhou o cotidiano de um assentamento de Trabalhadores Sem Terra de Goiás, mostrando sua urgência e resistência. E Diz a Ela Que me Viu Chorar (Maíra Buhler), que acompanha um instituto que busca ajudar viciados em crack, caminhando entre o amor, esperança, decepções e sonhos de pessoas que buscam amenizar os danos causados pela droga. Já notamos que o Festival vai explorar visões intimistas de assuntos que precisam chegar a mais pessoas, seja por meio de experiências pessoais dos diretores, ou interpessoal.

Fora isso, ainda serão exibidos 9 curtas na mostra competitiva e mais longas e curtas-metragens nas mostras Novos Olhares e Outros Olhares. Você pode conferir todos os selecionados e a programação no site oficial do Olhar de Cinema, ou no app que já está disponível na AppStore e Google Play.

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Postado por Tadeu Elias Conrado
15/5/2019 às 21h03

 
Kleber Mendonça volta a Cannes com 'Bacurau'

Quando o assunto é Cannes, logo me vem ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, do grande Glauber Rocha. Pode parecer injusto com Nelson Pereira, que também estava lá naquele ano de 1964 com ‘Vidas Secas’ (filme que recebeu o prêmio paralelo do Ocic). Mas o que Glauber fez foi diferente. Diferente do filme de Nelson, Deus e o Diabo não vinha adaptado de algo já conhecido, ou seguia dramas ou clichês recorrentes do cinema. O que ele trazia era único, desconhecido até então. Era um filme com paisagem e trilha sonora completamente estranhas àquele ambiente. Era o estranho no ninho de Cannes, um dos festivais de cinema mais tradicionais do mundo. Após a sessão, alguns segundos após a sessão, se ouvia gritos e aclamações eufóricas. Lembrando que há 50 anos, Glauber levou o prêmio de melhor diretor no festival, com 'O Dragão da Maldade e o Santo Guerreiro'. Em 2012 um outro rapaz fez esse barulho lá fora. Não passou por Cannes ou algum desses lugares, mas foi aclamado como se o tivesse feito. Sempre nas lista dos 10 melhores filmes do ano, Kleber Mendonça Filho era o “algo diferente” do cinema com ‘O Som ao Redor’.

Assim que soube que Kleber Mendonça estava gravando um novo longa, logo o adicionei à minha lista de “filmes para assistir”. Não precisava saber o título ou sinopse. Depois de ‘O Som ao Redor’ e ‘Aquarius’, não precisaria de muito mais para esperar por um bom filme. Com “Aquarius”, em 2016, Mendonça foi o único latino a concorrer a Palma de Ouro, mais uma vez fazendo muito barulho. De volta a Cannes, ele apresenta ‘Bacurau’, nova produção que conta a história dos moradores de uma cidadezinha homônima que, após a morte de Dona Carmelita (a mulher mais velha da cidade), descobrem que o lugar onde moram está completamente fora do mapa. Dirigido em parceria com Juliano Dornelles, com quem já havia trabalhado em ‘Aquarius’, a nova produção tem potencial. Segundo Thierry Frémaux, diretor do festival, “É um filme extremamente político… É um filme que bebe na fonte dos filmes de cangaceiro”. Toda a sorte para Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, para nós, meros mortais, fica a vontade de assistir ‘Bacurau’ na tela grande, o que pode acontecer ainda em setembro deste ano.

Mas ‘Bacurau’ não é o único brasileiro que vai a Cannes esse ano. Na mostra Um Certo Olhar o filme do diretor cearense Karim Aïnouz, ‘A Vida Invisível’, será exibido. O filme conta com Fernanda Montenegro no elenco, o que já valeria o ingresso. A história se passa na década de 40, onde Eurídice Gusmão (interpretada por Carol Duarte) se esforça para se tornar uma musicista e sobreviver às responsabilidades da vida adulta e de um casamento sem amor. Já o diretor italiano Marco Ballocchio traz uma produção com parceria entre Brasil, Alemanha, Itália e França. Com cenas gravadas no Rio de Janeiro, ‘O Traidor’ é a biografia de um dos maiores mafiosos italianos, Tommaso Buscetta (Pierfrancesco Favino). O filme conta com Maria Fernanda Cândido no elenco.

Porém, vencer Cannes não vai ser nada fácil. Entre tantas obras, temos diretores como Pedro Almodóvar (com Dolor e Gloria), Terrence Malike (com A Hidden Life) e Xavier Dolan (com Matt & Max). Veja abaixo a lista de filmes que estarão no festival entre os dias 14 e 25 de maio:

Palma de Ouro

Dolor y Gloria (Pedro Almodovar)
O Traidor (Marco Bellocchio)
The Wild Goose Lake (Diao Yinan)
Parasite (Bong Joon-ho)
Young Ahmed (Jean-Pierre Dardenne & Luc Dardenne)
Oh Mercy! (Arnaud Desplechin)
Atlantique (Mati Diop)
Matt & Max (Xavier Dolan)
Little Joe (Jessica Hausner)
Sorry We Missed You (Ken Loach)
Les Miserables (Ladj Ly)
A Hidden Life (Terrence Malick)
Bacurau (Kleber Mendonça Filho & Juliano Dornelles)
The Whistlers (Corneliu Porumboiu)
Frankie (Ira Sachs)
Portrait of a Lady on Fire (Céline Sciamma)
It Must Be Heaven (Elia Suleiman)
Siby (Justine Triet)

Um Certo Olhar

A Vida Invisível (Karim Aïnouz)
Beanpole (Kantemir Balagov)
The Swallows of Kabul (Zabou Breitman & Eléa Gobé Mévellec)
A Brother’s Life (Monia Chokri)
The Climb (Michael Covino)
Joan of Arc (Bruno Dumont)
A Sun That Never Sets (Olivier Laxe)
Room 212 (Christophe Honoré)
Port Authority (Danielle Lessovitz)
Papicha (Mounia Meddour)
Adam (Maryam Touzani)
Zhuo Ren Mi Mi (Midi Z)
Liberte (Albert Serra)
Bull (Annie Silverstein)
Summer of Changsha (Zu Feng)
Evge (Nariman Aliev)

Fora da Competição

The Best Years of Life (Claude Lelouch)
Rocketman (Dexter Fletcher)
Too Old to Die Young (2 Episodes)(Nicolas Winding Refn)
Diego Maradona (Asif Kapadia)
Belle Epoque (Nicolas Bedos)

Special Screenings

Share (Pippa Bianco)
For Sama (Waad Al Kateab & Edward Watts)
Family Romance, LLC (Werner Herzog)
Tommaso (Abel Ferrara)
To Be Alive and Know It (Alain Cavalier)
Que Sea Ley (Juan Solanas)


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Postado por Tadeu Elias Conrado
19/4/2019 às 14h34

 
Nem só de ilusão vive o Cinema

Nos últimos dias São Paulo e Rio de Janeiro receberam a 24° edição do É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários. Durante dez dias viajamos por histórias passadas e atuais de diversos países. O festival ressalta a importância de uma dose de realidade no nosso dia a dia, nos ensinando através de relatos pessoais ou de um determinado grupo de indivíduos. Ainda mais, resgata na história fatos que parecem tão atuais, chamando nossa atenção para o que vem acontecendo no mundo.

Comecei o festival com 'Defensora', um documentário singular da diretora Rachel Leah Jones. Quando li o livro Inverno em Cabul, da escritora e jornalista Ann Jones, vi como era difícil uma mulher se posicionar no Oriente Médio. Pouco acreditava na existência de uma mulher como Lea Tsemel, personagem principal do doc. Advogada Israelense, ela defende palestinos há cinco décadas. Alguns deles são manifestantes não-violentos, militantes armados, fundamentalistas ou feministas, mas o que carregam em comum são as acusações de serem terroristas, mesmo quando não o são.

Meu desejo era assistir a todos os documentários. Mas seria impossível já que, infelizmente, não posso me dedicar ao cinema em tempo integral. Ainda assim consegui ver bons filmes, entre eles o excelentíssimo 'Estou me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar', de Marcelo Gomes, que ganhou Menção Honrosa ao final do Festival (o prêmio de melhor longa nacional ficou para Cine Marrocos, diretor Ricardo Calil). Um documentário extremamente importante, que reflete sobre a situação econômica do país e a opção de trabalho autônomo. 'Meu Amigo Fela', de Joel Zito Araújo, também é uma grande produção. O lado político de Fela Kuti é desconhecido por muitos, no documentário Joel Zito busca a essência desse personagem tão peculiar.

Também gostei bastante de 'A Beira', de Alison Klayman. Nesse dia fui ao cinema para ver o que desse tempo, não me decepcionei. Acompanhando Steve Bannon durante as eleições de 2018, a diretora consegue nos inserir nos bastidores da política mundial, dando voz a muitos pontos de vista. Nesse filme notei uma das coisas boas de documentários. Nada ali age como uma propaganda do populismo pregado por Bannon, a diretora dá vazão a outras vozes, no deixando pontos de vistas diferentes de fatos que fizeram parte de sua produção.

Mas devo admitir que minha surpresa veio com 'Marceline. Uma Mulher. Um Século.', de Cordelia Dvorák, entrei na sessão completamente desprovido da história da cineasta e escritora, se passaram os 58 minutos de exibição e tudo o que eu queria era mais algumas horas daquilo. É uma pena não ter competido pelo troféu de melhor doc internacional, o prêmio ficou para 'O Caso Hammarskjöld', de Mads Brügger, que não consegui ver por motivo de sala lotada.

Festivais como o É Tudo Verdade são extremamente necessários, ainda mais em tempos como os que estamos passando. Nem só de ilusão vive o cinema. É Tudo Verdade vem para nos dar aquela dose de realidade, reavivando os questionamentos que mudaram parâmetros no passado, e outros que precisamos mudar para o futuro. O trabalho de Amir Labaki e sua equipe é primoroso. Em época em que a cultura corre risco, é ainda mais difícil organizar um festival que não atrai a grande massa, mas como em outros anos foi feito um trabalho excelente, e que venham muitos outros.

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Postado por Tadeu Elias Conrado
15/4/2019 às 22h49

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