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Sexta-feira, 7/12/2007
Os dois lados da cerca
Rafael Rodrigues

+ de 16000 Acessos
+ 3 Comentário(s)

Diversos livros foram escritos sobre o Holocausto. Alguns foram escritos por pessoas que sobreviveram a ele, outros por descendentes de pessoas que morreram nos campos de concentração e outros foram escritos por historiadores. E não são poucos os escritores de ficção que escreveram sobre o tema ou o utilizaram em suas histórias. Misturando ficção com realidade, muitos conseguem dar uma pequena amostra do que foi e do quão terrível foi o Holocausto.

É o que faz o escritor irlandês John Boyne, através dos olhos de um garoto de nove anos de idade, no romance O menino do pijama listrado (Companhia das Letras, 2007, 186 págs.).

Bruno, o garoto, mora em Berlim com os pais e a irmã. Um belo dia, depara-se com a governanta da família fazendo suas malas. Instantes depois recebe a notícia de que em breve terá um novo lar, pois seu pai fora designado para desenvolver um trabalho em outra cidade, a mando de seu chefe, o Fúria. Uma péssima notícia para Bruno, que deixará para trás seus amigos, sua escola e a casa que tanto gosta.

Ao chegar à casa nova, em Haja-Vista, os olhos de Bruno "se arregalaram, a boca fez o formato de um O, e os braços penderam estendidos ao lado do corpo novamente. Tudo nela parecia ser o oposto da casa antiga, e ele não podia acreditar que eles iriam de fato morar lá." A casa de Berlim era espaçosa, tinha uma vizinhança movimentada e garotos com quem Bruno podia brincar. "A casa nova, no entanto, ficava isolada num lugar vazio e desolado, e não havia nenhuma outra casa à vista, o que significava que não haveria outras famílias por perto nem meninos com quem brincar..."

No mesmo dia em que chegam a Haja-Vista, Bruno vê pela janela do quarto centenas de pessoas vestidas com as mesmas roupas: "um conjunto de pijama cinza listrado com um boné cinza listrado na cabeça". Ele não entende o que significa aquilo, nem sabe quem são, de onde vieram e para onde vão aquelas pessoas. Bruno e sua irmã, Gretel, tentam encontrar uma explicação, mas sequer se aproximam da verdade. Os dois não se dão bem, como quase nunca se dão bem irmãos de sexos diferentes, nessas idades (Gretel tem 12 anos), mas a mudança os deixa mais próximos, já que Gretel não tem com quem conversar. Bruno ao menos tem Maria, a governanta, com quem fala francamente sobre sua tristeza e revolta com a mudança. Seu pai, um dos homens de confiança do Fúria, não passa muito tempo em casa. E sua mãe parece ficar cada dia mais triste com a situação: marido distante e filhos descontentes e solitários, assim como ela.

Como acontece na vida real, com o passar do tempo Bruno e sua família se adaptam à nova realidade. Não se conformam, mas se acostumam, cada um com sua própria rotina e afazeres. Certo dia, Bruno resolve caminhar, conhecer os arredores de seu novo lar. Era algo que ele gostava muito de fazer em Berlim: explorar. Assim ele descobria coisas e lugares. Nessa caminhada em Haja-Vista, Bruno descobre que uma cerca enorme separa sua casa do local para onde estavam indo as pessoas de pijama listrado, e descobre também uma pessoa: um garoto chamado Shmuel.

"O garoto era menor do que Bruno e estava sentado no chão com uma expressão de desamparo. Ele vestia o mesmo pijama listrado que todas as outras pessoas daquele lado da cerca, e um boné listrado de pano."

Separados pela cerca, os dois iniciam uma conversa, que por sua vez dá início a uma grande amizade. A partir daquele dia, Bruno e Shmuel conversarão praticamente todos os dias. E é aí que o livro de John Boyne parece se diferenciar de todas as histórias sobre o Holocausto.

Os dois garotos têm a mesma idade, mas Bruno nada sabe sobre o que ocorre do outro lado da cerca. Shmuel, apesar de viver lá, parece não saber de tudo, mas tem uma noção. Por não saber, e por ter aquela ingenuidade que garotos de sua idade e condição financeira têm, Bruno pensa que o outro lado da cerca é mais alegre. Pensa que lá Shmuel brinca, se diverte e tem amigos. Shmuel, para não perder o novo amigo, que além de companhia lhe traz também, às vezes, alguma iguaria, ou por realmente não saber o que de fato está acontecendo com as pessoas de pijama listrado, não faz comentários detalhados sobre o seu lado da cerca. De tanto perguntar sobre como é a vida do lado de lá, num dia nada belo Bruno passa para o outro lado da cerca e, vestido em um pijama listrado providenciado por Shmuel, realiza sua maior aventura desde que chegou em Haja-Vista. Aventura essa que mudará destino de ambos.

Ao escolher um garoto de nove anos de idade para protagonizar um livro sobre o Holocausto, John Boyne correu um grande risco: ele poderia acabar escrevendo um livro bobo sobre um tema grandioso (no sentido de importante). Mas felizmente isso não aconteceu. Boyne transformou Führer em Fúria, Auschwitz em Haja-Vista e os prisioneiros em pessoas de pijama listrado, e isso deu ao livro o tom correto de ingenuidade, não sendo de maneira alguma piegas.

O menino do pijama listrado é um bom início para um leigo no assunto Holocausto - como eu -, até porque não se atém aos campos de concentração nem narra explicitamente os sofrimentos dos prisioneiros. Então, para quem quer ter um primeiro contato ou ler uma história que tenha o tema como pano de fundo, o romance de John Boyne é leitura obrigatória. Além de ser um livro emocionante e divertido, apesar de triste.

Para ir além






Rafael Rodrigues
Feira de Santana, 7/12/2007


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
10/12/2007
10h41min
A idéia é interessante, até mesmo poética. Embora não goste do tema, pode ser que que leia esse livro nas férias, já que não há uma clara exposição do sofrimento ou tortura (pelo menos assim entendi). Boa resenha. Valeu a dica. Adriana
[Leia outros Comentários de Adriana Godoy ]
26/7/2008
14h32min
Ótimo o livro... Narra com perfeição a inocência de uma criança em plena guerra desumana e completamente estúpida.
[Leia outros Comentários de Fernanda Chamas]
1/10/2009
20h00min
Li o livro e vi o filme. Confesso que fiquei chocada, apesar de ler e ver tanto sobre o nazifascismo. O tema e o livro fazem uma "chamada", afinal, o pai do Bruno acabou por sentir na pele o que os seus "serviços" causavam às pessoas. No filme, a mãe vê a roupinha do garoto, mas é a situação do pai que amarga, e muito - afinal ele soube exatamente o que acontecera. Os garotos eram inocentes e puros, nem sabiam o que estava acontecendo no momento final. Os holocaustos sempre existiram na história da humanidade, nem sei se podemos chamar pessoas cruéis de humanas, mas o fato é que sempre existiram guerras e sofrimentos. Provavelmente o preço que se paga pelo "progresso" vai muito além daquilo que os nossos afetos conseguem trabalhar. Indico o filme e o livro para as pessoas de um modo geral, e especialmente àqueles que gostam de história e filosofia.
[Leia outros Comentários de Rita de Cássia]
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