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Segunda-feira, 1/4/2019
Impressões Digitais
Ayrton Pereira da Silva

 
O NAVEGANTE DO TEMPO

Tomou o bonde circular e embarcou para o século passado. O condutor com a destreza de um malabarista aproximou-se, equilibrando-se no estribo como se já tivesse nascido ali. Balançou para ele a mão direita onde as antigas moedas de níquel chacoalhavam unidas umas às outras, feito soldados numa parada militar, cobrando a passagem.

O passageiro enfiou os dedos no bolso da calça, onde só havia moedas atuais, mas o condutor que o conhecia de há muito disse não haver problema algum. Amanhã o senhor acerta tudo, doutor. E levou a mão direita à pala do quepe de seu uniforme azul-marinho num gesto de deferência.

Está tudo muito estranho neste trajeto, pensou o passageiro, vários são meus contemporâneos, mas voltaram todos ao tempo de criança e nem sequer me reconhecem...

São fantasmas do passado ou estou delirando? Não sabia responder à própria pergunta nem como embarcara naquele veículo elétrico anacrônico, cujos trilhos tinham sido removidos da cidade fazia mais de meio século.

Deteve-se então no exame minucioso do interior do coletivo, onde os longos bancos de ripas de madeira envernizada causaram-lhe a sensação de familiaridade de quem neles se sentara incontáveis vezes. No teto do veículo, os mesmos reclames de antigamente propalavam a excelência dos produtos anunciados, inclusive a propaganda de um famoso elixir cujo nome ele guardara na memória: Rum Creosotado.

Após essa inspeção interna, lançou o olhar para a paisagem urbana que se desenrolava ao longo do percurso como num filme antigo que resgatasse a arquitetura das desaparecidas casas de centro de terreno, com árvores frondosas e flores nos jardins, enquanto o velho bonde sacolejava e rangia na bitola estreita dos trilhos. Comparando-o a uma caravela em mar revolto, chegou a esboçar um arremedo de sorriso ao se considerar uma espécie de navegante do tempo. Nisso, um insólito lampejo de consciência, como se, de repente, emergisse de um sonho, sacudiu-o de cabeça aos pés -- diabos, como vim parar aqui?

Jamais deixamos de fazer este trajeto, doutor, mas só os escolhidos se apercebem disso, pareceu-lhe escutar a voz do motorneiro que, bem distante dele, movia a manivela de direção, concentrado no comando do bonde.

Daqui a duas paradas, vai subir no bonde aquele viúvo, que levava sempre consigo o seu violino para tocar no túmulo da esposa a mesma música, ele se surpreendeu pensando, com uma certeza premonitória, e, ao mesmo tempo, recriminando-se por ter, quando menino, seguido secretamente aquele homem até o cemitério, junto com uma malta de colegas do ginásio, para depois imitarem, entre risos e zombarias, numa mímica grotesca, um recital de violino.

Estava ainda às voltas com esses pensamentos terríveis quando o bonde parou para que o violinista subisse no estribo e se acomodasse no mesmo banco onde se encontrava o passageiro idoso, que, olhando-o de soslaio, surpreendeu-se ao ver que o viúvo não envelhecera como ele, era, sim, o menino de outrora, carregando o estojo do violino para aula de música. É preciso ter calma e ponderação: na verdade esse garoto que vejo é muito mais velho que eu, e pelos meus cálculos o garoto e futuro viúvo já deveria estar debaixo da terra. E esses outros passageiros também permanecem imunes à passagem das décadas, inclusive o condutor e o motorneiro, enquanto ele já velho a tudo assistia através das grossas lentes dos óculos de grau que agora usava como um apêndice indispensável. Engoliu a custo um silêncio amargo - o que fizera outrora, quando adolescente, tinha requintes de uma crueldade inominável. Sentiu-se tremendamente envergonhado. Sim, estava pagando por isso um alto preço. Teve que fazer um esforço sobre-humano para não confidenciar ao menino e futuro viúvo que não se casasse com a mulher que morreria na flor da idade. Não queria passar por maluco e nem poderia imaginar como seria a reação do estudante de violino, agora apenas uma criança. Seria certamente internado num hospício como um louco perigoso e de lá só sairia morto. 

Esse dilema trágico aumentou ainda mais seu sentimento de culpa, quando voltou à realidade absurda do retrocesso no tempo, quem sabe por escapismo ou talvez por um gesto desesperado de autodefesa, como algo que ficaria dentro de si sem resposta alguma, sob a forma de uma eterna interrogação. Matar-se, cometer suicídio? Era covarde demais para isso.

Buscava febrilmente outra solução, algo pragmático, que não iria decerto aplacar suas insônias que viraram uma constante em suas noites, e quando cochilava de pura exaustão era pior ainda, acordava berrando em agonia por causa dos pesadelos persecutórios.

Preciso encontrar, preciso encontrar, está aqui dentro de minha cabeça. Dizem que quem procura, acha, embora haja controvérsias.

Mas ele achou, pois essas coisas acontecem no universo ficcional, se o personagem conseguir impressionar o autor que o criou...

E foi isso que se deu, precedido dos toques de trombetas bíblicas que só o idoso escutou.

Vou consultar urgentemente o oculista, pois essas lentes estão fracas demais. Em seguida, retirou os óculos para limpar as lentes com o lenço, pensando que, além de fracas, estavam completamente embaçadas...

Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
1/4/2019 às 16h38

 
LONDON LONDRES

A aldraba da porta,

o grifo brônzeo.


Ao lado, o Hyde Park:

sombra e assombro.


Entre névoas errantes,

o andar a esmo.


Pelas ruas de Londres,

a mão inglesa


surpreende de súbito:

salto e susto.


Fish and chips

ginger ale, pubs.


A cidade sorri,

dama discreta.


No quarto do hotel,

uma remota lembrança


é déjà-vu

e magia algo estranha


para a menina do quadro

e suas tranças.


O desconcerto chega

e toma conta


dos pobres dísticos

e sua circunstância...


Ortega ri seu riso

onde se encontra


na margem oposta

do Ebro lá de Espanha.


Esquento o chá

e seu aroma eleva


o espírito das flores:

primavera.


Enquanto sorvo

a cálida tisana,


o tempo tece

as teias das aranhas.


Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
1/3/2019 às 09h59

 
MOMENTOS

Hypocrite lecteur, mon semblabe, mon frère

Baudelaire



Não recordo onde nem quando, mas faz muito tempo. Era madrugada e as luzes das casas estavam todas apagadas. Parecia uma cidade fantasma, enquanto eu perambulava pelas ruas desertas, quando me deparei com uma jovem deitada na grama de um jardim público, contemplando as estrelas. Era uma cena insólita. Movido pela curiosidade e vencendo minha habitual timidez, aproximei-me e lhe pedindo licença deitei ao seu lado.

Incomodo você? Não, pode ficar. Guardei, por precaução, uma distância regulamentar, nem muito longe nem muito perto.

Você é formada em astronomia? Não, não sou. E ela parou por aí. Acho que chutei uma bola fora, pensei, mas fui compelido a não deixar a conversa morrer. Então o que você é?

Sou astróloga, pela conjunção dos astros e estrelas posso prever certos eventos, mas nem todos. A ideia de conjunções astrais me pareceu conter um toque erótico, embora fosse só uma suposição, talvez por causa de seu hálito envolvente, que me tonteava. A essa altura comecei a duvidar de minha sanidade mental. O que será que tá bulindo comigo, perguntei-me em pensamento. Era de fato muito estranho, como se algo surreal se intercalasse com a realidade e eu estivesse flutuando a esmo entre a verdade e a mentira dos sentidos. Então a moça indagou se não queria ler nos astros meu futuro.

Já sei qual é, querida: um dia qualquer vou morrer, viu?

Não me referi à morte, seu bobo, mas aos detalhes da vida. Estes é que valem! Um longo silêncio, denso, palpável desceu sobre nós. Bem, já que você não quer saber, vou tomar a iniciativa.

Me puxou pelas mãos e então levantamos juntos, nossos lábios quase se tocando... Sei que você aí, meu presumível leitor, está se babando de curiosidade para saber o que irá acontecer. Eu também. Mas isso é o futuro próximo e distante, e não seremos nós que iremos vivê-lo. Somente aqueles dois. Não eu e nem você. Nós viveremos cada qual o nosso futuro (se vivermos até lá).

Em suma: a eles o que é deles, a nós o que é nosso. Chato, não é? Mais que isso: frustrante. Mas assim funciona a dinâmica da vida, sempre imprevisível, desconcertante.

E ponto final.

Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
3/2/2019 às 16h47

 
ARCHITECTURA

Talvez por gosto talvez por teimosia

ergui neste deserto a moradia


Na casa um girassol alucinado

revive em flor delírios do passado


Neste porão oculta-se em degredo

uma finada infância com seus medos


Ali repousam agora as velhas musas

na tessitura dos véus que encobrem as rugas


Numa xícara de arte em porcelana

me fitam gueixas de longas pestanas


E na janela aberta para a rua

vejo São Jorge e seu dragão na lua


De tinta e de papel minha morada

ora aparece e logo se apaga


Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
1/12/2018 às 10h41

 
O INVISÍVEL

Olhou-se no espelho e perguntou ao reflexo de seu rosto: este sou eu?

Era a pergunta que se dirigia todos os dias em que se confrontava com a própria imagem, à qual já deveria ter-se familiarizado. Mas era uma rotina imutável.

Inundou-o novamente aquela sensação de estranheza e desolação, enquanto um gato mestiço de angorá o contemplava fixamente com seu olhar hipnótico. Fora pilhado em flagrante certa manhã na cozinha, bebendo furtivamente o resto de leite que ficara na xícara e, sem mais explicações, como é da índole dos gatos, passou a voltar sempre para tomar o leite que, a partir de então, era deixado de propósito na mesa ainda por ser tirada. E assim o bichano foi ficando, embora o dono da xícara soubesse que os felinos não gostam das pessoas, apenas das casas. Mas não havia nenhum mal nisso, ele faria jus à hospedagem caçando os ratos e baratas que já dividiam a velha casa com o dono.

Não tinha coragem de desfazer-se dela, metade talvez por sentimentalismo e metade certamente por comodismo; daria muito trabalho e aborrecimento mostrar as velhas entranhas da habitação a desconhecidos e ainda por cima ter de procurar outro teto para morar. Já passara do tempo para essas coisas. Além do mais, isso lhe soava como uma profanação.

O que ele não sabia é que estava em curso um longo e silencioso processo de desconstrução.

Ignorava a idade do gato, pois gatos não têm certidão de nascimento, ou se teria nome, os gatos não são batizados e por isso mesmo só têm apelido, aí passou a chamá-lo de Senhor X, outras vezes de bichano ou de um sinônimo qualquer, felino, vira-lata, o que lhe viesse à boca.

Sabia, porém, que o gato era eterno, como de resto todos os irracionais, até que lhes chegasse a percepção instintiva da proximidade física do fim. Os gatos não têm metafísica, concluiu pensando num dos célebres poemas de Fernando Pessoa. Talvez essa fosse a secreta razão de sua inveja, um sentimento algo torpe que às vezes o fazia tratar mal o felino, correndo com ele do sofá, recriminando-lhe a indolência, chamando-o de parasita. Irritava-o ainda mais o distanciamento olímpico do felino, que o fixava impassível, na hora das zangas e admoestações, com aquelas pupilas pontuadas com duas vírgulas. Então explodia de cólera: ponha-se daqui pra fora, bicho sem-vergonha! E o gato saltava a janela com uma elegância heráldica que lhe aumentava a inveja.

Uma noite sonhou que era um cão maltratado por um homem truculento, e acordou em meio a um grito de pavor. Depois disso, passou a tratar o gato somente de Senhor X e deixou de brigar com ele. Do ponto de vista do gato, entretanto, nada parecia ter mudado, pois continuou do mesmo jeito distante e nem sequer se dava ao trabalho de roçar nas suas pernas, muito embora já pudesse, agora, refestelar sua sonolenta preguiça no sofá, sem interrupções indesejadas. E sem as fugas elásticas pela janela, o que, em contrapartida, proporcionou ao dono da casa uma trégua com a própria inveja.

Sempre fora um homem de ação, bem-posto na vida, respeitado pelos colegas, amigo de seus amigos. Vivia só e só continuava. Antes, não havia tempo para deter-se no assunto, o fluxo do dia a dia transcorria como desejava: trabalho, diversões, amores. Desfilava com belas damas nos restaurantes de luxo, antes de levá-las para o motel. O sexo pelo sexo. Nada dos aborrecimentos diurnos e diuturnos de que queixavam alguns de seus colegas, às voltas com o inesgotável desgaste gerado pela convivência sob o mesmo teto. Era bem outra a sua visão da vida.

Quando soou a hora da aposentadoria, correu mundo, Nova Iorque, Paris, Londres, Roma, Veneza, Florença... Ao retornar da longa viagem pelo exterior, deparou-se com sua caixa de correspondência abarrotada de envelopes: faturas já pagas pelo débito automático, convites para lançamentos, propagandas comerciais e...um aviso fúnebre. Morrera um ex-colega de profissão que nunca lhe fora próximo, mas a notícia atingiu-o como um soco no estômago. Por coincidência, tinha a mesma idade do falecido, como verificou pelas datas que encimavam o texto.

Ao achegar-se à janela em busca de ar, viu que o jardim da casa estava em petição de miséria, era preciso chamar urgentemente o jardineiro. Estava quase recolocando o fone no gancho quando a voz rouca e cansada de uma senhora nem bem atendeu ao chamado, ele foi logo disparando: quero falar com o seu Joaquim; ele está? A voz lhe disse que o jardineiro passara mal, a boca meio torta, um vizinho o levara para o hospital. Ele está na enfermaria e lá, o senhor sabe, só é permitida visita aos domingos, por isso é difícil saber como meu marido está passando agora. Que bela merda, ele exclamou. O que foi que o senhor falou? Nada, minha senhora, não falei nada! E bateu o telefone, mal-humorado.

Banho tomado, decidiu jantar fora para sacudir do corpo a poeira de estrelas, como costumava referir-se ao pós-viagem aérea. Stardust, pensou, aquela belíssima canção norte-americana do tempo em que a música popular ainda era uma arte.

Jantou só. Não havia sequer uma pessoa conhecida no restaurante, a não ser o Ambrósio, o garçom que habitualmente o atendia. O que vai ser hoje, doutor, o vinho seco de sempre, antes da escolha do cardápio? Teve ímpetos de responder rispidamente ao garçom. Se você sabe, por que pergunta? Mas calou-se. Seu retorno ao solo pátrio não fora dos melhores. Afinal, o Ambrósio o servia há mais ou menos vinte anos, e aquela pergunta fazia parte do cerimonial de vassalagem que todo súdito tem de prestar ao senhorio.

Com o passar dos meses, as horas se tornaram cada vez mais lentas e os dias e noites mais longos. Sua correspondência minguara, o telefone pouco tocava. É verdade que tentara, quase a contragosto, contatar uns antigos colegas mais próximos, mas a tentativa de aproximação fora um encontro com fantasmas arrastando velhas recordações às quais estavam acorrentados.

Passou a frequentar as salas de espetáculo, teatro, música, cinema, mas o efeito reanimador desejado saiu-lhe às avessas. Não havia peças teatrais ou recitais aceitáveis, e os filmes, então, só violências de todo o gênero, numa sucessão alucinatória de cenas atropelando-se umas nas outras, artificialmente magnificadas pelos chamados efeitos especiais, que ele preferiu batizar de defeitos especiais. Era essa a arte pós-moderna? Lembrou-se do velho Bruxo do Cosme Velho ao parafraseá-lo para si mesmo: mudara o mundo ou mudei eu?

O jardineiro sumira sem deixar rastro. Ligou-lhe diversas vezes, mas a linha fora cortada. O jardim enquanto isso ia assumindo os ares de floresta urbana e ele desistiu de contratar alguém para podar os excessos daquela flora selvagem ao notar que o Senhor X dela fizera seu campo de caça. Por outro lado, não havia como negar a existência de certa beleza no modo como aquela botânica incivilizada rebentava em flores e perfumes, atraindo espécies de pássaros nunca antes vistos por lá. Era a estética do caos.

O mundo lá fora crescera demais, a cidade inchara movimentada pela força das novas gerações. Tragados por esse turbilhão, foram desaparecendo os vestígios de seu tempo. Foi aí, sem mais nem meio mais, que certa manhã sentiu-se atingido por uma centelha de clarividência: sua geração perdera a identidade, em franco processo de extinção.

Raros eram os contemporâneos que avistava em público, nas suas escassas idas ao centro da cidade e, quando isso acontecia, a visão não era das mãos alentadoras, uns arrastando-se com apoio na bengala, outros encurvados como se carregassem uma invisível saca de cimento no lombo e ainda os que eram levados por parentes ou cuidadores, segurando-os pelo braço. Uma catástrofe.

Ninguém mais o conhecia no bairro ou na cidade. Tornara-se invisível. Não cabia mais no novo cenário e sentia-se na pele de um ator num palco giratório, onde tivesse entrado, representando um papel destoante da trama que os outros representavam. A sua fala mostrava-se totalmente descontextualizada, como num script shakespeariano encenado num picadeiro de circo mambembe.

Procurou então refugiar-se na leitura dos livros que acumulara durante toda a sua vida, mas estes já não o atraíam. Calaram-se os “mestres mudos”, filosofou com amarga ironia.

Passava as horas em meio ao deserto de si mesmo. Sua invisibilidade atingira o limite máximo – sua biografia apagara-se. Nada mais restara dele mesmo, não plantara uma árvore, não escrevera um livro, não deixara descendência.

Em seu exílio, confinou-se dentro de sua morada em estado ruinoso,, permitindo-se quando muito algumas caminhadas em círculos pelo jardim selvagem. Foi exatamente num desses périplos que se deparou com uma gata amamentando os filhotes que pela cor da pelagem deviam ser fruto das aventuras do Senhor X, que a distância parecia observar a cena com aquele olhar enigmático de sempre.

Serão meus afilhados, Senhor X, a minha exótica descendência rabuda e quadrúpede, disse para o gato, que nem sequer parecia notar a sua presença, enquanto lambia indolentemente as patas dianteiras, cumprindo à risca o ritual higiênico dos gatos.

Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
1/11/2018 às 16h51

 
O TEMPO REVISITADO

Lucianita é chama que crepita

e mais que chama é luz que ilumina

(no brilho de seus cabelos

o próprio sol se espelha

e o seu fulgor imita).

Para se amar Lucianita

— um belo nome de sonoridade hispânica —

é sobretudo e antes de tudo

mais que necessário compreendê-la

pois muito além de sua rara beleza

que extravasa os limites da aparência

Lucianita é ponte e fonte de ciência.

Amor para se amar em latitude e longitude

tantas e tão vastas

que para amá-la

uma só vida única

— não basta.

Ayrton Pereira da Silva

(escrito em outubro de 1977)



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
27/10/2018 às 19h59

 
VOCÊS

Vocês que não nasceram nestas plagas

este recanto de mar contra a montanha

e não recolheram o azul dos dias

nem o dobraram como um lençol sem costuras

depois de branquejado pelos sóis

nem escutaram o murmúrio dos mariscos

no seu secreto sacrifício

sei que é difícil eu sei

compreender as semanas dessas conchas

ou mesmo o canto das gaivotas brancas

que sobretudo gritam num coral

mas eu sim homem do mar

antes menino dessas águas

conheço todos os caminhos sem pegadas

conducentes além do litoral

lá onde os anjos apedrejam os pombos

e se formam os crepúsculos purpúreos

onde nascem enfim os oceanos.

Vocês que desconhecem

os enredos dessas musgosas pedras

onde rebate o mar bate se esbate

sei que é difícil imaginar castelos

aonde não os há sob o luar

e antever de longe um fogo-fátuo

desses que brilham intensamente sem queimar.

Esses mistérios são os dons cativos

dos que nasceram e viveram à beira-mar

entre golfinhos anêmonas sereias

afogando-se na secura das areias

até a voz faltar.

Ayrton Pereira da Silva

in Umbrais, Ed. 7 Letras



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
1/10/2018 às 16h21

 
UM OLHAR SOBRE A FILOSOFIA (PARTE FINAL)

Como estas páginas já se alongam, força é convir ser necessário um corte epistemológico, para chegar-se até o Existencialismo, embora ao elevado custo de omitir referências a grandíssimos mestres da Filosofia, o que de fato é lamentável. Ser o copidesque de si mesmo é um castigo inimaginável, uma espécie de Caixa de Pandora cuja abertura me foi imposta.

Soren Kierkegaard (1813 – 1855), filósofo dinamarquês, é o fundador do Existencialismo, apesar de nem cogitar de atribuir uma denominação ao corpus em que embasou seus conceitos do que depois viria a ser chamado de Existencialismo Cristão. Foi ele o primeiro filósofo a aprofundar-se no tema da existência e da vida, que para ele constitui um enigma, uma contradição, algo que vai além de nossa finitude para alcançar a eternidade. 

Ao contrário de muitos existencialistas que surgiram mais de um século depois, Kierkegaard nunca foi arauto de si mesmo. Era um eremita urbano: separou-se da família, desfez o noivado para dedicar-se exclusivamente à construção de sua obra. Escrevia com diversos pseudônimos, construindo uma espécie de labirinto quase inextricável, onde se abrigava. Quem deu o nome de Existencialismo à sua corrente filosófica foi o filósofo francês Gabriel Marcel, logo depois da 2ª Grande Guerra, quando uma onda de reumanização arejou o planeta.

Kierkegaard professava o cristianismo, consistente no Evangelho. Daí ser considerado o fundador do Existencialismo Cristão, por crer no Cristianismo e não no Velho Testamento anterior a Cristo. Suas dissidências com os bispos e sacerdotes da igreja luterana se agravavam então a cada dia.

O Sócrates dinamarquês, como também o chamavam, é o pensador maior do século XIX. Para ele, existir é uma aventura perigosa, que envolve a opção de lançar-se à vida, construindo-se como se desejaria ser. Ele traça com clareza o perfil da individualidade a partir da dialética vida-morte, que no seu desdobramento nos disponibiliza os dons da existência e da liberdade em potência, que só se transformam em essência, quando o ser humano decide viver em plenitude, durante sua transitória estada no teatro planetário. Ou seja: “a existência precede a essência”, que veio a ser a pedra fundamental do Existencialismo. 

Kierkegaard também analisa, sob o prisma estritamente filosófico, a possibilidade de vivermos sem Deus, ou outro Ser Supremo, abordada por ele e, muito depois, reafirmada por Sartre na esteira do pensamento daquele.

Na visão do filósofo dinamarquês, o homem constrói-se a si próprio na medida em que é produto das suas escolhas ao longo da vida. Sempre estamos às voltas com as circunstâncias que nos envolvem a exigir de nós optarmos que decisão tomar, arcando, necessariamente, com as consequências boas ou más que dela advierem.

Há quem afirme que seria implausível uma filosofia no estádio evolucionário de hoje sem as concepções kierkegaardianas, entre os quais Ludwic Wittgenstein, um dos mais influentes pensadores do século passado.

O boom existencialista só ocorreu — mais de cem anos depois da morte de Kierkegaard — em meados de 1950, com Sartre, Heidegger, Camus e Simone de Beauvoir, entre outros. Todos se declaravam ateus, e rejeitavam ser tachados de existencialistas: diziam-se humanistas. Todavia, reafirmaram o princípio já visualizado mais de cem anos antes pelo Sócrates dinamarquês — quando acentuou que o ser humano é que define, por meio de suas opções, o rumo de sua vida.

Sartre diz, em última análise, o mesmo que Kierkegaard sobre tal aforisma, ou seja, ao nascer o ser humano apenas existe e só principia a viver quando adquire a consciência de si mesmo, de estar no mundo, que o filósofo francês define como o ‘para-si’ (pour-soi), em O ser e o nada. Antes, quando existe, o ser humano é um “nada”, que só começa a “ser” quando inicia as escolhas que irão talhar o seu caminho. E pode fazê-lo com total liberdade por depender só dele.

Jean-Paul Sartre foi o mais conhecido dos existencialistas daquele tempo, sendo tanto festejado quanto hostilizado. Sua obra maior já mencionada é um resumo do seu pensamento autointitulado humanista.

Já Heidegger cunhou uma linguagem própria para o que chamava de analítica existencial, enfeixada no livro Ser e tempo, incidindo no mesmo artifício de não se dizer existencialista e sim humanista. Heidegger não conseguiu deslindar seus próprios conceitos, que deixou no ar...

De Heidegger restaram os conceitos aflorados em seu Ser e tempo, como o ser-aí (dasein), o ser singular que possui existência e vida próprias, sendo o mundo o seu lugar.

Ao fim e ao cabo, o que dele restou não constitui um corpus filosófico, e sim uma série de questionamentos e indagações que deixou sem resposta, perdido na selva oscura de seu próprio linguajar. Isso sem falar nos polêmicos Cadernos negros em que o pensador alemão misturou Filosofia com política, gerando um verdadeiro nó górdio que não conseguiu desfazer.

Por mais um desses paradoxos de que a vida é pródiga, a obra de Martin Heidegger talvez ainda seduza alguns estudiosos em razão do que ficou sem ser decifrado, como uma espécie, algo atípica, de obra em aberto.

Albert Camus e Simone de Beauvoir completam o grupo existencialista do segundo quartel do século XX, ambos eram romancistas. Romancear é filosofar, disse o autor de O mito de Sísifo, prêmio Nobel de literatura.

Simone de Beauvoir teve uma relação conturbada com Sartre. Em A cerimônia do adeus, Beauvoir descreve as reflexões filosóficas de Sartre acerca do processo de envelhecimento.

É de se sublinhar a insistência com que os autointitulados humanistas daquela época negavam a existência de Deus, cuja presença imperceptível pelas vias sensoriais parecia perturbá-los. Este, a meu ver, o ponto nodal do existencialismo ateu, que não cuidou do tema com o devido aprofundamento, talvez por uma questão de coerência com sua ótica materialista, jamais se descolando dessa fixação.

A existência de Deus ou a sua inexistência tem dado margem a infindáveis indagações e especulações desde os pré-socráticos, há cerca de dois milênios e meio. E até hoje persiste sem resposta. Parece até que somos iguais àqueles reclusos da alegórica Caverna de Platão...

Para mim, particularmente, trata-se de um problema que desborda do espectro investigativo da Filosofia, embora me considere cristão. Mas isto é uma opção de foro íntimo. Ontologicamente, a Filosofia trata do ser enquanto ser, que desaparece ao morrer, deixando de ser. O que virá depois é algo que constitui objeto da teologia, da fé, das crenças diversas, das religiões, sejam monistas, dualistas e também da descrença, do ateísmo, do agnosticismo etc. etc. etc.

 Na verdade, a mim me parece, eu que não vou além de um mero aprendiz, que essa controversa e intrincada questão transcende a racionalidade que nos é própria, balizada pela finitude, ou seja, enquanto pudermos exercer o livre-arbítrio, seremos os únicos responsáveis por nossas ações e omissões, durante o tempo e o espaço de nossa breve permanência entre os viventes.

Depois vem o salto no escuro.

Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
1/9/2018 às 10h35

 
UM OLHAR SOBRE A FILOSOFIA (PARTE I)

De onde viemos e para onde vamos? — eis a pergunta multimilenária que já virou lugar-comum. Mas que jeito mais pífio de começar um texto, dirão uns, enquanto outros, no mesmo tom, hão de pensar: que falta de imaginação...

Doce e ledo engano. Nada há de tão complexo como tentar reciclar o chumbo em ouro, como pretenderam os alquimistas, e deram com os burros n’água, como seria de se esperar. É óbvio que aqui não queremos inventar nada; apenas recordar numa linguagem supostamente palatável o que já foi dito e repetido tantas e quantas vezes.

Mas do que se trata, afinal?

Simples: vamos falar de Filosofia. Ah, então talvez aí esteja a chave capaz de desvendar a famigerada pergunta que geração após geração persiste sem resposta, a despeito do assustador progresso da ciência e da tecnologia.

Lamento decepcioná-lo, meu hipotético leitor, mas não é bem assim. Então, pra que serve essa tal de Filosofia: discutir em mesa de botequim? Talvez sim. Pelo menos é o que narra Marc Sautet em seu belíssimo livro Um café para Sócrates, quando o filósofo francês se reuniu, em 1992, no Café de Phares, na praça da Bastilha, com alguns conhecidos para abordarem os acontecimentos presentes, passados, futuros, Filosofia e sabe-se lá mais o que, vindo a dar origem ao “Consultório de Filosofia”, que nada tem a ver diretamente com o Café de Flore, onde, muito antes, Sartre se encontrava com seus pares.

Tal questionamento basilar compele o ser humano a interrogar-se sobre a vida. A vida que nos surpreende quando menos esperamos, é assim mesmo: um eterno paradoxo. Ela, meu hipotético leitor, é hegeliana por excelência — um constante devir, imposto pela natureza para a perpetuação das espécies. A isto chamamos lei nomológica, (müssen, no idioma germânico) ou lei do ter que ser.

Vejam vocês, tão surpreendente é a vida que aqui e agora estou a dar palpites onde não fui chamado a meter o bedelho. É muita irresponsabilidade, convenhamos. Mas está escrito e não tem remédio. Devo prosseguir e ponto. Já estou pronto como a rês a caminho do abate.

Para mim, então, a Filosofia ou mais especificamente o pensamento filosófico é o modo pelo qual podemos entender o mundo e nele nos situar, almejando obter o melhor conhecimento de nós próprios para compreendermos as pessoas e também tudo que nos envolve. Não é para granjear seguidores que a Filosofia se presta, até porque não vai além de uma maneira pessoal, diríamos até personalíssima, de conviver com o mundo cuja face é moldada pelo transcurso do tempo. Ora, isso depende, em última análise, do grau de percepção de cada um. Ocorre em outra linha: a do sentimento, o sentimento do mundo, no dizer de Drummond ou o sentimento do tempo, segundo Ungaretti. Passa-se no território da sensibilidade onde o instinto e a racionalidade se completam para a persecução da verdade.

Trata-se de um problema de ponto de vista: uns veem o mundo em superficialidade, outros em profundidade. Os que enxergam o mundo pela superfície passam ao largo do que se oculta sob as aparências dos outros e do próprio mundo. São os pragmáticos: existem, mas não vivem em plenitude, são incapazes de contemplar um pôr-do-sol, perdem os espetáculos mais valiosos que a vida nos oferece de graça. E principalmente não percebem o que se oculta dentro de si, o estranho que nos coabita, o alter ego, o outro eu, que muitos conceituam como alteridade ou como outridade. É exatamente do ser humano e do mundo onde vivemos que cuida a Filosofia.

O fato de serem pragmáticos, porém, não ilide a capacidade de apreciar a natureza, se se dessem tempo para fazê-lo. Mas têm objetivos mais urgentes a atender e sua atenção se volta para eles.

Por outro lado, não há que confundi-los com os filósofos e doutos do Pragmatismo, corrente de pensamento assim denominada por William James.

Esse não foi o caso dos gregos da Antiguidade, que dispunham de tempo para refletir, quando surgiram os primeiros pensadores chamados físicos, porque physis era o nome dado à natureza. Foram eles os primeiros filósofos que começaram a investigar o mundo à sua volta. Eram os pré-socráticos, como Pitágoras, Heráclito de Éfeso, Parmênides e Tales de Mileto, tido como um dos mais proeminentes filósofos do seu tempo. Com efeito, foi ele quem especulou sobre a origem da natureza e se perguntou como era possível considerar todas as coisas como uma realidade única que se apresentava através de várias formas. Essa indagação foi o salto inaugural, o patamar evolucionário que impulsionou a Filosofia até os dias atuais: a ideia de unidade que nada mais é do que o conceito de essência, pedra de toque do existencialismo, que representa o patamar evolucionário a que se chegou no século XIX com o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard, falecido por volta de 1855, com 42 anos.

A mitologia e a poesia da Magna Grécia constituíram as fontes primárias da imaginação, tão rica em achados. A figura mítica do centauro, metade cavalo, metade humano, nada mais significa senão o que fomos e ainda somos, seres congenitamente divididos entre instinto e razão. Complemento-a, por assim dizer, a poesia — notadamente a Ilíada e a Odisseia — de Homero, o cego que enxergava com a imaginação, abeberou-se naquela fonte cristalina, tão recheada de metáforas.

Com o surgimento da Filosofia liberta das amarras da imaginação, o pensamento voltou-se para o raciocínio lógico, para o exercício da razão.

Estava pronto o cenário histórico da época áurea da Filosofia, iniciada por Sócrates.

Sócrates, segundo a quase unanimidade dos especialistas, foi quem propiciou o desenvolvimento da Filosofia ao voltar seu olhar percuciente para o microcosmo, ou seja, o ser humano, já que os filósofos que o antecederam haviam explorado o universo, isto é, o macrocosmo. Desse modo atingiu-se a completude da Filosofia, abarcando a natureza em sua integralidade. Seu aforismo era: ”conhece-te a ti mesmo”, que até hoje subsiste entre nós e foi grafado no pórtico do templo de Apolo, onde se localizava o Oráculo de Delfos, cuja sacerdotisa o proclamou como o homem mais sábio já conhecido, ao que Sócrates murmurou com humildade: ”Só sei que nada sei”.

Para Sócrates só é sábio quem admite a própria ignorância, o que veio a ecoar, muitos séculos depois, por ninguém menos que Isaac Newton, formulador da lei da gravitação universal, bem como das leis do movimento. Eis o que disse o grande físico e matemático: o que sabemos é uma gota; o que ignoramos é um oceano.

Sócrates utilizava a dialética de modo construtivo, em tom de diálogo — isso consubstanciava a maiêutica socrática, ou seja, o parto das ideias. Consistia a maiêutica em uma sucessão de indagações que o filósofo fazia a seus discípulos, inclusive Platão, até chegar ao cerne das questões, isto é, até que se chegasse à verdade relativa de cada resposta. O grande pensador ensinava como alcançar, por meio da lógica, o significante que se oculta por trás do sentido das palavras, que, para ele não passavam de um meio de busca da verdade, ao contrário de Zenão e dos sofistas que valorizavam as palavras como um fim em si mesmas.

A morte de Sócrates, aos 70 anos (399 a.C.), condenado a beber cicuta, ocorreu por força da acusação de corromper a juventude ateniense com suas críticas a respeito dos privilégios da aristocracia grega em detrimento da plebe. Além do mais, renegava os deuses do Olimpo, pois acreditava num Ser Supremo desconhecido, talvez uma Inteligência Ordenadora do Universo. Sócrates era monoteísta, opondo-se ao politeísmo vigente na Grécia da Antiguidade.

Ressalta Will Durant, em sua História da filosofia, que Platão nos Diálogos (Críton e Fédon), produziu uma das páginas mais belas e comoventes da literatura universal, ao fazer a Apologia de Sócrates.

Platão, por seu turno, tornou-se mestre de Aristóteles, terceiro pilar do arcabouço que originou a Filosofia atual.

Em seu Corpus Aristotelicum, criou a Metafísica, que vem a ser algo “Depois da Física”, privilegiando o pensamento abstrato. O Estagirita, como também era conhecido, foi mestre de Alexandre, o Grande, que ampliou seu poder conquistando várias nações. Sempre foi grato a Aristóteles, ordenando que enviassem a Atenas animais e vegetais das terras distantes que agregava ao seu império, vale dizer, todo o mundo conhecido: a Grécia então unificada fazia parte da Macedônia.

Nenhum dos discípulos aristotélicos destacou-se como seu sucessor. Abriu-se então um hiato na Filosofia Ocidental até que surgissem novos filósofos que pudessem preencher o vazio deixado com sua morte.

Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
4/8/2018 às 17h52

 
PATÉTICA

Mais do que nada

Menos do que nada

Tudo e nada

Tudo é nada

O que se soma

e o que se subtrai

a vida traz

a vida tira

a vida trai

 

Eis que o passado

se passou num átimo

a quem atônito

viu nascerem os dias

para morrerem nas noites

ardendo queimando

anos a fio

até o fim do pavio

 

Não obstante seguimos

atravessando os caminhos

entre os amores e dores

entre desejos e sonhos

tropeços sustos recomeços

dramas mortes de permeio

 

Que belo quadro compõe-se

na manhã primaveril

que Cronos come aos pedaços

com seus dentes de esmeril

 

O aceno ao longe do cais

as formas se desfazendo

as cores esmaecendo

a densa névoa escondendo

o adeus de cada partida

o vento contra levando

todas as vozes amigas

 

Mirando a vida é o que vejo

no exílio de um quinto andar

Vejo um renascer do quadro

cor a cor traço por traço

em arte de imitação

um quadro que se repete

sem qualquer renovação

 

E a mecânica celeste

joga os dados da ilusão...

 

...e tudo afinal é nada

aquém ou além do nada

nem mais nem menos que nada

a quem se afoga no agora

na aridez dessas horas

como um náufrago sem mar

Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
2/6/2018 às 15h22

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