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Domingo, 3/1/2021
Blog de Anchieta Rocha
Anchieta Rocha

 
Meu avô

Vou me lembrar pra sempre das temporadas de meio de ano na fazenda de meus avós. Tinha vez, vovó pedia pra ir na venda, eu não gostava.

Todo dia, escuro ainda, meu avô levantava e pegava o cavalo. Montado, recebia a marmita e o agasalho das mãos de vovó. Só voltava no fim da tarde. Às vezes demorava.

— Meu filho, vai lá na venda e traz seu avô.

Tonto, os olhos teimando em ficar abertos, me via, baqueava. Podia estar no melhor da prosa, gesticulando, contando façanha. Abaixava a cabeça e me seguia.

Do tamborete da cozinha escutava o sermão de sempre. Não falava, não interrompia vovó, os olhos fixos na chama do tição de lenha.

Ela destampava a panela, vinha com uma tigela de caldo fumegante e punha na mesa. Ajeitava o xale e o coque e saía pra sala.

Muitas vezes, sem que ele percebesse, eu ficava por perto.

E aí começava. A discussão com o encarregado do curral que descuidava da ração dos animais, a mulher do retireiro reclamando da escola dos filhos, a demora pra receber as contas da última colheita. Ficava exaltado, movendo a colher no ar. Outras vezes permanecia em silêncio como que ouvindo o interlocutor, movendo a cabeça, concordando ou desaprovando.

Foram muitas temporadas na casa dos meus avós nas férias de meio de ano.

Eu gostava de tudo na fazenda. Só não gostava quando tinha que trazer vovô da venda. Chegava lá, ele me via, abaixava a cabeça e me seguia.

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Postado por Anchieta Rocha
3/1/2021 às 11h46

 
Cata-lata

Desde que chegou de Maravilhas, Tião não pôs o olho em mulher nenhuma. Viu Tonha, os amigos não perdoaram, desengonçada, não ligou.

Verão, estação das latinhas, fim do show no campo de futebol, ao atirar uma caixa de papelão no carrinho, errou a mão. A mulher praguejou. Acertar uma belezura dessa? — disse se desculpando. Ela acalmou, escondeu o sorriso atrás da manga, limpou o suor do rosto. Ele foi no carrinho, veio com uma garrafa e ofereceu um gole. Tão logo virou as costas, Tonha sumiu.

Do lado de fora do campo, os refletores apagados, Tião foi até ela, puxou conversa. Ajeitaram o que recolheram do show e desceram a rua juntos.

Debaixo do viaduto, esvaziando o carrinho, uma rajada de vento seguida de chuva mudou o tempo. Ele foi num monte de caixas e voltou com duas cobertas. Espalhando papelão no cimento, disse que o temporal ia demorar a dar trégua.

Com o tempo os companheiros acabaram aceitando Tonha. Conseguir um canto no vão do viaduto ao chegar do interior, foi difícil pra ele também. Nas primeiras noites ficava do outro lado do rio, debaixo da marquise, observando o movimento. Aos poucos, oferecendo gole, acendendo um foguinho, conversa mole, apanhou confiança.

Depois de alguns dias o céu abriu. Com o Pirata latindo no carrinho, os dois partiram pra buscar as coisas dela no depósito na Gameleira.

No que faltava um pedaço pra chegar, ele encostou. Do fundo do carrinho tirou uma toalha e sabonete. Ela não disse nada, fez cara feia e sentou no meio-fio.

Ele entrou no posto, o frentista apontou pros fundos.

Tião pôs a toalha e o sabonete no latão e ficou de short.

O frentista chegou, abriu a torneira do tanque, espichou a mangueira e deu uma esguichada nele. Tião começou a cantar e os lavadores caíram de gozeira. Passado um pouco, fez sinal pro cara baixar a mangueira e deu uma ensaboada. Mais uma esguichada, pegou a toalha, enxugou e vestiu a roupa.

Aquele filho de Deus era o único que fazia uma caridade daquela. Tinha vez, fazia um carinho no Pirata.

Na volta Tião encontrou Tonha, cara amarrada, a mão na barriga. No canteiro do posto, uma roda de vomito que Pirata cheirava. Disse que achava que estava prenha, a regra estava tardando, e que uma mulher na Cabana tirava.

Ele assobiou, Pirata pulou no carrinho.

Chegando no depósito, ela diminuiu os passos e baixou a cabeça. Tião achou que ela ia botar pra fora de novo.

— Alá ele.

— Ele quem?

— O que eu morava com ele. — Disse ainda que era melhor Tião ir embora que o sujeito era dos ruim e que sempre carregava uma faca.

O cara parou perto dos dois e com um safanão afastou Tonha. Tião partiu pra cima. Com um chute desarmou o cara, chutou a faca pra longe e pôs toda a raiva na mão.

De tardinha já estava do outro lado da cidade. Tinha que sumir por uns tempos.

Numa tarde de sábado, catando latinha num comício, ele levanta a cabeça e dá com Tonha.Ela fez que ia embora.

— Que pressa é essa, é o peste?

— Que peste? É sua filha, tá na hora dela mamar.

Tião caiu de joelhos e cravou os cotovelos no chão. A primeira coisa que passou na cabeça foi levar Tonha e a menina pra debaixo do viaduto e em seguida correr pro posto de gasolina e dar um abraço, um abraço apertado no cara que esguichava a mangueira nele.

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Postado por Anchieta Rocha
1/12/2020 às 16h19

 
Três tempos

Eu tenho três mudas de roupa de cama. Uma pra faculdade no fim de semana, outra pra casa e a terceira pra roça onde dou aula. Minha aflição de noite é acordar e não saber em que lugar estou. Tem vez que levanto, me assusto com as sombras, volto pra cama, o sono tarda. As estradas passando debaixo da Kombi não me saem da cabeça. Já falei que no dia em que estiver com o diploma na mão, eu não quero saber de mais nada. Vou trabalhar num banco ou numa repartição. Nunca pensei em ser professora. Quando vi já estava dando aula. Cada sala de aula, uma, nem mesa pra assentar. E quanto mais no mato pior. As coisas mais tristes, igual numa escola dum lugarejo onde eu tinha que botar comida na boca dum menino pequeno que a irmã levava pra aula porque eles não tinham ninguém no mundo.

Eu falo que não aguento mais, só na hora da raiva, depois esqueço. Tem coisas que dão no nervo: a notícia dum aluno que larga da escola pra panha do café, ou a menina na TV pegando errado no lápis.

Tudo começou ainda de pequena na fazenda dando aula pras bonecas de palha que eu fazia. Até esquecia de comer. Tinha vez, mamãe aparecia com um prato dum agrado dizendo pra soltar as crianças pro recreio. Todo dia eu sentava, fazia a chamada, passava um pito num e noutro e começava. A aula que assistia de manhã, eu repetia pra elas. Os nomes eram os mesmos dos meus colegas.

No ginásio comecei a dar reforço pros irmãos e pros vizinhos. Quando vi estava terminando o magistério. Mas o pior foram as viagens pra faculdade. Num fim de semana a Kombi estragou e a gente ficou um tempão esperando socorro. Se chovia forte, a estrada virava um mingau, as ribanceiras, só Deus. Tinha vez, se não descia pra empurrar, passava a noite na estrada. Um dia na subida da serra perto de onde o padre Júlio Maria morreu, o barranco veio abaixo, por pouco não pega a Kombi.

Na faculdade, era a conta de chegar e engolir um lanche. Depois da aula a sala virava dormitório. A turma amontoava as carteiras nos cantos e espalhava os colchões. No sábado, o dia inteiro, as horas custavam a passar. Voltava pra casa, batia na cama e não via mais nada. No domingo, a mãe, agrado e carinho. O pai, apesar da resistência — não queria que eu fizesse faculdade, lugar de mulher é em casa, sempre dizia —, entendia a minha obstinação e mesmo carrancudo não deixava de me olhar com ternura.

No primeiro dia de aula na roça, na hora de dormir, jurei que não ficava naquela escola: a sala de chão batido, as carteiras sem encostos, nem quadro direito. Ali eu não botava mais os pés. Na hora de voltar pra casa pra pegar a Kombi pra faculdade na sexta-feira, um aluno que não tinha falado nada desde o primeiro dia, nem com os colegas, chegou perto, tocou o meu braço, perguntou: “Televisão é bonito, professora?” Eu sentei no ônibus, baixei a cabeça, fiquei com raiva de mim e jurei que nunca ia abandonar os meninos.

Todo ano é a mesma coisa: os rios enchem, transbordam os açudes, as jabuticabas estufam. As crianças entram na escola, afeiçoam-se a mim, trazem flores do mato, me abraçam, desaparecem duma hora pra outra. Chegam outras ocupando os lugares das que foram, tudo tão transitório, tão rápido. Eu não sei quando isso tudo vai acabar, se vai acabar.

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Postado por Anchieta Rocha
12/9/2020 às 16h10

 
Vida de boy

Toda noite chego da aula, pego o prato no forno, levo pra sala e fico vendo televisão até mamãe chamar, filho, vai deitar, está tarde. Entra semana, sai semana, entra mês, sai mês, todo dia a mesma coisa. Estudo, trabalho, o dinheiro não dá pra comprar uma roupa decente. Ando sem parar, pego fila de banco, de correio, corro atrás de ônibus o tempo todo. O pior é de noite no colégio. Me esforço pra não dormir, não tem jeito. Até na hora do intervalo dá pra levar. Depois é uma luta pra ficar acordado. Eles acham que a gente dorme por desinteresse. As aulas de biologia são boas, a matéria pesa pro vestibular, debruço na carteira, não tem jeito. Um dia a turma me sacaneou. Saiu todo mundo em silêncio, apagaram a luz e ficaram de longe, esperando. A faxineira chegou e me cutucou.

Turma legal a minha. Dá de tudo: ajudante de pedreiro, trocador, auxiliar de escritório, manicure e um cara muito estranho que trabalha na escola de medicina, na sala onde ficam os cadáveres. Me contaram que quando corta os órgãos pros alunos, ele morde a língua de cacoete. O Luiz, gente boa, eles gozam muito. Durante o tempo em que a professora de história está na sala, ele fica se alisando debaixo da carteira. Com as meninas eu não consigo nada. Não sei se é porque sou tímido, ou porque não sou bonito. Feio de todo também não sou. Tem cara que vai chegando e falando, com assunto pra tudo, pra toda hora. Falam umas coisas sem graça e todo mundo ri. Fico num canto olhando, encolhido feito um caracol, coçando a cabeça ou assobiando, fingindo que está tudo bem, que estou numa boa. No fundo fico doido pra ser diferente. Será que tem cara que nem eu, cismado com tudo?

Chega sábado é legal. Largo o serviço ao meio-dia e corro pra casa. Almoço, descanso um pouco e caio na rua. Bato perna no bairro, encontro um e outro e quando vejo o dia acabou. É no sábado que acho que alguma coisa vai acontecer. Imagino uma menina, a gente acabou de dançar. Caminho com ela pro jardim e digo uma coisa do tipo faz tempo que não vejo uma noite tão bonita. Eu só fico imaginando a cena de sábado. Nada acontece. Nada muda. Não sei se é porque sou sonhador ou é porque a gente vê isso nos filmes e nas novelas.

Chega domingo, acordo tarde, almoço e de tardinha baixa a tristeza. Do fim de domingo ninguém escapa. Não acho resposta pra muita coisa. Às vezes mamãe fala pra sair quando me vê parado, pensativo.

E assim vai passando o tempo. Todo dia, toda semana, entra mês, sai mês, o mesmo de sempre. Nada de novo acontece. O negocio é inventar qualquer coisa pra mudar o rumo da vida, sem nada a ver, sem muita explicação. Uma vez eu estava viajando de ônibus numa estrada longa e deserta. Na frente ia um caminhão que começava a fazer ziguezague nas duas pistas e depois de algum tempo voltava a seguir normalmente. Passava um pouco, fazia o mesmo. Foi assim até que eu virei prum sujeito de meia idade sentado ao meu e lado e perguntei por que o motorista fazia aquilo. Ele ficou pensativo e depois de algum tempo respondeu que achava que o cara fazia aquilo pra acabar com a monotonia da viagem.

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Postado por Anchieta Rocha
21/2/2020 às 10h15

 
Quando estive em Hollywood

Fiquei puto comigo porque perdi a menina prum amigo. Fiquei puto porque eu tinha que ser como os caras nos filmes. Tinha que fazer que nem o William Holden no Férias de Amor, num feriado, num tempo em que as pessoas faziam piquenique.

Saltando dum trem de carga numa cidade do interior, fazendo bico, limpando quintal, flertou com a Kim Novak na varanda da casa ao lado. De noite, fim de festa, a orquestra tocando Moonglow, os violinos nas notas agudas arrepiando a nuca, marcando a música com o estalar dos dedos, sem ninguém entender nada, roubou a moça do ricaço da cidade.

Num domingo à tarde fui com três amigos conhecer a BR-3. Nunca tinha visto uma rodovia asfaltada, só em filme. A BR-3 era a coisa mais bonita. Viajava de trem, em estradas poeirentas, esburacadas, os ônibus sacolejando o tempo todo.

Do Centro pegamos carona com um cara que tinha um sítio em Água Limpa. Descemos na Lagoa Seca, o paredão da Serra do Curral logo na frente. Bonito ficou quando o sol avermelhou pros lados de Betim.

— A reta da estrada tem que aparecer — eu disse pro vendedor de laranja ao receber a Kodak Caixote do Beto.

Todo mundo fazendo pose, me lembrei duma foto que tinha saído no Cruzeiro, o James Dean num dia chuvoso, encolhido de frio, as mãos enfiadas no bolso do sobretudo, a gola até o queixo, franzindo a sobrancelha como costumava fazer. Apesar do calorão danado, eu levantei a gola da camisa, botei um cigarro na boca, comprimi os olhos como ele e esperei o clique da máquina.

Em casa de noite minha irmã veio: “Andar o dia inteiro, subir e descer morro pra ver uma estrada?”

Eu tinha estado em Hollywood. Ela não entendia. Ela nunca ia entender.

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Postado por Anchieta Rocha
9/1/2020 às 22h29

 
Hemingway

Numa noite depois de ler a última página de Paris é uma Festa, fiquei pensando no Ernest Hemingway. Durante a Segunda Guerra Mundial, aprontando mais uma, possivelmente pilotando seu barco Pilar, o escritor e amigos saíram à caça de um submarino alemão que navegava no Caribe. Fiquei sabendo de muita coisa da vida dele. Ava Gardner, tesão de mulher, foi passar uma temporada em sua casa em Havana. Numa noite quente e azul, nua, mergulhou em sua piscina. Quando foi embora, esqueceu ou propositadamente deixou uma calcinha no quarto de hóspedes. Ele recolheu a peça que abrigara a coisa mais, mais — apertando-a contra o peito, não encontrando palavras —,envolveu-a com o revólver e a partir daquela noite nunca deixou de dormir com ela debaixo do travesseiro. Bagunceiro, brigão, mulherengo, gostava de rinha de galo, de boxe, soltava foguete, arrumava confusão com os vizinhos e tomava umas com Fidel. Li alguns livros dele. Gostava mais de sua vida. Tinha mais arte.

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Postado por Anchieta Rocha
24/12/2019 às 13h11

 
Escritor

Um dia, entrando na rua Erê, de volta da escola, lembrei que minha irmã tinha falado que o Cyro dos Anjos morava ali e que sempre passava em frente de nossa casa.

Já era famoso, fiquei curioso, com vontade de conhecer, conhecer não, conversar com ele. Conversar sobre o quê? Não teria assunto. Morria de vergonha de tudo.Mas eu não estava cansado de saber que um escritor, um artista não eram igual a todo mundo? Não estava acostumado a ver os jogadores de futebol, famosos como o Pampolini, que eu via de perto, no Campo do Cruzeiro, toda hora dando entrevista, aparecendo nos jornais? Os artistas que via na Rádio Inconfidência, quando Lurdinha, nossa vizinha, doida pra ser cantora, levava a gente aos ensaios, e com isso eu acabava ficando perto dos artistas, tudo de fora, o Alcides Gerardi, o Anísio Silva e até o Gregório Barrios de uma vez que veio cantar em Belo Horizonte? Não tinha o Guignard, famoso no Brasil inteiro que dava aula pro pessoal debaixo das árvores no Parque Municipal? E o boêmio do Rômulo Paes, popular na cidade, todo ano com uma música pro carnaval , sempre no Café Palhares tomando umas?

O escritor é outra história.

Você vê um cara cantando, uma bailarina, um ator de frente pro público. Faz sentido um escritor puxar uma folha de papel e começar a escrever na sua frente?

Um outro artista — o regente de orquestra. De costas para a plateia sabe que lá em baixo pode ter alguém que naquela hora está pensando na pessoa que ama, ou outro que está com o coração apertado, que não aguenta mais porque nunca amou.

Nunca vou querer ser escritor. Escrevo alguma coisa de vez em quando, uns poemas pra passar o tempo, tranco na gaveta pra ninguém ver. Ficar horas e horas na frente de um papel, numa solidão danada?

Eu nem sei por que escrevi isso. Tudo por causa do Cyro dos Anjos, sempre solitário. Taí, O Solitário da Rua Erê, pensei, até dá título de romance. Não sei nada da vida dele, nunca li uma linha do que escreveu. Passa sempre na nossa rua, com um livro debaixo do braço — talvez até minhas irmãs suspirem.

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Postado por Anchieta Rocha
2/12/2019 às 10h53

 
Um e outro

A primeira cacetada foi no dia em que abri um livro do Fernando Pessoa.

O que mais prende um leitor a um escritor é a identificação. Muita gente pode dizer que se identifica com o poeta português, com Drummond, com tantos outros. No dia em que o Fernando Pessoa caiu na minha mão, eu virei ele, completamente ele, pelas circunstâncias da minha vida, uma pessoa a poucos passos de aniquilamento, frágil, procurando a todo custo encontrar um caminho, não tendo a menor ideia aonde chegar: “Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens/ Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta.”

A segunda cacetada, Trópico de Câncer, na mesma ocasião. O livro do Henry Miller me pegou pela crueza de linguagem e desordem da narrativa. Sempre me vem à memória a fala do autor ao lado da amante dormindo, com o foco de uma lanterna em sua vagina, divagando sobre sexo, prazer, amor, maternidade. Reflexão e encantamento com o centro e princípio de tudo.

Tinha hora que o poeta e o romancista se embolavam na minha cabeça, e numa bagunça boa eu ia conduzindo os dois. Um, exageradamente pueril, metafísico; o outro, mundano, irreverente. Conviviam e se harmonizavam. Quando me deparava com o americano irado chegando do submundo de Paris, o português me conduzia pacificamente em seu Chevrolet pela estrada de Sintra. E durante muito tempo permanecíamos em intermináveis diálogos nos bancos dos parques, nos assentos das conduções, em meu quarto, varando madrugadas.

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Postado por Anchieta Rocha
1/11/2019 às 11h04

 
Mãe

Início do meu romance Até Breve Mamãe (Páginas Editoras) a ser lançado amanhã.

Mãe,

A aula mal começou, a universidade já está em greve. E pior, o restaurante dos estudantes está fechado, e a comida na cidade é cara. Eu não queria falar nisso, a senhora já tem muito problema. Não esquenta, eu me viro. Lembra do fogareiro que pôs na mala na hora em que eu estava saindo? Está ajudando muito. Quando o negócio aperta, eu quento uns ovos, faço um macarrão e vou levando. As aulas podem não voltar logo, mas as pessoas da cidade ajudam a gente. Ontem mesmo comi na casa de uma mulher que falou que se a greve demorar a acabar, eles vão dar cesta básica pros alunos carentes que não podem ir pra casa. A viagem pra cá durou dois dias e meio. Não sei quando vou ver a senhora de novo. Deixa melhorar, eu junto um dinheiro e vou te visitar. E o pai deu notícia? E a Selminha, o menino vai nascer quando? O cara vai assumir ou não? Essa minha irmã desde pequena eu achava que ia dar trabalho.

Estou começando a ganhar dinheiro trabalhando com entrega de lanche. É de moto, mas a senhora não precisa ficar preocupada. Aprendi a “muntar”, como dizem os mineiros. Vai estranhar também um universitário num emprego desses. Aqui é comum encontrar pessoas formadas ocupando os mais variados tipos de serviço que nada têm a ver com o que estudaram. Outro dia mesmo conheci um taxista agrônomo. Todo mundo estuda. As duas filhas da faxineira da minha lanchonete fazem doutorado.

Não tenho carteira ainda, por isso rodo mais de madrugada por causa da polícia. Ganho pouco por corrida — “depois que você se habilitar eu te pago mais” — fala o patrão. Parece que ele gosta de mim. De vez em quando ganho uma gorjeta. Outro dia mesmo ganhei uma boa de um estudante, vou muito na casa dele, mas ele cheira a noite toda e põe o som na maior altura. Uma vez perguntou se eu queria ganhar uns trocados pra trazer umas encomendas. Desconversei logo que vi que era fria.

O alojamento eu não acho ruim, mas aqui em Viçosa faz um frio de rachar. Em algumas manhãs quando vou pra aula e que vejo as árvores e as montanhas, é até bonito. Parece que é noutro país, daqueles que aparecem nas gravuras das folhinhas, tudo branquinho por causa da neblina. Na universidade tem gente de tudo quanto é lugar. O alojamento das meninas é longe pra não ter galinhagem. O ruim do nosso é que às vezes é uma bagunça, principalmente nos dias de jogo. Os caras vestem as camisas dos times e ficam tocando corneta. Zorra mesmo é quando acaba a luz. É até gozado. Eles mexem com as pessoas do outro lado da represa. As meninas eles chamam de piranha e os homens de veado. É só pra passar o tempo, porque aqui todo mundo é do bem. Mas tem hora que é triste, mãe, muito triste. Dá vontade de chorar. Tem hora que dá medo. Medo de tudo. Às vezes acontece cada uma, igual semana passada que encontraram o corpo de um estudante boiando na lagoa, na frente do alojamento. Eles falam que foi suicídio. Aí a coisa aperta. No Natal foi pior. Quando chegou de noite, as luzes de enfeite dos prédios tudo piscando, a gente imaginando as pessoas lá dentro conversando na maior alegria, música vindo de tudo quanto é canto, e eu lembrando, criança ainda, o pai vivendo em casa, tudo bom, tudo feliz naquele tempo, e a turma aqui, um silêncio de endoidecer no alojamento, uma chuva miúda caindo, e nós enchendo a cara (não precisa esquentar — foi só no Natal) porque tem hora que o estômago dói, mãe, não é de fome, é de saudade. De saudade e de solidão também. Eu sei que não devia dizer essas coisas, desculpa, eu não tenho mais ninguém pra contar o que pega fundo. A senhora tem minha irmã aí. Mesmo desmiolada serve de companhia, uma vai encostando na outra. Já escolheram o nome do netinho? Ela quer menino ou menina?

Pra terminar e não falar só de coisa ruim, tem uma menina aqui, Lúcia, eu estou a fim dela. É da Nutrição, do tipo que qualquer sogra ia gostar: meiga, simples. Mora no alojamento também. Em algumas noites — e as daqui são bonitas, dá pra ver o céu de um lado ao outro da cidade —, a gente vai pro campus e conversa muito tempo sentado na grama. Outro dia, o friozinho chegando, joguei minha jaqueta nas costas dela e ficamos. De repente, uma estrela arranhou o céu e caiu lá pros lados dos eucaliptos. Lembra, eu pequeno, a senhora falando que quem via estrela cadente dava verruga nos dedos? A bênção, mãe.

Lançamento: dia 10/11, sábado, a partir de 11 horas, Livraria Quixote, Rua Fernandes Tourinho, 274, BH.

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Postado por Anchieta Rocha
9/11/2018 às 14h22

 
Cabeças Cortadas

Ele queria melhorar o seu padrão de vida. Palavreado este que não usava quando conversava com os que, como ele, viviam do lixo que catavam e vendiam. Alguns de seus colegas trabalhavam no outro lado da cidade, na Savassi, na Serra, no Santo Antônio, bairros de moradores de alto poder aquisitivo. Não queria ficar marcando passo na periferia a vida inteira. Tinha conversa boa e algum estudo.

Nas reuniões da associação dos catadores muito se conversava sobre como chegar no topo, ou seja, o acesso a lixo farto e rentável. O ano terminando, a coleta aumentando, seria uma boa ocasião pra fazer mais dinheiro. Ninguém, entretanto, sem mais nem menos, invadia a área de um colega. Cada um possuía o seu território.

Foi então que conheceu Chico, mais velho, mais experiente: “você precisa ver, ainda mais agora no fim do ano quando as pessoas começam a trocar as coisas e botar fora as velhas. O negócio é ir entrando no bairro grã-fino com jeito, devagarinho, te explico.” E foi falando. Contou várias histórias. Contou que no último Natal ele chegou no lixo dum prédio de apartamentos na Serra, deu um sai-pra-lá num cachorro que mastigava qualquer coisa e pegou uma sacola com arroz de forno, pedaços de peru com farofa, meia garrafa de vinho, papel brilhante e bolas de enfeite. Correu pra casa, acordou a mulher e os meninos, enfeitaram a mesa. “Acha cada coisa lá no alto, você precisa ver”, completou.

Depois da conversa com Chico, começou a preparar pra se mudar. Deu uma pintura no carrinho, trocou as tiras de pneu das rodas, passou graxa nos eixos pra parar com a chieira.

Na última cata, na véspera de mudar, ao virar uma caixa de papel no chão espalhando o lixo, perdeu o fôlego ao ver o retrato de um casal sem as cabeças. Ele e a esposa. Ela sim. Por mais que andasse variando por causa da bebida não tinha dúvida. O vestido também, estampado, tudo longe na memória. Namorados ainda, no clube do bairro. Assentado no meio-fio, aos poucos foi rememorando o passado. Buscou dias, datas, momentos, coisas adormecidas.

Todo sábado levantava tarde, tomavam café, vestia uma bermuda, entrava no bar e bebia com os amigos do bairro. Naquele sábado foi diferente. Não voltou pra casa pro almoço. Não voltou pra casa pro jantar nem pra dormir. Não voltou pra casa nunca mais.

Naquele sábado bebeu muito. Bebeu além do que costumava beber. Entrou no bar, arredio, os amigos estranharam, diferente de quando sentava com eles e iam: purrinha valendo bebida, conversa sobre o que acontecia no bairro, sobre política e futebol. Naquele dia foi prum canto. Os amigos insistiram, não deu conversa. Bebeu uma atrás da outra.

Caminhou muito antes de entrar no bar. Percorria as ruas do bairro buscando na memória os momentos felizes que tinham vivido. Namoraram, ficaram noivos, casaram, a festa no clube do retrato. Com o tempo, a paixão perdeu força.

O desleixo no cabelo, cada vez mais seca, nunca mais a de antes, tinha dito na véspera que ia embora da cidade, que precisava dar um tempo.

Depois que viu o retrato cortado ao meio, ele começou a fazer um negócio que pelo menos alivia: quando percebe que vai fraquejar, corre pro latão no quintal e enfia a cabeça na água fria e fica. Volta pro quarto, senta na cama, espera passar e começa a pensar. Se num dia sentir que não vai dar, ele mergulha a cabeça e fica esperando as borbulhas, esperando ver até aonde vai, até não ver mais nada, até acabar tudo.

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Postado por Anchieta Rocha
2/11/2018 às 23h32

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