Relivaldo Pinho

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Quinta-feira, 18/1/2018
Relivaldo Pinho
Relivaldo Pinho

 
Você já atualizou sua história hoje?


Reprodução


Uma das coisas que nos empurram para a imediatez de nossa vida ciberespacial contemporânea é a necessidade imperiosa de nossa atualização da vida em bytes. É preciso contar nossa história permanentemente; agora ela pode ser feita de todos os tipos de fatos. Um sorvete, torna-se um obelisco; uma planta, jardins suspensos. A timeline comporta de tudo e nós preenchemos nossas narrativas para fazermos parte de alguma história. Você já atualizou sua história hoje?

Em um texto inédito, escrevi sobre a interpretação do célebre ensaísta norte-americano Edmund Wilson (1895-1972) a respeito de sua singular e brilhante análise do espaço e, principalmente, do tempo no seu ensaio sobre a obra de Proust (O castelo de Axel: estudo sobre a literatura imaginativa de 1870 a 1930).

Wilson relaciona a metafísica de Bergson , o princípio da relatividade de Einstein à literatura simbolista e abre uma fenda interpretativa para pensarmos essas outras dimensões da memória, da narrativa e do tempo hoje. Calma. Parece um papo cabeça demais. Talvez seja. Mas não é instransponível.

O crítico retoma a ideia de que nossas observações são relativas porque dependem de nossa localização e de nossa velocidade de deslocamento ( é o famoso exemplo do trem e dos raios, de Einstein). Para a escrita simbolista a narrativa e a percepção dos personagens do mundo se dariam de modo semelhante; dependeriam de quem observa, de onde e em que situação se encontram.

No mundo proustiano ocorreria análoga percepção. O mundo que o personagem antes conhecera, mudara em espaço e tempo, “diverso e são tão irrecuperáveis quanto os momentos de tempo em que tiveram sua única existência”. A lição é: a história não se “recupera”; fatos e personagens adquirem um caráter único, de irrepetibilidade.

Como na relatividade e na duração (durée) de Bergson o não se repetir garante, de certo modo, sempre um caráter do novo, ou como aquilo que surge de modo único. O amor e os personagens em Proust tentam ser recuperados, mas a palavra correta talvez seja reencontrados, exatamente porque são únicos – como raios – e duram, irrepetíveis, como suas sensações.

Poderíamos dizer isso sobre nossas histórias que passam em nossas telas que descrevem uma paisagem que julgamos apolínea, ou um pedaço de pizza que se julga ser uma ambrosia? Ou a foto do cão, cujo nome é Cão; e do filho, cujo nome é Enzo?

Não se está fazendo uma comparação aristocrática do modo de uso dessas tecnologias – é sempre obrigado avisar isso aqui –, mas está se atentando para como nossas histórias, narrativas e memórias são, de certa forma, feitas em horas, minutos, segundos. Nossa narrativa “desce” em imagens e histórias. A timeline desenrola-se como nosso papiro do agora.

As histórias podem parecer sempre novidade, mas seu caráter do mesmo cai – um raio nunca cai, não dizemos? – quase sempre no mesmo lugar. Fatos e personagens, tempos e narrativas, memórias e lembranças podem surgir, clareando o agora.

Surgem iluminando-nos como a novidade que, em “efeito bumerangue”, se repetem. Como gifs que, no mesmo movimento, duram (durée às avessas) eternamente.



Existiriam alguns aspectos que, nessa órbita, do Eu que se quer história, narrativa, capazes de, nas fendas temporais nos conduzissem a percepções, talvez com menos “fantasia”, mas com o fantástico do que se reencontra, mas não se repete? Seríamos inescapáveis de atualizar nossas vidas em horas, nossas horas nas mesmas imagens, nossas imagens em durações de nós mesmos?

A novidade do fenômeno das mais novas tecnologias nos impede de dar respostas definitivas. Mas, ao mesmo tempo, sim, somos capazes ainda, contraditoriamente – acredito – de recontar histórias através de nossas próprias, elas ainda podem ser exemplares, elas ainda podem suscitar um personagem que pode surgir outro, uma cidade que (re)vemos, uma cena que permaneça, nem que seja por um tempo do agora, que ilumine, repentinamente, nossa percepção.

Talvez essa seja uma visão otimista demais para uma realidade que, de modo inédito, nos elege como Heródotos e, principalmente, Homeros de nós mesmos. Nesse declamar de algoritmos, o sistema pergunta: “no que você está pensando?” Ansiamos por responder. Então ele inquire: “você não atualiza sua história há horas”. Sentimo-nos fora da linha temporal.

Talvez, em nossos papiros cibernéticos, jamais seremos, como Ulisses no episódio do ciclope, capazes de dizer “meu nome é ninguém”.

Você já atualizou sua história hoje?


Texto publicado em O Liberal, 28 de dezembro 2017, p. 02. E em: Relivaldo Pinho

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Postado por Relivaldo Pinho
18/1/2018 às 03h34

 
Pssica e a Amazônia de Edyr Augusto




Uma coluna da Folha de São Paulo noticiou que o livro do paraense Edyr Augusto, Pssica (2015), virará filme, produzido pela O2 Filmes, de Fernando Meirelles. A realização ocorrerá, em Belém, em 2018. É uma grande notícia que traz, finalmente, para a “literatura da Amazônia” (a expressão é de Benedito Nunes) e brasileira, uma nova possibilidade de se voltar para essa escrita contemporaneamente regional e estilisticamente cosmopolita.

Seus romances foram traduzidos para o inglês e francês. Casa de caba, de 2004, foi editado em inglês como Hornet’s nest, pela Aflame books e em francês, com o título de Nid de vipères, pela Asphalte, 2015. Também publicados por essa editora foram Os Éguas (1998) e Moscow (2001), em um único volume (Belém et Moscow, 2015) e, neste ano, Pssica.


Reprodução


Seu primeiro romance, Os Éguas, já demonstrava claramente a que linha essa literatura seguiria. A representação da região e, principalmente, da capital Belém do Pará é completamente diferente de um regionalismo unicamente edificante, entoado pelos mais variados discursos. Belém, através de um investigador de polícia, surge em toda sua decadência moral e material. É corrupta, violenta, aterrorizadora.

Esse livro completará 20 anos no ano feliz que virá, mas ele, que já representava a cidade em permanente queda, talvez não pudesse imaginar que vaticinava apenas uma parte da decadência que viria.

Seus demais romances, e o livro de contos Um sol para cada um (2008), seguem a mesma trajetória. É sempre o caráter pulsional, pusilânime e putrefato a dominar o indivíduo comum, socialites, “homens de família”, políticos, ladrões de beira de rio, jovens afortunados, policiais, jornalistas e traficantes.

Não tenha, por isso, caro leitor, receio de ler; é violento, mas não é – abram alguns jornais e liguem em alguns canais de Tv – abjeto. Mas, desse mundo cão, o escritor não mostra apenas o cadáver, mas a realidade, que ele descreve em decomposição.

Pssica é um exemplo desse estilo. As tramas do livro não procuram ser explicadas por nenhuma tese sociologizante, nenhuma análise psicologizante, ou por um manual literário. Talvez, por isso, sua literatura foi há muito tempo ignorada pela análise acadêmica. Seu primeiro romance, de quase duas décadas, só ganhou uma apreciação da academia em 2011.


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Mas isso, talvez, não queira dizer muita coisa. O presente costuma ser ignorado, quando nele apenas olhamos com os atrofiados olhos do passado – do passado de uma cidade, de uma região.

É na cidade que, em Pssica, a trama começa, com o rapto de Janalice, Jana. Ela é um dos personagens que atravessam a urbe e os rios como se, permanentemente, o barqueiro da morte, os conduzissem. Tráfico, prostituição, bandidos masoquistas, políticos pulhas e pessoas tentando se salvar.

É a região e suas águas, e não mais apenas Belém, que se tornam o cenário predominante desse livro. Essa violência no interior da Amazônia, e especialmente do Pará, em nada, como se sabe, é apenas uma ficção.

Nessa obra de Augusto, as paisagens (Belém, Marajó, Caiena) não parecem iguais somente pela decadência material que as ergue, mas pela semelhança espiritual de desolação desespero e decrepitude que a tudo, casas, moradores e forasteiros, habita.

Nessa escrita não-linear, de frases curtas, com gírias e termos regionais (algumas das principais características de seus romances), o tom detetivesco lembra os romances policiais e o estilo noir, elevando sua literatura – não apenas por isso – a um outro nível, mas, também, porque esse estilo retira parte da imagem ornamentada que estrangeiros e habitantes têm sobre o lugar.

Esqueçam o que leram e ouviram falar sobre a barbárie do interior regional, sobre piratas, ratos d’água e sobre turistas “perdidos”. É Pssicaa melhor representação, a melhor mímesis, dessa realidade.

O que os meios institucionalizados não descrevem, talvez caiba à literatura realizar. Os verdadeiros perdidos são os que nessas terras habitam, desterrados. É sobre eles, nessa obra, que parece pespegado um mal augúrio inescapável. Nesse mundo, as belas fotos, para quem é fotografado, nem sempre representam o paraíso.

Que a literatura de Augusto seja lida e vista. Mas lembremos que, na Amazônia, nas linhas do escritor paraense, como em Pssica, não há filtros que alterem a realidade.


Texto publicado em O Liberal, 07 de dezembro 2017, p. 02. E em: Relivaldo Pinho

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Postado por Relivaldo Pinho
7/12/2017 às 17h13

 
Você pertence a um não lugar


Aeroporto Internacional de Miami. Fonte: dicasdaflorida.com.br


Em uma viagem de trem, passa-se pelo vilarejo europeu e dele sente-se mais o que dele já se imaginava, do que o “significado” do lugar. Em um restaurante, a parede simula uma vista noturna de Nova Iorque. Nas imediações de sua cidade, algum lugar, ou a imagem que dele se faz (talvez uma ilha com iguarias gastronômicas), pode ter um caráter, mesmo para você, de exotismo. A foto de capa de seu facebook é uma paisagem invernal com uma montanha coberta de neve, ou um radiante casal correndo por uma praia ao pôr do sol – lembram das imagens de caraoquê?

Poderíamos dizer, seguindo Marc Augé, que esses são não lugares (Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade). Ele se refere a novas formas de concebermos o espaço, o tempo e como nossa existência na supermodernidade estabelece mediações com esses locais.

Parece contraditório afirmar que pertencemos a não lugares, porque é exatamente a transitoriedade uma das características dessa hipermoderna condição. Transitoriamente nos situamos em lugares que parecem suspender nosso tradicional sentido de pertencimento; passamos por eles e eles passam por nós.


Imagem para capa de Facebook. Fonte: http://iaicurtiu.blogspot.com.br/


Diz Augé, são “espaços constituídos em relação a certos fins (transporte, trânsito, comércio, lazer) e a relação que os indivíduos mantêm com esses espaços [...], pois os não lugares medeiam todo um conjunto de relações consigo e com os outros que só dizem respeito indiretamente a seus fins, [...] os não lugares criam tensão solitária”.

O aeroporto, um exemplo do antropólogo, talvez seja o espaço mais perceptível dessa reconfiguração espaçotemporal. É nele que o indivíduo pode se situar, sem estar em “lugar nenhum”. É um local de passagem no qual, quase sempre, não se pode se identificar com uma história pessoal, uma história que diga respeito a você e ao outro. Ao mesmo tempo, é um espaço que pertence a todos os lugares simulacionais – aeroportos reproduzem certos padrões imagéticos – porque exibe uma série de imagens-mundo, de marcas reconhecíveis, de indicações padronizadas, de relações tecnológicas impessoais.

Identidade e história estão implicadas nessa conceituação, porque “um espaço no qual nem a identidade, nem a relação e nem a história sejam simbolizados será definido como um não lugar (non lieu), mas essa definição pode ser aplicada a um espaço empírico preciso ou à representação que os que lá se encontram fazem desse espaço” (Augé, Por uma antropologia dos mundos contemporâneos). O que pode significar uma variação de percepção, por exemplo, entre um “nativo” e um passante. O mesmo espaço pode adquirir sentidos de lugar para um e não lugar para outro.

Podemos também estender esse conceito voltando-o ainda mais para uma leitura imagética. Esse não lugar, então, não está mais diretamente ligado, para o sujeito, dentro de suas relações comuns, nas quais o espaço é constituído pelas ações, objetivos, artefatos, que situam e definem o indivíduo e seu grupo. As mediações que são realizadas nesses espaços marcam essa fugacidade, característica da modernidade que é exponencialmente aumentada em um mundo hipermoderno.

Os paradoxos que se estabelecem nessa condição, do excesso de tempo e de espaço, por exemplo, são também aspectos dessa relação. O tempo parece ser sempre um tempo no agora, que prescinde de alguma referência anterior e que nos persuade pelas imagens fugidias desses espaços, dessas sinalizações, dessas marcas, dos produtos e desejos que nele devem (precisam) se realizar.



O espaço parece comprimido por essa relação e pela “proximidade” de lugares, imagens e signos do mundo todo que, seguindo algum tipo de iconicidade padronizada, assentada em imaginários comunicacionais, ao mesmo tempo que provoca um não pertencer, sugere algum tipo de reconhecimento. Conhecemos, identificamos, imaginamos, os reluzentes arranha-céus de Xangai por isso.

Presentes perpétuos e não lugares. Não existe uma conotação inerentemente negativa nessas formas de percepção. Elas compõem nossa supermodernidade. Identificá-las é observá-las com algum “olhar estético”. Talvez esse seja um papel possível para uma crítica de nossa condição. Mas, passageiros do mundo e solitários, nem sempre podemos atravessá-la.

Passamos por ela e ela passa por nós, como paisagens do ciberespaço, como anúncios em aeroportos. Nem sempre temos tempo – com o excesso de tempo – de interrogar o sentido das coisas, e, por vezes, elas parecem sem sentido algum. Lembram das imagens de caraoquê?


Relivaldo Pinho é pesquisador e professor.


Texto publicado em O Liberal, 22 de novembro de 2017, p. 2. E em: Relivaldo Pinho

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Postado por Relivaldo Pinho
22/11/2017 às 18h51

 
A imagem sem fim da contemporaneidade




O panorama era um aparato no qual as pessoas olhavam, através de orifícios, imagens que eram projetadas em uma rotunda. Surgiu no final do Século 18 e, após seu advento, vários outros equipamentos se seguiram que tinham por função “iludir” os olhos (trompe-l’oeil) e exibir a fantasia das imagens.

Na técnica do panorama, as imagens eram apresentadas em sequência e com efeitos visuais que encantavam os espectadores. Esse mecanismo, de vários modos, já prenunciava a instauração de novas formas de exibição e percepção que seriam, em meios como o cinema, elementos constitutivos da imagética contemporânea.

A experiência contemporânea ampliou essa sensação. Não apenas pelo caráter onipresente de suas aparições, mas porque essas aparições tomariam, cada vez mais, o aspecto de uma sequencialidade ininterrupta nas ruas das grandes cidades e nas imagens dos produtos televisivos.

A publicidade, o jornalismo e a ficção assumiriam não somente uma relação com a vida, mas modificariam o modo da percepção daquilo que vemos, porque sempre haveria, nesse perceber, um elemento de continuidade que nem sempre permitiria o espaço para a interrupção.

A programação televisiva, que corre durante um dia todo, é o exemplo mais conhecido desse processo. Os seriados, as telenovelas, por exemplo, que se realizam em sequências, e o jornalismo, com a exibição do “mundo em um minuto”, são alguns dos modelos dessas técnicas de exibição que nos dão um sentido permanente de continuidade e infinitude.

Já estamos longe de considerar, hoje, esse processo, tão empiricamente conhecido por todos, apenas como um mecanismo manipulador e, nós, como meros receptores mecanicamente condicionados. Não se pode unicamente dizer que o aparato imagético sobre nós sempre, incontrolavelmente, precipita-se, e que o espectador é somente um receptáculo cumulativo de mensagens.

Mas o que dizermos, sobre algumas dessas características, nos mais recentes meios comunicacionais? Abre-se o canal de vídeos na internet e, ao assistirmos à imagem desejada, segue-se, se não se desativar a exibição contínua, outra. O sistema “crê”, pelos seus cálculos algorítmicos, que aquela imagem mantém alguma relação de continuidade com a anterior.

Assiste-se a um filme ou série na Netflix e o autômato aparato, como em um panorama atual, inicia, em alguns segundos – tempo de darmos uma olhada em uma mensagem no celular –, a tela seguinte. A rotunda, agora, exibe as imagens circularmente, é feita de bytes e, em alta definição, ainda procura “iludir” os olhos.

Dependendo das escolhas, outra interrupção do processo se dá por inserções comerciais que, quase sempre, provocam certo descontentamento. É preciso considerar que, de certa forma, a percepção contemporânea mantém uma paradoxal relação com esse paradoxo do tempo ininterrupto.

A interrupção que descontenta, também ocorre porque, de certo modo, ela interrompe não apenas o prazer, mas porque o prazer funciona pelo hábito da imagem contínua, por uma familiaridade perceptiva, pelo modo como ambas se apresentam, se realizam.

É paradoxal, também, porque a saturação das imagens do cotidiano gera incômodo, mas esse desconforto, isoladamente, nem sempre é capaz de substituir essa familiaridade, essa quase incontrolável saciedade.

Esse fluxo contínuo de imagens convida “o espectador a fazer o impossível. Ou seja, ver todas as telas ao mesmo tempo, em sua diferença aleatória e radical” (F. Jameson, Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio). São sequências persuasivas e, em play contínuo, conquistadoras. Não se pode ignorar a fantasia desse convite. Mas ele não precisa ser tomado como único.



Na conhecida sequência final de Os incompreendidos (Truffaut, 1959), Antoine Doinel, o indomável protagonista do filme, corre pela praia, com uma melancólica música ao fundo. Repentinamente, ele para e se volta em direção à câmera que faz um zoom e, em close, congela seu rosto. A sequência imagética é interrompida e sentimos toda a dramaticidade da vida do menino, seu olhar perdido, assustado e angustiado.

Essa fixação da imagem suspende nossa continuidade perceptiva e nos recoloca, como em uma outra rotunda cíclica, diante de uma nova abertura para o tempo, para a percepção. Aquele final não é um fim. Vemos a narrativa se voltar para nós, nos dizer algo, e cristalizamos, em toda sua significação, uma história, uma imagem.


Publicado em O Liberal, 09 de novembro 2017, p. 02. E em: Relivaldo Pinho

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Postado por Relivaldo Pinho
10/11/2017 às 16h05

 
O indomável Don Giovanni


Cena do Jantar, Don Giovanni (Homero Velho). Fonte: SECULT-PA


A primeira experiência arrebatadora ao se assistir à Don Giovanni é a exposição temática introduzida por Mozart que nos anuncia a vida romântica, intensa e trágica do conquistador. A sensação é de que entraremos em um mundo não apenas fantasioso, de máscaras e capas, mas em uma espiral que, incessante e inevitavelmente, empurra o destino e a vida.

Na apresentação realizada no XVI Festival de Ópera do Theatro da Paz, esse mergulho vertiginoso, aliado especialmente à atuação memorável dos cantores, novamente se apresenta em toda sua dramaticidade. O que dá essa sensação pulsante a essa obra, encenada há 230 anos, ainda hoje?

Em grande parte, é justamente sua qualidade estética. É a música de Mozart marcando e acentuando o drama; tornando-o jocoso quando assim deve ser na personalidade de Leporello (em Belém, na interpretação e no canto contagiantes de Silverio De La O). Mas é também na temática que se relaciona com alguns dos nossos mais caros sentimentos e com as formas pelas quais eles se nos conduzem (empurram).

Bernard Shaw, o dramaturgo irlandês, escreveria em seu prefácio para sua peça Homem e super-homem (1903) que “filosoficamente, Don Juan [o arquétipo de Don Giovanni] é um homem que, embora suficientemente bem-dotado para saber distinguir com excepcional clareza entre o bem e o mal, segue seus próprios instintos sem nenhuma consideração pelas leis costumeiras, estatutárias ou canônicas. E assim, ao mesmo tempo em que ganha a ardente simpatia dos nossos instintos rebeldes (que se envaidecem com o brilho com que Don Juan os conjuga), coloca-se em conflito mortal com as instituições existente e defende-se à custa de fraudes e do uso da força, da mesma maneira inescrupulosa com que um fazendeiro defende suas plantações contra as pragas”.

Inalienável da temática da sedução, o destino cavalga em/com Don Giovanni (Homero Velho, em exemplar atuação no da Paz) e impele à conquista e, principalmente, à conquista de si. Estamos na constelação psicanalítica da sedução, segundo interpretação de Renato Mezan (A sombra de Don Juan e outros ensaios) a respeito do galanteador e de sua idealização narcísica. “O aspecto mais crucial da sedução, segundo Laplanche, é que ela veicula significações inconscientes para o próprio sedutor, significações estas que vão impor ao seduzido um trabalho de simbolização e repressão. Ora, não é o que ocorre com Don Juan, que acredita amar as mulheres, quando na verdade ama apenas a si mesmo?”.


Donna Elvira (Kézia Andrade) e Leporello (Silverio De La O). Fonte: SECULT-PA

Donna Elvira faz o par ideal para os excessos e as faltas que compartilha com e para seu amado. Ficamos com a impressão, na ária em que ela se pune por amá-lo tanto (no canto comovente, que ainda hoje a melodia ecoa, da soprano Kézia Andrade), que aquilo, de algum modo, nos atravessa. Ela, como seu amante, está condenada a esse destino indomável. Luta contra ele, mas ela é como Don Juan, que mergulha em sua angústia, em “seu ritmo dionisíaco infernal” e isso é “tanto uma corrida ‘para’ quanto uma fuga ‘de’”. Tanto um mergulho para o deleite que exalta as mulheres e o bom vinho, quanto um artifício para sua incontrolável incompletude (libido).

É o mesmo páthos que impulsiona o conquistador a atacar e se defender, inescrupulosamente, dessas “pragas”; é o que gera em nós a empatia juvenil da rebeldia que cria sua própria ruína.

Mas nós, durante o espetáculo, também ficamos encantados com essa crisálida que no humano habita. Repudiamos e torcemos pelo libertino. Parece quase – e esse quase é decisivo para a fruição – inacreditável seu ataque à “boa” Zerlina (Dhuly Contente) e sua dissimulação para com o valoroso Masetto (Idaías Souto). Mas sua fantasia é tão bem construída que, na cena em que ele lhe faz juras de amor (“Là ci darem la mano!” – “Lá nos daremos as mãos!”), de repente, esquecemos tratar-se de mais uma ilusão, e olhamos nos olhos dele e ele, realmente, parece acreditar no que diz. E, de fato, em certo sentido, acredita. O que para nós pode parecer uma ilusão, para ele é, sempre, necessariamente, fantasia.

Talvez por isso ele, ao final, enfune o peito, encarando a morte, ao desafiar a estátua do Commendatore (Anderson Barbosa). A estátua instila nele uma dor tão grande que ele parece, pela primeira vez, ter visto algo “incontestavelmente” como realmente é. Ao apertar a mão gélida e se negar a mudar de vida, sua fantasmática prova de realidade é incapaz de modificá-lo. Ele grita: não! Negando-se, ele desce ao inferno, desaparecendo. Abrindo nossos olhos e fechando nossa cortina.


Relivaldo Pinho é pesquisador e professor.


Texto publicado em O Liberal, 20 de setembro de 2017, p. 2.

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Postado por Relivaldo Pinho
20/9/2017 às 19h13

 
Metropolis e a cidade

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Com um crescente som orquestrado surge um nome: Metropolis. Ele se mistura com a imagem que vai aparecendo da cidade-Babel e, em seguida, várias engrenagens fundindo-se em imagens. O som é rápido, angustiante, temeroso, como se as máquinas estivessem a nos perseguir. Surge o relógio impiedosamente girando seu ponteiro, aparecem novamente as engrenagens e o apito da fábrica soa anunciando a troca de turno.

Essa é a clássica abertura do nonagenário filme Metropolis (1927), de Fritz Lang, uma das mais importantes obras que se relacionam ao Expressionismo alemão. Importante por vários motivos conhecidos, por pertencer a esse movimento, pelo seu contexto histórico e social (a Alemanha pós-guerra, o desemprego e a inflação), por sua inovação técnica e dramática e por ser uma narrativa real e distópica, profética e consumada.

Esses elementos sempre são evocados para se falar do expressionismo e de Metropolis, o filme que mostra uma cidade futurista dividida entre os que moram confortavelmente na superfície em gigantescos prédios e aqueles que trabalham e vivem no subterrâneo, trabalhadores eternizados na sequência síntese na qual eles andam mecanicamente ao entrar e sair da fábrica.

“Os expressionistas não tinham por objetivo representar a realidade concreta. Interessavam-se mais pelas emoções e reações subjetivas que objetos e eventos suscitavam no artista e que ele tratava de ‘expressar’ por meio do amplo uso da distorção, da exageração e do simbolismo”, diz Luiz Carlos Merten em “Cinema: entre a realidade e o artifício”.

Com todas essas características, não por acaso, o movimento ficaria conhecido como um aviso, ou uma premonição, do que se seguiria na Alemanha, posteriormente, com o Nazismo. Na edição do filme lançada em 2010, já restaurada com o acréscimo de 30 minutos, há uma cena na qual, dentro de uma casa, elevadores sobem e descem, como cápsulas, e nos quais o habitante deve entrar para seguir o seu destino.



É uma cena aparentemente simples, mas ela pode muito bem ser pensada como um fragmento de uma sociedade na qual o indivíduo é parte de um sistema mecanizado que o condiciona como elemento orgânico, substituível, da cidade.

Em uma pequena nota de rodapé, Deleuze (1925-1995), em A imagem-tempo, faria alusão a essa relação entre massa e indivíduo nas formas estéticas, como teatro, cinema e ópera.

Diz Deleuze: “O teatro e a ópera se deparavam com o seguinte problema: como evitar reduzir a multidão a uma massa compacta e anônima, mas também a um conjunto de átomos individuais? Piscator, no teatro, impunha às multidões um tratamento arquitetural e geométrico que o cinema expressionista, e Fritz Lang, em especial, também adotará: é o caso das organizações retangulares, triangulares ou piramidais de ‘Metropolis’, só que é uma multidão de escravos”.

Não, não podemos ver unicamente essa relação como uma arquitetura maniqueísta, lembrando Freder (par de Maria) que vê Moloc, o deus, monstro-máquina, a devorar as pessoas. Mas, caminhando para o final do filme, desponta a cena na qual Freder alucinado vê a morte, o ceifeiro, a carregar a foice em sua direção. As plaquetas anunciam: “A morte desce sobre a cidade”.

A cidade então parece caminhar, inevitavelmente para o apocalipse, para o caos. Como aquela Metropolis tão sistematicamente organizada, arquitetonicamente erigida, sucumbe, justamente às maquinas que lhes construíram e aos homens que lhes sustêm, é o cerne dessa narrativa.

Não se trata de ver, hoje, uma luta, recorrente no cinema, entre homem e máquina. Mas trata-se de observar como a cidade surge como templo, em adoração e castigo. Continuamos a erguer uma maquinaria da qual nos glorificamos e com a qual nos sentimos, cada vez mais, impotentes e, antiteticamente, dominadores.

As cidades não são mais unicamente separadas entre espaços que não se relacionam, mas isso não diminuiu o caótico sentimento de que delas não pertencemos inteiramente. De que nosso mecânico caminhar, como autômatos a olhar para máquinas que agora portamos, permanece contido em uma ideia de que sempre, a cada passo, contraditoriamente, podemos nos libertar.

Isso também é um tipo de alucinação/fascinação na grande metrópole, mas colocamos uma película, uma tela, entre a urbe e nós e, resignados, como no final do filme – repudiado por Lang –, podemos até nos dar as mãos e seguir.


Relivaldo Pinho é pesquisador e professor.


Texto publicado em O Liberal, 05 de setembro de 2017, p. 2.

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Postado por Relivaldo Pinho
11/9/2017 às 17h08

 
Jerry Lewis, um verdadeiro louco

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Na primeira sequência de O mensageiro trapalhão (1960), um homem meio canastrão, que se diz produtor executivo da Paramount, diz: “antes de lhes mostrar este filme eu gostaria de explicar uma coisa. O filme que estão prestes a assistir não é um filme normal, como os que o público se acostumou a ver nos cinemas”. Ele explica que decidiram fazer um filme divertido, que “não tem história, nem enredo, um filme que “mostra algumas semanas na vida de um verdadeiro louco”.

Jerry Lewis pertenceu a uma época, as décadas de 1950-60, memorável para o show business, conseguiu fazer muitos filmes – alguns realmente tão “tolos”, porque a proposta era o entretenimento –, contracenar com artistas célebres e formou uma das maiores duplas do cinema com Dean Martin (Martin – o homem dueto –; ele formaria outra dupla célebre com Sinatra).

Dean sempre sendo ele mesmo, conquistador, romântico e valente, e, Lewis, o seu Hyde, sendo medroso, fraco, pouco hábil com as mulheres, com a casa, com as pessoas, o motivo que o leva a criar o seu oposto, O professor aloprado, de 1963. Mas, nessa proposital desassociação, estava um dos elementos que o definiam, se aproximando daquilo que constituía a razão e o gênio em Chaplin.

Truffaut, no prefácio do livro Charles Chaplin (2000), relembra essa característica ressaltada por André Bazin. “Quando Bazin explica que Carlitos não é antissocial, mas associal, e que aspira ingressar na sociedade, define, quase nos mesmo termos que Leo Kanner, a diferença entre o esquizofrênico e a criança autista: ‘Enquanto o esquizofrênico tenta resolver seu problema abandonando um mundo do qual fazia parte, nossas crianças chegam progressivamente ao compromisso que consiste em tatear com prudência um mundo do qual estavam alheias desde o início’”.

Essas características em Chaplin e Lewis não são apenas afinidades eletivas. Em Carlitos ela é certamente vital, e, em Lewis, ela é uma dominante. Lembremos da cena inesquecível de O meninão (1955), na qual ele “finge” ser um barbeiro, quando ele submete Dean Martin às mais desastradas situações sentado na cadeira da barbearia. A cadeira é aí um instrumento que deveria servir de auxílio (medium), mas ela, após o barbeiro louco, pode ser qualquer coisa, virar para trás quase derrubando seu ocupante, chacoalhar com ele, ou elevar-se, repentinamente, até o teto. Lewis finge ser alguém, porque, imagina-se poder, tateando, atabalhoadamente, se encaixar, funcionar normalmente.

Truffaut retoma a argumentação juntando agora uma observação de Bruno Bettelheim, de A fortaleza vazia (1967): “a criança autista tem menos medo das coisas e talvez atue sobre elas, já que os personagens, e não as coisas, parecem ameaçar sua existência. No entanto, o uso que faz das coisas não é aquele para o qual elas foram concebidas”.

E, em seguida, cita o próprio Bazin: “parece que os objetos só aceitam ajudar Carlitos à margem do sentido que a sociedade lhes atribuiu. O mais belo exemplo desses descompassos é a famosa dança dos pãezinhos, em que a cumplicidade do objeto explode numa coreografia gratuita”.

Em O rei do laço (1956), em uma cena clássica, Dean Martin (Slim Mosely Jr.) está na sala contando uma heroica história e, ao lado, escondido, Lewis (Wade Kingsley Jr.) escuta. A cada ato narrado, Lewis encena, imitando a história jocosamente. Em Bancando a ama seca (1958), quando Lewis (Clayton), em uma única sequência, tenta arrumar a antena no telhado, acaba pendurado, tenta controlar uma mangueira desgovernada e quase destrói a vizinhança.

Lewis, a quem chamávamos “o doido” quando seus filmes passavam à tarde, nós ansiosos espectadores, consegue, muito mais que Chaplin, a cumplicidade dos objetos, do mundo. Seus personagens exerciam exatamente esse tipo de desajustamento quase infantil, que quer, primariamente, imitar, desbravar o mundo e domar as coisas, mesmo de forma vacilante e, por vezes, subvertendo os objetos (instrumentos), invertendo a sua razão.

Um verdadeiro louco. A normalidade, nesse mundo fílmico, está alheia à realidade dos filmes de Jerry Lewis. Sua loucura é aquela que nega uma vida moldada em perfeição e, em sua confusa subversão, prefere zombar do sentido das coisas, porque, em sua fantasia, ele, defendendo-se, escarnece das coisas, do seu pretenso e harmonioso significado.


Relivaldo Pinho é pesquisador e professor.


Texto publicado em O Liberal, 22 de agosto de 2017, p. 2.

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Postado por Relivaldo Pinho
22/8/2017 às 16h47

 
A imagem de Haroldo Maranhão


Livros de Haroldo Maranhão. Foto: Relivaldo Pinho


Haroldo Maranhão perseguia uma imagem. Ou, melhor, ele perscrutava as imagens. Isso, aqui, vai além do lugar-comum. O fato, o comum, no escritor paraense, sempre existiu como maneira de invertê-lo. O cotidiano, desempacotava como uma biblioteca; a história, transfigurava como um contador.

É um dos melhores narradores de nossa literatura. Narrar é, em seus romances, contos e novelas, a atitude por excelência que se insere na vida, quase sempre ordinária e fugidia, e no mundo recriado que, recontado, reencontra o passado.

A morte vira, pelos motivos mais inesperados, troça (“O defunto e seu bom bocado”, 1983); inventa o próprio fim, ou o do seu duplo (A morte de Haroldo Maranhão, 1981); mimetiza a guerra ocorrida, a partir da década de 1930, entre seu avô, Paulo Maranhão, o “mais odiado que amado” proprietário do jornal a “Folha do Norte”, e o Intendente do Pará, Magalhães Barata (Rio de raivas, 1987).

Fazendo jus a Machado de Assis, uma de suas maiores influências (Memorial do fim: a morte de Machado de Assis, 1991), sua prosa toca o que descreve, nela se inscrevendo. Como um artesão gráfico que, não sendo apenas mecânico, da prensa móvel do mundo, dispõe as coisas em palavras.

No caso de Haroldo, isso não é apenas uma metáfora. Durante parte de sua infância ficaria exilado no prédio do jornal (na Gaspar Viana, antiga sede de O liberal) de seu avô. Lá, entre máquinas e funcionários, os assoalhos se transformavam em piscinas, a rotina do jornal em uma pátria, obrigatoriamente, encastelada.

Essa época fora representada em seus belíssimos textos de Querido Ivan (1998), livro composto de cartas memorialísticas que escreveu ao irmão moribundo. Sempre que penso na diferença entre literatura e confissão – para lembrar, não fortuitamente, Mário Faustino (1930-1962) - penso nesse livro. É Mnemosine, levada pelas mãos de Caronte, a atravessar o tempo.

Vendo uma foto de infância, nos altos da “Folha”, Haroldo recorda: “Nós descíamos da chamada ‘Residência’ pela escada em caracol (de madeira) para metermos o bedelho na redação. Descendo a outra escada em caracol, esta de ferro, para fuçarmos as coisas da oficina. Tínhamos fome de aprender tudo, de conhecer os segredos da ‘máquina de moer ossos’ (jornal, na definição de Paulo Maranhão), que ia do mais modesto suplente de revisor aos operadores da ‘Marinoni’, a impressora francesa que o tempo tornaria obsoleta. Conquistamos amigos, poucos, que até nos ajudavam a compreender aquele mundo que nem era mundo, mas mundinho, para nós então inabarcável”.

Tempos depois, coordenaria no jornal o Suplemento Literário “Arte e Literatura”, decisiva referência sobre a cultura do Estado. Os livros já eram parte essencial de sua vida, o que o levaria, no final da década de 1950, a fundar a Livraria Dom Quixote.

Essa bibliofilia se expressaria em toda sua fisionomia, anos mais tarde, quando organizou uma das obras mais importantes sobre Belém do Pará, o livro, hoje já raro, Pará, capital: Belém: memória & coisas & loisas da cidade (2000).

A cidade é descrita por nomes que vão de Padre Vieira, passando por Vicente Salles e Eidorfe Moreira. “Mas o que finalmente nos ensina esse texto de Haroldo Maranhão [...] é que uma cidade só pode ser lida como antologia por meio das diferentes escritas, das linguagens de seus escritores, que lhe deram no tempo uma forma de sentido intemporal”. Escreve, no prefácio, Benedito Nunes, um de seus maiores amigos e críticos de sua obra. Em 2005, o ensaísta organizaria uma coletânea de contos de Haroldo intitulada Feias, quase cabeludas, uma excelente amostra de sua inventividade.

Antes de sua morte, Haroldo não desistira de encontrar uma imagem, a de Felippe Patroni, o pioneiro da imprensa no Pará, fundador do jornal O paraense, que teve papel determinante na Cabanagem, e que se tornara o protagonista do seu romance Cabelos no coração (1990).

Haroldo perseguia uma imagem. Mas já havia nos dado algumas das melhores imagens fantásticas, memorialísticas, ficcionais históricas, que um escritor poderia alcançar. Conseguiu nos deixar exemplos de versatilidade temática e narrativa, raramente vistos entre escritores até mais famosos – e, não poucas vezes, menos talentosos - que ele.

Em 2017, Haroldo Maranhão completaria 90 anos. Ele, que dizia que escrevia feito um possesso (“como se me restassem horas de vida” - Senhoras e senhores, 1989), precisa ser reeditado, lido, divulgado, estudado. É preciso lhe dar a imagem que ele, inequivocamente, merece.


Relivaldo Pinho é pesquisador e professor.


Texto publicado em O Liberal, 08 de agosto de 2017, p. 2.

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Postado por Relivaldo Pinho
16/8/2017 às 12h54

 
O youtuber é um novo dândi?


Charles Baudelaire, por Gustave Courbet


Youtuber é como denominam hoje os que falam sobre determinado tema em vídeo na internet. Nem todo mundo se interessa por eles, mas muita gente os leva em estima. Fala sobre qualquer coisa, de política à maquiagem; de filosofia a jogos eletrônicos.

Personagem frequente nas telas do ciberespaço, imagina caminhar com facilidade pelas vias de uma experiência que o diferencia, que o qualifica como um comentador do contemporâneo. Seria um dândi que nos reconecta a um mundo que, agora, nos parece distante, seria um connoisseur de platitudes, ou apenas quer ser adorado em sua expressão midiatizada?

O dândi é um tipo que atingiu seu auge na modernidade. Para Baudelaire (O pintor da vida moderna, 1863) ele encarnava um ideal heroico, um tipo de reação, com seu desapego pelas coisas “vulgares” (dinheiro, amor, por exemplo) e iria muito além de sua elegância nas vestes e sua delicadeza no trato. “Para o perfeito dândi essas coisas são apenas um símbolo de superioridade aristocrática de seu espírito”.

Brummel (1778-1840), Byron (1788-1824) e o próprio Baudelaire (1821-1867) encarnaram esse tipo. Baudelaire, evidentemente, o menos apto deles, não porque não era dotado de retórica, ou gênio, mas porque “não tinha o dom de agradar, um elemento tão importante na arte de não agradar do dândi” (Benjamin, Paris do Segundo Império).

A visão de Baudelaire é, como podemos ver, bem diferente de uma conotação negativa que a ideia do estilo dândi ganhou. De reação aristocrática, de um comportamento estoico, como o caracterizava o poeta francês, o dandismo virou, também, sinônimo de extremo exagero, de afetação na indumentária e no comportamento.

Como vários produtos das mídias na internet, o youtuber desempenha os mais variados papeis. Mas pode-se dizer que um dos seus fundamentos é, também, acreditar ter o dom da retórica e da persuasão. Imagina-se (e imaginam-no) suficientemente seguro; pode parecer prosaico, mas pode parecer revelador; pode falar de esmalte, mas pode falar de Matisse.

Poderíamos pensar que esse é apenas um dos muitos indícios de nossas novas arenas onde os “leões” (um dos epítetos do dândi, segundo o livro organizado por Tomaz Tadeu, Manual do dândi: a vida com estilo) contemporâneos travam a batalha da atenção.

Se, para Baudelaire, ele era “uma espécie de culto de si mesmo, que pode sobreviver à busca da felicidade a ser encontrada em outrem, na mulher, por exemplo, que pode sobrevier, inclusive, a tudo a que chamamos ilusões”; para o nosso dândi, talvez, o culto de si mesmo esteja intrinsicamente ligado ao “amor” de outrem; de um coração a ser clicado.

Talvez, diferentemente do dândi “clássico” (um oxímoro), o contemporâneo não busque apenas “o prazer de provocar admiração e a satisfação orgulhosa de jamais ficar admirado”. Sua admiração pode se localizar na arena que ele vê e que o aplaude.

O ócio (tédio), arma e acessório do dândi do Século 19, pode ser um dos elementos do navegador cibernético de nossas telas e de nossos ávidos olhos tripulantes, pode ser emulação, mas, talvez, também seja a moeda forjada nas nossas, das mais complexas às mais ordinárias, incompletudes.

Para Baudelaire o dândi participaria de um ideal comum, ideal raro já naquela época (sempre?): “combater e destruir a trivialidade”. O tom de heroísmo que o autor de As flores do mal devota ao seu personagem se liga ao seu estilo, à sua vida, mas, acima de tudo, à sua época.

Baudelaire queria que um certo heroísmo vicejasse em uma época em que a poesia, por exemplo, já era mais uma atividade mercantil. Parte do fascínio de um poeta maldito viria dessa indolente insubordinação. Queria ser lido, mas não queria precisar encenar (isso, talvez, como sabemos, pensando em Baudelaire, sempre seria perigoso afirmar) um assassinato para isso.

Na semana passada uma norte-americana disse ter, acidentalmente, matado seu namorado porque ele queria fazer um vídeo para publicar na internet em que ela atirava nele e ele conteria a bala com um livro. A tia do rapaz teria dito que ele queria fazer um vídeo porque o casal desejava mais espectadores para seu canal, queriam ser famosos.

Baudelaire diria: “Mas um dândi nunca pode ser um homem vulgar. Se cometesse um crime, talvez não se desagradasse; mas, se esse crime tivesse uma causa trivial, a desonra seria irreparável”.

Em 1863, o poeta ainda imaginava um homem altivo, com estilo, um dândi, mesmo em uma situação trágica. Hoje, a tragédia estilizada (ainda se considera trágico?) não tem nada de altivez.


Relivaldo Pinho é escritor, pesquisador e professor.


Texto publicado em O Liberal, 04 de julho de 2017, p. 2.

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Postado por Relivaldo Pinho
5/7/2017 à 01h36

 
A máquina de guerra da Netflix e Brad Pitt


Reprodução


A mudança em curso da transmissão de conteúdo via streaming, em fluxo contínuo, certamente está transformando o modo de consumo de mensagens, especialmente em relação aos filmes, o que impacta, diretamente, o cinema. Mudou-se o gerenciamento; a guerra é outra.

War Machine, o filme estrelado por Brad Pitt, que estreou mundialmente no último dia 26 na Netflix, faz parte desses conteúdos que a nova tecnologia oferece. A novidade já ocupa, há algum tempo, as discussões em torno de um novo tipo de produção, difusão e consumo imagético.

Já em meados do Século 20, as pesquisas sobre a mídia assinalavam algumas questões que surgiam em relação às características do processo comunicacional massificado. Dentre esses estudos, Paul Lazarsfeld e Robert Merton publicariam, em 1948, seu clássico Comunicação de massa, gosto popular e ação social organizada.

Nesse trabalho, que fundamenta a chamada Teoria Funcionalista da Comunicação, Lazarsfeld e Merton apontam, como um dos problemas causados pela indústria midiática, uma certa tendência a uma “Disfunção narcotizante”.

O uso, por parte do receptor, dos meios de comunicação se daria a um nível secundário, “desempenho substitutivo. Acaba confundindo ‘conhecer’ os problemas do momento com ‘fazer’ algo a ‘seu’ respeito [...]. ‘Está’ preocupado. ‘Está’ informado. Tem todos os tipos de ideias em relação a qualquer coisa a ser feita. Após o jantar, depois de ouvir seus programas de rádio favoritos [o rádio ainda era o meio predominante] e da leitura do segundo jornal naquele dia, chegou a hora de dormir”.

Essas ideias, evidentemente, são, mesmo em seu aspecto geral, bastante conhecidas e serviram aos mais variados propósitos. Mas algumas questões, que se relacionam com esses temas, ainda podem ser colocadas diante da implementação dos novos mecanismos midiáticos, como o streaming.

Os estudos da teoria funcionalista se dão em outro momento. Não se poderia imaginar, por exemplo, que o espectador teria a possibilidade de escolher como, onde e quando ele realizaria o consumo das mensagens. Não se vislumbrava a ideia de que o consumidor não precisasse mais, passivamente, aguardar a mensagem a ser difundida. Era impensável, talvez, que o destinatário tivesse essa autonomia, nesse fluxo comunicacional, no momento de sua recepção.

Como falar de uma disfunção narcotizante nesse cenário? Ainda podemos nos referir a um público massificado e conformista que, agora, consome meios e mensagens em mídias múltiplas? Ainda podemos, com esses tipos de emissão na internet, que se misturam com outros meios de interação, falar de um consumo secundário, exclusivamente substitutivo?

Algumas teorias contemporâneas sobre a comunicação já indicam, há alguns anos, que temos que tratar essas modificações na produção midiática como um sinal de uma mudança estrutural dessa indústria e de seus efeitos.

Estamos diante de uma modificação que pode não significar uma desestabilização completa e sistemática da produção, difusão e consumo de grandes produtos imagéticos de alto custo e com grandes astros, mas que não pode ser ignorada.

Se não há hoje uma guerra de produtores, porque a produção desses artefatos é cada vez mais capaz de se adequar aos diversos meios, estamos diante de uma mudança do campo de batalha, de seus atores e cenários, não desprezível.



Em uma das cenas de War Machine, o general (o protagonista), solitário, antes de dormir, está deitado em sua cama. A câmera se aproxima, lentamente. O enquadramento nos mostra que ele lê um livro sobre gerenciamento. Ele suspira. Sabe que sua guerra está perdida.

Mas a máquina de guerra da Netflix, estrelada por Brad Pitt, não. É um dos capítulos dessa história. Como filme - sarcástico e irônico, sobre os bastidores políticos e midiáticos da presença norte-americana no Afeganistão; longe de ser um desastre; longe de ser um Dr. Fantástico (Stanley Kubrick, 1964) - talvez pouco importe.

O fato de ser uma grande produção, estrelada por um ícone do cinema atual (também produtor do filme) e não depender do retorno das bilheterias, marca muito mais o consumo de grandes produtos imagéticos nessa contemporaneidade, do que a história da estética cinematográfica.

Estratégias de guerra costumam ser lógicas. A guerra, talvez, não esteja declarada. Nesse ultimato, gerencia-se e adapta-se a produção; adapta-se e gerencia-se a estética.


Relivaldo Pinho é escritor, pesquisador e professor.


Texto publicado em O Liberal, 05 de junho de 2017, p. 2.

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Postado por Relivaldo Pinho
7/6/2017 à 00h03

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