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Sábado, 1/8/2020
Impressões Digitais
Ayrton Pereira da Silva

 
UMA VISÃO PRAGMÁTICA

Não sou filósofo, sou um homem da planície, ex-advogado por vocação e formação — devo dizê-lo sem laivos de vaidade — e que, por circunstâncias diversas, fiz algumas incursões no território da Filosofia, de um modo superficial. Nada, além disso.

Na vida, sempre imponderável e aleatória, somos apenas peões, as primeiras peças a ser descartadas no tabuleiro do xadrez cósmico que não é senão uma metáfora da Vida contra a Morte, como no filme gótico “O Sétimo Selo”, de Ingmar Bergman, onde um cavaleiro medieval luta até o último fôlego pela sua vida, numa batalha que sabe de antemão perdida.

Qual o cavaleiro medieval, não me resta tanto tempo.

Então, serei breve na abordagem do tema que me propus.

Do ponto de vista pragmático, a meu ver, a vida resume-se, em síntese, a intuições, trocas, escolhas e perdas. Somente.

Intuições revestem-se de caráter polissêmico. Foi graças a elas, que Fleming descobriu a penicilina, num episódio histórico que todos conhecem.

Não fosse seu alto grau de percepção intuitiva, teria jogado fora um material mofado, mas, ao revés, levou-o ao microscópio e descobriu que aonde havia bolor o estafilococo não se desenvolvia, descobrindo então a penicilina, que continua salvando até hoje muitas vidas.

Grande parte das descobertas se deve às intuições, ao empirismo, como no caso da vacina antivariólica.

Já as escolhas, que a vida inteira somos obrigados a fazer, dada a força que as circunstâncias exercem sobre nós, como ressalta Ortega y Gasset, importam, grosso modo, em renúncias. Ao se escolher alguém ou algo, renuncia-se a outrem ou a alguma coisa.

Já as trocas remontam à Roma Antiga, quando o sal era uma mercadoria de inestimável valor, porque muito raro no interior da Europa. Pois bem, essa era a forma de pagamento dos soldados das legiões romanas, donde proveio a palavra soldo. Com o sal compravam-se roupas, alimentos, armas e outras coisas.

A persistência, ao longo dos tempos, da palavra salário, é tanta que até hoje é usada como remuneração em dinheiro, ou seja, a quantia paga ao empregado pelo empregador, pelos serviços a este prestados.

Por derradeiro, falemos agora das perdas, desde as de coisas mais simples até as mais dolorosas e trágicas.

A valoração do sentido da perda, seja por furto, seja por caso fortuito, depende de cada pessoa. Perder-se algo de estimação ou uma coisa comum, quase sempre incomoda, ora mais, ora menos.

Somos todos finitos, bem o sabemos. Mas ninguém se conforma com a morte. É algo que nos contamina e nos envenena aos poucos desde que nos é dado existir e quando começamos a pensar.

Por que, nos perguntamos, o esforço de viver nos exige tanto para depois morrer? Não há resposta plausível. Apenas a falta de sentido de tudo isso.

Não ouso adentrar-me nesta vexata quaestio (perdoem-me o latinório, um velho vício de ofício).

A Filosofia não é uma ciência simples, como abrir uma porta com uma fechadura sem segredo. A Filosofia é multifária e complexa e ao abrir-nos muitos caminhos e descaminhos — sem bússola ou norte magnético, em sentido figurado, obviamente — torna-se fácil nos perdermos.

Esse caráter proteico das buscas e indagações filosóficas decorre necessariamente de sua adaptação à face mutável do tempo, sem o que a Filosofia iria perder o senso de realidade que a lastreia como ciência humana.

Para o bem ou para o mal, gosto de pensar, por tal motivo não vou botar a mão no vespeiro sem ser apicultor.

Divirjo, com o devido respeito, dos filósofos que sustentam que o empirismo e o racionalismo se contrapõem. Para mim, ambos se completam.

Na mitologia grega, por exemplo, a descoberta da figura do centauro num desenho rupestre decorreu de um ato empírico, mas a conclusão de que se tratava do simbolismo de um ser metade animal, metade homem foi fruto do uso da razão. O mesmo sucedeu nos primórdios da Filosofia: foi preciso, antes de tudo, descobrir o que existia em torno do homem pela experiência da observação, ou seja, o empirismo que foi, por assim dizer, o starter que acionou a rodagem da razão para que, a partir daí, a dinâmica filosófica se amoldasse à face do tempo naquele momento histórico do nascimento da Filosofia.

E assim persiste, até os dias de agora, o evolver da Filosofia, como uma ciência em aberto, suscetível de novos achados e descobertas, sem o mínimo intuito de angariar prosélitos, laica que é, por definição.

Isto, porém, não exclui a existência de Deus. Desde os filósofos da Antiguidade, sejam ocidentais ou orientais, sua quase generalidade acreditava na existência de um Ser Supremo, a teor de Sócrates, Platão, Aristóteles e, muito depois, Kierkegaard, que jamais nominou sua obra e vivia às turras com a igreja de seu tempo. Foi o filósofo Gabriel Marcel que batizou, por sua conta e risco, de existencialismo cristão a obra do sábio dinamarquês muito depois de sua morte. Conta-se que foi ele quem preencheu o vazio deixado pela morte de Aristóteles, sem embargo de outros tantos grandes filósofos terem surgido de permeio, como Kant, Hegel, Descartes, citados aqui a título meramente exemplificativo.

Basta dizer-se que a Suma Teológica, de S. Tomás de Aquino, o Doutor Angélico, embasou-se em Aristóteles.

A ideia da inexistência divina ressurgiu num grupo que se reunia no café de Flore, na Rive Gauche, autodenominado de existencialismo humanista, liderado por Sartre, casado com Simone de Beauvoir e por Camus, que se diziam ateus. Esse existencialismo humanista data de meados dos anos 50.

Mas a obsessão de negar sistematicamente a ideia da inexistência divina, a contrario sensu, acaba por transparecer que essa espécie de fixação era a expressão oculta de que existia mesmo um Ser Superior, criador do universo e de todo o infinito, enfim, do macrocosmo, enquanto nós, reles mortais, somos o microcosmo, os que pensamos ser senhores de nós — e não somos.

A espécie humana é regida por duas pulsões: a pulsão animal e a pulsão racional. Só que a primeira quando despertada tem prevalência sobre a outra, daí os erros, as violências, a transgressões que cometemos — e só depois nos damos conta, culpando-nos. É que a pulsão animal age a priori e a racional a posteriori. E aqui voltamos à imagem icônica do centauro, pois a história da vida é cíclica, num ir e vir sem fim.

Enfim, cabe aos filósofos o enorme desafio de desfazer o nó Górdio sem a espada de Alexandre, O Grande...

Ayrton Pereira da Silva

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Postado por Ayrton Pereira da Silva
1/8/2020 às 15h33

 
PASSEIOS PELA PRÉ-HISTÓRIA

Sou do tempo em que helicóptero era chamado de autogiro e avião era aeroplano, nos arredores dos anos 45 do século passado.

Às vezes, noite velha, eu acordava com o som longínquo de um aeroplano flanando nas nuvens, e imaginava ser o Flash Gordon em sua nave futurista, concebida pelo traço genial de Alex Raymond, até que o sono me embalasse de novo para a escuridão do nada.

Os espigões que agora pululam pela minha ex-doce e amorável Nictheroy, chamavam-se, naqueles idos, arranha-céus e se contavam por alguns dedos de uma só mão. As ruas eram povoadas por casas com generosos quintais, onde floriam e frutificavam árvores e flores, com o perdão da redundância aqui empregue com o intuito único de emprestar cores fortes ao cenário recriado pela imaginação.

No mar, as barcas movidas por rodas, como as do velho rio Mississipi de antanho, batizadas como Segunda e Terceira e mais duas outras de cujos nomes não me recordo, levavam cerca de uma hora para atravessar a baía. O mundo de então era regido por outro compasso.

Levado por meu pai para comprar roupas no Pavilhão, sempre de um tamanho maior para serem aproveitadas por mais tempo, eu procurava me esquecer das calças de “fundilhos de coar café” que me aguardavam, olhando pela janela a coreografia alegre dos botos que saltitavam ao lado da embarcação, exibindo-se aos passageiros. Penso que foram eles, esses patuscos dançarinos do mar, os precursores do nado sincronizado dos jogos olímpicos de hoje.

A Praia de Icaraí, de águas límpidas como, de resto, todas as outras, ostentava o trampolim, cartão-postal e orgulho da cidade, de cuja plataforma mais alta só os ousados se aventuravam a saltar, pois, dizia-se, um desses mergulhadores morrera ao bater de cabeça na areia, já que ali o mar não era profundo. O trampolim era uma lenda urbana agora reduzida ao preto e branco das fotografias antigas.

Foi uma era de amabilidade e gentileza, substantivos que caíram em desuso. Na Praia das Flexas (grafada assim mesmo na placa oficial), as pessoas cumprimentavam-se pelos nomes. Em suas águas cristalinas, viam-se cardumes variados, desde os pequenos peixes-agulha aos baiacus, sardinhas, peixes-voadores, arraias-manteiga que descansavam preguiçosamente no fundo, ao alcance de nossos pés, e também algas, estrelas-do-mar e até, de raro em raro, uma tartaruga marinha. Depois das ressacas, com o refluxo da maré pela manhã, eu, meu irmão João José e nossa sobrinha Leda acorríamos à praia para catar conchas e caramujos vazios, que viriam a se tornar os reis, rainhas, damas da corte e cavaleiros de armadura nos nossos enredos infantis.

Recordo-me dos tempos do Colégio Bittencourt Silva, de saudosa evocação, onde cursei a admissão, o ginasial e o científico, segundo a nomenclatura de então. Morando na Rua Pereira Nunes, eu ia caminhando até o colégio, na Rua José Bonifácio, ouvindo pelas janelas abertas das casas o prefixo musical, se não me engano um trecho do concerto de Grieg, que anunciava a radionovela imperdível pelas donas de casa, naqueles idos anteriores à era da televisão.

Alguns professores deixaram lembranças marcantes, como o Serapião “larga o lápis”, o professor Gualberto e sua indefectível “platina da bomba pneumática”, que jamais vimos, o mestre de Inglês, apelidado de “Deixa que eu Chuto”, pelo seu andar arrastando uma perna como se fosse chutar uma bola e finalmente o Diretor e dono do educandário, apelidado de Sinistro, por usar ternos escuros e andar pelos corredores das salas de aula como se pisasse sobre algodão.

Naqueles tempos de vacas magras, era uma aventura o dia em que, depois das aulas, contando os níqueis, podíamos dar uma chegada até a extinta Pastelaria Imbuhy, que exibia, ao fundo, uma réplica da barca homônima, que girava em torno de si mesma, para saborear um delicioso pastel com um copo de caldo de cana moída na hora.

O tempo, irreversível e inclemente, transformou em matéria de memória os dias de nossa adolescência, que este velho de cabelos brancos armazenou no empoeirado sótão da imaginação, entre sonhos, sombras e assombros

Uma das lembranças mais remotas — que me foi repassada em segunda mão — data dos primeiros tempos de nossa chegada a Nictheroy, quando meu pai, ainda atlético, costumava remar numa baleeira do Clube de Regatas Icaraí, indo desde a Itapuca até o Canto do Rio, e retornando, são e salvo, com restante da tripulação, de que também faziam parte o já famoso jurista e tratadista Nelson Hungria, autor do Código Penal de 1940, até hoje em vigor, além do tabelião Gaspar e do futuro desembargador Vieira Ferreira Neto.

Naquela época, nossa cidade era cortada de norte a sul pelos bondes da Cantareira, que transportavam para todos os recantos os ilustres passageiros, assim tratados pelo reclame de um fortificante, à vista de todos, que apregoava em versos: “Veja ilustre passageiro/ o belo tipo faceiro/ que o senhor tem a seu lado,/ e, no entanto, acredite,/ quase morreu de bronquite:/ salvou-o o Rhum Creosotado”. Eram assim, muitos rimados, os comerciais daqueles tempos românticos, quando nosso idioma, a bela Flor do Lácio, era falado corretamente. É curiosa a etimologia da palavra bonde, aliás, intraduzível, inspirada na denominação social dos detentores originários da exploração desse transporte urbano sobre trilhos, a Bond & Share Co. Havia inúmeras linhas para servir os diversos bairros: São Francisco, Canto do Rio, Av. Sete de Setembro, Largo do Moura, Circular, Santa Rosa, Viradouro...

Lembro que, nas manhãs de inverno, quando tomava, pontualmente, às sete e trinta, o bonde que me levava até Icaraí, rumo à escola de D. Carmen Cavalière D’Oro, eu tiritava de frio, pois as cortinas de lona eram insuficientes para barrar a friagem que varria o interior da condução em todas as direções. Às vezes, eu tremia tanto que chegava a bater queixo, apesar da capa Pelerine de casimira que herdara de um irmão mais velho...

Quando me debruço na abstrata janela da memória e aguço o olhar para esses tempos longínquos, revejo as tardes mortiças de domingo, onde a melopeia dolente de um realejo bordava de tristeza ainda maior a paisagem deserta de minha rua.

Tive a ventura de muitas décadas depois, em nossa querida e inditosa Friburgo, mostrar, na companhia de minha esposa Eny, aos nossos filhos Sandra, Júnior e João Paulo, um inesperado e anacrônico realejo, que já supunha de há muito varrido pela vertigem dos anos, manejado por um homem de avançada idade, ostentando um chapéu verde de duende, enquanto um periquito amestrado pinçava com o bico cartõezinhos da sorte para quem não temesse saber o que o futuro lhes reservava.

Ainda mais recentemente, desta feita em Santiago do Chile, na rua onde morava nosso caçula, João Paulo, no elegante bairro de Vitacura, numa tarde de sol domingueiro, surgiu de repente um realejo, para deslumbramento dos filhos de nosso filho e nossos netos Rafael e Emily — em contraponto com minha indiferença, pois já não tinha mais os olhos de criança.

Pode ser que nas incontáveis voltas e reviravoltas das rotações e translações que nosso planeta dá, talvez, quem sabe, venha a ocorrer, por obra e graça de alguma misteriosa conjunção astral, o retorno de um tempo que virou pó. Mas eu duvido.


Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
5/1/2020 às 14h41

 
MEMÓRIA

Dela ficara um retrato.

Um só.

Apenas.

 

E uma saudade

imensa

que dele transbordava.

 

Uma dor-rio

lágrima-mar

oceanotristeza

 

que nascendo juntos

em correnteza

daqueles olhos da foto

 

invadiam o quarto

e desaguavam

nos dois olhos de fora do retrato.



Ayrton Pereira da Silva

in Umbrais

Ed. 7Letras



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
2/10/2019 às 16h58

 
A MECÂNICA CELESTE

Aura dos Anjos estranhou não acordar com o canto do galo Dioscórides que invariavelmente aos primeiros albores da manhã exercia, com pontualidade, o ofício que a natureza lhe dera. Abrindo a janela do quarto, notou que, apesar da hora, a lua continuava boiando, soberana, no alto do céu, absolutamente alheia à tirania dos relógios e às leis da mecânica celeste. Saiu então apressada para o quintal rumo ao galinheiro, onde, empoleirado, o galo dormia a sono solto, a crista caída, as asas recolhidas. Ora essa, murmurou com seus botões, já são oito e vinte e o sol ainda não nasceu! Entregue às suas cismas, quase esbarrou na avó Mariquinhas que, de mortalha arrepanhada, arrancava uns pés de margaridas para fazer seu desjejum. Vó Mariquinhas, que é que a senhora está fazendo aqui? Seu lugar é lá no cemitério, disse a menina. Então, com muita paciência, sua avó explicou que nos dias de Lua Cheia os mortos voltavam ao mundo dos vivos para completar tarefas deixadas em meio, e coisas assim. No seu caso, por exemplo, era urgente trocar a mortalha pela roupa luto fechado dos domingos de plenilúnio, pois deixara de assistir à missa quando fora levada para o Além. Acompanhada pela avó, Aura dos Anjos entrou em casa, acendeu o pavio da lamparina e correu a chamar os pais em seu socorro, mas nem os gritos da menina para que se levantassem; nem os tapinhas que deu nos seus rostos foram suficientes para acordá-los de seu sono de pedra. Deus meu!, exclamou assombrada, eles estão mortos. E desatou num choro convulsivo. Não estão não, tranqüilizou-a avó, quer dizer, estão e não estão. Como assim?, perguntou a neta entre soluços. É que, nos dias de Lua Plena, quando o sol não nasce cedo, os vivos entram em estado de letargia, pois, do contrário, sua convivência com os mortos acabaria por afetar-lhes a razão. Mas você, minha neta, ainda não está preparada para entender dessas coisas. Na igreja, onde as imagens estavam cobertas de roxo, o Monsenhor Rezende, ostentado um solidéu desbotado e a estola puída, ainda retirando aos piparotes uns grãos terra da batina apodrecida, iniciara sua prédica do alto do púlpito, quando a avó entrou no templo, onde um punhado de defuntos atentos assistiam ao ofício. Quando o relógio da torre da igreja ecoou as cinco badaladas da antemanhã do novo dia, o galo Dioscórides, abrindo freneticamente as asas, empinou a crista e soltou seu canto, anunciando o retorno da tirania dos relógios e o restabelecimento das leis da mecânica celeste. Muito esquisito isso! Quando acordei eram oito e vinte da manhã... Será que o tempo está andando pra trás?, perguntou-se a garota. A mãe de Aura dos Anjos acordou estremunhada com o canto do galo e apressou-se no preparo do café da manhã, lamentando a ausência da filha, que sempre a poupava daquela tarefa. Felizmente, pensou, o marido ainda dormia, porque, se levantasse com o café ainda por fazer, desataria num destampatório do tamanho do mundo, acusando a mulher de desmazelo e culpando a filha por ter morrido de nó nas tripas depois de devorar uma jaca inteira com caroço e tudo. Levando a mão à boca para conter um grito de susto, a mãe, que ainda não se habituara a perda filha, deparou-se com o bule fumegante na trempe do fogão de lenha. Depois, firmando-se nas pernas bambas, lembrou com orgulho que a filha era assim mesmo: nunca deixava de fazer o café da manhã. E sua filha mais uma vez preparara o café para a mãe. Para a avó Mariquinhas, católica fervorosa em vida, ou a menina era dotada de poderes desconhecidos ou estava morta mesmo e seu espírito ainda não de desprendera do lugar em que vivera. Conhecia casos assim em que os mortos agiam como se existissem, repetindo a rotina quotidiana, como rezava a tradição oral de seu povo desde tempos imemoriais. Era esse o mistério que dava continuidade ao mistério da vida: um mistério dentro de outro mistério, igual àquelas bonecas russas, as chamadas matrioskas, umas dentro das outras e todas dentro de uma só.

Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
1/6/2019 às 18h01

 
PROCURA-SE

Gratifica-se a quem achar

haveres meus abstratos

que cansei de procurar.

Quem viu por aí, ao acaso,

algumas tardes antigas

quando um menino escutava

um realejo longínquo

que já não se escuta mais?

Quem viu por aí, ao acaso,

um álbum de selos daqueles

de tempos bastante antigos

que transportava um menino

até distantes países

sem se mover do lugar?

Quem viu por aí, ao acaso,

estampas do sabonete Eucalol,

almanaques dos gibis

que coloriam de festa

manhãs de Natal tão modestas?

Quem por acaso sentiu

um aroma de alfazema

um cheiro etéreo e fugaz

de outras eras provindo

de um quarto de três mocinhas

as minhas irmãs meninas

que se foram sem voltar?

Quem entreviu ao acaso

as minhas musas de então,

se elas preferem agora

o exílio da escuridão?

Quem viu por aí, ao acaso,

feito um delírio acordado,

minhas rotas fantasias,

fantasmas rondando a esmo

nos corredores de outrora

da casa paterna morta?

Quem viu acaso um menino

vagando qual peregrino

que esqueceu de envelhecer?...

Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
1/5/2019 às 16h56

 
O NAVEGANTE DO TEMPO

Tomou o bonde circular e embarcou para o século passado. O condutor com a destreza de um malabarista aproximou-se, equilibrando-se no estribo como se já tivesse nascido ali. Balançou para ele a mão direita onde as antigas moedas de níquel chacoalhavam unidas umas às outras, feito soldados numa parada militar, cobrando a passagem.

O passageiro enfiou os dedos no bolso da calça, onde só havia moedas atuais, mas o condutor que o conhecia de há muito disse não haver problema algum. Amanhã o senhor acerta tudo, doutor. E levou a mão direita à pala do quepe de seu uniforme azul-marinho num gesto de deferência.

Está tudo muito estranho neste trajeto, pensou o passageiro, vários são meus contemporâneos, mas voltaram todos ao tempo de criança e nem sequer me reconhecem...

São fantasmas do passado ou estou delirando? Não sabia responder à própria pergunta nem como embarcara naquele veículo elétrico anacrônico, cujos trilhos tinham sido removidos da cidade fazia mais de meio século.

Deteve-se então no exame minucioso do interior do coletivo, onde os longos bancos de ripas de madeira envernizada causaram-lhe a sensação de familiaridade de quem neles se sentara incontáveis vezes. No teto do veículo, os mesmos reclames de antigamente propalavam a excelência dos produtos anunciados, inclusive a propaganda de um famoso elixir cujo nome ele guardara na memória: Rum Creosotado.

Após essa inspeção interna, lançou o olhar para a paisagem urbana que se desenrolava ao longo do percurso como num filme antigo que resgatasse a arquitetura das desaparecidas casas de centro de terreno, com árvores frondosas e flores nos jardins, enquanto o velho bonde sacolejava e rangia na bitola estreita dos trilhos. Comparando-o a uma caravela em mar revolto, chegou a esboçar um arremedo de sorriso ao se considerar uma espécie de navegante do tempo. Nisso, um insólito lampejo de consciência, como se, de repente, emergisse de um sonho, sacudiu-o de cabeça aos pés -- diabos, como vim parar aqui?

Jamais deixamos de fazer este trajeto, doutor, mas só os escolhidos se apercebem disso, pareceu-lhe escutar a voz do motorneiro que, bem distante dele, movia a manivela de direção, concentrado no comando do bonde.

Daqui a duas paradas, vai subir no bonde aquele viúvo, que levava sempre consigo o seu violino para tocar no túmulo da esposa a mesma música, ele se surpreendeu pensando, com uma certeza premonitória, e, ao mesmo tempo, recriminando-se por ter, quando menino, seguido secretamente aquele homem até o cemitério, junto com uma malta de colegas do ginásio, para depois imitarem, entre risos e zombarias, numa mímica grotesca, um recital de violino.

Estava ainda às voltas com esses pensamentos terríveis quando o bonde parou para que o violinista subisse no estribo e se acomodasse no mesmo banco onde se encontrava o passageiro idoso, que, olhando-o de soslaio, surpreendeu-se ao ver que o viúvo não envelhecera como ele, era, sim, o menino de outrora, carregando o estojo do violino para aula de música. É preciso ter calma e ponderação: na verdade esse garoto que vejo é muito mais velho que eu, e pelos meus cálculos o garoto e futuro viúvo já deveria estar debaixo da terra. E esses outros passageiros também permanecem imunes à passagem das décadas, inclusive o condutor e o motorneiro, enquanto ele já velho a tudo assistia através das grossas lentes dos óculos de grau que agora usava como um apêndice indispensável. Engoliu a custo um silêncio amargo - o que fizera outrora, quando adolescente, tinha requintes de uma crueldade inominável. Sentiu-se tremendamente envergonhado. Sim, estava pagando por isso um alto preço. Teve que fazer um esforço sobre-humano para não confidenciar ao menino e futuro viúvo que não se casasse com a mulher que morreria na flor da idade. Não queria passar por maluco e nem poderia imaginar como seria a reação do estudante de violino, agora apenas uma criança. Seria certamente internado num hospício como um louco perigoso e de lá só sairia morto. 

Esse dilema trágico aumentou ainda mais seu sentimento de culpa, quando voltou à realidade absurda do retrocesso no tempo, quem sabe por escapismo ou talvez por um gesto desesperado de autodefesa, como algo que ficaria dentro de si sem resposta alguma, sob a forma de uma eterna interrogação. Matar-se, cometer suicídio? Era covarde demais para isso.

Buscava febrilmente outra solução, algo pragmático, que não iria decerto aplacar suas insônias que viraram uma constante em suas noites, e quando cochilava de pura exaustão era pior ainda, acordava berrando em agonia por causa dos pesadelos persecutórios.

Preciso encontrar, preciso encontrar, está aqui dentro de minha cabeça. Dizem que quem procura, acha, embora haja controvérsias.

Mas ele achou, pois essas coisas acontecem no universo ficcional, se o personagem conseguir impressionar o autor que o criou...

E foi isso que se deu, precedido dos toques de trombetas bíblicas que só o idoso escutou.

Vou consultar urgentemente o oculista, pois essas lentes estão fracas demais. Em seguida, retirou os óculos para limpar as lentes com o lenço, pensando que, além de fracas, estavam completamente embaçadas...

Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
1/4/2019 às 16h38

 
LONDON LONDRES

A aldraba da porta,

o grifo brônzeo.


Ao lado, o Hyde Park:

sombra e assombro.


Entre névoas errantes,

o andar a esmo.


Pelas ruas de Londres,

a mão inglesa


surpreende de súbito:

salto e susto.


Fish and chips

ginger ale, pubs.


A cidade sorri,

dama discreta.


No quarto do hotel,

uma remota lembrança


é déjà-vu

e magia algo estranha


para a menina do quadro

e suas tranças.


O desconcerto chega

e toma conta


dos pobres dísticos

e sua circunstância...


Ortega ri seu riso

onde se encontra


na margem oposta

do Ebro lá de Espanha.


Esquento o chá

e seu aroma eleva


o espírito das flores:

primavera.


Enquanto sorvo

a cálida tisana,


o tempo tece

as teias das aranhas.


Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
1/3/2019 às 09h59

 
MOMENTOS

Hypocrite lecteur, mon semblabe, mon frère

Baudelaire



Não recordo onde nem quando, mas faz muito tempo. Era madrugada e as luzes das casas estavam todas apagadas. Parecia uma cidade fantasma, enquanto eu perambulava pelas ruas desertas, quando me deparei com uma jovem deitada na grama de um jardim público, contemplando as estrelas. Era uma cena insólita. Movido pela curiosidade e vencendo minha habitual timidez, aproximei-me e lhe pedindo licença deitei ao seu lado.

Incomodo você? Não, pode ficar. Guardei, por precaução, uma distância regulamentar, nem muito longe nem muito perto.

Você é formada em astronomia? Não, não sou. E ela parou por aí. Acho que chutei uma bola fora, pensei, mas fui compelido a não deixar a conversa morrer. Então o que você é?

Sou astróloga, pela conjunção dos astros e estrelas posso prever certos eventos, mas nem todos. A ideia de conjunções astrais me pareceu conter um toque erótico, embora fosse só uma suposição, talvez por causa de seu hálito envolvente, que me tonteava. A essa altura comecei a duvidar de minha sanidade mental. O que será que tá bulindo comigo, perguntei-me em pensamento. Era de fato muito estranho, como se algo surreal se intercalasse com a realidade e eu estivesse flutuando a esmo entre a verdade e a mentira dos sentidos. Então a moça indagou se não queria ler nos astros meu futuro.

Já sei qual é, querida: um dia qualquer vou morrer, viu?

Não me referi à morte, seu bobo, mas aos detalhes da vida. Estes é que valem! Um longo silêncio, denso, palpável desceu sobre nós. Bem, já que você não quer saber, vou tomar a iniciativa.

Me puxou pelas mãos e então levantamos juntos, nossos lábios quase se tocando... Sei que você aí, meu presumível leitor, está se babando de curiosidade para saber o que irá acontecer. Eu também. Mas isso é o futuro próximo e distante, e não seremos nós que iremos vivê-lo. Somente aqueles dois. Não eu e nem você. Nós viveremos cada qual o nosso futuro (se vivermos até lá).

Em suma: a eles o que é deles, a nós o que é nosso. Chato, não é? Mais que isso: frustrante. Mas assim funciona a dinâmica da vida, sempre imprevisível, desconcertante.

E ponto final.

Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
3/2/2019 às 16h47

 
ARCHITECTURA

Talvez por gosto talvez por teimosia

ergui neste deserto a moradia


Na casa um girassol alucinado

revive em flor delírios do passado


Neste porão oculta-se em degredo

uma finada infância com seus medos


Ali repousam agora as velhas musas

na tessitura dos véus que encobrem as rugas


Numa xícara de arte em porcelana

me fitam gueixas de longas pestanas


E na janela aberta para a rua

vejo São Jorge e seu dragão na lua


De tinta e de papel minha morada

ora aparece e logo se apaga


Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
1/12/2018 às 10h41

 
O INVISÍVEL

Olhou-se no espelho e perguntou ao reflexo de seu rosto: este sou eu?

Era a pergunta que se dirigia todos os dias em que se confrontava com a própria imagem, à qual já deveria ter-se familiarizado. Mas era uma rotina imutável.

Inundou-o novamente aquela sensação de estranheza e desolação, enquanto um gato mestiço de angorá o contemplava fixamente com seu olhar hipnótico. Fora pilhado em flagrante certa manhã na cozinha, bebendo furtivamente o resto de leite que ficara na xícara e, sem mais explicações, como é da índole dos gatos, passou a voltar sempre para tomar o leite que, a partir de então, era deixado de propósito na mesa ainda por ser tirada. E assim o bichano foi ficando, embora o dono da xícara soubesse que os felinos não gostam das pessoas, apenas das casas. Mas não havia nenhum mal nisso, ele faria jus à hospedagem caçando os ratos e baratas que já dividiam a velha casa com o dono.

Não tinha coragem de desfazer-se dela, metade talvez por sentimentalismo e metade certamente por comodismo; daria muito trabalho e aborrecimento mostrar as velhas entranhas da habitação a desconhecidos e ainda por cima ter de procurar outro teto para morar. Já passara do tempo para essas coisas. Além do mais, isso lhe soava como uma profanação.

O que ele não sabia é que estava em curso um longo e silencioso processo de desconstrução.

Ignorava a idade do gato, pois gatos não têm certidão de nascimento, ou se teria nome, os gatos não são batizados e por isso mesmo só têm apelido, aí passou a chamá-lo de Senhor X, outras vezes de bichano ou de um sinônimo qualquer, felino, vira-lata, o que lhe viesse à boca.

Sabia, porém, que o gato era eterno, como de resto todos os irracionais, até que lhes chegasse a percepção instintiva da proximidade física do fim. Os gatos não têm metafísica, concluiu pensando num dos célebres poemas de Fernando Pessoa. Talvez essa fosse a secreta razão de sua inveja, um sentimento algo torpe que às vezes o fazia tratar mal o felino, correndo com ele do sofá, recriminando-lhe a indolência, chamando-o de parasita. Irritava-o ainda mais o distanciamento olímpico do felino, que o fixava impassível, na hora das zangas e admoestações, com aquelas pupilas pontuadas com duas vírgulas. Então explodia de cólera: ponha-se daqui pra fora, bicho sem-vergonha! E o gato saltava a janela com uma elegância heráldica que lhe aumentava a inveja.

Uma noite sonhou que era um cão maltratado por um homem truculento, e acordou em meio a um grito de pavor. Depois disso, passou a tratar o gato somente de Senhor X e deixou de brigar com ele. Do ponto de vista do gato, entretanto, nada parecia ter mudado, pois continuou do mesmo jeito distante e nem sequer se dava ao trabalho de roçar nas suas pernas, muito embora já pudesse, agora, refestelar sua sonolenta preguiça no sofá, sem interrupções indesejadas. E sem as fugas elásticas pela janela, o que, em contrapartida, proporcionou ao dono da casa uma trégua com a própria inveja.

Sempre fora um homem de ação, bem-posto na vida, respeitado pelos colegas, amigo de seus amigos. Vivia só e só continuava. Antes, não havia tempo para deter-se no assunto, o fluxo do dia a dia transcorria como desejava: trabalho, diversões, amores. Desfilava com belas damas nos restaurantes de luxo, antes de levá-las para o motel. O sexo pelo sexo. Nada dos aborrecimentos diurnos e diuturnos de que queixavam alguns de seus colegas, às voltas com o inesgotável desgaste gerado pela convivência sob o mesmo teto. Era bem outra a sua visão da vida.

Quando soou a hora da aposentadoria, correu mundo, Nova Iorque, Paris, Londres, Roma, Veneza, Florença... Ao retornar da longa viagem pelo exterior, deparou-se com sua caixa de correspondência abarrotada de envelopes: faturas já pagas pelo débito automático, convites para lançamentos, propagandas comerciais e...um aviso fúnebre. Morrera um ex-colega de profissão que nunca lhe fora próximo, mas a notícia atingiu-o como um soco no estômago. Por coincidência, tinha a mesma idade do falecido, como verificou pelas datas que encimavam o texto.

Ao achegar-se à janela em busca de ar, viu que o jardim da casa estava em petição de miséria, era preciso chamar urgentemente o jardineiro. Estava quase recolocando o fone no gancho quando a voz rouca e cansada de uma senhora nem bem atendeu ao chamado, ele foi logo disparando: quero falar com o seu Joaquim; ele está? A voz lhe disse que o jardineiro passara mal, a boca meio torta, um vizinho o levara para o hospital. Ele está na enfermaria e lá, o senhor sabe, só é permitida visita aos domingos, por isso é difícil saber como meu marido está passando agora. Que bela merda, ele exclamou. O que foi que o senhor falou? Nada, minha senhora, não falei nada! E bateu o telefone, mal-humorado.

Banho tomado, decidiu jantar fora para sacudir do corpo a poeira de estrelas, como costumava referir-se ao pós-viagem aérea. Stardust, pensou, aquela belíssima canção norte-americana do tempo em que a música popular ainda era uma arte.

Jantou só. Não havia sequer uma pessoa conhecida no restaurante, a não ser o Ambrósio, o garçom que habitualmente o atendia. O que vai ser hoje, doutor, o vinho seco de sempre, antes da escolha do cardápio? Teve ímpetos de responder rispidamente ao garçom. Se você sabe, por que pergunta? Mas calou-se. Seu retorno ao solo pátrio não fora dos melhores. Afinal, o Ambrósio o servia há mais ou menos vinte anos, e aquela pergunta fazia parte do cerimonial de vassalagem que todo súdito tem de prestar ao senhorio.

Com o passar dos meses, as horas se tornaram cada vez mais lentas e os dias e noites mais longos. Sua correspondência minguara, o telefone pouco tocava. É verdade que tentara, quase a contragosto, contatar uns antigos colegas mais próximos, mas a tentativa de aproximação fora um encontro com fantasmas arrastando velhas recordações às quais estavam acorrentados.

Passou a frequentar as salas de espetáculo, teatro, música, cinema, mas o efeito reanimador desejado saiu-lhe às avessas. Não havia peças teatrais ou recitais aceitáveis, e os filmes, então, só violências de todo o gênero, numa sucessão alucinatória de cenas atropelando-se umas nas outras, artificialmente magnificadas pelos chamados efeitos especiais, que ele preferiu batizar de defeitos especiais. Era essa a arte pós-moderna? Lembrou-se do velho Bruxo do Cosme Velho ao parafraseá-lo para si mesmo: mudara o mundo ou mudei eu?

O jardineiro sumira sem deixar rastro. Ligou-lhe diversas vezes, mas a linha fora cortada. O jardim enquanto isso ia assumindo os ares de floresta urbana e ele desistiu de contratar alguém para podar os excessos daquela flora selvagem ao notar que o Senhor X dela fizera seu campo de caça. Por outro lado, não havia como negar a existência de certa beleza no modo como aquela botânica incivilizada rebentava em flores e perfumes, atraindo espécies de pássaros nunca antes vistos por lá. Era a estética do caos.

O mundo lá fora crescera demais, a cidade inchara movimentada pela força das novas gerações. Tragados por esse turbilhão, foram desaparecendo os vestígios de seu tempo. Foi aí, sem mais nem meio mais, que certa manhã sentiu-se atingido por uma centelha de clarividência: sua geração perdera a identidade, em franco processo de extinção.

Raros eram os contemporâneos que avistava em público, nas suas escassas idas ao centro da cidade e, quando isso acontecia, a visão não era das mãos alentadoras, uns arrastando-se com apoio na bengala, outros encurvados como se carregassem uma invisível saca de cimento no lombo e ainda os que eram levados por parentes ou cuidadores, segurando-os pelo braço. Uma catástrofe.

Ninguém mais o conhecia no bairro ou na cidade. Tornara-se invisível. Não cabia mais no novo cenário e sentia-se na pele de um ator num palco giratório, onde tivesse entrado, representando um papel destoante da trama que os outros representavam. A sua fala mostrava-se totalmente descontextualizada, como num script shakespeariano encenado num picadeiro de circo mambembe.

Procurou então refugiar-se na leitura dos livros que acumulara durante toda a sua vida, mas estes já não o atraíam. Calaram-se os “mestres mudos”, filosofou com amarga ironia.

Passava as horas em meio ao deserto de si mesmo. Sua invisibilidade atingira o limite máximo – sua biografia apagara-se. Nada mais restara dele mesmo, não plantara uma árvore, não escrevera um livro, não deixara descendência.

Em seu exílio, confinou-se dentro de sua morada em estado ruinoso,, permitindo-se quando muito algumas caminhadas em círculos pelo jardim selvagem. Foi exatamente num desses périplos que se deparou com uma gata amamentando os filhotes que pela cor da pelagem deviam ser fruto das aventuras do Senhor X, que a distância parecia observar a cena com aquele olhar enigmático de sempre.

Serão meus afilhados, Senhor X, a minha exótica descendência rabuda e quadrúpede, disse para o gato, que nem sequer parecia notar a sua presença, enquanto lambia indolentemente as patas dianteiras, cumprindo à risca o ritual higiênico dos gatos.

Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
1/11/2018 às 16h51

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