O óbvio ululante, de Nelson Rodrigues | Rafael Rodrigues | Digestivo Cultural

busca | avançada
39901 visitas/dia
1,6 milhão/mês
Mais Recentes
>>> SÁBADO É DIA DE AULÃO GRATUITO DE GINÁSTICA DA SMART FIT NO GRAND PLAZA
>>> Curso de Formação de Agentes Culturais rola dias 8 e 9 de graça e online
>>> Ciclo de leitura online e gratuito debate renomados escritores
>>> Nano Art Market lança rede social de nicho, focada em arte e cultura
>>> Eric Martin, vocalista do Mr. Big, faz show em Porto Alegre dia 13 de abril
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Obra traz autores do século XIX como personagens
>>> As turbulentas memórias de Mark Lanegan
>>> Gatos mudos, dorminhocos ou bisbilhoteiros
>>> Guignard, retratos de Elias Layon
>>> Entre Dois Silêncios, de Adolfo Montejo Navas
>>> Home sweet... O retorno, de Dulce Maria Cardoso
>>> Menos que um, novo romance de Patrícia Melo
>>> Gal Costa (1945-2022)
>>> O segredo para não brigar por política
>>> Endereços antigos, enganos atuais
Colunistas
Últimos Posts
>>> Lula de óculos ou Lula sem óculos?
>>> Uma história do Elo7
>>> Um convite a Xavier Zubiri
>>> Agnaldo Farias sobre Millôr Fernandes
>>> Marcelo Tripoli no TalksbyLeo
>>> Ivan Sant'Anna, o irmão de Sérgio Sant'Anna
>>> A Pathétique de Beethoven por Daniel Barenboim
>>> A história de Roberto Lee e da Avenue
>>> Canções Cruas, por Jacque Falcheti
>>> Running Up That Hill de Kate Bush por SingitLive
Últimos Posts
>>> Saudades, lembranças
>>> Promessa da terra
>>> Atos não necessários
>>> Alma nordestina, admirável gênio
>>> Estrada do tempo
>>> A culpa é dele
>>> Nosotros
>>> Berço de lembranças
>>> Não sou eterno, meus atos são
>>> Meu orgulho, brava gente
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Vamos comer Wando - Velório em tempos de internet
>>> Cinema em Atibaia (IV)
>>> Curriculum vitae
>>> Entrevista com Milton Hatoum
>>> Discutir, debater, dialogar
>>> Eu e o Digestivo
>>> A lei da palmada: entre tapas e beijos
>>> A engenharia de Murilo Rubião
>>> Qualidade de vida
>>> O pior cego é o que vê tevê
Mais Recentes
>>> Teoria Geral Do Processo de Candido Rangel Dinamarco pela Malheiros Editores / Juspodivm (2008)
>>> Chekisty Historia Da Kgb de Dziak, John J, pela Imago (1998)
>>> Principios Basicos Do Saneamento Do Meio de Anesio Rodrigues de Carvalho pela Senac (2005)
>>> Aprenda Inglês Sem Mestre de Maria margarida morgado pela Presença (2009)
>>> Mestre Kim - Cidadão do Mundo de Yong Min Kim e Janir Hollanda pela Daedo (2016)
>>> Livro de Ouro do Yoga de Andre De Rose pela Ediouro (2019)
>>> O homem mais rico da Babilônia de George S Clason pela HarperCollins (2020)
>>> A Mesa com Carybé. O Encantamento dos Sabores e das Cores da Bahia de Solange Bernabó pela Senac Nacional (2007)
>>> Os Contos de Beedle, o Bardo de J. K. Rowling pela Rocco (2008)
>>> Regulamentos de Tráfego Aéreo - Vôo Visual de Plínio Jr pela Asa (1996)
>>> Chronos: Viajantes do Tempo Volume I de Rysa Walker pela Darkside (2017)
>>> Homem-Aranha: Tormento de Todd McFarlane pela Panini Comics (2013)
>>> Os Maiores Clássicos do Homem-Aranha - Vol. 5 de Todd McFarlane pela Panini Comics (2007)
>>> Os Maiores Clássicos do Homem-Aranha - Vol. 6 de Todd McFarlane pela Panini Comics (2007)
>>> Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século de Italo Moriconi (seleção) pela Objetiva (2001)
>>> O Casamento de Nelson Rodrigues pela Nova Fronteira (2016)
>>> O Colecionador de Borboletas de Cecília Mouta pela Novo Século (2012)
>>> O Modelo Toyota: 14 Princípios de Gestão do Maior Fabricante do Mundo de Jeffrey K. Liker pela Bookman (2005)
>>> Ela Que Não Está de Daniel Senise pela Cosac & Naify (1998)
>>> Anjos da Neve de James Thompson pela Record (2013)
>>> Assistentes Virtuais Inteligentes e Chatbots de Leôncio Teixeira Cruz pela Brasport (2018)
>>> Linguagem Do Corpo. Beleza E Saude de Cristina Cairo pela Mercuryo Jovem (2007)
>>> Todos Os Nomes de José Saramago pela Planeta Deagostini (2003)
>>> Oliver Twist de Charles Dickens pela Principis (2019)
>>> Cozinha Mágica de Márcia Frazão de Marcia Frazão pela Prestigio (2007)
COLUNAS

Sexta-feira, 2/11/2007
O óbvio ululante, de Nelson Rodrigues
Rafael Rodrigues
+ de 27800 Acessos
+ 2 Comentário(s)

A decisão de escrever uma resenha sobre O óbvio ululante (Agir, 2007, 448 págs.), de Nelson Rodrigues, foi tomada assim que iniciei a leitura do livro. Os textos que o compõem, uma seleção da coluna "Confissões", publicados no jornal O Globo entre 1967 e 1968 (mais duas crônicas publicadas na coluna "Memórias", no Correio da Manhã, em 1967), são exemplos de que um escritor pode, sim, ser engraçado, melancólico, irônico e crítico ao mesmo tempo, em seus textos. A impressão que se tem, ao ler as crônicas de O óbvio ululante, é a de que no mesmo momento em que há esperança, não há por quê lutar. É como se um boxeador pedisse para seu treinador jogar a toalha, mas não a deixasse tocar o chão e voltasse à luta logo em seguida. Simplesmente incrível e inacreditável. Para tanto, é necessário ser gênio. E poucos podem ser considerados gênio. Nelson Rodrigues pode.

Ao avançar a leitura, um problema começou a se desenvolver. Como resenhar um livro que tem parágrafos e mais parágrafos merecedores de citação sem ficar angustiado por não poder citá-los todos? Afinal, é uma resenha, não uma reprodução do livro.

Difícil. Ainda mais quando lemos algo assim:

"O trágico da nossa época ou, melhor dizendo, do Brasil atual, é que o idiota mudou até fisicamente. Não faz apenas o curso primário, como no passado. Estuda, forma-se, lê, sabe. Põe os melhores ternos, as melhores gravatas, os sapatos mais impecáveis. Nas recepções do Itamaraty, as casacas vestem os idiotas. E mais: - eles têm as melhores mulheres e usam mais condecorações do que um arquiduque austríaco."

Isso foi escrito há 39 anos, minhas senhoras e meus senhores. 39 anos! E, nesse caso, Nelson fala do idiota que, segundo o Houaiss: "diz-se de ou pessoa pretensiosa, vaidosa, tola". Ele tinha razão quando escreveu a crônica e continua tendo hoje.

As crônicas reunidas no livro não se limitam à crítica social. Nelson Rodrigues faz comentários sobre amigos (Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino, Vinicius de Moraes, entre outros), literatura, política, futebol e, é claro, sobre si mesmo. Aliás, dizer que Nelson escrevia "sobre si mesmo" é uma redundância, pois ele consegue, como ninguém, colocar-se inteiro em tudo que escreve, mesmo que aparentemente não esteja lá, no texto. Nelson Rodrigues não escrevia por escrever, ou para ganhar dinheiro (ele ganhava dinheiro com o que escrevia, o que é totalmente difentente de escrever para ganhar dinheiro). Nelson Rodrigues escrevia porque tinha de escrever. Porque precisava disso para manter-se vivo.

É mesmo impressionante como ele conseguia, em uma única crônica, falar sobre tantos assuntos. Em "Na escola pública, minha merenda foi uma só, imutável: - banana", Nelson começa falando sobre um amigo erudito: "E eu fico a resmungar, na irritação da minha impotência: 'Como sabe, como lê, como cita!'" Em seguida, faz uma crítica a essa obsessão do amigo pelo conhecimento ou pela quantidade de saberes: "Por tudo que sei da vida, dos homens, deve-se ler pouco e reler muito. A arte da leitura é a releitura." Depois, faz piada: "Certa vez, um erudito resolveu fazer ironia comigo: perguntou-me: 'O que é que você leu?' Respondi: 'Dostoievski.' Ele queria me atirar na cara os seus quarenta mil volumes. Insistiu: 'Que mais?' E eu: 'Dostoievski.' Teimou: 'Só?' Repeti: 'Dostoievski.' O sujeito, aturdido pelos seus quarenta mil volumes, não entendeu nada." E ensina: "Mas eis o que eu queria dizer: pode-se viver para um único livro de Dostoievski".

Linhas depois, Nelson lembra da infância, tema recorrente em suas "Confissões". É quando ele fala da banana que levava todos os dias para a escola, como merenda. E de quando ele teve vergonha da merenda. "No terceiro dia [de aula], comecei a ter vergonha da banana. (...) Ao mesmo tempo que me envergonhava da banana, tinha-lhe pena. Pena da banana. De vez em quando, faltava dinheiro em casa. Banana custava um vintém. E eu ia para a escola sem merenda. Na hora do recreio, rodava pelo pátio, errante e perdido de fome."

O tempo de escola não traz muitas boas lembranças a Nelson Rodrigues. E, arrisco dizer, talvez venha daí, desse tempo, a crueldade de boa parte de suas narrativas. Sua professora era terrível, uma megera que o fazia passar as mais variadas humilhações na frente de todos os colegas. Como no dia em que grita, diante de toda a classe: "Eu sabia! Eu sabia! Tem piolhos, lêndeas!"

Mais conhecido pelas peças e contos polêmicos (alguns ainda chamam seus textos de "amorais"), Nelson Rodrigues era, no fundo, um romântico: "Tudo é falta de amor. O câncer no seio ou qualquer outra forma de câncer. É falta de amor. As lesões do sentimento. A crueldade. Tudo, tudo falta de amor." Um homem que não tinha vergonha de sua sinceridade nem de sua própria história. Nelson não deixava de falar o que quer que fosse, de quem quer que fosse. Criticava e elogiava, sem demagogia, sem troca de favores.

Considerado por muitos como o maior dramaturgo da história do teatro brasileiro, Nelson Rodrigues é exímio prosador. Suas memórias em forma de crônicas em O óbvio ululante são prova cabal disso. Suas peças têm maior destaque por serem, até hoje, alvo de polêmicas. Mas sua prosa (mais especificamente suas crônicas e romances, já que os contos são bastante populares, justamente por também serem polêmicos) certamente terá o destaque merecido, cedo ou tarde. Nelson Rodrigues é um escritor completo, poderíamos dizer. Afinal, foi crítico, dramaturgo, cronista (social e esportivo), contista e romancista. E foi, no mínimo, bom em todas as vertentes. Não são muitos os escritores que podem se vangloriar de tal pluraridade.

Nelson Rodrigues pode.

Para ir além






Rafael Rodrigues
Feira de Santana, 2/11/2007

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Velhas questões em novos contextos de Adriana Baggio


Mais Rafael Rodrigues
Mais Acessadas de Rafael Rodrigues em 2007
01. O óbvio ululante, de Nelson Rodrigues - 2/11/2007
02. O nome da morte - 16/2/2007
03. História dos Estados Unidos - 29/6/2007
04. Os dois lados da cerca - 7/12/2007
05. O homem que não gostava de beijos - 9/3/2007


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
3/11/2007
15h49min
Também adoro esse livro, de um jeito esquisito, que não sei definir. Nelson é um "pulha" na maior parte das crônicas, pra usar uma expressão dele, mas é um amor, desperta encanto apesar de tudo de ruim que destila. Só mesmo ele pra ter coragem de escrever, numa das histórias que você cita, que sentia inveja do pão com ovo que escorria gema pela boca do colega. Um idiota jamais diria isso. Nelson é principalmente inteligente em seu "óbvio ululante" e a inteligência fascina. Apaixonante! Mas paixão não é muito racional, talvez por isso seja difícil falar sobre o livro, que expõe as confissões e invenções bastante humanas desse grande, corajoso escritor, retratista da vida como ela é...
[Leia outros Comentários de Cristina Sampaio]
5/11/2007
11h12min
Oi Rafa, compartilho com você a experiência de ter lido esta nova edição do livro, que, arrisco dizer, é uma das melhores coisas que já li. Sempre admirei Nelson Rodrigues, não apenas como dramaturgo, mas principalmente como cronista. E no universo das cronicas, O Obvio Ululante é uma obra singular.
[Leia outros Comentários de Diogo Salles]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




30 Anos : Avanços e Conquistas das Mulheres
Vários Autores
Sjdc
(2016)



Col 12 Fábulas de Ouro - o Patinho Feio (1993)
Maltese Editora
Maltese
(1993)



Moderna Plus Literatura - Caderno do Estudante Parte 3 - 10ª Ed
Maria Luiza M. Abaurre
Moderna
(2011)



Livro - As 14 Pérolas Budistas
Ilan Brenman; Ionit Ziberman
Brinque-book
(2009)



O Autodidata
Marco Antonio
Lge
(1999)



Antologia Escolar de Contos Brasileiros
Herberto Sales
Ediouro
(2000)



Bela Distração (vol. 1 Irmãos Maddox)
Jamie Mc Guire
Verus
(2016)



Antologia e Fogo Morto - Resumo Textos e Comentários (vestibular)
Manuel Bandeira e José Lins do Rego
Nucleo
(1989)



Dialogos I- Menon Banquete Fedro
Platao
Ediouro



Simbad
Mauricio de Sousa
Girassol
(2015)





busca | avançada
39901 visitas/dia
1,6 milhão/mês